— Mãe, passe a manteiga no pão, não coloque em pedaços.
Isto é “Vologodskoe”, oitenta e dois por cento de gordura, não uma margarina qualquer.

Eu fui especialmente àquela loja da esquina para comprá-la, porque lá tinha chegado remessa fresca.
Na nossa casa, é costume valorizar os alimentos, não desperdiçá-los.
Stanislav ameaçou a sogra, Valentina Petrovna, com o garfo em tom de lição moral e, em seguida, espetou do prato o maior e mais dourado pedaço de frango.
Na cozinha apertada do pequeno apartamento de dois cômodos pairava um cheiro pesado e penetrante de cebola frita e de aromatizador barato “Brisa do Mar”.
O teto baixo parecia pressionar o alto da cabeça, e a velha geladeira “Saratov”, no canto, rosnava como um cão de guarda, abafando os sons da rua.
Kristina estava sentada em frente à mãe, perfeitamente ereta, usando uma blusa branca de escritório que custava mais do que todos os móveis daquela cozinha juntos.
Observava em silêncio o marido servir vinho nas taças a partir de uma caixa de papelão, segurando-a com as duas mãos como se fosse uma safra de coleção.
Seu rosto brilhava de calor e autossatisfação.
Ele era o rei daqueles seis metros quadrados, o senhor do fogão a gás e o soberano dos banquinhos.
— Eu só… é que está muito gostoso, Stasik, — disse Valentina Petrovna, espalhando a manteiga em uma camada fina e transparente, com ar culpado.
Ela sempre se intimidava diante do genro.
Para ela, que passara a vida inteira no campo, um homem da cidade que tinha apartamento próprio, ainda que herdado da avó, era automaticamente elevado à categoria de santo.
— Gostoso, claro, — assentiu Stanislav, levando um pedaço de pão à boca.
— Porque eu sei escolher.
A Kristina vive trazendo qualquer bobagem: essa rúcula amarga, queijo com mofo, que gente normal jogaria fora.
Mas homem precisa de carne.
Precisa de substância.
A senhora entende, mãe.
Mas a sua filha…
Fez um gesto desdenhoso com a mão na direção da esposa, sem sequer olhar para ela.
Kristina tomou um gole d’água.
Não quis beber o vinho — sabia que depois teria dor de cabeça e ficaria com um gosto azedo na boca.
— Hoje fechei um acordo com parceiros chineses, — disse Kristina, com voz uniforme, olhando para o prato.
— A empresa vai entrar em um novo nível de fornecimento.
O bônus será… substancial.
Stanislav soltou um resmungo alto, interrompendo-a no meio da frase.
Limpou os lábios com um guardanapo de papel, dobrou-o cuidadosamente e o colocou ao lado do prato — para usar uma segunda vez, se fosse preciso.
— Ela fechou um acordo, — imitou ele, dirigindo-se à sogra.
— Ouviu, mãe?
Fica sentada no seu aquário de vidro, mexendo papéis, tagarelando no telefone.
“Hello, nihao”.
Deve estar cansadíssima, coitada, não é?
Eu hoje passei meio dia na obra discutindo com o mestre de obras, trouxeram cimento da marca errada.
Isso sim é trabalho.
Isso sim são nervos.
O seu é só diversão para meninas.
— Eu dirijo o departamento de logística, Stas.
Isso é responsabilidade por cargas de milhões, — a voz de Kristina era fria, desprovida de emoção.
Ela já havia parado, há muito tempo, de tentar provar a ele a própria importância.
Agora apenas registrava os fatos, como um gravador.
— Ah, deixa disso! — Stanislav recostou-se no encosto da cadeira, que rangeu em protesto sob seu peso.
— Ela tem um departamento.
Se não fosse por mim, onde você estaria agora?
Lembra disso.
Serviu mais vinho para si mesmo, despejou um pouco para a sogra e ignorou a taça vazia da esposa.
