Olga chegou ao hospital na terça-feira, logo depois do trabalho.
O ônibus se arrastava pela cidade inteira, e ela ficou em pé no corredor, segurando-se no apoio, olhando pela janela para os prédios cinzentos de cinco andares e pensando que precisava comprar laranjas para Kolya — o médico tinha dito que a vitamina C, com o diagnóstico dele, não faria mal.

Ela comprou as laranjas no quiosque da entrada.
Além disso, comprou iogurte, biscoitos e uma pequena garrafa térmica com caldo caseiro, que tinha preparado de manhã, enquanto as crianças se arrumavam para ir à escola.
Colocou tudo numa sacola, pendurou a sacola na dobra do cotovelo e passou pela catraca, sorrindo para a porteira.
— Para a cirurgia? — perguntou ela.
— Não, para a clínica médica.
Meu marido está internado.
Merkulov Nikolai Stepanovich.
— Terceiro andar, à direita pelo corredor, quarto doze.
Olga subiu pelas escadas.
No hospital havia aquele cheiro que existe em todos os hospitais do mundo — de cloro, comida cozida e algo indefinível que poderia ser chamado pela palavra “doença”.
Ela andava pelo longo corredor de paredes descascadas, passando por macas, por mulheres idosas de roupão, por uma televisão que resmungava no saguão.
A porta do quarto doze estava entreaberta.
Olga a empurrou e entrou.
O quarto era para quatro pessoas.
Perto da janela, estava deitado um velho com a perna enfaixada, dormindo.
Na parede oposta, sentado na cama, havia um homem de uns cinquenta anos — de rosto redondo, com uma barba bem aparada — mexendo em alguma coisa no celular.
Kolya estava deitado na cama perto da porta.
Ao ver a esposa, apoiou-se no cotovelo e sorriu.
— Olya, você veio.
Eu já estava achando que hoje você não conseguiria chegar.
— Como assim eu não chegaria? — ela colocou a sacola no criado-mudo, inclinou-se e beijou-lhe a bochecha.
— O ônibus só demorou.
Como você está?
— Estou bem.
De manhã a pressão variou bastante, mas agora estou melhor.
Tomaram uma injeção em mim, e fiquei mais aliviado.
Ela se sentou na beira da cama e pegou a mão dele.
A mão estava quente, um pouco úmida — como sempre quando ele ficava debaixo do cobertor.
Ela olhava para ele e pensava que ele tinha emagrecido nessas duas semanas.
O rosto estava mais estreito, e havia sombras sob os olhos.
— Trouxe caldo, — disse ela.
— Está na garrafa térmica.
Ainda está quente.
— Você é boa demais comigo, — disse Kolya.
— Então, conte.
Como estão as crianças?
— As crianças estão bem.
Artyom tirou nota baixa em matemática, mas já recuperou.
Masha ficou resfriada, mas não está com febre, só com coriza.
Está indo à escola.
— Ela fica sentada na corrente de ar, eu falei isso para ela.
— Falou, falou.
Ela não escuta.
Eles conversavam em voz baixa, daquele jeito habitual de pessoas que viveram muitos anos juntas.
O homem de barba junto à parede olhava de vez em quando para eles — Olga percebia isso pelo canto do olho, mas não deu importância.
Acontece.
Depois Kolya disse:
— Olya, escuta.
Eu queria falar com você sobre um assunto.
— Que assunto?
— Bem, enquanto estou aqui deitado, fiquei pensando.
Sobre a datcha.
Você sabe que mamãe vive dizendo que é preciso transferir pelo menos uma parte para o nome dela enquanto ela ainda está viva, para depois ser mais fácil com a herança.
— Eu sei, — disse Olga.
— Você já tinha falado disso antes.
— Pois é.
Então pensei que talvez fosse melhor fazer isso agora.
Ela já providenciou a procuração — o tabelião foi até lá.
E se você assinar a autorização, o Vitya cuida dos papéis.
Ele sabe de tudo, já acertou tudo.
