Se vender, dá para comprar dois apartamentos de um quarto, — ela ouviu que os sobrinhos já estavam dividindo os bens dela.
— O apartamento é de três quartos, no centro.

Se vender, dá para comprar dois apartamentos de um quarto na periferia.
Anna Petrovna parou imóvel diante do portão da casa da irmã.
Em suas mãos, esfriava um pote de geleia de framboesa, que ela havia feito a noite inteira especialmente para os sobrinhos.
A voz de Macha soava prática, calculista — nada parecida com a de ontem, quando a menina beijou sua bochecha e a chamou de tia querida.
— Ou talvez alugar? — agora era Ilia.
— Renda passiva nunca atrapalha.
Anna Petrovna baixou lentamente a mão que ia empurrar o portão.
A geleia no pote balançou, refletindo o céu cinzento de outubro.
—
Em cinquenta e três anos de vida, Anna Klimova aprendeu muita coisa: contar até dez antes de dizer algo, andar pelo apartamento sem fazer barulho, manter as costas eretas mesmo quando tinha vontade de se curvar de cansaço.
Todas essas habilidades ela adquiriu em vinte e oito anos de casamento com Viktor.
Eles se conheceram no trabalho — ela chegou como jovem especialista ao setor de contabilidade da fábrica, onde ele já ocupava o cargo de vice-engenheiro-chefe.
Viktor Sergueievitch pertencia àquela espécie de pessoas que sabem o valor das coisas e sabem adquiri-las.
Anna tornou-se uma dessas aquisições — silenciosa, dócil, de família simples.
O apartamento deles no Anel dos Jardins lembrava um museu: móveis pesados de mogno, cristais no armário, tapetes nas paredes.
Viktor Sergueievitch gostava de ordem.
As xícaras tinham de ficar com as alças viradas para o mesmo lado, as toalhas penduradas perfeitamente pela borda, o jantar servido às sete da noite — nem um minuto antes, nem um minuto depois.
— De novo colocou sal demais, — dizia ele, afastando o prato de sopa.
Anna se levantava em silêncio e trazia outra porção.
Havia muito tempo que deixara de se justificar — isso apenas prolongava o momento desagradável.
À noite, Viktor Sergueievitch lia jornais na poltrona, e ela se sentava diante dele com o tricô.
As agulhas batiam baixinho, a televisão resmungava as notícias, o relógio marcava os minutos da vida dos dois.
Às vezes, ela se pegava pensando que tinha se transformado num objeto de decoração — necessário, funcional, mas privado de vontade própria.
Eles não tiveram filhos.
Nos primeiros anos, esperaram, depois fizeram exames, depois se resignaram.
Ou melhor, ela se resignou.
Viktor Sergueievitch não se resignou — ele acusava.
— Flor estéril, — atirava ele nos dias em que estava especialmente de mau humor.
A palavra caía entre os dois como uma pedra na água, espalhando círculos de silêncio.
Com a irmã, Liudmila, ela se via cada vez menos.
No começo, Anna alegava falta de tempo, depois cansaço, depois simplesmente parou de atender às ligações.
Viktor Sergueievitch não gostava de visitas, especialmente dos parentes da esposa.
— Eles vêm, fazem barulho, deixam sujeira, — resmungava ele.
E Anna escolhia a paz da casa em vez do calor dos abraços dos seus.
—
Viktor Sergueievitch morreu em março, de repente.
Anna soube disso pela secretária dele, que telefonou com uma estranha mistura de formalidade e compaixão na voz.
Sem o marido, o apartamento parecia enorme.
Anna Petrovna vagava pelos cômodos, tocava nas coisas de Viktor, abria e fechava os armários.
No escritório dele, tudo permanecia como antes: documentos em pastas, canetas no copo, óculos sobre a mesa.
Ela pegou os óculos, girou-os nas mãos e os colocou de volta, um pouco tortos — um pequeno ato de desobediência que jamais teria ousado fazer enquanto ele estava vivo.
O dinheiro nas contas revelou-se impressionante — Viktor Sergueievitch sabia economizar e investir.
O apartamento também valia uma fortuna.
Anna Petrovna olhava os números nos documentos e não entendia o que fazer com eles.
A vida inteira, outros decidiram por ela.
Certa noite, ligou o rádio — só para quebrar o silêncio.
O locutor falava sobre o tempo, e Anna de repente se pegou respondendo em voz alta.
— Sim, amanhã vai esfriar, — disse ela.
— Preciso tirar o casaco quente.
Depois se assustou com a própria voz e desligou o rádio.
Mas o silêncio pesava ainda mais, e ela o ligou de novo.
No começo de maio, Liudmila telefonou.
— Ania, como você está?
Sumiu completamente.
Venha nos visitar, fique um pouco com a gente.
Anna quis recusar por hábito, mas de repente pensou — por que não?
Quem iria proibi-la agora?
—
Liudmila a recebeu na estação.
As irmãs se abraçaram e choraram ao mesmo tempo, sem combinar nada.
Liudmila havia envelhecido, mas em seu rosto permanecia aquela vivacidade que Anna lembrava da infância.
