Aleksandra estava voltando para casa às sete e meia da noite, quando a cidade já havia mergulhado de vez na escuridão outonal.
Ela caminhava desde o ponto de ônibus mais devagar do que de costume, não porque estivesse cansada, mas porque não tinha pressa.

Em casa a esperava aquilo com que ela não conseguia se acostumar de jeito nenhum nos últimos dois meses.
Lá estava Vika.
Ela parou diante da entrada do prédio e olhou para as janelas escuras do terceiro andar.
A cozinha estava iluminada.
Isso significava que havia alguém ali.
Muito provavelmente, Vika estava preparando alguma coisa para si mesma ou, mais provavelmente ainda, terminando de comer o que Aleksandra havia preparado pela manhã.
Ela inspirou o ar frio.
Viktoria Kulikova.
Vinte anos.
Filha de Anatoli do primeiro casamento.
Até setembro daquele ano, era apenas um nome em documentos antigos, uma pessoa cuja existência Aleksandra conhecia, mas que mantinha cuidadosamente em algum lugar na periferia da consciência.
Em algum lugar distante, em outra cidade, em outra vida.
E então Anatoli ligou do trabalho, com a voz culpada, como a de um menino que quebrou uma janela.
— Sacha, aconteceu uma coisa… A Vika escreveu.
Ela veio para a nossa cidade para tentar entrar na faculdade, está entregando os documentos.
Disse que não tem onde ficar.
Eu pensei…
— Não, — disse Aleksandra na hora, sem deixá-lo terminar.
— Sacha.
— Tolia, não.
Mas ele a convenceu.
Ele sabia convencer — em voz baixa, com paciência, com olhos culpados.
Falava de laços de sangue, de que afinal ela não tinha culpa de nada, de que seria temporário, só até entrar e se mudar para o alojamento estudantil.
Dizia que Sacha era bondosa, que ela entenderia, que era o certo.
Tudo começou não tão mal.
A primeira semana passou quase em paz: Vika era quieta, educada, chamava Sacha pelo nome e patronímico, lavava a própria louça.
Anatoli brilhava.
De repente, ele começou a chegar mais cedo em casa, ficou mais atencioso — não com a esposa, mas com a filha — e Aleksandra dizia a si mesma que isso era normal, que ele estava compensando o tempo perdido, que essas coisas aconteciam.
Igor, o filho deles, ficava em silêncio.
Ele tinha quatorze anos e sabia ficar em silêncio de um jeito que soava mais alto do que qualquer palavra.
Aleksandra percebia como ele evitava a cozinha quando Vika estava lá, como se trancava no quarto com os fones de ouvido, como olhava para o pai com aquele desprezo adolescente especial em que se lia algo muito adulto e muito magoado.
— Igoriocha, como você está? — perguntava Aleksandra, espiando o quarto dele à noite.
— Normal, — respondia ele, sem tirar os fones.
Normal.
Essa palavra havia se tornado na casa deles a resposta universal para todas as perguntas.
Na segunda semana, Vika pediu dinheiro ao pai.
Diretamente, no corredor, diante de Aleksandra, com descaso, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Anatoli meteu a mão no casaco, e Aleksandra foi para a cozinha para não ver como ele tirava a carteira.
Na terceira semana, Vika pediu de novo.
Desta vez era para os estudos — alguns materiais, alguns livros.
Depois, na quarta semana, já era simplesmente assim, “para poder andar pela cidade direito”, “para não ficar em casa”.
Anatoli dava.
Ele não sabia recusar nada àquela garota com os mesmos olhos cinzentos que os dele, nos quais havia algo parecido com censura.
— Você entende que ela está usando você? — disse Aleksandra certa noite, quando ficaram sozinhos na cozinha.
— Sacha, não começa.
— Eu não estou começando.
Só estou perguntando.
— Ela é minha filha.
— Eu sei que ela é sua filha, Tolia.
Eu não esqueci.
Todo dia me lembram disso.
Ele a olhou com a expressão que ela odiava — com uma leve censura e um leve cansaço, como se fosse ela o problema dessa história.
— Você poderia ser um pouco mais gentil.
Aleksandra não respondeu.
Serviu-se de chá e foi para o quarto.
O pior de tudo era com Igor.
Vika parecia escolhê-lo de propósito como alvo — ou talvez simplesmente não percebesse como o comportamento dela afetava um menino de quatorze anos em cuja vida de repente havia aparecido uma irmã mais velha que ele não tinha chamado e que agora ocupava metade do espaço a que ele estava acostumado.
