— Em casa, verifique a prateleira de cima do armário do seu marido.

Ele está te enganando.

— sussurrou para mim a cigana a quem eu paguei a passagem na lotação.

A lotação sacudia o tempo todo nas lombadas e buracos da Avenida Leningrádski, e eu já me arrependi de não ter gasto com um táxi.

Dentro do veículo havia um cheiro forte de mistura de gases de escapamento, aromatizador barato e suor humano.

O motorista resmungava alguma coisa para si, xingando de vez em quando os outros no trânsito.

— Pare depois do semáforo, — pediu uma cigana idosa sentada do outro lado do corredor, à minha frente.

A voz dela soou surpreendentemente suave no meio de todo aquele barulho.

— Noventa rublos, — rosnou o motorista, sem se virar.

A mulher começou a revirar uma bolsa surrada, tirando moedas.

Ela passava os copeques de uma mão para a outra, confusa, mas pelo visto não tinha a quantia certa.

Os passageiros suspiravam com impaciência, e atrás já buzinavam táxis, exigindo que liberassem o ponto.

— Deixa que eu pago, — disse eu, estendendo o dinheiro ao motorista.

— Por mim e por ela.

A cigana se virou para mim.

Os olhos dela eram surpreendentemente jovens, escuros, quase pretos, com um brilho especial.

— Obrigada, minha filha.

Que Deus te proteja.

— disse ela, levantando-se do banco.

— E cuide de você também.

Em casa, verifique a prateleira de cima do armário do seu marido.

Eu ri.

— Claro, como poderia faltar isso.

A previsão clássica em agradecimento pela passagem.

A mulher não reagiu nem um pouco à minha ironia e, ao descer, ainda se virou.

— Verifique, minha filha.

E não se esqueça de que a verdade é sempre melhor do que uma mentira bonita.

A lotação arrancou e eu logo esqueci aquele episódio, focando no celular.

Ainda faltava meia hora até chegar em casa, então decidi não perder tempo e responder às mensagens acumuladas.

Anton tinha me mandado uma foto do almoço dele em algum sushi bar.

“A reunião se estendeu, mas penso em você sem parar.

Estou com saudade.”

— ele escreveu embaixo da foto.

Eu sorri e respondi.

“Eu já comprei os ingredientes para o seu bolo favorito.

Então em casa te espera uma surpresa doce.”

Meu marido respondeu na hora com um emoji de coraçãozinhos.

Meu marido sempre foi muito atencioso, até nos detalhes.

A gente estava junto havia quatro anos, mas ele ainda me mandava fotos da comida quando almoçava sem mim, contava como tinha sido o dia dele, perguntava dos meus planos.

As minhas amigas tinham inveja.

Diziam que os maridos delas, depois de um ano morando juntos, viraram caseiros calados.

Comigo era diferente.

O trabalho numa empresa de TI, claro, esgotava meu marido, especialmente agora, quando estavam preparando intensamente o lançamento de um novo projeto.

Anton chegava em casa cansado, mas mesmo assim encontrava forças para perguntar como iam as coisas na escola e me ajudar a corrigir cadernos, se fossem muitos.

E nos fins de semana a gente sempre saía junto para algum lugar.

Teatro, exposição, ou simplesmente caminhar pela cidade, como estudantes apaixonados.

“Quem sabe no sábado a gente vá até seus pais?

— escrevi eu.

— A mamãe ligou, está com saudade.”

A resposta veio rápido.

“Claro, meu sol.

Passamos no ‘Pyatióročka’ e compramos alguma coisa gostosa.”

Em casa, eu tirei os ingredientes para fazer Napoleão.

Anton tinha dito recentemente que queria muito um doce caseiro, como aqueles que a avó dele fazia.

Eu pedi a receita à minha sogra e decidi tentar assar o bolo.

A massa ficou temperamental, mas eu dei conta.

As camadas já estavam esfriando na mesa, e o creme descansava na geladeira.

Por volta das dez chegou uma mensagem.

“Amor, me afoguei no trabalho.

Chego em uma hora e meia, no máximo.

Amanhã faço café da manhã na cama como pedido de desculpas.”

Eu respondi.

“Estou te esperando com o nosso bolo.

Ficou quase como o da sua avó, só que sem a uva-passa.”

“A sua uva-passa é você.”

— veio a resposta na hora.

Eu, sorrindo, balancei a cabeça.

Mesmo cansado e atolado de trabalho, meu marido conseguia ser romântico.

Adormecendo numa cama vazia, de repente eu me lembrei das palavras da cigana.