— Meu Deus, Anka, como você está magra!
Vamos logo, fiz tortas.
A casa dos Saveliev revelou-se pequena, mas acolhedora — com uma varanda coberta por videira selvagem e um jardim onde as macieiras floresciam.
Os sobrinhos esperavam por elas na varanda.
Macha foi a primeira a correr para a tia, abraçando-a com força, de verdade.
— Tia Ania, como estou feliz!
Mamãe falou tanto da senhora!
Ilia veio logo em seguida e pegou a bolsa das mãos de Anna Petrovna.
— Deixe que eu ajude.
Está pesada?
No jantar, todos falavam ao mesmo tempo, interrompendo uns aos outros.
Maria contava sobre a universidade, onde estudava filologia, Ilia falava sobre o trabalho extra na oficina mecânica e os planos de entrar numa faculdade técnica.
Liudmila colocava mais comida no prato de Anna Petrovna, dizendo que ela tinha emagrecido demais.
Anna ouvia, sorria e sentia algo dentro dela descongelar.
Ela havia se esquecido de como era quando ninguém a avaliava, não a criticava, e simplesmente ficava feliz em vê-la.
Nas semanas seguintes, foi à casa dos Saveliev quase todos os fins de semana.
Macha lhe mostrava seus poemas — ingênuos, mas sinceros.
Ilia consertou a torneira que pingava em seu apartamento e ajudou a pendurar cortinas novas no quarto.
— Tia Ania, posso passar na sua casa às vezes? — perguntou Macha.
— Para ir à universidade, da sua casa fica mais perto do que da nossa.
— Claro, querida, claro.
Anna começou a viver.
Comprou uma manta colorida para o sofá — Viktor detestava cores vivas.
Inscreveu-se num curso de informática básica na biblioteca.
Fez um bolo com receita da internet — saiu torto, mas gostoso.
No fim de setembro, decidiu fazer geleia de framboesa — como a mãe fazia na infância.
Passou a noite inteira mexendo na bacia com as frutas, lembrando como tirar a espuma do jeito certo e quando acrescentar o açúcar.
De manhã, colocou a geleia nos potes e decidiu levá-la aos Saveliev — para que provassem.
No portão, ouviu vozes.
Macha e Ilia estavam sentados na varanda, sem notá-la atrás dos arbustos de lilás.
— O apartamento é de três quartos, no centro.
Se vender, dá para comprar dois apartamentos de um quarto na periferia.
— Ou talvez alugar?
Renda passiva nunca atrapalha.
— Você acha que ela vai deixar para nós?
Nós não somos herdeiros diretos.
— E para quem mais deixaria?
Não tem filhos, nem outros parentes.
O importante é demonstrar atenção.
Eu consertei a torneira, você lê poemas para ela…
Maria riu.
— Que tal duas salas para você e uma para mim?
Ou ao contrário?
— Vamos não brigar antes da hora.
A tia ainda vai viver bastante.
Anna se virou e foi embora.
A geleia no pote borbulhou, como se tivesse suspirado.
—
Em casa, colocou o pote de geleia sobre a mesa e ficou olhando para ele por muito tempo.
As framboesas por trás do vidro pareciam vivas demais, artificiais — como sua tentativa de representar o papel da tia feliz.
As lágrimas não vieram de imediato.
Primeiro, Anna arrumou a cozinha metodicamente, depois tomou banho, depois se deitou.
E só quando apagou a luz permitiu-se chorar.
Chorou alto, feio, engasgando-se — do jeito que nem no funeral do marido havia chorado.
De manhã, as lágrimas haviam acabado.
Anna Petrovna se levantou, lavou o rosto com água fria e se olhou no espelho.
Os olhos estavam inchados, mas no olhar havia surgido algo novo — não mágoa, e sim compreensão.
Pegou os documentos do apartamento e os espalhou sobre a mesa de jantar.
O certificado de propriedade, o documento técnico, o antigo testamento de Viktor Sergueievitch, em que tudo era deixado para ela.
Ao lado, colocou os extratos das contas bancárias.
Os números eram impressionantes.
Suficientes para garantir uma velhice confortável para si mesma e ajudar os sobrinhos.
Mas agora, olhando aqueles papéis, Anna Petrovna pensava não em quem ficaria com o quê, mas em como uma pessoa se transforma facilmente numa soma de ativos.
Ela se lembrou de como Maria folheava o álbum com suas fotos antigas.
A moça não parava nas fotos da datcha ou do mar, mas naquelas em que o interior do apartamento aparecia.
De como Ilia perguntava casualmente sobre condomínio e impostos, supostamente por curiosidade geral.
De como as conversas deles cada vez mais acabavam no tema “planejamento do futuro”.
Anna se levantou e foi até a janela.
No pátio, uma velhinha alimentava os pombos.
As aves vinham de todos os lados, bicando migalhas direto da palma da mão dela.
A velhinha sorria com a boca sem dentes e murmurava alguma coisa.
Os pombos precisavam dela tanto quanto ela precisava deles.
