— A mamãe acha que você está nos alimentando de forma errada, por isso jogou fora todos os seus produtos e trouxe as conservas dela!

— Você pelo menos devia agradecer, em vez de fazer essa cara feia!

Mamãe ficou meio dia no fogão enquanto você ficava aí farfalhando com seus papéis no escritório.

Mamãe arrumou a geladeira, vai lá e agradece! — berrou Denis, sem nem se dar ao trabalho de mastigar o pedaço de pão.

Olga parou imóvel no vão da porta.

Ela nem precisava entrar na cozinha para entender a dimensão da catástrofe.

O cheiro atingiu suas narinas ainda no patamar da escada, quando o elevador mal tinha aberto as portas no andar deles.

Não era o aroma de aconchego doméstico, mas um bafo espesso, pesado, quase palpável, daquele tipo que existe em refeitórios velhos ou em vagões de trem de longa distância.

Cheirava a repolho azedo, cebola frita velha e banha derretida.

Aquele cheiro impregnava o papel de parede, os cabelos, o estofado caro das cadeiras, expulsando o aroma habitual de café e amaciante fresco que reinava no apartamento deles.

Ela atravessou devagar o corredor, sentindo dentro de si ferver um tremor frio e raivoso.

A cozinha, sua cozinha esterilmente branca e querida, com superfícies cromadas, agora parecia um depósito de alimentos dos tempos de escassez.

Todas as bancadas estavam tomadas por potes de três litros com salmoura turva, na qual boiavam pepinos gigantescos amarelados e tomates de casca rachada.

No centro daquele caos gastronômico erguia-se Galina Ivanovna.

A sogra, vestida com um robe florido desbotado que trouxera consigo, cortava pão preto em fatias grossas e rudes, cujas migalhas voavam direto para o chão.

— Ah, apareceu, a provedora, — Galina Ivanovna limpou as mãos nos lados do corpo, deixando marcas de gordura no tecido.

— Entra logo, por que está parada aí como se fosse estranha.

Está vendo, seu marido está morrendo de fome enquanto você fica construindo carreira.

A mãe dele teve que intervir para salvar o homem.

Olga desviou o olhar para a lata de lixo.

A tampa estava aberta, e o que ela viu ali fez seu estômago se contrair.

Por cima, bem sobre cascas sujas de batata, estava uma embalagem de truta levemente salgada que ela havia comprado ontem em promoção numa loja de produtores locais.

Ao lado, aparecendo timidamente debaixo de folhas de repolho, jazia um pedaço de parmesão e dois abacates maduros, cortados ao meio e impiedosamente jogados no lixo.

No fundo da lata dava para ver um pacote de rúcula e tomates-cereja.

O jantar dela.

O café da manhã dela.

Seus alimentos para a semana inteira.

— O que vocês fizeram? — a voz de Olga saiu rouca, e ela mal conseguia conter a vontade de gritar.

— Galina Ivanovna, isso é dinheiro.

É comida normal, fresca.

Por que a senhora jogou fora o peixe?

— Peixe? — bufou a sogra, voltando-se para a enorme panela sobre o fogão.

— Isso não é peixe, Olya, isso é frescura.

Uma gosma rosa qualquer, credo.

Homem precisa de carne, de sustança, de força.

E você enfia essas ervinhas nele como se ele fosse um coelho.

Eu olhei a sua geladeira, estava vazia.

Só uns potinhos esquisitos e legumes de plástico.

Então joguei tudo fora para não ocupar espaço.

Tudo isso é podridão, coisa do demônio.

Denis, sentado à mesa de camiseta regata, sorveu ruidosamente da tigela.

Um fio gorduroso de caldo descia por seu queixo.

Ele tinha um ar repulsivamente satisfeito, como um gato que entrou escondido na despensa do creme azedo.

— Olya, na real, para de fazer escândalo, — ele apontou com a colher para a lata de lixo.

— A mamãe está certa.

Eu quero comer, entendeu?

Comer, e não ficar degustando suas saladinhas.

Você me colocou de dieta, daqui a pouco vou ficar transparente.

E isso aqui sim é coisa boa!

Borsch de verdade, com osso, gorduroso, como deve ser.

Almôndegas com alho.

Você nunca na vida vai cozinhar uma coisa dessas.

— Você acha normal que a sua mãe tenha vindo sem convite, mexido na minha geladeira e jogado fora comida no valor de cinco mil rublos? — Olga deu um passo em direção à mesa, olhando o marido diretamente nos olhos.

— Denis, tinha queijo ali que você mesmo pediu para eu comprar.

— Mas o seu queijo estava azedo! — Denis bateu a colher na mesa com tanta força que o caldo espirrou na toalha.

— Já estava todo ressecado, a casca dura como pedra.

Mamãe disse que estava estragado, então estava estragado.

Ela entende disso, criou uma família, criou nós três.

E você sabe fazer o quê?

Só sabe contar calorias.

— Mas a sua mãe…

— Mamãe acha que você está nos alimentando de forma errada, por isso jogou fora todos os seus produtos e trouxe as conservas dela!

E você vai comer o que ela preparou e ainda vai elogiar!

Não gostou do cheiro?

Esse é o cheiro do cuidado!

E os seus “sushis” e “saladinhas” são veneno!

Mamãe arrumou a geladeira, vai lá e agradece!

Enquanto isso, Galina Ivanovna já se movimentava junto ao fogão, mexendo alguma mistura cinzenta numa frigideira.

O cheiro de gordura frita ficou ainda mais intenso, causando em Olga uma leve náusea.