“Verifique a prateleira de cima do armário do seu marido.”

Besteira, claro.

O que poderia ter lá?

Suéteres velhos que ele não usa, caixas com fios e carregadores.

Anton nunca jogava fora nada de tecnologia.

Mas por que ela falou com tanta certeza sobre a verdade e a mentira bonita?

E aquele olhar…

Como se ela realmente soubesse de alguma coisa.

Embora…

Eu acordei com o som das chaves na fechadura.

Anton chegou ainda mais tarde do que tinha prometido.

Já era meia-noite e meia.

Eu fingi estar dormindo, ouvindo ele tirar os sapatos silenciosamente no corredor e tentando não fazer barulho.

Depois meu marido espiou o quarto, se aproximou e me deu um beijo suave na testa.

— Dorme, meu sol, — sussurrou ele.

— Amanhã a gente conversa.

Eu sorri no travesseiro.

Era por isso que eu o amava: mesmo morto de cansaço, ele encontrava forças para ser carinhoso.

De manhã, Anton realmente fez o café da manhã.

Panquecas com творог, suco de laranja espremido na hora e café… exatamente do jeito que eu gosto, não muito forte.

Sentada na cozinha, com meu pijama favorito de gatinhos, eu observava ele se mexer ao fogão só de cueca, despenteado e engraçado.

— Desculpa por ontem à noite, — disse ele, colocando o prato na minha frente.

— Esse projeto está devorando meu cérebro.

Mas a apresentação já é logo, logo, e aí tudo vai se acertar.

— Não tem problema, — respondi eu, passando sour cream na panqueca.

— Pelo menos eu consegui assar o bolo.

Quer provar?

Os olhos dele brilharam como os de uma criança.

A gente cortou um pedaço para cada um, e Anton gemeu teatralmente de prazer.

— Lena, você é uma feiticeira.

Isso está até melhor do que o da minha avó, juro.

Eu me senti o garotinho mais feliz do mundo.

Mmm.

— Bajulador.

— eu ri.

Mas, depois dessa frase, por trás da leveza apareceu aquele peso conhecido.

Passou mais um mês, e de novo nada.

Eu já nem comprava testes: para quê, se o resultado era sempre o mesmo?

— Como é bom quando não existe concorrência e toda a atenção fica para você, e não para algum egoistinha!

— Anton de repente caiu na risada.

— A nossa vida está tão boa agora.

A gente pode viajar, crescer, dedicar tempo um ao outro.

Maravilhoso, né?

Eu assenti, tentando esconder a fisgada de dor no peito.

A gente estava casado havia quatro anos.

O assunto filhos aparecia cada vez mais entre nós.

No começo ele dizia: “vamos esperar até a gente se firmar”.

Depois: “até resolvermos a questão do apartamento”.

Agora surgiu uma nova formulação.

— Claro, — eu disse.

— Tudo tem seu tempo.

E por dentro tudo se apertava.

Eu já tinha vinte e oito anos, e o relógio biológico fazia tique-taque cada vez mais alto.

Na escola onde eu trabalhava, eu via crianças o tempo todo e, a cada vez, pensava como seria o nosso bebê.

Os olhos escuros do meu marido, o meu temperamento teimoso…

— Isso, boa menina, — meu marido me abraçou pelos ombros.

— A gente é feliz assim também, não é?

Por que mudar alguma coisa?

Ele estava com pressa para o trabalho.

No sábado eles tinham uma chamada importante com clientes da Alemanha.

Eu acompanhei meu marido até a porta, e ele me beijou forte para se despedir.

— À noite eu vou me liberar mais cedo.

A gente fica em casa, conversa.

Estou com saudade das nossas conversas.

A faxina geral de sábado era uma tradição de família, mas hoje Anton estava ocupado, então eu tive que fazer tudo sozinha.

Eu passei aspirador, lavei o chão, lavei a roupa acumulada.

Mas na minha cabeça os pensamentos sobre um filho não se acalmavam.

Nós dois tínhamos feito exames numa clínica seis meses antes.

Comigo estava tudo bem, com ele também.

“Às vezes acontece.

Não precisa entrar em pânico.

— disse o médico.

— Estresse, cansaço, mil fatores.

Relaxem, e vai dar tudo certo.”

Fácil falar… relaxem.

Quando todo mês você espera um milagre e recebe só decepção.

As lágrimas vieram aos meus olhos, mas eu me controlei e fui para o quarto.

Enquanto eu tirava o pó, de repente me lembrei das palavras da cigana.

