«Vais viver sem mim, talvez ganhes juízo», histérico, disse o meu marido ao ir para a casa da mãe.

Eu ganhei juízo.

Quando ele voltou.

— Vais viver sem mim, talvez ganhes juízo! — Anton atirou teatralmente uma pilha de meias para dentro da mala de ginásio.

Uma meia, enrolada como um caracol, rolou tristemente pelo soalho.

— Eu sou tudo para esta família, e tu… tu nem queres fazer um crédito para a Lerka!

Isto, por sinal, é para o crescimento do negócio.

Eu olhava para o meu marido como um médico olha para uma ressonância magnética interessante, mas sem esperança.

Calmamente, com um leve interesse profissional.

— Anton, crescimento de negócio é quando existe um plano de negócios, não quando a tua irmã quer comprar o último modelo de iPhone para fotografar as unhas que ela lixa na cozinha — dei um gole no café.

— E sim, apanha a meia.

Sair deve ser com classe, não deixando peças do guarda-roupa pelo caminho.

O meu marido ficou vermelho de raiva.

A sua tática preferida, “educação pelo silêncio”, falhou, e ele passou para o plano “B”: a saída histérica.

— Então vive aqui sozinha!

Com essa tua… — ele acenou na direção do quarto da minha filha.

— Vamos ver como vocês vão uivar sem homem ao fim de uma semana.

Eu volto quando pedires desculpa.

E liga à mãe, vais explicar-lhe porque é que o filho dela é obrigado a dormir na casa dos pais!

A porta bateu com tanta força que um volume de Tchékhov caiu da prateleira.

Simbólico.

Três semanas passaram num estranho, assustador… bem-estar.

Descobriu-se que, sem “homem” em casa:

Os alimentos não desaparecem do frigorífico durante a noite.

A tampa da sanita está sempre baixada.

O meu nível de cortisol (a hormona do stress, que, aliás, quando cronicamente elevado destrói proteínas nos músculos e aumenta o açúcar no sangue) desceu para o normal.

Eu e a Alina, a minha filha de dez anos, pela primeira vez em dois anos jantávamos tranquilas, discutindo não os problemas da minha sogra nem a genialidade do Anton, mas a estrutura do paramécio.

— Mãe, o tio Anton foi embora para sempre? — perguntou baixinho a Alina, enrolando esparguete no garfo.

— Não sei, querida.

Mas ficou mais fácil respirar, não ficou?

— Sim.

E ninguém rouba os iogurtes.

Mas a harmonia não podia durar para sempre.

O prazo do “castigo” terminou no sábado de manhã.

Tocaram à campainha.

De forma insistente, exigente, como se do outro lado não estivesse uma pessoa, mas uma equipa de choque.

Olhei pelo olho da porta.

Ah, elenco completo.

Anton (com cara de mártir), Galina Sergeevna (com cara de procuradora) e Lera (com cara de quem acha que todos lhe devem).

Abri.

— Então, já passeaste o suficiente? — anunciou a sogra logo à entrada, avançando para o hall como o quebra-gelos “Lenin” pelos gelos do Ártico.

— O meu Antósha emagreceu todo com a minha comida, ele tem gastrite!

E tu aqui, aposto, a fartar-te?

— Bom dia, Galina Sergeevna.

A gastrite do Anton vem do amor por comida picante e frita, não de saudades — encostei-me ao batente, impedindo-os de avançar além do corredor.

— E vocês, afinal, a que devo a visita?

Não os convido para chá: este mês já esgotei o meu limite de toxicidade.

Anton, sem tirar os sapatos, tentou esgueirar-se para a cozinha:

— Marin, para de fazer fita.

Eu perdoei-te.

Anda, põe a mesa, a mãe trouxe пирожки.

De couve.

E, já agora, a Lera precisa mesmo do dinheiro.

Nós decidimos que o crédito vais fazer tu, e quem paga somos nós.

A meias.

Depois.

Talvez.

A Lera, a mastigar pastilha, concordou:

— Sim, Marin, tu estás numa clínica privada, o salário é declarado, é grande.

Vais dizer que te custa?

Eu devolvo com os primeiros clientes.

Vou ter fila, como no mausoléu.

Aí foi que eu me diverti a sério.

— Assim, calma — levantei a mão.

— Vamos desmontar este fluxo de consciência por pontos.

Galina Sergeevna encheu o peito de ar para despejar uma tirada sobre o destino feminino:

— Tu, menina, não sejas sabichona!

A esposa tem de ser o pescoço, para onde a cabeça virar…

Família é quando tudo é de todos!

E tu contas tostões!

Tens um marido de ouro e não o valorizas.

No nosso tempo as mulheres pariam no campo e lavavam os pés aos homens!

— Galina Sergeevna — interrompi-a num tom suave, mas de aço.

— Segundo registos históricos, a mortalidade no parto no campo rondava os 30%, e lavar pés devia-se à falta de água canalizada, não a qualquer sentido sagrado.

Vivemos no século XXI, onde a escravatura foi abolida, mas a hipoteca não.

E já que falamos de hipoteca.

O apartamento é meu, comprado antes do casamento.

O Anton aqui só está registado temporariamente.

