— Você me trancou no apartamento e levou as chaves para que eu não fosse ao aniversário da minha irmã?

Você decidiu que tem o direito de escolher com quem eu posso falar?

— Você me trancou no apartamento e levou as chaves para que eu não fosse ao aniversário da minha irmã?

Você decidiu que tem o direito de escolher com quem eu posso falar?

Ela é a única que vê no que você me transformou!

Abra a porta imediatamente, ou eu vou chamar o Ministério das Situações de Emergência e a polícia, e vou denunciar que você está me mantendo aqui à força! — gritava Marina, enquanto Alexei, já parado no patamar da escada, calmamente enfiava a chave na fechadura.

Alexei nem sequer se virou.

Suas costas largas, envoltas em um casaco impecavelmente passado, expressavam uma indiferença absoluta e impenetrável aos gritos dela.

Ele agia como se estivesse isolando um paciente agressivo em um quarto de hospital, e não trancando a própria esposa.

O rangido do metal, quando a chave deu a primeira volta, soou no corredor do prédio mais alto que um tiro.

— Sem histeria, Marina, os vizinhos vão ouvir, — sua voz era uniforme, seca, desprovida de qualquer emoção.

— Você não está em si agora.

Olhe para você no espelho: o rosto está deformado, a maquiagem escorreu.

Não se sai assim para encontrar outras pessoas.

Muito menos pessoas como a sua irmã.

Marina puxou a maçaneta para si, mas o mecanismo de aço resistia firmemente.

Ela bateu com a palma da mão na superfície fria da porta, sentindo os dedos ficarem dormentes de dor.

Apenas dez minutos antes, ela estava no hall de entrada, ajeitando a barra do seu vestido favorito cor de esmeralda, antecipando a noite no restaurante.

Ela não via a irmã havia três meses: Alexei sempre encontrava um motivo para que a viagem fosse impossível; ora ele tinha um relatório urgente e precisava de ajuda, ora ela supostamente estava com dor de cabeça, ora o carro estava na oficina.

Mas naquele dia era um jubileu, e Marina decidiu que iria, mesmo que tivesse de ir a pé.

O conflito começou na cozinha, de forma corriqueira, diante de uma xícara de café esfriando.

Alexei, passando o feed de notícias no tablet, disse sem levantar os olhos que havia cancelado o táxi.

Quando Marina, perplexa, perguntou o motivo, ele finalmente se dignou a olhar para ela.

Naquele olhar não havia raiva, apenas um desprezo frio e avaliador, do tipo com que se olha para um objeto estragado.

— Você não tem nada a fazer lá, — disse então, tomando um gole de café.

— Sua irmã e o círculo dela são o fundo do poço social.

Divorciadas, fracassadas, fofoqueiras.

Elas invejam o nosso casamento, Marina.

Estão enchendo a sua cabeça, colocando você contra mim.

Eu não vou permitir que a minha esposa desça ao nível delas e ouça delírios bêbados sobre como eu sou um tirano.

— Você não é um tirano, você é doente! — gritou Marina, pegando a bolsa na mesinha.

— Eu vou ver a minha irmã!

Não me importa o que você pensa disso!

Ela tentou passar correndo para a saída, mas Alexei foi mais rápido.

Ele não correu, apenas se deslocou no espaço, bloqueando com o corpo maciço o corredor estreito.

Em seus movimentos não havia pressa, apenas a pesada e opressiva segurança de um predador brincando com a presa.

— Me deixe passar, — sibilou Marina, sentindo uma onda quente e raivosa ferver dentro de si.

— Saia da porta.

— Você não vai a lugar nenhum com esse vestido, — Alexei fez um gesto na direção do decote profundo dela.

— Você está parecendo disponível demais.

Eu não me casei com você para que outros homens fiquem olhando para o que me pertence.

— Me pertence?

Eu não sou um objeto seu, Liôcha!

Ela tentou empurrá-lo, pressionando as palmas das mãos contra o peito dele, mas era como empurrar uma parede de concreto.

Alexei agarrou os pulsos dela.

Não com violência, mas com firmeza, mantendo as mãos dela imobilizadas em um só ponto.

— Você está se comportando como uma histérica, — constatou ele.

— Isso é influência da sua família.

Eu já disse, eles são tóxicos.