Os olhos dele brilharam com aquele brilho específico que aparecia quando ele se preparava para cavalgar seu passatempo favorito — a história do “salvamento” dos dois.
— A senhora, Valentina Petrovna, talvez não conheça todos os detalhes, — começou ele em tom confidencial, inclinando-se para a mesa.
— Kristina não vai contar, ficou orgulhosa demais.
Mas eu me lembro.
Cinco anos atrás.
Ela chegou à cidade sem eira nem beira.
Alugava um canto na casa de uma velha maluca, alimentava baratas.
Os sapatos eram de feira, a jaqueta parecia feita de pele de peixe.
Dava pena olhar.
Kristina apertou a haste da taça d’água com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Eu morava em um alojamento para pós-graduandos, Stas.
E já fazia estágio em uma empresa internacional.
— Num alojamento! — exclamou Stanislav triunfante, batendo a palma da mão na mesa.
Os garfos tilintaram.
— Exatamente!
Num pardieiro!
Lembro que no nosso encontro você apareceu com jeans gastos nos joelhos.
Não porque fosse moda, mãe, mas porque você não tinha dinheiro para comprar outros novos.
Estava faminta, com olhos de cachorro espancado.
Eu entendi na hora: sem a mão de um homem, essa garota ia se perder.
Ele fez um gesto em volta da cozinha, forrada com papel de parede lavável imitando tijolo, que já começava a descolar nos cantos desde o ano anterior.
— Fui eu que a trouxe para cá.
Acolhi.
Pode-se dizer que a lavei.
Eu disse: mora aqui, Kristina.
Aproveita.
Aqui é quente, a água quente nunca falta, tem gás.
Claro que não fiz o registro dela logo de cara — a senhora entende, são tempos assim, não se pode confiar em ninguém — mas deixei que morasse aqui.
Por pena, basicamente.
Valentina Petrovna assentia, olhando devotamente para a boca do genro.
Não via o rosto rígido da filha, não percebia como as mandíbulas dela estavam cerradas.
Para a mãe, aquele relato soava como um conto sobre um cavaleiro nobre que salvara uma moça sem dote.
— Você está exagerando, — disse Kristina em voz baixa.
— Estou constatando fatos! — cortou Stanislav.
— Quem comprou seu primeiro casaco de inverno decente?
Eu.
Quem explicou a você como se vive numa cidade grande?
Eu.
Você era uma selvagem.
E agora, veja só: “departamento”, “chineses”.
Não se esqueça de onde saiu e a quem deve o fato de hoje andar de carro e vestir conjuntinhos elegantes.
Fui eu que lancei os alicerces.
Meu apartamento foi a sua plataforma de lançamento.
Ele olhou para a esposa com ar vitorioso, esperando o silêncio de sempre ou justificativas frouxas.
Gostava daquela sensação de poder.
Fora daquelas paredes, era apenas um fornecedor mediano, levado no grito pela chefia, mas ali, entre panelas de esmalte lascado e linóleo gasto, era um benfeitor.
Kristina pousou lentamente o garfo.
O som do metal contra a faiança soou inesperadamente alto.
Olhou para o marido com o olhar com que normalmente demitia funcionários incompetentes.
Naquele olhar não havia mágoa.
Havia cálculo.
Uma auditoria fria, final.
— Terminou a excursão ao passado? — perguntou ela.
— O quê, a verdade dói? — zombou Stanislav, espetando com o garfo um pepino em conserva do pote.
— Não gosta de lembrar como eu a tirei da lama?
— Você nunca soube distinguir lama de dificuldades temporárias, Stas, — disse Kristina, e pela primeira vez sua voz trouxe notas metálicas, daquelas que costumavam fazer subordinados se calarem na sala de reuniões.
— Mas hoje você se superou.
Ela se levantou da mesa.
A cadeira não rangeu — ela a afastou erguendo-a ligeiramente.