— Vitya? — Olga franziu a testa.
— Que Vitya?
— Meu primo, Vitya.
Você conhece, nós nos vimos no casamento do Seryoga.
— Aquele das tatuagens?
— Não, o outro.
O alto, de óculos.
Ele trabalha com imóveis, entende tudo dessas coisas.
Disse que fazemos tudo rápido, enquanto eu ainda estou aqui internado.
Ele mesmo prepara os documentos, você só precisa assinar a autorização.
Olga ficou em silêncio por um segundo.
— E por que precisa da minha autorização, se a datcha está no seu nome?
— Porque somos casados, não é?
É propriedade comum.
Sem a sua assinatura, o tabelião não aceita.
— E o que exatamente eu vou assinar?
— A autorização para a transação.
Quer dizer, que você não se opõe.
O Vitya traz amanhã, você assina e pronto.
Olga olhou para o marido.
Ele olhava para ela com calma, como olha uma pessoa que está explicando algo óbvio.
Ela já tinha aberto a boca para dizer “está bem”, quando naquele instante ouviu atrás de si uma voz baixa.
— Com licença.
Ela se virou.
O homem de barba estava de pé a um metro e meio dela.
Olhava diretamente para ela — sério, um pouco tenso.
— Posso falar com a senhora um segundo? — disse em voz baixa.
— No corredor.
Olga ficou sem jeito.
— Eu… — ela olhou para Kolya.
Ele franziu levemente a testa, mas ficou calado.
— Um minuto, — disse o homem.
— É importante.
Havia algo na voz dele — não alarme, mas justamente seriedade, calma e firme — que fez Olga levantar-se.
Ela saiu com ele para o corredor.
Ele fechou a porta, mas não completamente.
Pararam junto à parede.
Uma enfermeira passou pelo corredor com uma bandeja, sem olhar para eles.
— Meu nome é Gennady, — disse o homem em voz baixa.
— Estou aqui há três semanas.
Ouvi algumas conversas.
— Que conversas?
— Várias. — Ele fez uma pausa.
— Escute.
Eu não me meto nos assuntos dos outros.
Mas preciso lhe dizer uma coisa. — Ele olhou nos olhos dela.
— Não acredite nele.
E não assine nada.
Olga sentiu um friozinho no peito.
— O que o senhor quer dizer?
— O que eu disse. — Gennady olhou de relance para a porta.
— Ele falou ao telefone há três dias.
Por muito tempo, em voz baixa.
Eu não estava escutando escondido — é só que no quarto fica tudo em silêncio, nem sempre você quer ouvir, mas acaba ouvindo.
Ele falou com um tal de Vitya.
E ainda com mais alguém — o nome eu não consegui distinguir.
Disse que a esposa assinaria, que ela sempre assina, não presta atenção nos detalhes.
Falou de uma datcha e também… de um apartamento.
— De um apartamento? — Olga não reconheceu a própria voz.
— Sim.
Não me lembro exatamente, só pedaços.
Mas algo como: “o apartamento também dá para passar para outro nome, enquanto ela está aqui”.
Uma coisa assim. — Gennady olhava diretamente para ela.
— Eu entendo que isso soa… estranho.
Talvez eu tenha entendido algo errado.
Talvez não seja nada do que me parece.
Mas eu não consegui ficar calado.
Eu também tenho esposa.
Eu gostaria que alguém me avisasse.
Olga ficou encostada na parede do corredor do hospital, sentindo que o chão sob seus pés tinha ficado um pouco menos firme.
— Obrigada, — disse afinal.
— Eu… obrigada.
Gennady assentiu e voltou para o quarto.
Olga ainda ficou parada no corredor por um segundo, depois respirou fundo e entrou também.
Kolya olhava para ela com uma expressão de leve desagrado.
— O que ele queria?
— Perguntou se eu tinha algum analgésico, — disse Olga, de modo neutro.
— Disse que está com dor de cabeça e que a enfermeira não aparece.