Você precisa se acalmar.

Com um puxão, ele arrancou das mãos dela a pequena bolsa de couro.

Marina soltou um grito, tentou se agarrar à alça, mas Alexei a empurrou com facilidade para o fundo do corredor.

A bolsa voou para o chão, e o conteúdo se espalhou com estrondo pelo parquet: batom, telefone, carteira e, o mais importante, o molho de chaves com o chaveiro em forma de Torre Eiffel.

Alexei se abaixou.

Seu rosto permanecia assustadoramente calmo.

Metodicamente, sem pressa, ele pegou as chaves.

— Devolve! — Marina se lançou para cima dele, mas ele já havia aberto a porta de entrada e pisado no limiar.

— Estou fazendo isso para o seu próprio bem, — disse, olhando para ela de cima para baixo.

— Depois você vai me agradecer.

Vai ficar sentada e pensar no seu comportamento.

Não vou deixar vinho para você, senão vai começar a ligar para as amiguinhas e reclamar da sua vida difícil.

A porta bateu bem na frente do rosto dela.

O clique da fechadura soou como uma sentença.

— Liôcha! — Marina começou a esmurrar a porta.

— Liôcha, você enlouqueceu de vez?!

Abre!

Minha irmã está me esperando!

Em resposta, ouviu-se apenas o som da segunda volta da chave.

A fechadura de cima.

Justamente aquela que é impossível abrir por dentro sem a chave, se estiver trancada por fora.

Alexei sabia disso.

Ele havia pensado em tudo.

— Não desperdice suas forças, — veio abafada a voz dele do outro lado da porta.

— Seu telefone ficou com você, pode escrever para sua irmã dizendo que ficou doente.

Ou que o marido não deixou você sair — que elas se alegrem com o quanto eu sou ruim.

Tanto faz para mim.

Vou voltar tarde.

Você mesma vai pedir comida, eu bloqueei o cartão, mas acho que você tinha algum dinheiro em espécie.

Ouviram-se passos se afastando.

Passos pesados, cadenciados, de uma pessoa certa da própria razão absoluta e da própria impunidade.

Depois soou o sinal do elevador.

As portas do poço se abriram e se fecharam, e o silêncio tomou conta do andar.

Marina encostou a testa na superfície metálica fria da porta.

A raiva que até então a fazia gritar e quebrar louça foi substituída por uma consciência fria e pegajosa.

Aquilo não havia sido apenas uma briga.

Fora uma demonstração de força.

Ele não apenas a impedira de ir à festa.

Tinha mostrado a ela o seu lugar.

O lugar de um cachorrinho de estimação trancado no cercado quando o dono sai para tratar dos seus assuntos.

No telefone jogado entre os cosméticos espalhados, soou o aviso de uma mensagem recebida.

Marina escorregou lentamente pela parede até o chão, pegou o aparelho com a mão trêmula.

Na tela apareceu o nome do marido:

“Sente-se e pense no seu comportamento.

Quero que, quando eu voltar, você esteja calma e tenha se arrumado.

Vamos conversar quando você voltar a ser a antiga Marina, e não essa mulher vulgar de feira em que sua irmã a transforma.”

Ela olhava para aquelas letras, e elas se borravam diante dos seus olhos.

Mas não por causa das lágrimas.

Dentro de Marina, em algum lugar muito profundo, sob as camadas de medo e do hábito de obedecer, começava a se acender um fogo completamente diferente.

Não histérico, não lamuriento.

Era o fogo do ódio.

Puro, concentrado como álcool.

Ela se levantou do chão, sacudiu o vestido.

Foi até o espelho do hall de entrada.

Do reflexo a encarava uma mulher bonita, com o batom borrado e os olhos enlouquecidos.

— Pensar, então? — perguntou baixinho ao próprio reflexo.

— Está bem, Liôcha.

Eu vou pensar.

Vou pensar muito bem.

O silêncio que encheu o apartamento depois da partida do elevador não era apenas ausência de sons.

Era denso, abafado, pressionava os ouvidos, como se Marina de repente tivesse ido parar no fundo de um poço profundo.

O clique da fechadura ainda ecoava em seus ouvidos, transformando o aconchegante hall mobiliado com móveis caros em uma cela de detenção provisória.