— Aonde vai?
Ainda nem servi o chá.
Temos bolo de wafer, — gritou Stanislav atrás dela, mas já havia em sua voz a primeira e quase imperceptível nota de insegurança.
Kristina não se virou.
Saiu para o corredor, onde pendia no cabide seu casaco de cashmere — uma peça cujo preço Stanislav nem poderia imaginar, convencido de que a esposa comprava tudo em liquidação.
O ar no apartamento de repente ficou eletrizado, pesado, como antes de uma tempestade, mas Stanislav, absorto em sua própria grandeza, ainda não entendeu isso.
Stanislav entrou no quarto atrás da esposa, fechando bem a porta para que o “momento educativo” não escapasse para o corredor.
Não gostara da maneira como ela se levantara da mesa.
Não gostara da maneira como ela o olhara.
No roteiro de vida familiar dele, Kristina deveria continuar sentada, de olhos baixos, corando de vergonha pelo seu passado “miserável”, enquanto ele lhe servia magnanimamente vinho da caixa.
A saída silenciosa dela arruinava toda a mise-en-scène que ele preparara com tanto zelo diante da sogra.
— Que espetáculo foi esse? — sibilou ele, avançando sobre ela.
— Sua mãe vem uma vez a cada seis meses e você vira a cara?
A coroa não aperta, mulher de negócios?
Kristina estava em pé junto à janela, de costas para ele.
Lá fora, como uma mancha cinzenta e melancólica, espalhava-se o bairro-dormitório, tão sem esperança quanto o papel de parede daquele quarto — rosa desbotado, com manchas gordurosas ao redor do interruptor.
Stanislav proibia trocá-lo havia três anos, argumentando que “ainda estava bom, era finlandês, o pai dele conseguira, hoje em dia não fazem mais assim”.
— Eu não estou virando a cara, Stas.
Só não quero ouvir mentiras, — respondeu ela, sem se virar.
Olhava para o próprio reflexo no vidro escuro.
Ali, na penumbra, estava uma mulher bonita e bem cuidada, que não combinava em nada com aquele interior de sofá afundado e cristaleira polida de trinta anos atrás, entulhada de cristais dos quais nunca se bebia.
— Mentiras? — Stanislav indignou-se de verdade.
Aproximou-se do sofá e se largou nele com as pernas abertas, demonstrando com toda a postura quem era o dono da taiga ali.
As molas chiaram sob seu peso.
— Onde está a mentira?
No fato de que você chegou até mim descalça e sem nada?
No fato de que eu a engordei?
Olhe para você.
Pele, cabelo, dentes — de quem é o mérito?
Meu!
Foi a minha paz e a minha estabilidade que fizeram de você gente.
Kristina virou-se lentamente.
Na penumbra do quarto, seu rosto parecia esculpido em mármore.
— A sua estabilidade, Stas, é um pântano.
E meus dentes, minha pele e meu cabelo são resultado do trabalho da minha cosmetóloga e do meu dentista, aos quais vou com o dinheiro que eu ganho.
Você alguma vez perguntou quanto custa uma consulta minha?
Não.
Você acha que tudo isso acontece sozinho, como o pó na sua televisão.
Stanislav fez um gesto com a mão, como se espantasse uma mosca incômoda.
Esses detalhes femininos o irritavam.
Ele pensava em grande escala.
— Ah, não comece com isso!
“Eu ganhei”.
Se não fosse pelo meu apartamento, onde você moraria?
Num aluguel, entregando metade do salário!
Aqui, pelo menos, vive sem preocupação, as contas são uma pechincha.
Aliás, você pagou a luz?
A conta chegou, eu vi.
— Paguei, — respondeu Kristina com calma.
— E a luz, e a água, e a internet, com a qual você baixa suas séries de policiais.
E os produtos que você exibiu hoje tão generosamente na mesa, chamando de “caça masculina”.