— Ah, entendi. — Kolya relaxou.
— Então, e os papéis?
— Kolya, — disse ela, sentando-se de novo.
— Me explica mais uma vez.
Nós vamos transferir uma parte para a sua mãe?
— Sim.
Cinquenta por cento para ela, cinquenta ficam para nós.
— E por que agora?
Ela está saudável, graças a Deus.
— Assim ela fica mais tranquila.
Já não é mais jovem, quer resolver tudo em vida.
— Certo.
E o que exatamente eu vou assinar — você pode me mostrar o documento?
Kolya hesitou um pouco — só um pouco, uma fração de segundo.
— Bem, o Vitya vai trazer.
Amanhã a gente mostra.
— Não, Kolya, eu quero ler primeiro, e depois assinar.
— Olya, aquilo é uma autorização comum, nada demais, três linhas.
— Certo.
Então que o Vitya me mande no celular, e eu leio hoje.
Kolya olhou para ela.
— Para quê?
Você não vai entender mesmo.
— Vou entender, — disse Olga.
— Ou vou pedir para alguém me ajudar a entender.
O marido da Tanya é advogado, ele pode olhar.
— Mas para que meter o marido da Tanya nos nossos assuntos?
— E para que meter o Vitya?
Eu praticamente nem conheço ele direito.
— Eu já expliquei — ele trabalha com imóveis.
— Kolya, — disse Olga em voz baixa e muito calma.
— Eu não vou assinar nada sem ler.
Isso é normal.
Qualquer pessoa normal faz assim.
Kolya ficou em silêncio.
Depois sorriu — um pouco forçado.
— Tudo bem, tudo bem.
Eu te mando.
Nem é tão urgente assim, na verdade.
— Então está bem.
Eles ficaram em silêncio.
Olga tirou a garrafa térmica da sacola, despejou o caldo na tampa e colocou diante dele.
— Beba, enquanto está quente.
— Você está brava?
— Não, — disse ela.
— Beba.
Ela voltou para casa já no escuro.
No ônibus estava quase vazio — só uma velhinha com uma bolsa de rodinhas e dois adolescentes de fone de ouvido.
Olga estava sentada perto da janela, olhando as luzes da cidade e pensando.
Vinte e dois anos viveram juntos.
Filhos, hipoteca, reforma, doenças — tudo juntos.
Ela nunca se meteu muito nas finanças — Kolya sempre dizia que resolveria tudo, e ela confiava.
Assinava quando ele pedia.
Não se aprofundava — afinal, ele explicava tudo, e ela acreditava.
Agora ela tentava se lembrar do que exatamente e quando tinha assinado ao longo daqueles anos.
Tudo parecia vago.
Em casa, as crianças já dormiam — quer dizer, Masha dormia, e Artyom estava com o celular, fingindo que lia.
Olga mandou-o dormir, tomou chá, depois pegou o celular e escreveu para Tanya: «Tanyusha, você pode pedir ao Igor para me orientar sobre uma questão?
Amanhã, quando ele tiver tempo.
Não é urgente, mas é importante».
Tanya respondeu um minuto depois: «Claro, amanhã depois das seis ele está livre».
Olga escreveu «obrigada» e foi se deitar.
Mas demorou a dormir — ficou deitada olhando para o teto e pensando no que Gennady tinha dito.
E em como Kolya dissera: “Você não vai entender mesmo”.
Ele nunca tinha falado assim antes.
Ou tinha — e ela simplesmente não percebia?
No dia seguinte, depois do almoço, Kolya mandou uma foto do documento.
Olga abriu na mesa do trabalho e começou a ler.
Não eram “três linhas”.
Eram quatro páginas de texto miúdo, com referências a artigos e cláusulas, e na terceira seção, entre formulações gerais, estava escrito o seguinte: «…dou meu consentimento para a alienação dos seguintes bens, pertencentes à propriedade comum dos cônjuges: terreno com número cadastral… casa de campo… bem como apartamento localizado no endereço…»
Olga leu aquilo duas vezes.