“Verifique a prateleira de cima do armário do seu marido.”

Ontem isso me pareceu uma completa bobagem, mas hoje… não sei.

Talvez por falta do que fazer, talvez por tristeza por causa dos filhos, eu decidi olhar.

A prateleira de cima era alta, eu tive que subir numa cadeira.

Lá havia suéteres velhos, caixas com fios, gorros de inverno.

Eu mexia nas coisas sem muito entusiasmo, só para me distrair dos pensamentos obsessivos sobre maternidade.

E, de repente, meus dedos encontraram algo pequeno, escondido atrás de uma pilha de camisetas.

Um frasquinho com conta-gotas e um pedaço de papel.

Eu desdobrei e congelei.

Minha mão tremia enquanto eu lia o texto escrito à mão, numa letra caprichada de Anton.

“Esquema de uso: 3–4 gotas no café da manhã, todos os dias.

Não pular.

Dá amargor, mas o sabor é encoberto pelo leite.

Age de forma suave, o organismo não vai perceber.

Proteção cem por cento contra gravidez.”

Eu reli as instruções várias vezes, sem acreditar nos meus olhos.

O frasquinho estava meio vazio.

No vidro não havia nenhuma etiqueta.

Ou seja, era algum tipo de poção caseira num recipiente médico comum com conta-gotas.

Meu coração batia tão alto que parecia que os vizinhos de baixo tinham que ouvir.

Eu me sentei na cadeira, ainda apertando nas mãos aquele frasco maldito.

Quatro anos.

Quatro anos eu me torturando, achando que havia algo errado comigo.

Eu fui a médicos, fiz exames, li fóruns de mulheres desesperadas.

Eu chorava no travesseiro quando mais um mês terminava em nada.

E ele…

Ele, todas as manhãs, pingava no meu café aquela porcaria de alguma curandeira.

“Relaxa, meu sol, vai acontecer.

— vieram à minha mente as palavras dele.

— Não fica obcecada, a gente é feliz assim.”

E, ao mesmo tempo, metodicamente, dia após dia, ele me envenenava com uma poção desconhecida.

Eu me lembrei de como meu marido sempre levantava antes de mim e fazia café.

De como ele, carinhosamente, me trazia uma xícara na cama nos fins de semana.

De como ele ficava preocupado se eu tomava café numa cafeteria.

“Em casa é melhor, eu faço muito mais gostoso.”

Tudo se encaixou com uma clareza assustadora.

O telefone vibrou.

Chegou uma mensagem de Anton.

“Como você está, amor?

Estou com saudade.

À noite vamos fazer um jantar romântico: velas, vinho, só nós dois.”

Um jantar romântico.

Depois de quatro anos de mentira.

Eu me levantei e fui para a cozinha.

Em cima da mesa estava a minha xícara da manhã com café pela metade, que Anton tinha feito antes de sair.

Normalmente eu sempre terminava, mas hoje me distraí com a limpeza.

Eu peguei a xícara e joguei o conteúdo na pia.

O líquido marrom-escuro rodopiou no ralo.

Quantas xícaras dessas eu bebi nesses anos?

Mil?

Mais?

Depois eu lembrei do térmico na mesa da cozinha.

“Leva café com você quando for ao shopping” — Anton escreveu de manhã.

Que marido cuidadoso.

Eu bufei, abri o térmico e também derramei tudo na pia.

Eu precisava fazer alguma coisa com aquela raiva que subia dentro de mim.

Vesti a jaqueta e saí de casa.

Minhas pernas me levaram sozinhas pelas ruas conhecidas até o parque onde eu e Anton costumávamos passear à noite.

Na minha cabeça giravam pedaços de lembranças.

Como eu contava para ele sobre meus alunos e dizia, sonhadora: “Quando a gente tiver um bebê…”

E ele escutava, assentia, me abraçava e continuava o trabalho sombrio dele.

Como a gente foi ao médico e o doutor dizia: “Tenham paciência, a natureza resolve sozinha.”

Como eu me culpava, procurava as causas no meu estilo de vida, no estresse, na idade.

Eu me matriculei em yoga “para me preparar para a maternidade”, tomei vitaminas, fiz uma dieta especial.

E Anton todas as manhãs, metodicamente, derramava no meu café alguma poção incompreensível.

Quem fez aquilo para ele?

Onde ele encontrou esse monstro?

Em que site, em que canto da internet ele procurou maneiras de tirar da própria esposa a chance de se tornar mãe?

Num banco do parque estava sentada uma jovem mãe com um carrinho de bebê.