Marina levantou-se lentamente do chão.

As pernas tremiam, mas não de fraqueza, e sim por excesso de adrenalina sem ter onde se derramar.

Ela se aproximou da porta, puxou a maçaneta — mecanicamente, sem esperança, apenas para que o corpo se convencesse daquilo que a mente já havia entendido.

Trancada.

Definitivamente.

O ferrolho de aço da fechadura superior a separava com segurança do mundo exterior, da festa, da irmã, da liberdade.

Ela se virou e foi para a sala.

Ali reinava a ordem perfeita que Alexei tanto amava.

Nem um grão de poeira, as almofadas do sofá colocadas rigorosamente em um ângulo de quarenta e cinco graus, as revistas na mesa alinhadas pela borda.

Antes, Marina considerava aquilo capricho, uma manifestação de disciplina masculina.

Agora, aquela esterilidade lhe pareceu morta.

Aquilo não era uma casa, mas uma vitrine, uma peça de museu onde não se pode viver, apenas existir, com medo de quebrar a simetria.

Marina se aproximou da janela panorâmica.

Décimo quarto andar.

Lá embaixo, como formigas, as pessoas iam e vinham, rios coloridos de carros corriam.

A cidade vivia sua própria vida, indiferente ao que acontecia por trás das janelas duplas do condomínio de luxo.

A porta da varanda cedeu facilmente, deixando entrar no cômodo uma rajada de vento morno de primavera.

Marina saiu para a varanda envidraçada, agarrou-se ao corrimão frio.

A altura dava tontura.

— Pule, — sussurrou uma voz traiçoeira em sua cabeça.

— Então ele vai se arrepender.

Então ele vai entender.

Marina sacudiu a cabeça, afastando aquela tentação.

Não.

Esse prazer ela não lhe daria.

Virar uma mancha no asfalto para que Alexei, durante alguns meses, fingisse ser um viúvo enlutado, e depois trouxesse para ali uma nova boneca, mais obediente?

Nem pensar.

Ela voltou para o quarto, e o olhar caiu sobre a sacola de presente que estava na poltrona.

Lá dentro havia um álbum artesanal que ela encomendara de uma artesã seis meses antes.

Crônica da família.

Fotografias da infância delas, dos pais, momentos engraçados da escola.

Alexei chamava aquilo de “coleção de papel velho e acumulador de poeira”.

Ano após ano, metodicamente, ele erradicava da vida dela tudo aquilo que não dissesse respeito a ele mesmo.

“Sveta tem inveja de você, ela quer nos separar.”

“Sua mãe está se metendo onde não deve, nós vamos resolver isso sozinhos.”

“Para que você precisa desses colegas?

Eles só sabem fofocar, você é superior a isso.”

Ele ia cortando o círculo dela com o bisturi de um cirurgião, convencendo-a de que aquilo era um tumor, e não tecido saudável.

E ela acreditava.

Ela, tola, acreditava que ele estava protegendo o pequeno mundo deles.

Mas ele apenas construía ao redor dela uma cerca alta para que ninguém visse como a estava domesticando.

O telefone em sua mão vibrou, arrancando-a do torpor.

Era a irmã ligando.

Na tela brilhava o rosto sorridente e familiar.

Marina levou o dedo até o botão verde, mas parou.

Se ela atendesse e contasse a verdade…

Se dissesse: “Kátia, ele me trancou, roubou minhas chaves”, — o que aconteceria?

Kátia correria para lá.

Começaria a esmurrar a porta, chamaria o Ministério das Situações de Emergência.

Alexei chegaria, faria cara de espanto, diria que a fechadura emperrou e que a irmã dela é uma histérica que mais uma vez fez escândalo do nada.

E Marina acabaria de novo entre dois fogos, culpada e humilhada.

Não.

Piedade não haveria mais.

Marina recusou a chamada.

Os dedos digitaram rapidamente uma mensagem: “Katucha, me desculpa.

O Liôcha de repente ficou com febre alta, suspeita de vírus.

Não posso deixá-lo sozinho, você entende.

Entrego o presente mais tarde.

Te amo, um beijo, feliz aniversário.”

Enviar.

Era uma mentira.

Uma mentira amarga, repugnante, que lhe travava o maxilar.

Mas era um sacrifício necessário.