A sogra engasgou-se com o ar, a cara ficou manchada, a boca abria e fechava sem som.

Parecia uma carpa atirada para a margem a tentar compreender o conceito de “terra”.

— Não me esmagues com factos! — guinchou a Lera.

— Tu és só forreta!

Nós viemos falar contigo como gente, e tu…

O Anton, aliás, está stressado!

Por tua causa quase perdeu o emprego!

— Lera — voltei o olhar para a cunhada.

— O trabalho de gestor de vendas exige competências de comunicação.

Se o Anton vende materiais de construção como vocês agora tentam “vender-me” a ideia de eu fazer um crédito em vosso nome, surpreende-me que ele ainda não tenha sido despedido.

E, já agora, “parasita” é um termo biológico: um organismo que vive à custa do hospedeiro.

No mundo financeiro chama-se “mantenida”, mas para isso é preciso ter pelo menos algum charme, e não apenas descaramento.

A Lera deu um solavanco, bateu com o cotovelo no cabide, e o casaco do Anton caiu-lhe em cima.

Ela enrolou-se nas mangas e quase caiu.

Naquele instante parecia uma traça bêbeda, enrolada numa meia de lã.

O Anton, por fim, percebeu que o regresso triunfal não estava a resultar.

Decidiu ligar o modo “dono”:

— Chega!

Eu sou o marido ou não?

Eu voltei, portanto vai ser tudo como antes.

Alinka! — gritou em direção ao quarto.

— Traz água, a garganta do pai secou!

Do quarto saiu a Alina.

Nas mãos trazia um livro grosso, “Física Divertida”.

Ajustou os óculos e olhou para o Anton por cima da armação.

— Alina, traz água! — rosnou o Anton.

— E, já agora, porque é que o corredor está sujo?

A tua mãe relaxou demais, foi?

Eu já ia abrir a boca para os pôr na rua, mas a Alina antecipou-se.

— Tio Anton — disse ela com a sua voz baixa e calma de aluna exemplar.

— Segundo a terceira lei de Newton, a força de ação é igual à força de reação.

O senhor esteve ausente durante três semanas, não investiu recursos no ecossistema do apartamento; logo, o seu estatuto aqui foi anulado.

Pode tirar água da torneira.

E o que o senhor chama “sujeira” são as minhas sapatilhas, porque acabei de chegar da olimpíada de matemática.

O Anton ficou imóvel.

— Tu… tu como é que falas com o teu pai?

— O senhor não é meu pai — respondeu a minha filha, igualmente tranquila.

— O senhor é um fator que aumenta a entropia na nossa casa.

— Que disparates são esses? — sibilou a Galina Sergeevna.

— Que entropia?

Drogada, é?

— Entropia é uma medida de caos, avó — sorriu a Alina.

— E agora vocês estão a aumentá-la até valores críticos.

Mãe, vou resolver problemas, é mais interessante do que isto.

A Alina foi-se embora, fechando a porta com cuidado.

Instalou-se o silêncio.

Aquele silêncio não a zumbir, mas denso, como um cobertor de algodão.

— Então é assim — escancarei a porta de entrada.

— O espetáculo acabou.

Anton, as tuas coisas eu juntei-as há duas semanas.

Estão no patamar, em sacos do lixo.

Desculpa, mas a mala é minha.

Troquei as fechaduras anteontem.

— Não tens esse direito! — guinchou o Anton.

— Isto foi adquirido em comum!

— Artigo 36 do Código da Família da Federação Russa — respondi, de forma cortante.

— O património pertencente a cada cônjuge antes do casamento é sua propriedade.

Em comum só juntámos a tua gastrite e o meu eczema nervoso.

O eczema fica comigo, leva tu a gastrite.

Empurrei o Anton, atónito, para o patamar.

A Galina Sergeevna e a Lera saíram atrás, por inércia.

— Vais arrepender-te! — gritava a sogra enquanto eu fechava a porta.

— Quem é que te vai querer com “penduricalho” aos 35 anos?!

— Solidão não é quando não há ninguém ao lado, Galina Sergeevna — disse eu pela fresta.

— É quando há alguém ao lado que te faz sentir sozinha.

E eu agora estou ótima.

Fechei a porta com estrondo e rodei a chave.

Duas voltas.

Clic-clic.

O som mais agradável do mundo.

Do outro lado ainda resmungavam, davam pontapés na porta, mas isso já parecia o som da televisão dos vizinhos surdos: irrita, mas não impede de viver.

Fui para a cozinha.

A Alina estava sentada à mesa a comer uma maçã.

— Foram-se embora? — perguntou ela.

— Foram.

— Para sempre?

— Acho que sim.

Agora vamos ter de comprar os alimentos nós mesmas, em vez de esperar que o tio Anton se digne a separar três mil do salário — pisquei-lhe o olho.

A Alina deu uma dentada na maçã, mastigou e disse, pensativa, a frase que pôs tudo definitivamente no lugar:

— Sabes, mãe, sem eles parece que há mais ar no apartamento.

Como se finalmente tivessem levado o caixote do lixo que esteve a cheirar mal durante três anos, e nós achávamos que era um ambientador.