O bebê dormia, e a mulher lia um livro, olhando de vez em quando para a criança.

Uma cena tão comum e natural, e para mim… um sonho inalcançável, roubado pela pessoa mais próxima.

Eu tirei o celular e comecei a digitar uma resposta para Anton.

Escrevi “Eu sei de tudo”, e apaguei.

Escrevi “Você é um canalha”, e apaguei de novo.

Não.

Esse tipo de conversa não se tem por mensagem.

Em vez disso, eu enviei: “Tudo bem, estou ansiosa pelo nosso jantar romântico especial!”

Especial… isso com certeza.

Você vai ver, meu querido, como é… ser enganado.

Eu voltei para casa com um plano bem claro.

Mas primeiro eu queria saber que poção era aquela e de onde meu marido a tinha tirado.

Eu liguei imediatamente o laptop dele.

Eu sabia a senha, a gente nunca escondeu esse tipo de informação um do outro.

Que ironia.

Eu comecei pelo histórico do navegador, mas não encontrei nada suspeito.

Ou Anton era cuidadoso, ou falava com alguém pelo telefone.

Eu peguei o frasquinho na mão e examinei de novo com atenção: vidro médico comum, sem etiquetas nem sinais.

O líquido dentro era transparente, com um leve cheiro de ervas.

Claramente não era produção de fábrica.

Pelo bilhete dava para entender que aquela “poção milagrosa” tinha sido inventada por alguma curandeira ou ervateira.

Mas como meu marido a encontrou?

Por meio de quem?

E, o principal, há quanto tempo isso estava acontecendo?

Eu tentei lembrar quando exatamente Anton começou a preparar meu café da manhã com tanta dedicação.

Antes a gente tomava café junto: quem levantava primeiro, fazia.

E depois, de repente, ele pegou esse hábito fofo:

“Dorme, meu sol, eu mesmo faço seu café.”

Parece que isso começou há uns três anos.

Bem quando eu comecei a falar seriamente sobre filhos.

Coincidência?

Dificilmente.

Ao cair da noite, o plano ficou pronto de vez.

Anton ia receber uma lição que não esqueceria tão cedo.

Para o jantar, eu preparei a massa favorita dele com frutos do mar, coloquei vinho branco para gelar e acendi velas.

Eu criei um clima romântico, do jeito que ele queria.

Às sete da noite, ouvi passos conhecidos.

Eu estava sentada no sofá com um vestido bonito e sorria.

— Uau! — assobiou Anton entrando na sala.

— Você decidiu me seduzir?

— Por que não?

Está funcionando?

— perguntei, fazendo charme.

Meu marido se aproximou e me beijou forte.

Meu marido, que eu amei por quatro anos.

Que por quatro anos me enganou metodicamente.

— Como foi o dia? — perguntou ele, tirando o paletó.

— O que você fez o dia inteiro?

— Fiz limpeza, pensei em nós, — respondi.

— E também encontrei uma coisa interessante.

— É mesmo? — ele já estava indo ao banheiro lavar as mãos.

— E o que é?

— Depois eu conto.

Depois do jantar.

Nós comemos à luz de velas, bebemos vinho, conversamos sobre bobagens.

Anton estava de ótimo humor: finalmente entregaram o projeto, e os clientes alemães ficaram satisfeitos.

— Sabe, — disse ele, enchendo a segunda taça, — hoje eu pensei em filhos.

Eu congelei com o garfo no meio do caminho até a boca.

— E o que você pensou?

— Talvez já esteja na hora mesmo.

— ele pegou minha mão.

— Eu tenho trinta e um, você tem vinte e oito.

É um bom momento para ter filhos.

Que cara de pau.

Dizer isso na minha cara, traindo por trás.

— Sério? — eu fingi entusiasmo.

— Você fala sério?

— Absolutamente.

A gente começa já amanhã.

— ele piscou.

— Mas podemos começar hoje também.

— Isso é maravilhoso.

Então eu vou fazer café para nós.

Especial, comemorativo.

Na cozinha eu peguei o frasquinho da poção e coloquei ao lado das xícaras.

— O café está pronto! — gritei, levando a bandeja para a sala.

Era hora de começar uma conversa séria.

Eu coloquei a bandeja na mesinha de centro à frente de Anton.

Duas xícaras de café perfumado, o açucareiro, a leiteira.

E ao lado… o frasquinho com conta-gotas.

— Mmm, que cheiro bom! — disse Anton satisfeito, estendendo a mão para a xícara.

Depois os olhos dele caíram no frasco.