Ela não daria a Alekséi motivo para dizer: «Está vendo? Sua irmã está se metendo de novo na nossa família».

Ela resolveria aquilo com ele sozinha.

Cara a cara.

Sem testemunhas.

Marina foi até o banheiro.

Abriu a água gelada.

Lavou do rosto o rímel borrado, apagou o batom forte.

Tirou o vestido esmeralda, que agora lhe parecia uma roupa de boba da corte, e o atirou no cesto de roupa suja.

Já não gostava mais dele.

Aquele vestido tinha sido escolhido por Alekséi.

Vestiu um jeans simples e uma camiseta preta.

Prendeu o cabelo em um rabo de cavalo apertado.

No espelho, não a encarava uma vítima chorosa, mas um predador à espreita antes do salto.

Os olhos estavam secos e cortantes.

O estômago roncou — ela não comia nada desde a manhã, preparando-se para o banquete.

Marina foi para a cozinha.

Abriu a geladeira.

Ali havia uma panela de borsch que ela tinha cozinhado no dia anterior, tentando agradar o marido.

Recipientes com legumes cortados.

Tudo arrumado, tudo em seu devido lugar.

— Senta e pensa, — repetiu ela em voz alta as palavras dele.

Pegou do bar de Alekséi uma garrafa de conhaque caro.

Justamente aquela que ele guardava para «ocasiões especiais».

Arrancou o lacre e serviu para si uma dose generosa em uma taça bojuda.

O líquido queimou sua garganta, mas trouxe uma estranha clareza.

Marina sentou-se à mesa da cozinha.

Sobre a bancada estava o isqueiro que ele havia esquecido.

Ela girou a rodinha, olhando para a chama vacilante.

Ela não precisava chamar a polícia.

Ela não precisava fazer escândalo na varanda.

Alekséi achava que a tinha trancado em uma prisão, onde ela definharia de tristeza e arrependimento.

Ele estava enganado.

Ele a tinha trancado em um bunker, onde ela podia, enfim, revisar seu arsenal.

Ela não foi preparar o jantar.

Ela não foi recolher os cosméticos espalhados pelo corredor.

Simplesmente ficou sentada, esperando.

O sol rastejava lentamente pelo céu, as sombras no apartamento se alongavam, transformando-se em figuras estranhas.

Marina não acendeu a luz.

A escuridão lhe caía bem.

No escuro, vê-se melhor quem é quem.

O tempo passava devagar, mas cada hora apenas acrescentava mais cimento ao muro de sua determinação.

Quando lá fora escureceu de vez e a cidade se acendeu com milhares de luzes, a chave voltou a raspar na fechadura.

Aquele som já não a assustava.

Era o sinal para o início do segundo ato.

Marina tomou um gole de conhaque, pousou a taça sobre a mesa e saiu para o corredor, cruzando os braços sobre o peito.

O som da fechadura sendo aberta cortou o silêncio do apartamento como um bisturi cortando pele tensa.

Uma volta.

Pausa.

Segunda volta.

Marina não se mexeu.

Estava parada no vão da porta da cozinha, apoiando o ombro no batente, e olhava para o corredor escuro.

Em sua postura não havia medo, nem aquela expectativa submissa com que costumava receber o marido, tentando adivinhar o humor dele pelo som dos passos.

A porta se escancarou, deixando entrar no ar abafado do apartamento o frescor da noite de primavera e o cheiro de perfume masculino caro misturado ao aroma de comida de restaurante.

Alekséi entrou com segurança, como dono da casa, preenchendo imediatamente o espaço com sua presença.

Em uma das mãos levava um saco de papel com o logotipo de uma steakhouse, na outra, uma garrafa de vinho.

Apalpou o interruptor, e o hall foi inundado por uma luz intensa e impiedosa.

A primeira coisa que ele viu foi a mesma maquiagem espalhada pelo chão.

O tubo de batom, esmagado pela própria bota dele naquela manhã, continuava ali, como uma mancha vermelha no parquet claro.

Alekséi o contornou com nojo, como se fosse uma poça de lama, e só então levantou os olhos para a esposa.

— Então, prisioneira do castelo de If? — sua voz era animada, até alegre.

Ele claramente contava que a medida “educativa” da manhã tivesse funcionado, e agora seria possível passar às fases de «reconciliação» e «magnanimidade».