— Isso é contribuição para a família! — rebateu Stanislav, sentindo a mágoa ferver dentro de si.
Ele, o provedor da casa — ainda que só nominalmente — estava sendo confrontado com dinheiro.
— Aliás, estou juntando para um carro.
Precisamos de um carro de verdade, não daquele seu… carrinho da empresa baixo demais, que amanhã tiram de você se for demitida.
Homem precisa ter rodas.
Levantou-se do sofá e começou a andar pelo quarto com as mãos nas costas.
Precisava retomar o controle da situação.
— Você está se esquecendo de si mesma, Kristina.
Sua mãe é uma santa, está ali fora preocupada, e você fazendo escândalo.
Saia, peça desculpas, sirva o chá.
Mostre que é uma boa filha e uma boa esposa.
Porque esses seus “acordos” são ar.
Hoje existem, amanhã não.
Eu é que sou uma parede.
Eu é que sou o alicerce.
Entendeu?
Kristina olhava para ele e não via o marido, mas um homem estranho e desagradável.
Via a barriga caída sob a camiseta esticada, via o sorriso presunçoso, via a plena convicção da própria razão, impossível de perfurar com lógica ou fatos.
Durante cinco anos, tentara construir um castelo sobre aquele alicerce, sem perceber que ele era feito de tábuas podres e complexos.
— Alicerce, é? — repetiu com uma entonação estranha.
— Sabe, Stas, qualquer alicerce precisa suportar a carga.
E você quebra até diante da verdade.
Ela se aproximou do guarda-roupa de portas de correr, uma das quais sempre emperrava e saía do trilho.
Stanislav a observava com interesse preguiçoso, esperando que ela agora tirasse o roupão de casa, trocasse de roupa e voltasse à cozinha para expiar seus pecados.
Sempre fora assim.
Era um ritual: ele gritava, ela se calava, depois faziam as pazes e ele, magnânimo, permitia que ela o amasse.
Mas Kristina não pegou o roupão.
Ficou na ponta dos pés e puxou da prateleira de cima, bem do fundo, uma grande bolsa de viagem de couro.
A poeira subiu no feixe de luz do poste da rua.
Stanislav franziu a testa.
O roteiro estava falhando de novo.
— O que está fuçando aí? — perguntou, desconfiado.
— É cedo demais para tirar as roupas de inverno, ainda estamos em outubro.
Kristina pousou a bolsa no chão, em silêncio.
O som pesado e abafado do couro contra o assoalho ressoou no silêncio do quarto como um gongo anunciando o começo do último round.
Ela abriu o zíper, e aquele ruído seco fez Stanislav estremecer.
Ele finalmente entendeu que não haveria roupão.
Nem chá.
Nem desculpas.
Mas o cérebro dele, acostumado à confortável ilusão de seu domínio, recusava-se a aceitar o óbvio.
Aquilo era só mais um capricho, mais uma tentativa de atrair sua preciosa atenção.
— Ei, — deu um passo em direção a ela, e seu rosto começou a avermelhar de uma raiva ruim.
— O que você está aprontando?
Decidiu encenar uma peça?
Acha que eu vou correr para impedir?
Kristina jogou a bolsa na cama e começou a abrir as gavetas da cômoda, tirando roupas íntimas.
Seus movimentos eram precisos, predatórios, sem qualquer agitação.
— Eu não estou representando, Stas, — disse ela sem olhar para ele.
— Estou encerrando a partida.
Stanislav ficou sem fôlego de indignação.
Ela ousava ignorar suas perguntas!
Ousava mexer nas coisas sem sua permissão!
Na casa dele!
Aproximou-se do vão da porta, bloqueando a saída com o corpo, e cruzou os braços sobre o peito, preparando-se para despejar sobre ela toda a sua justa ira.
— O quê, quer me assustar?
Batendo mala para todo lado?
Stanislav estava parado à porta do quarto, com os braços cruzados no peito.