Ela pegava as coisas dele sem pedir.
Uma vez pegou os fones e devolveu com a haste rachada — disse que eles tinham quebrado sozinhos.
Outra vez entrou no quarto dele atrás de um carregador e revirou toda a mesa.
Quando ele reclamava, ela olhava para ele com aquele semicerrar condescendente dos olhos, típico de quem sabe fingir que tudo o que acontece está abaixo da própria dignidade.
— Igor, não brigue com sua irmã, — dizia Anatoli.
— Ela não é minha irmã, — respondia Igor baixinho e saía.
Toda vez Sacha sentia algo apertar dentro dela.
Nem era de raiva — era de impotência.
Ela via desmoronar o equilíbrio que ela e Tolia haviam construído durante anos.
Lentamente, com paciência, através de brigas e reconciliações — haviam construído.
E agora essa estrutura estava se rompendo pelas costuras, e ao que parecia ninguém, além dela, percebia isso.
Ou não queria perceber.
No começo de novembro, Vika anunciou que precisava de um telefone novo.
O antigo, como ela dizia, “já não dava conta” — os aplicativos travavam, a câmera falhava, e no geral aquilo já era até constrangedor.
— Pai, você entende, isso é importante.
Para os estudos, para manter contato, para tudo.
Anatoli entendia.
Anatoli assentia.
Anatoli disse: “Vamos ver”.
Naquela mesma noite, ele disse a Aleksandra que havia prometido um telefone a Vika.
Que ela logo receberia um prêmio no trabalho, e ele pensou que eles poderiam…
— Não, — disse Aleksandra.
— Sacha.
— Tolia, não.
Esse prêmio é meu.
Fui eu que o ganhei.
— Ninguém está discutindo isso.
Só que…
— Só que o quê?
Ele se calou.
Ela também.
Ficaram no quarto olhando para além um do outro.
O dia em que tudo se quebrou de vez foi uma quinta-feira comum.
Aleksandra recebeu o prêmio.
Ela sabia que Anatoli estava esperando por isso — ele havia perguntado na véspera exatamente quando seria, e ela tinha visto nos olhos dele aquela faísca ruim, calculista.
Ela não disse nada, apenas deu de ombros.
No trabalho foi um dia comum — tabelas intermináveis, uma reunião que se estendeu uma hora além do normal, café frio em copo de papel.
Na hora do almoço, ela passou no banco e transferiu parte do dinheiro para uma conta separada — aquela sobre a qual não tinha falado com Tolia.
Simplesmente porque sentiu: era preciso.
Ela chegou em casa por volta das sete e meia.
No hall estavam as botas de Vika — então a filha estava em casa.
Do quarto de Igor não vinha nenhum som.
Na cozinha a luz estava acesa.
Aleksandra tirou o casaco, pendurou a bolsa.
Ela ainda não tinha conseguido nem respirar fundo quando Anatoli apareceu no corredor.
Ele tinha acabado de chegar — nem havia tirado o sobretudo, as bochechas vermelhas do frio.
E logo na entrada, sem cumprimentá-la, sem olhar nos olhos dela, ordenou:
— O prêmio na mesa!
Ele disse aquilo com aquela entonação especial de dono da casa que Aleksandra, em catorze anos de vida em comum, ouvira poucas vezes, mas que todas as vezes a cortava por dentro.
Exigente.
Curta.
Como se fosse algo natural, óbvio — que ela chegasse e colocasse diante dele o dinheiro que havia ganhado sozinha, com seus nervos, com suas horas.
Ela ficou parada no hall, olhando para ele.
— O quê? — disse ela baixinho.
— Ora, Sacha, você recebeu hoje.
Eu prometi um telefone para a Vika, ela está esperando.
Vamos não enrolar.
— Você me deu uma ordem, — disse Aleksandra.
— Você acabou de entrar em casa e me deu uma ordem para trazer dinheiro.
— Eu não dei ordem.
Eu pedi.
— Você disse “na mesa”.
Ele fez uma careta — leve, quase imperceptível — e esse movimento, essa expressão instantânea de aborrecimento por ela estar se prendendo às palavras, foi a gota d’água.
Não a primeira gota, nem uma grande onda — justamente a última, pequena, a que já não havia mais onde caber.
— Tolia, — disse Aleksandra, e a voz dela estava muito calma, o que por si só já era um mau sinal, — vá para a cozinha.
— Sacha…
— Vá para a cozinha.
Eu já vou.
Ela ficou um momento sozinha no hall, encostada na parede.
