Nós demos o apartamento para a sua irmã! — declarou a mãe, que durante anos viveu às minhas custas.

Mas o sorriso descarado dos parentes desapareceu quando coloquei diante deles um processo.

— E você ficou calada? — disse Inga, parada ao lado da pia, com os braços mergulhados até os cotovelos na espuma de sabão.

O jantar festivo em homenagem ao jubileu do pai tinha terminado havia meia hora.

Os convidados já tinham ido embora, e a família, como de costume, tinha deixado uma montanha de pratos sujos para a filha mais velha.

Sentada à mesa, enquanto terminava os restos do bolo Napoleão, estava a irmã mais nova, Vika.

Ao lado dela, largado com ar arrogante no encosto da cadeira e mexendo nos dentes com um palito, estava sentado o seu marido, Lênia.

A mãe, Tamara Petrovna, se agitava com a chaleira, tentando não olhar para Inga.

— E o que havia para dizer? — Vika deu de ombros, lambendo o creme da colher.

A questão já está decidida, eu e Lênia já até encontramos a equipe de operários.

Vamos derrubar as paredes, ampliar o quarto das crianças.

Afinal, nós somos quatro, precisamos mais.

Inga secou as mãos com uma toalha de papel.

Amassou-a e jogou no cesto de lixo.

— O apartamento da vovó, — disse ela.

Aquele em que, há dois anos, eu fiz uma reforma completa com o meu dinheiro.

E durante cinco anos paguei as contas de serviços, porque “a Vika tem hipoteca, está difícil para ela”.

Vocês passaram tudo para o nome dela?

O pai, Gennádi Ilitch, sentado à cabeceira da mesa, ajeitou os óculos.

— Inga, não comece.

A Vika é a mais nova, tem filhos.

E você é uma mulher independente, tem carro, um bom cargo.

Para que você precisa de um segundo apartamento?

Vai pôr sal neles?

— Nós já fizemos a escritura de doação, há uma semana, — acrescentou depressa a mãe, sorrindo com culpa.

Não queríamos te preocupar antes do relatório trimestral.

Você está sempre ocupada.

Inga olhava para aquelas pessoas cujos problemas ela tinha resolvido nos últimos anos.

Dentista para a mãe?

Inga.

Estância termal para o pai?

Inga.

Preparar Vika para a maternidade?

Inga.

Desviou o olhar para a irmã.

Vika estava sentada com a expressão de uma vencedora que ganhou o prêmio máximo sem nem comprar um bilhete de loteria.

Lênia sorria com deboche, olhando para o telefone.

— Então vocês decidiram isso pelas minhas costas, — disse ela em tom afirmativo.

E então a mãe pronunciou a frase, abrindo os braços.

— Ah, nós pensávamos que para você tanto fazia!

Você nunca pede nada, então isso quer dizer que não precisa de nada.

Inga olhou para a montanha de pratos sujos.

— Não preciso de nada, é isso? — repetiu.

Está bem.

Pegou a sua bolsa da cadeira.

— Inga, aonde você vai?

E a sobremesa?

E a louça? — gritou a mãe.

Nós ainda nem terminamos o bolo!

— A louça será lavada pela dona de dois apartamentos, — disse, calçando os sapatos.

Saiu do apartamento, fechando a porta atrás de si.

Nas duas semanas seguintes, Inga não atendeu o telefone.

No chat da família reinava a histeria.

“Inga, você ficou magoada?” — escrevia a mãe.

“Que ridículo, uma mulher adulta se comportando como adolescente.

Atenda o telefone, precisamos decidir quem vai levar o papai ao cardiologista” — digitava Vika.

Inga lia as mensagens por alto, sentada no escritório da tabeliã.

Sobre a mesa diante dela estavam pastas com recibos, contratos de empreitada e extratos bancários dos últimos três anos.

— As chances são excelentes, — Nadejda Sergueievna, uma mulher de olhar penetrante, bateu a caneta na mesa.

A senhora investiu um milhão e meio de rublos na reforma de um apartamento que não lhe pertence.

Mais os pagamentos mensais.

Isto é um clássico enriquecimento sem causa do proprietário.

Como os proprietários, no momento da reforma, eram os seus pais, a ação será contra eles.

Mas como eles doaram o apartamento à sua irmã…

— Eu não quero processar meus pais por dinheiro, — interrompeu Inga.

Eu preciso de uma armadilha jurídica para a minha irmã.

— Então agiremos segundo o plano B, — assentiu a advogada.

Se eles quiserem manter a doação válida e evitar uma ação de um milhão e meio de rublos, que atingirá em cadeia também o negócio, terão de aceitar as suas condições.

— Prepare os papéis, — disse Inga.

A vingança veio de onde ninguém esperava.

Três dias depois, o pai teve uma crise hipertensiva.

Nada mortal, mas eram necessários internação, cuidados e medicamentos caros.

O telefone não parava de tocar.

40 chamadas perdidas da mãe.

15 de Vika.

Inga estava sentada em um café, bebia um latte e olhava para o smartphone.

Ela sabia: naquele momento eles estavam procurando a “filha conveniente”, aquela que correria, falaria com os médicos e compraria tudo conforme a lista.

Escreveu uma única mensagem no chat em grupo.

“Estou em viagem de trabalho.

Sem sinal.

Resolvam tudo com a sua irmã.”

O escândalo explodiu uma semana depois, quando o pai recebeu alta.