— Já esfriou a cabeça?

Pelo visto, você nem acendeu a luz.

Ficou sentada no escuro, sentindo pena de si mesma?

Marina permaneceu em silêncio.

Olhava para ele como se o visse pela primeira vez.

Não como para um marido, mas como para um objeto desconhecido e potencialmente perigoso, cujos hábitos precisavam ser estudados.

Alekséi, sem receber resposta, foi para a sala, colocando os pacotes sobre a mesa.

— Trouxe o jantar.

Bifes, ao ponto para malpassado, do jeito que você gosta.

E vinho.

Barolo, aliás.

Decidi que não devemos terminar o dia em má nota.

Estou pronto para perdoar sua histeria da manhã.

Tirou o casaco, jogando-o displicentemente sobre a poltrona — privilégio que naquela casa só era permitido a ele — e começou a desabotoar os punhos da camisa.

— Você não arrumou nada, — observou ele, acenando com a cabeça em direção ao corredor.

— Achei que você usaria esse tempo de modo útil, colocaria o apartamento em ordem, acalmaria os nervos limpando a casa.

Isso ajuda as mulheres a se aterrarem.

— Eu não sou empregada doméstica, Liôcha, — a voz de Marina soou baixa, mas havia nela um frio tal que Alekséi parou com um botão ainda desabotoado.

— E não sou um cachorro que se pode trancar em um cercado e depois jogar um osso em forma de bife para que balance o rabo.

Alekséi virou-se lentamente.

O sorriso escorreu de seu rosto, substituído por uma expressão de irritação cansada.

Aproximou-se dela, invadindo seu espaço pessoal, pairando sobre ela, pressionando com sua altura e sua autoridade.

— De novo? — soltou ele.

— Marina, eu esperava que você tivesse ficado mais inteligente.

Eu salvei você da vergonha.

Sua irmã e as amigas bêbadas dela… você teria voltado de lá exaltada, teria me dito um monte de desaforos.

Eu apenas impedi o inevitável.

Eu cuido da nossa família, enquanto você tenta destruí-la com seu egoísmo.

— Você não está cuidando da família, — Marina não recuou um passo, embora o instinto de sobrevivência gritasse, exigindo que se afastasse.

— Você está cuidando do seu controle.

Você gostou, Liôcha.

Admita.

Você gostou quando girou a chave.

Sentiu-se um deus.

Árbitro dos destinos.

«Senta!», «Deita!», «Dá a pata!».

— Não fale besteira, — ele fez uma careta, como se estivesse com dor de dente, e tentou segurá-la pelo ombro para sacudi-la, trazê-la de volta ao juízo.

— Você passou calor demais.

Precisa beber um pouco de vinho e ir dormir.

Amanhã vai me agradecer por não ter ido àquele antro.

Marina afastou a mão dele com um movimento brusco e enojado.

Aquele gesto foi tão inesperado para Alekséi, acostumado à sua suavidade e docilidade, que ele recuou.

— Não me toque.

— Como você está falando comigo? — uma chama ruim acendeu-se em seus olhos.

O tom mudou, tornando-se ameaçador.

— Pelo visto, fui brando demais com você.

Deixei internet, televisão, comida.

Devia também ter cortado a eletricidade, para você entender de verdade o que significa depender do marido.

Esqueceu quem paga por este banquete?

Quem comprou esse jeans que você está vestindo?

Quem paga por este apartamento?

— Este apartamento foi comprado durante o casamento, Liôcha.

Metade daqui é minha.

E o jeans e a comida vêm do orçamento comum, mesmo que você ganhe mais.

Mas você trocou os conceitos com tanta habilidade que eu mesma acreditei que aqui eu era uma hóspede.

Uma agregada que se pode expulsar ou trancar.

Ela passou por ele em direção à mesa, onde estava a garrafa de vinho.

Alekséi a seguia com um olhar de predador, tentando entender o que estava acontecendo em sua cabeça.

Ela estava se comportando de forma errada.

Fora do roteiro.

Onde estavam as lágrimas?

Onde estavam os pedidos de perdão?

Onde estava o reconhecimento da razão dele?

— Você está bêbada? — ele farejou.

— Você cheira a conhaque.

Ah, então é isso… Achou minha reserva?