Seu rosto se cobriu de manchas vermelhas, e suor apareceu em sua testa.
Observava Kristina tirar da prateleira superior do armário a bolsa de viagem — cara, de couro — que ele sempre considerara um gasto inútil.
No universo dele, bolsas deviam ser xadrezes e espaçosas, para levar batatas da chácara, não aquele valise pomposo.
— Eu não estou tentando te assustar, Stas.
Estou fazendo as malas, — respondeu Kristina com calma.
Movia-se de forma precisa e econômica, abrindo as gavetas da cômoda e transferindo pilhas de roupas íntimas para a bolsa.
Nada de correria.
Nada de mãos trêmulas.
Como se estivesse se preparando para mais uma viagem de trabalho, só que desta vez a passagem era só de ida.
— E para onde exatamente vamos, a essa hora da noite? — ele soltou um riso debochado, dando um passo para dentro do quarto e reduzindo a distância.
Precisava pairar sobre ela, esmagá-la com a massa, fazê-la se sentir pequena.
— Vai correndo para o colo da mamãe?
Para uma cama de campanha no interior?
Ou vai dormir nas estações, para lembrar a juventude?
Kristina ficou imóvel por um segundo com uma blusa de seda nas mãos.
Virou devagar a cabeça e olhou para o marido.
Em seus olhos não havia o medo que ele tanto desejava ver.
Havia um espanto enojado, como se ela tivesse encontrado algo desagradável na sola do sapato.
— Você é mesmo tão cego assim, Stas? — perguntou em voz baixa.
— Acha mesmo que eu vivi aqui todos esses anos porque não tinha para onde ir?
— E para onde você iria?! — rugiu ele, perdendo o controle.
A calma dela o enfurecia.
— Este é o meu apartamento!
Minhas paredes!
Fui eu que trouxe você para cá quando você não era ninguém!
Eu lhe dei registro, status, teto!
Sem mim, você é zero!
Poeira de beira de estrada!
Ao grito, surgiu no vão da porta a cabeça assustada de Valentina Petrovna.
— Stasik, Kristinotchka, mas o que é isso… não façam assim, — lamentou-se ela, amassando um pano de cozinha nas mãos.
— Já brigaram, agora basta, vamos tomar chá…
Stanislav virou-se bruscamente para a sogra, buscando nela apoio.
Ele precisava de plateia.
Precisava de uma testemunha para seu triunfo e sua magnanimidade.
— Está vendo, mãe? — apontou o dedo na direção da esposa.
— Eu faço tudo por ela!
Trabalho como um boi, fiz reforma, comprei eletrodomésticos.
E ela?
Basta dizer uma palavra atravessada e já começa a rebolar.
Ingrata!
Eu disse à senhora, Valentina Petrovna: não se põe vira-lata no sofá, porque ele logo se imagina dono da casa.
Kristina dobrou cuidadosamente a blusa e a colocou na bolsa, fechando o zíper.
O estalo do fecho soou como um tiro no quartinho.
Ela se ergueu em toda a altura, pegou a bolsa pela alça e aproximou-se do marido até ficar quase colada a ele.
Dela vinha o cheiro de um perfume caro — frio, cortante, um cheiro de sucesso que naquela sala abafada e cheirando a poeira velha parecia algo estranho ao ambiente.
— Saia da frente, — disse ela.
Não pediu.
Ordenou.
— Se não, o quê? — Stanislav sorriu de lado, mas em seus olhos passou uma sombra de insegurança.
— Vai me bater?
— Vou te humilhar, — respondeu Kristina, curta.
— Ainda mais do que você humilha a si mesmo toda vez que abre a boca.
Ela passou por ele, roçando o ombro no dele, e saiu para o corredor.
Stanislav, sufocado de indignação, foi atrás.
Valentina Petrovna se encolheu contra a parede, tentando ficar invisível.
No hall, Kristina começou a calçar os sapatos.