Inga marcou um encontro na sala de reuniões do seu escritório.

Um ambiente oficial derruba a arrogância melhor do que qualquer grito.

A família entrou, Vika estava vermelha de raiva, Lênia sacudia o ombro nervosamente, a mãe chorava.

O pai, apoiado em uma bengala, olhava para o chão.

— Você… é um monstro! — guinchou Vika da porta.

O papai estava passando mal!

Lênia teve de pedir dispensa no trabalho, cortaram o bônus dele!

Você ao menos entende isso?!

— Entendo, — respondeu Inga com calma, apontando para as cadeiras.

Sentem-se, a conversa será curta.

— Que conversa? — interrompeu Lênia.

Você tem que dar dinheiro!

Você é rica, não tem nem filhos nem preocupações!

Inga colocou sobre a mesa uma pasta grossa.

— Aqui dentro, — começou ela, — está a petição inicial ao tribunal.

Para cobrar dos cidadãos Voronov, ou seja, dos meus pais, a quantia de 1.540.000 rublos a título de enriquecimento sem causa.

Este é o custo da reforma do apartamento da vovó, com todos os recibos de materiais e serviços.

Mais os juros pelo uso de dinheiro alheio.

O silêncio caiu sobre a sala.

Tamara Petrovna empalideceu, levando a mão ao coração.

— Você… vai processar a sua mãe? — sussurrou o pai.

— Eu vou recuperar o que é meu, — cortou Inga.

Vocês disseram que eu nunca peço nada.

Agora eu exijo.

Assim que a ação for protocolada, será decretada a penhora do apartamento que vocês deram à Vika, como bem envolvido na disputa.

Vamos contestar a doação como simulada, feita com o objetivo de fugir das dívidas.

— Você não vai se atrever, — sibilou Vika.

Essa é a minha casa!

— É uma casa na qual eu investi um milhão e meio, — Inga abriu uma segunda pasta.

Mas estou pronta para um acordo, agora mesmo.

Apontou para um documento com selo notarial.

— O que é isso? — perguntou Lênia, desconfiado.

— É um acordo notarial de prestação de alimentos e manutenção dos pais.

As partes são: Viktória Leonídovna e os pais.

Inga levantou-se e aproximou-se do quadro branco.

— Vamos fazer as contas.

O apartamento vale cerca de 10 milhões.

Nos últimos 5 anos eu investi na família cerca de 3 milhões.

Vocês receberam um patrimônio, eu recebi… a frase “você não precisa”.

A justiça não aconteceu sozinha, então tive de assumir a situação nas minhas mãos.

Olhou para a irmã.

— Vika, você assina este acordo.

Nele está previsto que você se compromete a pagar mensalmente aos pais uma quantia correspondente a dois mínimos de subsistência para cada um, além de pagar integralmente o tratamento deles, os serviços públicos e contratar uma cuidadora, se necessário.

Esse é o preço do apartamento que você recebeu de presente.

— Eu não vou assinar isso! — gritou Vika.

Eu não tenho dinheiro!

Eu tenho filhos!

— Então amanhã de manhã eu entro com a ação, — Inga fechou a trava da pasta.

O tribunal anulará a doação, devolverá o apartamento à propriedade dos pais para que eles possam me pagar pela reforma.

O apartamento terá de ser vendido, e vocês dividirão o restante.

Escolha: ou o apartamento é seu, mas você cuida completamente dos pais até o fim da vida deles, com obrigação juridicamente vinculante, ou você perde o apartamento.

Lênia arrancou o contrato, os olhos dele corriam pelas linhas.

— Vik… aqui está prevista a correção monetária… e a obrigação de levá-los ao sanatório uma vez por ano… — murmurou, começando a suar.

— Exatamente, — assentiu Inga.

Os pais estão envelhecendo, precisam de cuidados, antes era eu quem fazia isso de graça e voluntariamente.

Vocês decidiram entrar no paraíso às minhas custas e fazer da Vika a herdeira.

Agora tudo é justo.

A herdeira recebe tanto os ativos quanto os passivos.

— Filha, como assim… — chorou a mãe.

Nós somos da mesma família…

Inga olhou para a mãe.

— Pessoas da mesma família não transferem imóveis pelas costas dos outros, mãe.

Inga apertou o botão do interfone.

— Nadejda Sergueievna, traga o notário, eles estão prontos para assinar.

Vika chorava desesperada, borrando o rímel pelo rosto.

Lênia estava sentado vermelho como um pimentão, entendendo que a “casa de graça” tinha se transformado em uma hipoteca do tamanho da vida dos pais.

O pai procurava os óculos com a mão trêmula.

Mas eles assinaram.

Um mês depois, o pai fez 70 anos, Inga não foi convidada, mas também não esperava ser.

O telefone emitiu um bipe.

Ela desbloqueou a tela.

Uma mensagem de Vika no chat em grupo, que Inga nunca tinha deixado, mantendo-o como lembrança.

“Mãe, este mês eu não posso dar dinheiro para os remédios!

Cortaram o salário do Lênia!

Que a Inga dê!”

Logo em seguida chegou uma mensagem da mãe.

“Vika, você assinou o acordo.

Se você não transferir o dinheiro, a Inga disse que mandará os oficiais de justiça.

Não temos escolha, filha.

Se vira.”

Inga sorriu.

O bumerangue tinha voltado.