Respirava.
Contava em silêncio.
No quarto, atrás da parede fina, Igor ouvia alguma coisa baixinho nos fones.
Da cozinha vinha a voz de Vika — ela falava ao telefone, ria.
Viva, despreocupada, estranha.
Aleksandra se afastou da parede e foi para a cozinha.
Ao ver a madrasta, Vika encerrou rapidamente a conversa e estendeu a mão para a própria caneca.
Anatoli estava de pé junto à janela, olhando para o pátio.
Aleksandra parou no meio da cozinha.
— Então é o seguinte, — disse ela.
— Vou dizer uma vez só, e quero que os dois me escutem.
Anatoli se virou.
Vika levantou os olhos.
— Eu trabalho.
Eu trabalho todos os dias, e o dinheiro que eu ganho é meu dinheiro.
Não é nosso, não é seu, — ela olhou para Anatoli, — é meu.
Eu decido em que gastar.
Você, — ela não levantou a voz, mas havia nela algo metálico, — não vai me dar ordens para trazer dinheiro para a mesa.
Nunca.
Você entendeu?
— Sacha, eu não…
— Eu não terminei.
— Ela expirou.
— Vika, eu não sei o que seu pai lhe disse, mas não vai haver telefone nenhum.
Não porque eu tenha dó.
Mas porque eu cansei.
Cansei de a minha casa ter virado uma passagem, de alguém mexer nas coisas do meu filho, de a cada duas semanas alguém pedir alguma coisa, exigir alguma coisa, esperar alguma coisa.
Cansei.
Vika a olhava com aquele mesmo semicerrar de olhos — frio, levemente ofendido.
Anatoli abriu a boca.
— Sacha, você está sendo injusta.
— É mesmo? — ela o olhou longamente.
— Tolia, você chegou em casa e a primeira coisa que me disse depois de um dia inteiro de trabalho foi: “O prêmio na mesa”.
Não “oi”, não “como você está?”, não “você está cansada?”.
Prêmio.
Na mesa.
Como para uma caixa.
Ele se calou.
Algo mudou no rosto dele — ela viu como ele estava percebendo o que acabara de dizer e como aquilo não lhe agradava.
Não porque ele fosse mau.
Mas porque estava cansado e queria resolver a questão depressa, e não pensou.
Simplesmente não pensou.
Mas ela já não conseguia parar.
— Vika, arrume suas coisas.
— Aleksandra se voltou para a moça.
— Não tudo, só o necessário para agora.
Você não mora mais aqui.
— Pai, — disse Vika imediatamente, e na voz dela havia exatamente aquela entonação — a de uma criança ofendida acostumada a que o pai resolva tudo.
— Sacha, espera, — Anatoli deu um passo à frente.
— Isso é demais…
— Tem um bom hostel perto da estação, — continuou Aleksandra no mesmo tom.
— Ou vocês dois podem pegar um trem e ir para a casa da sua mãe.
Eu não sei.
Essas são as opções de vocês, e vocês escolhem.
Mas esta noite, não aqui.
— Você está expulsando nós dois?
— Você, não, — disse ela.
— A você eu peço que saia por uma noite, até que eu volte a mim.
A ela eu peço que encontre outro lugar para morar.
São coisas diferentes.
O silêncio na cozinha ficou denso.
Vika foi a primeira a se levantar.
Saiu para o quarto em silêncio, sem bater a porta, e isso foi quase mais assustador.
Dava para ouvir o zíper da bolsa.
Anatoli ficou parado olhando para a esposa.
Ele parecia como se o chão sob seus pés tivesse cedido um pouco — não desabado, mas balançado o suficiente para ele entender que o solo não era tão firme quanto parecia.
— Sachenka, — disse ele baixinho, e esse “Sachenka” a feriu — tarde demais, suave demais.
— Não, — disse ela.
— Agora não.
Vika foi para a casa de uma amiga.
Isso ficou claro meia hora depois, quando ela saiu com a bolsa e disse ao pai, no hall, que passaria a noite na casa de Nastia, que estava tudo bem, que não precisava acompanhá-la.
Ela não se despediu de Aleksandra.
Apenas fechou a porta atrás de si.
Anatoli ficou no hall por mais uns dez minutos.
Aleksandra o ouvia andar de um lado para o outro, de um lado para o outro, pegar o telefone, guardar, pegar de novo.
Depois ele bateu na porta da cozinha, embora ela estivesse aberta.
— Posso entrar?
Ela não respondeu.
Ele entrou.
— Passei dos limites, — disse ele.