Apartamento.
Ela discou o número de Igor.
— Igor, desculpe ligar antes da hora.
Você pode olhar um documento agora?
Vou mandar.
— Sim, manda, — disse Igor.
— Espera um minuto.
Ela encaminhou a foto.
Enquanto esperava, levantou-se, andou pela cozinha, serviu água, bebeu.
Igor retornou a ligação dez minutos depois.
— Olya, você leu isso com atenção?
— Li.
— Aqui está a autorização para a venda do apartamento.
Não só da datcha.
Do apartamento também.
— Eu vi.
— E a autorização é dada em nome de Merkulov Viktor Pavlovich, que, segundo o documento, é procurador por instrumento notarial de Merkulova Zinaida Ivanovna.
— É a mãe do meu marido e o primo dele.
— Então, — disse Igor lentamente.
— A procuração da mãe do seu marido dá a esse Viktor poderes para assinar contrato de compra e venda.
Entende?
Não de doação — de venda.
E num contrato padrão de compra e venda pode ser colocado qualquer preço.
Pode ser um rublo.
Olga ficou em silêncio.
— Olya?
— Estou ouvindo, — disse ela.
— Então, se eu assinar essa autorização, o Vitya pode vender nosso apartamento por um rublo?
— Formalmente, sim.
Do ponto de vista jurídico, essa é uma transação passível de contestação, mas contestá-la significa tribunal, tempo, nervos e dinheiro.
E não há garantia de que você ganhe, especialmente se o comprador for considerado terceiro de boa-fé.
— Entendi, — disse Olga.
— Você não assinou isso, assinou?
— Não.
Ele me mandou primeiro para ler.
— Ainda bem que você leu, — disse Igor.
— Escuta, Olya.
Eu não sei o que está acontecendo entre vocês.
Talvez seja apenas ignorância jurídica, um documento mal redigido.
Acontece de corretores jogarem tudo no mesmo pacote.
Mas, no seu lugar, eu não assinaria nada por enquanto e falaria diretamente com seu marido.
— Sim, — disse Olga.
— Obrigada, Igor.
Ela desligou.
Depois pegou o telefone de novo e escreveu para Kolya: «Li o documento.
Me liga quando puder».
Kolya ligou uma hora depois.
— Então, entendeu?
— Entendi, — disse Olga.
— Kolya, aqui está escrito autorização para a alienação do apartamento.
— Mas isso está escrito assim só formalmente, é linguagem jurídica, isso não quer dizer nada.
— Igor diz que quer dizer, sim.
Pausa.
— Que Igor?
— O marido da Tanya.
Advogado.
Mostrei para ele.
— Você mostrou nossos documentos para uma pessoa de fora? — apareceu frieza na voz de Kolya.
— Ele não é uma pessoa de fora, é um conhecido nosso.
E é advogado. — Olga falava de forma uniforme.
— Kolya, me explica o que o nosso apartamento tem a ver com isso.
— É só um formulário padrão, Olya.
O Vitya disse que se faz assim.
— O Vitya está enganado.
Ou o Vitya escreveu assim de propósito.
— Escuta, você não confia em mim?
— Kolya, — disse Olga.
— Estou te fazendo uma pergunta concreta.
Por que no documento está escrito sobre o apartamento?
— Eu já expliquei!
É um formulário!
— Então o Vitya que refaça o documento de modo que haja só a datcha.
Só a datcha — e nada mais.
Se vocês querem transferir uma parte para sua mãe, eu não me oponho.
Mas só a datcha, e eu quero ver a avaliação do valor de mercado e que a transferência da parte seja formalizada como doação, e não como venda.
Silêncio.
Longo.
— Você ficou meio… — começou Kolya.
— Meio o quê?
— Desconfiada.
— Cautelosa, — corrigiu Olga.
— Fiquei cautelosa.
Isso é normal, Kolya.
Esse apartamento também é meu.
Kolya desligou.