Excelente, Marina.

Bravo, simplesmente bravo.

Em vez de refletir sobre o seu comportamento, você se embebedou sozinha.

Está se tornando uma cópia da sua irmã alcoólatra.

— Bebi cinquenta gramas para não enlouquecer de horror quando entendi que meu marido é um psicopata, — respondeu ela calmamente, pegando nas mãos a pesada garrafa de Barolo.

Não a abriu.

Apenas a pesou na mão, sentindo o vidro frio.

— Sabe no que pensei durante essas dez horas?

Não na minha irmã.

E nem na festa.

Pensei em como uma rã é fervida no leite.

Você foi aquecendo a água aos poucos, não foi?

Primeiro «não use esse vestido», depois «não ande com ela», depois «peça demissão, eu mesmo sustento tudo».

E hoje a água ferveu.

— Chega de filosofar! — berrou Alekséi, batendo com a palma da mão sobre a mesa.

O saco com os bifes pulou.

— Agora você vai se sentar, comer e calar a boca.

Estou cansado do trabalho, não tenho a menor intenção de ouvir o delírio de uma mulher bêbada.

Marcha para a cozinha pegar os pratos!

Já!

Aquele «Já!» estalou como um chicote.

Antes, Marina teria corrido para obedecer.

Antes, teria se encolhido, murmurando desculpas e tentando aparar as arestas.

Mas hoje, dentro dela, em vez de medo, havia um vazio frio e estridente.

Terra arrasada.

— Não, — disse ela.

A palavra caiu entre os dois como uma pedra pesada.

— O que foi que você disse? — Alekséi deu um passo em sua direção, o rosto tomado de sangue.

Não estava acostumado a ouvir recusas.

No mundo dele, só existiam a opinião dele e as erradas.

— Eu disse «não».

Não vou comer seus bifes.

Não vou beber seu vinho.

E não vou mais brincar do seu jogo de «Família perfeita», no qual eu sou uma decoração sem voz.

Alekséi sorriu de canto — um sorriso torto, assustador.

— E o que você vai fazer?

Ir embora?

Você não tem dinheiro, não tem trabalho, não tem onde morar.

Você não é ninguém sem mim, Marina.

Um vazio.

Vai sair por essa porta e voltar rastejando em dois dias, quando a fome apertar.

— Talvez, — concordou Marina, e sua calma o assustava mais do que um grito.

— Talvez eu não seja ninguém.

Mas até um «ninguém» tem um limite de paciência.

Você tirou minhas chaves, Liôcha.

Você me trancou.

Você ultrapassou a linha.

— Eu estava educando você! — gritou ele, perdendo o controle.

— Porque você se comporta como uma idiota!

— Educam-se crianças.

E cachorros.

Com a esposa, ou se vive, ou se divorcia.

Você fez sua escolha de manhã.

Agora é a minha vez.

Alekséi puxou a gola da camisa, sentindo falta de ar.

Sentia que a situação lhe escapava das mãos como areia.

Estava acostumado a pressionar com intelecto, lógica, dinheiro.

Mas agora diante dele havia um muro impossível de romper com os métodos de sempre.

Ele precisava recuperar a dominância.

A qualquer custo.

— Agora você vai ao banheiro, lava o rosto e se recompõe, — começou ele em um sussurro baixo, sibilante, aproximando-se até ficar colado nela.

— Depois vai voltar aqui e pedir desculpas.

E nós vamos esquecer esta conversa.

Caso contrário…

— Caso contrário o quê? — Marina ergueu os olhos para ele.

Neles não havia nada além de desprezo.

— Vai me bater?

Vai me trancar em um armário?

Vai me tirar a sobremesa?

— Não me provoque, — rosnou ele.

— Você não sabe do que sou capaz quando me levam ao limite.

— Ah, agora eu sei, Liôcha.

Eu sei muito bem.

Marina apertou com mais força o gargalo da garrafa.

A adrenalina martelava em suas têmporas.

O desfecho estava próximo, e ela sabia que não havia mais volta.

O ar do apartamento estava eletrizado a tal ponto que parecia bastar uma faísca para que tudo explodisse.

Alekséi olhou para a garrafa em sua mão e, por um segundo, um lampejo de dúvida passou por seus olhos.