— Eu entendo.
Eu não devia ter falado daquele jeito.
Aleksandra estava sentada à mesa com uma xícara de chá — já frio — e olhava pela janela.
— Estou cansado, — continuou ele.
— Eu… eu queria resolver isso rápido.
A Vika estava pressionando, eu prometi, e eu só pensava em encerrar esse assunto.
Não pensei em como isso soaria.
— Não pensou, — repetiu ela.
— Sacha…
— Tolia, eu estou ouvindo você.
— Ela se virou e olhou para ele — com atenção, cansada.
— Eu ouço que você entendeu.
Mas você entendeu isso agora, depois que aconteceu.
E eu preciso de tempo para… não sei.
Só tempo.
— Eu posso sair.
— Cuide da Vika.
Veja se ela chegou bem.
Ele assentiu.
Ficou ali mais um pouco, como se esperasse alguma coisa — uma palavra, um gesto, uma permissão.
Aleksandra voltou a olhar pela janela.
Ele foi embora.
Igor apareceu na cozinha quinze minutos depois.
Parou na porta — já alto, quase da altura dela — e olhava para a mãe com aquela expressão complexa em que se misturavam alívio e preocupação.
— Mãe.
— Vem cá, — disse ela.
Ele se sentou ao lado dela.
Ela não o abraçou — ele já havia saído da idade em que se abraça assim, sem mais nem menos — apenas ficou sentada ao lado dele, e isso bastava.
— Ela foi embora? — perguntou ele.
— Foi.
— Para sempre?
Aleksandra pensou.
— Não sei.
Provavelmente não.
Mas aqui com a gente ela não vai mais morar.
Igor ficou em silêncio.
Depois disse:
— Ela pegou meus fones.
— Eu sei.
— Não, quero dizer que ela pegou hoje de manhã.
Eu não falei.
Aleksandra olhou para o filho.
Ele olhava para a mesa.
— Por que não falou?
— Porque você já estava… — ele deu de ombros.
— Cansada.
Dava para ver.
Ela sentiu algo apertar na garganta.
Quatorze anos.
Ele via que ela estava cansada e a poupava de mais um peso.
Um menino de quatorze anos a poupava.
— Igor, — disse ela.
— Você sempre pode me contar.
Sempre.
— Tá bom, — disse ele.
— Mãe, você quer comer?
Eu esquento.
Ela quase riu — e só não riu porque o riso teria se transformado em outra coisa.
— Esquenta, — disse ela.
— Obrigada.
Anatoli escreveu à meia-noite.
Apenas: “Ela está na casa da amiga, está tudo bem.
Eu estou na casa do Siórioja.
Me perdoa”.
Aleksandra leu e deixou o telefone de lado.
Me perdoa.
Uma palavra tão curta.
Tão simples no papel.
Ela ficou deitada no escuro pensando que não guardava rancor dele.
Ela o entendia.
Entendia que ele não era um vilão, nem um egoísta — apenas uma pessoa que queria agradar a todos ao mesmo tempo e calculou mal.
Que tinha tanto medo de perder a filha que acabara de reencontrar, que deixou de enxergar a esposa.
Que disse “o prêmio na mesa” sem ouvir como isso soava.
Mas entender não significa perdoar.
Não imediatamente.
Não naquela mesma noite.
Ela respondeu: “Boa noite”.
Não “eu perdoo”.
Não “volta”.
Apenas: boa noite.
Por enquanto, aquilo bastava.
De manhã, ela se levantou antes de Igor, fez café e ficou à janela olhando o pátio se encher de gente.
Alguém passeava com o cachorro.
Alguém carregava uma sacola de compras.
A vida seguia em frente, impassível, sem pedir licença.
O telefone estava sobre a mesa, com a tela virada para baixo.
Ela sabia que Anatoli ligaria naquele dia.
Que viria com o rosto culpado e as palavras certas, e que ela, muito provavelmente, o ouviria.
Porque catorze anos não são pouca coisa.
Porque existe Igor.
Porque ela não é do tipo que corta de uma vez e não olha para trás.
Mas antes, o café.
Antes, o silêncio no apartamento, em que não havia botas estranhas no hall nem risadas estranhas na cozinha.
Apenas silêncio, o dela e o de Igor, familiar e vivo.
Ela tomou um gole.
Lá fora, alguém ria.
O outono já estava quase se rendendo — as folhas tinham caído, e as árvores estavam nuas, retas, honestas.
Sem enfeites desnecessários.
Apenas o que existe.