Ela foi no dia seguinte — de novo com laranjas, de novo com a garrafa térmica.
Entrou no quarto.
Gennady estava sentado na cama lendo um livro.
Ao vê-la, fez um breve aceno com a cabeça.
Kolya estava deitado e olhava para o teto.
Quando ela entrou, virou a cabeça.
— Você veio.
— Vim. — Ela colocou a sacola, tirou o casaco.
— Como está a pressão?
— Normal.
Ficaram em silêncio.
O silêncio habitual entre eles era outro — conhecido, sem peso.
Aquele silêncio era pesado.
— Kolya, — disse Olga.
— Quero entender.
De verdade.
— Entender o quê?
— Por que o apartamento estava no documento.
Kolya fechou os olhos.
— Mamãe queria que o apartamento também passasse.
— Inteiro?
— Bem, uma parte.
— Uma parte do apartamento? — Olga sentiu como se algo dentro dela tivesse virado vidro.
— Você queria transferir uma parte do nosso apartamento para a sua mãe?
— Não transferir.
Doar em vida, para depois não haver discussão nenhuma.
— Kolya, nós temos filhos.
Artyom e Masha.
Esse apartamento vai ser deles.
— Minha mãe também é uma pessoa da minha família.
— Eu não estou discutindo isso.
Mas esse apartamento não é dela.
Nós o compramos juntos.
Eu coloquei dinheiro, eu paguei a hipoteca enquanto você ficou dois anos sem trabalhar — lembra?
Kolya ficou em silêncio.
— Eu não sou inimiga da sua mãe, — disse Olga.
— E estou disposta a discutir a datcha — isso é justo, isso é correto, ela investiu ali.
Mas o apartamento é a casa dos nossos filhos.
Isso eu não vou entregar.
E eu não entendo por que você fez isso desse jeito — em silêncio, sem conversa, por meio de um documento com formulações pouco claras.
— Eu achei que você não ia querer.
— E decidiu fazer de um jeito que eu assinasse sem ler?
Kolya não respondeu.
Lá fora começava a nevar.
Neve miúda, a primeira daquele ano.
Olga olhava para ela e pensava que vinte e dois anos é muito tempo.
E que em vinte e dois anos a gente pode nem perceber quando começam a nos considerar uma pessoa que “não vai entender”.
— O Vitya é seu primo, — disse por fim.
— Eu entendo que ele estivesse tentando ajudar sua mãe.
Talvez nem com má intenção.
Mas o que ele redigiu é um documento pelo qual eu poderia perder a moradia.
E você me trouxe isso para assinar.
— Olya…
— Não estou pedindo explicações agora, — disse ela em voz baixa.
— Você está doente, não precisa se preocupar.
Vamos conversar quando você tiver alta.
Conversar de verdade.
Mas quero que você saiba: eu vou ler tudo o que você me pedir para assinar.
Sempre.
A partir de agora.
Kolya abriu os olhos e olhou para ela.
— Você não confia em mim.
— Eu confio em você, — disse Olga.
— Mas eu tenho responsabilidade diante dos nossos filhos.
E diante de mim mesma.
Quando ela estava saindo, Gennady a chamou na porta.
— Como a senhora está?
Ela parou.
— Bem, — disse ela.
— Obrigada.
De verdade.
Gennady deu de ombros.
— Eu só disse o que ouvi.
Talvez tenha entendido errado — eu não conheço todas as circunstâncias.
— O senhor entendeu certo, — disse Olga.
— Ou certo o bastante para que eu ainda tivesse tempo de ler.
— Então tudo bem, — disse ele simplesmente.
Ela saiu para o corredor.
Passou pelas macas, pela televisão do saguão, pela porteira.
Lá fora nevava — aquela neve miúda, a primeira.
Olga parou nos degraus da entrada e ergueu o rosto para a neve.
Frio.
Bom.
Depois pegou o telefone e ligou para Tanya.
— Tanyusha, você está livre?
Preciso conversar.
Vou te contar tudo desde o começo.