O rosto dele mudou na hora.

A mão ficou parada no ar.

— E eu acho que dá um gostinho meio amargo.

— eu disse calmamente, sentando na frente dele.

Por alguns segundos nós nos encaramos em silêncio.

Meu marido empalideceu e se recostou no sofá.

Nos olhos dele eu vi aquilo que eu procurava… o medo de ser desmascarado.

— Amor, eu posso explicar…

— Explique, — eu disse, pegando minha xícara.

— A gente tem tempo.

A noite inteira.

Ele passou a mão pelo rosto e suspirou pesado.

— Não é o que você está pensando.

— E o que eu estou pensando, Anton?

— Eu… eu não estava pronto para filhos.

Ainda não.

E você queria tanto, pressionava tanto…

— Pressionava?

— minha voz tremia, mas eu me contive.

— Quatro anos de casamento e eu pressionava?

— Não, não assim…

Meu amor, eu fiz tudo por nós.

Pela nossa felicidade.

Olha a vida que a gente tem.

A gente é livre, pode se permitir tudo, viaja…

— Pela nossa felicidade, — repeti.

— Uma formulação interessante.

E sabe o que eu fiz nesses quatro anos?

Eu me culpei.

Eu pensei que havia algo errado comigo.

Eu fui a médicos, fiz exames, li fóruns de mulheres inférteis.

Eu sofri.

Eu me consumi de dor.

Até em viagem.

— Amor…

— Cala a boca.

Eu ainda não terminei.

De onde você tirou esse veneno?

Com quem?

Anton se enrolou, evitando olhar nos meus olhos.

— Tem uma mulher… uma ervateira.

Tia Zina.

Ela mora nos arredores de Moscou…

— Como você encontrou ela?

— Eu conheci pela internet.

Ela mandou a poção pelo correio, — meu marido tentou pegar minha mão, mas eu puxei de volta.

— Amor, entende, eu não queria te fazer mal.

São ervas naturais, inofensivas…

— Inofensivas?

— eu ri com uma risada histérica.

— Você me deu por quatro anos uma coisa que ninguém sabe o que é, me tirou a chance de ser mãe, me fez achar que eu era defeituosa… e isso é inofensivo?

— Eu achei que, com o tempo, você se acostumaria.

Que entenderia que dá para ser feliz sem filhos também.

— E se eu não tivesse encontrado esse frasquinho?

Você planejava continuar me dando essa porcaria?

Anton ficou em silêncio.

E esse silêncio foi mais eloquente do que qualquer palavra.

— Responde! — eu gritei.

— Eu não sei, — ele admitiu baixinho.

— Provavelmente sim.

Você era feliz, a gente era feliz…

— Eu não era feliz.

Eu vivia de esperança.

Eu rezava todo dia e pedia a Deus um filho.

Você não sabia?

Eu me levantei e fui até a janela.

Do lado de fora já tinha escurecido, e nas janelas dos prédios vizinhos as luzes estavam acesas.

— E agora, o que vai ser de nós? — perguntou Anton, culpado.

Eu me virei.

Meu marido estava sentado curvado, olhando para o chão.

Patético, perdido.

Mas eu não sentia nenhuma compaixão por ele.

— E o que deveria ser?

Você me enganou por quatro anos na questão mais importante.

Você me tirou o direito de escolher.

Você roubou de mim anos que eu poderia ter usado para procurar alguém que realmente quisesse uma família comigo.

— Mas eu te amo! — meu marido levantou a cabeça, e os olhos dele brilharam com lágrimas.

— Ama? — eu peguei o frasquinho e o girei entre os dedos.

— Você sabe o que é amor?

É honestidade.

É respeito.

É disposição para fazer concessões, e não decidir tudo às escondidas pelo parceiro.

— Amor, me dá uma chance de consertar tudo.

A gente pode recomeçar, ter filhos…

Eu ri.

— Sério?

E como é que eu vou confiar em você agora?

Como eu vou planejar o futuro?

Anton não respondeu.

— Eu vou para a casa da minha mãe.

Por uma semana.

Eu preciso pensar.

— E depois?

— Depois a gente vê.

Talvez a gente consiga superar isso.

E talvez não.

Eu fui para o quarto arrumar as coisas.

Meu marido ficou sentado sozinho na sala.

Ao sair, eu olhei para as nossas janelas.

Quatro anos de vida feliz terminaram numa grande decepção e numa traição.

A cigana estava certa… a verdade realmente é melhor do que uma mentira bonita.

Mesmo que essa verdade doa muito.