Vestia suas botas italianas, olhando para as chinelas gastas do marido, largadas perto do tapete.
— Você não vai sair daqui! — Stanislav bloqueou a porta de entrada com o corpo.
— Eu não deixei você ir!
Você é minha mulher e vai ouvir o que eu digo!
Acha que é o máximo?
Quem é que vai querer você com todas essas ambições?
Em uma semana vai voltar rastejando, vai se ajoelhar para eu deixar entrar de novo!
Kristina se endireitou.
Arrumou o casaco, pegou da prateleira as chaves do carro — aquele mesmo que Stanislav achava que lhe haviam dado no trabalho como carro de serviço, porque sua cabeça se recusava a acreditar que a esposa pudesse comprar sozinha um automóvel de classe premium.
— Fiquei calada durante cinco anos, Stas, — sua voz soou como aço, ecoando nos tetos baixos da khruschióvka.
— Fiquei calada porque tinha pena de você.
Achei que um homem deveria ter orgulho.
Paguei os alimentos, as roupas, as férias, o conserto do seu carro, seus intermináveis “caprichos”, mas fiz tudo em silêncio, para que você se sentisse o chefe da família.
Eu colocava dinheiro na sua carteira para você pensar que tinha economizado.
Eu entrei no seu jogo de “salvador e pobre coitada”.
Mas o jogo acabou.
— O que você está dizendo… — murmurou Stanislav, sentindo o chão fugir sob seus pés.
— Que dinheiro?
Isso tudo é orçamento comum…
Eu sou o dono…
— Você é dono apenas dos seus complexos, — interrompeu ela com dureza.
Ela se virou para a mãe, que olhava para a filha com os olhos arregalados, e enfim disse aquilo que vinha acumulando havia anos, aquilo que precisava destruir aquele teatro apodrecido de uma vez por todas.
— Você disse à minha mãe que me tirou da rua e me lavou?
Eu tenho uma formação e uma carreira dez vezes melhores que as suas!
Seu apartamento é a única coisa com que você pode se gabar, porque como pessoa você é zero!
Eu alugo uma cobertura, e você fique aí na sua “khruschióvka” e no seu veneno!
— O quê?
— Eu só estava esperando o momento de tirar minhas coisas, esperava conversar como gente.
Mas com você não dá para conversar como gente.
Stanislav abriu a boca, mas não emitiu som algum.
A palavra “cobertura” o atingiu como um tijolo.
— Eu alugo uma cobertura, e você fique aí na sua khruschióvka e no seu veneno! — declarou a esposa ao marido, e naquele momento ela parecia uma cabeça mais alta do que ele.
— Viva aqui com sua manteiga “Vologodskoe” e conte moedas até o salário.
Eu estou cansada de ser decoração para o seu ego inflado.
Ela deu um passo em direção à porta.
Stanislav, ainda atordoado, moveu-se por instinto para agarrá-la pelo braço, segurá-la, obrigá-la a se calar, fazer tudo voltar a ser como era.
— Não ouse tocar em mim, — sibilou ela, e havia em seu olhar tanto desprezo gelado que ele puxou a mão de volta como se tivesse encostado no fogo.
— As chaves desse chiqueiro eu vou deixar na caixa de correio.
Kristina escancarou a porta.
O ar fresco do patamar invadiu a atmosfera abafada do apartamento.
Ela não se virou.
Simplesmente saiu, e o som de seus saltos nos degraus de concreto soava como uma contagem regressiva para o colapso total do mundo de Stanislav.
Valentina Petrovna soltou um gemido baixo e deslizou pela parede até o banquinho.
E Stanislav ficou parado na porta aberta, olhando para a escuridão da escada, onde se dissolvia sua ilusão de poder, sentindo o medo pegajoso da solidão apertar sua garganta com dedos frios.
Mas ainda não era o fim.