— Venha, — disse Tanya.
— Já estou colocando a chaleira no fogo.
Naquela noite Olga também demorou a dormir.
Mas era uma insônia diferente — não ansiosa, e sim reflexiva.
Ela ficou deitada pensando que tinha quarenta e quatro anos e que, nesses anos, tinha aprendido muita coisa: cozinhar, economizar, criar os filhos, aguentar firme quando as coisas ficam difíceis.
Mas nunca tinha ensinado a si mesma a ler documentos.
Que estranho, pensou ela.
Nós ensinamos às crianças tudo — a tabuada, as regras de trânsito, como se comportar com estranhos.
Mas ninguém diz a elas: leia aquilo que você assina.
Preste atenção.
Pergunte, se não estiver claro.
A mãe dela nunca tinha dito isso.
E ela mesma nunca tinha dito isso às crianças.
Amanhã dirá.
Kolya recebeu alta dez dias depois.
Olga foi buscá-lo no hospital — de carro, porque ele ainda andava com dificuldade.
Foram para casa quase em silêncio, só uma vez Kolya disse:
— Mamãe ficou ofendida.
— Eu sei, — disse Olga.
— Vou ligar para ela.
Vou explicar.
— Explicar o quê?
— Que eu a amo e que vamos resolver a questão da datcha de forma humana — com um contrato normal de doação, sem pressa.
Mas o apartamento — isso não está em discussão.
Kolya olhava pela janela.
— Ela acha que você não a respeita.
— E eu acho que ela simplesmente tem muito medo de ficar sem nada na velhice.
É um medo compreensível.
Mas isso não significa que se possa tirar a moradia dos netos.
— Ela não queria tirar dos netos.
Ela queria para si.
— Kolya, — disse Olga.
— Isso é a mesma coisa.
Ele ficou em silêncio de novo.
Depois, já quase em casa, disse em voz baixa:
— Eu não pensei que isso fosse tão sério.
O Vitya disse que era um procedimento comum.
— O Vitya disse a você o que você queria ouvir.
— Talvez.
— E você decidiu que eu assinaria sem ler.
Longa pausa.
— Sim, — disse enfim Kolya.
Em voz baixa, sem entonação.
Olga assentiu.
Estacionou o carro.
Desligou o motor.
— É isso que nós precisamos resolver, — disse ela.
— Não os documentos.
Isso.
Eles saíram do carro.
Subiram de elevador.
Kolya se apoiava na parede — ainda fraco.
Olga andava ao lado dele e não o segurava — ele não pediu, e ela sabia que não precisava.
As crianças os receberam no hall de entrada.
Masha se pendurou no pescoço do pai, Artyom disse “oi” e apertou-lhe a mão, um pouco constrangido — está crescendo.
Kolya abraçou a filha e olhou por cima da cabeça dela para Olga.
Ela segurava o casaco dele nas mãos.
Olhava para ele.
Vinte e dois anos.
E ainda havia tanta coisa pela frente sobre a qual precisavam conversar.
Uma semana depois, ela escreveu para Gennady — encontrou-o por meio de uma conhecida em comum, a vizinha do andar, que acabou sendo cunhada dele — e escreveu simplesmente: «Gennady, aqui é Olga do quarto doze.
Queria agradecer mais uma vez.
Está tudo bem.
O apartamento continua no lugar».
Ele respondeu no dia seguinte: «Fico feliz em saber.
Cuide-se».
Olga sorriu e guardou o telefone.
Lá fora era dezembro.
A neve já tinha se assentado — de verdade, de inverno.
As crianças faziam a lição de casa na cozinha, e dava para ouvir Masha discutindo com Artyom por alguma coisa sem importância, e Kolya dizendo algo a eles do quarto, e tudo isso era normal, acolhedor e completamente diferente do que poderia ter sido, se naquele dia, no corredor, ela não tivesse parado.
Se o homem de barba não a tivesse chamado.
Se ela não tivesse lido.