—
Na vez seguinte, Anna foi à casa dos Saveliev duas semanas depois.
Liudmila a recebeu com cautela.
— Ania, o que aconteceu?
Você não atendeu às ligações.
— Desculpe, eu tinha coisas para resolver.
À mesa, havia mais silêncio do que de costume.
Maria várias vezes pareceu que ia dizer algo, mas se calava.
Ilia comia com empenho e não levantava os olhos.
Depois do jantar, Liudmila levou Anna para a cozinha.
— As crianças disseram que você os viu no portão da última vez.
E foi embora.
Anna Petrovna assentiu.
— Liuda, eu não estou ofendida.
— Eles não fizeram por mal, entende?
São jovens, bobos.
Sonham em voz alta.
— Eu entendo.
Liudmila ergueu as mãos em desespero.
— Não, você não entende!
Eles realmente amam você.
Só que… eles cresceram num mundo em que tudo é calculado.
Não é culpa deles.
Anna Petrovna segurou a mão da irmã.
— Eu sei.
E não os culpo.
Mas preciso de tempo.
Na volta, Maria a alcançou no portão.
— Tia Ania, a senhora… a senhora não vem mais?
Anna olhou para a sobrinha.
Ela estava ali, apertando a barra do casaco nas mãos, e naquele instante parecia a pequena Liuda da infância delas.
— Eu vou vir.
Mas não com tanta frequência.
— Nós magoamos a senhora?
— Não, Macha.
Vocês apenas me lembraram de algo importante.
Na semana seguinte, Anna foi ao cartório.
A jovem mulher de terno austero ouviu atentamente seus desejos.
— Então, parte dos recursos vai para um fundo beneficente de ajuda a idosos solitários, parte para a sua manutenção numa instituição privada, se for necessário.
E o apartamento?
Anna ficou em silêncio.
— O apartamento será dividido entre os sobrinhos.
Mas não agora.
Que recebam a herança quando completarem trinta e cinco anos.
— Uma condição incomum.
— Quero que tenham tempo de viver a própria vida.
De construir algo por conta própria, sem depender da herança.
A tabeliã assentiu e começou a preparar os documentos.
—
Passou-se um ano.
Anna estava sentada na sala de leitura da biblioteca do bairro, fazendo anotações de um livro sobre a história do traje russo.
Aquilo havia se tornado seu novo interesse — ela preparava material para o museu regional, onde se tornara voluntária.
— Anna Petrovna, hoje vai ficar até fechar? — perguntou a bibliotecária Vera Nikolaievna.
— Não, vou embora logo.
Às cinco temos a reunião do clube.
O clube de artesanato se reunia às quartas-feiras no centro cultural ao lado.
Uma dezena de mulheres de idades diferentes tricotava, bordava e falava de tudo no mundo.
Anna aprendeu crochê — as agulhas de tricô lembravam as noites com o marido, e o crochê era algo novo.
No caminho para casa, entrou numa loja.
A jovem caixa a reconheceu e sorriu.
— Anna Petrovna, mostrei à minha mãe o seu molde de toalhinha, ela ficou encantada!
— Mande lembranças a ela.
Se tiver alguma dúvida, pode passar lá em casa que eu explico.
Em casa, um gato a esperava — ruivo, encontrado filhote no pátio.
Anna Petrovna o chamou de Marsik.
Viktor Sergueievitch jamais teria permitido um animal no apartamento.
Marsik se esfregou nas pernas dela e ronronou.
Anna coçou atrás da orelha dele.
— Então, meu amigo, vamos jantar?
Ela via os Saveliev nas festas de família.
A relação havia se tornado mais calma, mais honesta.
Maria já não lia poemas para ela, mas se interessava sinceramente por suas atividades no museu.
Ilia a ajudou a configurar o computador e a ensinou a usar videochamadas.
Ela não lhes falou do testamento.
Que vivam, estudem, trabalhem, se apaixonem — sem olhar para trás, para um apartamento no centro de Moscou.
E quando chegar a hora, receberão um presente inesperado.
Ou talvez não recebam — se ela viver mais do que imagina.
Anna Petrovna alimentou o gato, preparou chá e se sentou à janela com um livro novo.
Do outro lado do vidro, as luzes da cidade iam se acendendo.
Em algum lugar, numa daquelas janelas, Liudmila preparava o jantar para a família.
Em outra, Maria escrevia um trabalho da faculdade.
Em uma terceira, Ilia consertava o carro de alguém.
Cada um tinha sua própria vida.
E ela também tinha a sua.
Ela abriu o livro e começou a ler.
Marsik se acomodou em seu colo e ronronava.
O chá esfriava na xícara — mas agora isso não era assustador.
Anna Petrovna podia preparar outro.
Ou não preparar.
Podia ler até meia-noite.
Ou ir dormir às nove.
No apartamento, estava silencioso.
Mas não era o silêncio vazio da solidão, e sim o silêncio pleno da paz.
A diferença parecia pequena, quase imperceptível.
Mas Anna a sentia com cada célula da alma.
E, pela primeira vez em muitos anos, aquele silêncio não a assustava.