Seu amor-próprio ferido já começava a produzir veneno para o último golpe.
Stanislav saiu correndo para o patamar só de meias.
O concreto frio queimou a planta dos pés, mas a chama que fervia dentro dele exigia saída.
Inclinou-se sobre o corrimão, olhando para o vão escuro da escada, onde já se apagava o eco dos passos firmes da esposa.
Precisava ter a última palavra.
Sem esse acorde final, seu universo construído sobre a própria grandeza ameaçava se transformar em um buraco negro.
— Puta! — gritou ele, e a voz lhe subiu em falsete, ecoando nas paredes descascadas do prédio.
— Vai correndo para o seu papai rico!
Acha que eu vou acreditar nessa história de carreira?
Você chupou essa cobertura!
Eu tirei você do lixo, eu fiz de você gente!
Você vai rastejar!
Está ouvindo, sua desgraçada?
Ainda vai rastejar até mim por um pedaço de pão!
Lá embaixo bateu a pesada porta de ferro do prédio.
O som cortou seu grito como uma guilhotina.
O silêncio que veio em seguida foi ensurdecedor.
Nenhum vizinho saiu — naquele prédio, escândalos eram um ruído de fundo habitual, como o barulho do duto de lixo.
Stanislav respirava pesadamente, apertando o corrimão até os dedos embranquecerem.
Ela tinha ido embora.
E não apenas ido embora: tinha destruído seu alicerce, esmagado sua “nobreza” com suas botas italianas.
Voltou para o apartamento e bateu a porta com força, girando a chave duas vezes.
No hall, ainda no mesmo banquinho, estava sentada Valentina Petrovna.
Ela se encolhera toda, parecendo um pássaro velho e assustado.
A presença dela provocou em Stanislav uma nova onda de ódio, ainda mais feroz.
Ela era testemunha.
Tinha visto como ele fora humilhado.
Sabia a verdade.
Logo, também era inimiga.
— O que está sentada aí? — berrou ele, passando por ela rumo à cozinha.
Valentina Petrovna se assustou e correu atrás dele, arrastando os pés em meias de lã tricotadas.
— Stasik, meu filho… talvez dê para fazê-la voltar?
Talvez ligar para ela?
Ela está nervosa, não fez por mal… — balbuciou, tentando olhar nos olhos dele.
— Mulher fica alterada, acontece.
Mas você é sábio, você é o mais velho…
Stanislav virou-se bruscamente.
Na mão, segurava a caixa de vinho já aberta.
— Sábio? — repetiu, estreitando os olhos.
— Eu sou sábio, sim.
Mas a senhora, mamãezinha, que criatura educou?
Quem foi que me empurrou cinco anos atrás?
Eu achei que estava levando uma moça modesta, uma órfã coitadinha, mas a senhora criou uma cobra no meu peito!
— Mas como assim, Stasik… a Kristina é boa, ela só está cansada, esse trabalho maldito… — Valentina Petrovna tentou tocar a manga dele, mas ele se afastou.
— Não encoste em mim! — sibilou ele.
— A culpa é sua.
A senhora encheu os ouvidos dela com sucesso, com dinheiro!
É essa sua educação de mulher.
Ela e a tal “cobertura”.
Viu como ela olhou para mim?
Como se eu fosse sujeira!
Na minha casa!
Na casa onde eu a alimentei!
Ele atirou a caixa de vinho sobre a mesa.
Respingos vermelhos voaram sobre a toalha plastificada, atingindo os restos da manteiga “Vologodskoe” e o frango não terminado.
— A senhora sabia? — de repente lhe ocorreu.
— Sabia que ela alugava apartamento pelas minhas costas?
Vocês se juntaram, foi?
Resolveram fazer o trouxa de bobo?
Viver às minhas custas e depois me largar?
— Deus do céu, Stas, eu não sabia de nada! — levantou as mãos a sogra, e lágrimas brotaram em seus olhos.