Mas logo o sufocou com a arrogância habitual.

Ele não acreditava que ela fosse capaz de uma ação real.

Para ele, Marina continuava sendo a mesma função conveniente, que tinha apenas “dado defeito”.

— Larga o vinho, — sibilou ele, virando o rosto com desprezo.

— Você fica ridícula com todo esse pathos.

«Eu sei do que você é capaz»… assistiu drama demais?

Eu vou fumar.

Você tem exatamente cinco minutos para pôr a mesa e ajeitar esse rosto.

Se, quando eu voltar, os bifes não estiverem nos pratos, vou tirar seu telefone e seu notebook por um mês.

Você vai ficar sentada entre quatro paredes olhando pela janela até criar juízo.

Ele jogou de forma demonstrativa o próprio smartphone sobre a ilha da cozinha, ao lado dos recipientes ainda fechados.

Era um gesto de poder absoluto: ele não tinha medo de deixar o meio de comunicação ali, porque tinha certeza de que ela não ousaria tocá-lo.

Alekséi dirigiu-se com passadas largas até a porta da varanda.

Escancarou-a, deixando entrar no cômodo uma corrente de ar frio da noite.

Saiu para a varanda sem se virar, tirou um maço de cigarros e fez o isqueiro estalar.

Estava de costas para a sala, olhando as luzes da cidade, seguro de que atrás dele a esposa agora tirava pratos e garfos às pressas, cedendo sob a pressão de seu ultimato.

Marina agiu em silêncio e com rapidez fulminante.

Não havia histeria naquilo, apenas cálculo frio, afiado por horas de solidão.

Pousou a garrafa sobre a mesa.

Dois passos.

A mão pousou sobre a maçaneta plástica da porta da varanda.

Um leve movimento para si — a porta encaixou-se firmemente no trilho.

Giro da maçaneta para baixo até o fim.

O clique do mecanismo soou baixo, mas para Marina foi como um trovão.

Alekséi ouviu o som.

Virou-se devagar, com falsa calma, segurando o cigarro junto à boca.

Seu rosto exprimia leve incompreensão, que logo se transformou em irritação.

Puxou a maçaneta do seu lado.

A porta não cedeu.

Marina estava do outro lado do vidro, a meio metro dele.

Olhava-o diretamente nos olhos, e em seu olhar não havia nem triunfo nem maldade.

Apenas a calma gelada de uma patologista.

— Que circo é esse? — a voz dele chegou abafada através do vidro duplo.

Alekséi franziu a testa, os lábios se movendo, articulando cada palavra.

— Abra imediatamente!

Marina balançou a cabeça.

Lentamente.

Em negativa.

Aproximou-se mais, quase colando no vidro.

Alekséi bateu com a palma da mão na porta.

— Ficou surda?!

Abra a porta, sua vadia!

Vai ser pior para você!

Marina via seu rosto se deformar, as veias do pescoço saltarem, a pele avermelhar.

A máscara de homem bem-sucedido, calmo, senhor da própria vida, caiu no mesmo instante, revelando um esgar animalesco.

Mas agora aquela fera estava na jaula.

Ela levou a mão ao ouvido, imitando um telefone, e apontou com o dedo para a mesa da cozinha, onde estava o smartphone dele.

Alekséi instintivamente apalpou os bolsos da calça.

Vazios.

Ele estava apenas de camisa, no décimo quarto andar, sob o vento frio da primavera, sem chaves e sem telefone.

Marina virou-se e foi tranquilamente até a mesa.

Pegou o telefone dele.

Voltou à porta de vidro, ergueu o aparelho para que ele visse a tela e, lentamente, com deleite, desligou-o.

A tela escura tornou-se o espelho de sua impotência.

— Você não vai sair, Liôcha, — disse em voz alta, para que ele a ouvisse através do vidro.

— Senta.

Pensa no seu comportamento.

Você precisa esfriar a cabeça.

Agora está emotivo demais, e homens em histeria ficam patéticos.

Alekséi gritou algo inarticulado e deu um chute com toda a força no painel de plástico.

A porta tremeu, mas resistiu.

Marina nem piscou.

— Não precisa bater no patrimônio, — disse ela em tom professoral, copiando o tom dele daquela manhã.

— Isso custa caro.

E os vizinhos podem ver.

Você não vai querer que todos descubram que é um tirano doméstico que a esposa trancou na varanda como um gato arteiro, vai?

Ela via como ele tremia.

De frio e de fúria.

Ele estava preso na armadilha que havia construído para ela ao longo dos anos.

Isolamento.

Impotência.

Frio.

Marina voltou ao corredor.

Do bolso do casaco dele, tirou o molho de chaves — justamente aquele no qual estavam o chaveiro do carro e a chave do apartamento.

Pegou também as próprias chaves, com a Torre Eiffel, da mesinha onde ele as tinha jogado displicentemente ao entrar.

Em seguida foi ao quarto.

Tirou do armário uma pequena bolsa esportiva.

Jogou lá dentro documentos, um par de trocas de roupa íntima e a caixinha com o ouro que os pais lhe tinham dado.

Nada daquilo que ele havia comprado.

Somente o que era dela.

Quando voltou à cozinha, viu que Alekséi já não batia no vidro.

Estava parado, abraçando-se pelos ombros, e a olhava com um olhar cheio de ódio e promessa de vingança.

Se olhares pudessem matar, ela já seria cinza.

Marina aproximou-se da mesa e pegou a garrafa de Barolo.

Abriu-a com o saca-rolhas que estava ao lado.

Serviu vinho em uma taça e tomou um gole.

O vinho era encorpado e intenso.

— Gostoso, — assentiu para o marido.

— Pena que você não pode.

Álcool faz mal ao seu sistema nervoso.

Foi até a pia e, lentamente, olhando-o nos olhos, virou a garrafa.

O líquido rubi-escuro, que valia metade do seu salário, correu borbulhando pelo ralo.

Alekséi colou o rosto no vidro, a boca aberta em um grito silencioso, mas Marina despejou tudo metodicamente até a última gota.

— Tudo pelo seu bem, querido, — disse, pousando a garrafa vazia sobre a bancada.

— Faço isso porque cuido de você.

Agarrou a bolsa, pegou a carteira dele, que estava ao lado do telefone, e tirou de lá todo o dinheiro em espécie — um maço grosso de notas de cinco mil rublos.

Deixou a carteira.

Ela não precisava dos cartões, ele os bloquearia em cinco minutos assim que conseguisse falar com alguém.

Mas o dinheiro vivo era uma compensação pelos danos morais.

— Não vou pedir comida, — lançou em despedida, já na porta da cozinha.

— Você aí fora tem ar fresco, é mais saudável.

Vou levar as chaves do apartamento.

Vou trancar a fechadura de cima com duas voltas.

Você sabe que ela não abre sem chave.

— Marina! — chegou até ela um grito abafado, cheio de desespero.

— Espera!

Não faça isso!

Nós podemos conversar!

Ela parou.

Sorriu.

— Nós não vamos conversar, Liôcha.

Com terroristas não se negocia.

Eles são destruídos.

Saiu para o hall.

Calçou os sapatos, vestiu a jaqueta.

Apagou todas as luzes do apartamento, mergulhando Alekséi na escuridão, quebrada apenas pela luz dos postes da rua.

O clique da fechadura soou como um acorde final.

Primeira volta.

Segunda volta.

Marina verificou a porta — trancada até o fim.

Chamou o elevador.

Enquanto a cabine descia, imaginou-o lá, debatendo-se no escuro, no frio, batendo os dentes, entendendo que gritar era inútil — o andar era alto demais, e o vidro, bom demais.

Ele teria de esperar até a manhã para atrair a atenção dos transeuntes ou dos vizinhos das varandas ao lado.

Seria longo.

E muito humilhante.

Marina saiu do prédio.

O ar noturno bateu em seu rosto, mas não era frio.

Era delicioso.

Ela respirou fundo, sentindo os pulmões se abrirem, comprimidos por anos de casamento.

Tirou o telefone, ligou-o e digitou uma mensagem para a irmã: «Desculpa pela mentira.

Estou indo para a sua casa.

Ponha a mesa.

Estou levando um presente, e tenho um ótimo brinde à liberdade».

Marina atirou o molho de chaves do marido nos arbustos densos diante do prédio e, sem olhar para trás, para as janelas escuras do décimo quarto andar, seguiu adiante, os saltos batendo no asfalto…