— Eu vinha aqui de coração…
— De coração… — ele a imitou com um sorriso venenoso.
— Mas comer minha carne a senhora também sabia de coração aberto.
Veja, comeu meio frango e nem engasgou.
E sua filha esfrega dinheiro na minha cara.
Pois bem.
Ele se aproximou dela, pairando com sua massa pesada.
— Faça as malas.
Valentina Petrovna congelou, sem acreditar no que ouvia.
— O quê?
— Faça as malas, eu disse! — berrou Stanislav, tão alto que os vidros na cristaleira tilintaram.
— Fora daqui!
Quero o território limpo de traidores.
Sumam as duas para o inferno, para a cobertura, para debaixo da ponte — não me importa!
— Stasik, para onde eu vou?
É noite, já são quase onze horas…
Os ônibus para o povoado já não passam… — ela desatou a chorar, cobrindo o rosto enrugado com as mãos.
— Deixe eu ficar pelo menos até de manhã, eu durmo no tapete…
— Nada de manhã! — Stanislav estava inflexível.
Gostava daquela sensação.
O poder estava voltando.
Que Kristina tivesse ido embora no carro caro, pouco importava: ali, naquele momento, ele voltava a ser o árbitro dos destinos.
Podia condenar, podia perdoar.
E escolhera a condenação.
— Chame um táxi.
Sua filha é rica, ela paga.
E, se não pagar, vá a pé.
Faz bem para a saúde.
Agarrou a bolsa dela, que estava num canto do corredor, e a jogou para o patamar.
A bolsa bateu na parede e se abriu, espalhando pelo chão sujo presentes modestos — um vidro de conservas e meias de lã tricotadas.
— Stas, não! — gritou Valentina Petrovna, agarrando-se ao batente da porta.
Ele a segurou pelos ombros, com dureza, a ponto de deixá-los marcados, virou-a e a empurrou com força para a saída.
Ela tropeçou na soleira, mal conseguindo se equilibrar.
— Fora! — expeliu ele em seu rosto, com hálito de vinho e ódio.
— E diga à sua rainha: não tem volta.
Uma como ela eu não deixo passar da porta.
Que apodreça em seu dinheiro.
Eu sou um homem honesto, não preciso do que é dos outros, mas o que é meu eu não entrego.
Bateu a porta na cara dela.
A fechadura estalou.
Depois girou outra vez.
Depois ainda pôs a corrente.
Stanislav encostou as costas na porta, ouvindo uma mulher idosa chorar do outro lado, o ruído com que recolhia as coisas espalhadas, os passos arrastados com que começava a descer.
Aqueles sons eram música para seu ego ferido.
Ele vencera.
Expulsara o contágio do seu organismo.
Foi para a cozinha, onde a luz forte e impiedosa ainda estava acesa.
Sentou-se à mesa, no lugar onde até há pouco estava o “dono da vida”.
Cortou para si um pedaço enorme de bolo, direto com a faca, sem prato.
Serviu um copo cheio de vinho barato.
No silêncio do apartamento, impregnado pelo cheiro de móveis velhos e da sua própria maldade, começou a mastigar.
— Cobertura… — murmurou de boca cheia, olhando para o papel de parede descascando.
— Ela mente sobre tudo.
Alugou um muquifo por um dia para se exibir.
E eu… eu aqui sou rei.
Esta é a minha casa.
Ergueu o copo, brindando com o vazio.
— A mim.
A um homem de verdade.
E elas… elas vão morrer de inveja.
Stanislav bebeu o vinho de um só gole, limpou a boca com a manga e ligou a televisão no volume máximo para abafar o silêncio, no qual traidoramente vibrava a ideia de que, no dia seguinte, não teria nem dinheiro para comprar um maço de cigarros.
Mas isso seria amanhã.
Naquela noite, ele celebrava sua vitória de Pirro sobre as ruínas da própria vida.