A sogra tirou da bolsa um pote embaçado com alguma coisa branca e granulada.

— Banha, — anunciou solenemente, colocando o pote sobre a mesa diante de Denis.

— Batida com alho.

Passa no pão e dá vontade de comer sem parar.

Não como esses patês de mercado, tudo química.

Come, meu filho, come.

Também fiz carne gelatinada, agora vai endurecer na varanda, amanhã cedo você vai tomar café da manhã como homem.

Olga olhava para aquele surrealismo e sentia o chão lhe faltar sob os pés.

Seu mundo aconchegante estava desmoronando sob o ataque de um cuidado agressivo e categórico.

Ela tentou respirar fundo, mas o ar era denso demais.

— Eu não vou comer isso, — disse ela em voz baixa.

— E esse cheiro… Galina Ivanovna, pelo menos dá para ligar o exaustor?

As nossas roupas vão ficar todas impregnadas.

— Não gostou do cheiro?

Esse é o cheiro do cuidado! — Denis se meteu na hora, mastigando um pedaço de carne.

— E os seus sushis e saladinhas são veneno.

Não gosta do cheiro…

Agradece que mamãe veio e cozinhou.

Senta logo e pega um prato.

— Não vou, — repetiu Olga, mais firme.

— Eu não como carne de porco, você sabe.

E eu não pedi que viessem impor suas regras aqui.

Galina Ivanovna se virou bruscamente, segurando uma concha da qual pingava gordura alaranjada.

Seu rosto, vermelho pelo calor do fogão, deformou-se numa expressão de superioridade ofendida.

— Olha só, que madame!

Ela não come carne de porco.

E o que você come então?

Vive de espírito santo? — ela deu um passo em direção a Olga, pairando sobre ela com sua figura maciça.

— Olha para você, pele e osso, nem peito, nem bunda, Deus me perdoe.

Como é que você pretende parir?

Com o que vai alimentar uma criança, com essas suas ervinhas?

Denis me contou que você não sabe cozinhar.

Pois eu ensino, enquanto ainda estou viva.

Pega a colher, quando estou falando com você!

— Eu não vou me sentar nessa mesa, — Olga se virou para ir para o quarto, mas Denis foi mais rápido.

Ele saltou da cadeira, derrubando o banco, e agarrou a esposa pelo cotovelo.

Seus dedos estavam pegajosos e quentes.

Ele a puxou com força, virou-a para si e a sentou à força na cadeira vazia.

— Senta, eu falei! — sibilou no rosto dela, lançando sobre ela cheiro de alho e de bebida.

— Minha mãe se esforçou, trouxe esses potes no trem, carregou tudo sozinha.

Você não ousa sair.

Você vai comer o que ela preparou e vai elogiar.

Entendeu?

Olga tentou se soltar, mas o aperto do marido era de ferro.

Diante dela logo foi colocada uma tigela funda, cheia até a borda com uma sopa grossa e gordurosa na qual boiavam enormes pedaços de toucinho cozido.

— Come, — ordenou Galina Ivanovna, enfiando em sua mão uma pesada colher de metal prateado.

— E pega pão também.

Sem pão você não vai se fartar.

Agora cismaram de torcer o nariz para a mãe da casa.

A colher em sua mão parecia de chumbo.

Olga olhava para o prato, e um nó viscoso e pesado subia-lhe pela garganta.

Aquilo que Denis chamava de “borsch de verdade” parecia mais um pântano gorduroso vermelho-alaranjado, sobre o qual começava a se formar uma película turva de gordura resfriando.

Pela superfície boiavam pedaços grandes e irregulares de toucinho com camadas de carne cinzenta, e o cheiro de alho cozido e óleo velho era tão espesso que parecia possível cortá-lo com faca.

— E então?

O que estamos esperando?

Convite especial? — Denis parou de mastigar e fitou a esposa com um olhar pesado e turvo.

— Mamãe se esforçou, colocou alma nisso.

E você fica aí sentada como se estivesse num velório.

Come, eu disse!

Olga ergueu os olhos para a sogra.

Galina Ivanovna estava sentada na frente dela, apoiando a bochecha rechonchuda no punho e observando a nora com malícia indisfarçada.

Na outra mão segurava um pedaço de pão preto besuntado daquela mesma banha e, de vez em quando, mordia-o com estalidos altos.

— Ah, isso não é para ela, Denis, — arrastou a sogra, sem terminar de mastigar.

— Ela é da cidade, delicadinha.

Para ela, bom é roer uma torradinha e engolir com água.

Olha as mãos dela, parecem palitos.

Como essa alma se sustenta nesse corpo?

Nem carne, nem figura.

Como é que ela te aquece na cama, sendo tão gelada?

Tsc.

Come, Olya, come.

Isso não é os seus camarõezinhos de borracha, isso é comida de verdade.

Olga tentou respirar pela boca para não sentir aquele cheiro, mas o gosto de gordura parecia pairar no próprio ar.

— Denis, eu realmente não consigo, — disse ela baixinho, sentindo os lábios tremerem.

— Tem gordura demais aqui.

Eu tenho gastrite, você sabe, depois eu vou passar mal.

Me deixa tomar só um chá?

O soco na mesa fez saltarem não só os pratos, mas a própria Olga.

A colherzinha de chá na caneca vazia tilintou com pena.

— Gastrite! — berrou Denis, e o rosto dele se encheu de sangue.

— Inventou doença para não fazer nada!

Que gastrite?

Você só está se fazendo de difícil!

Você está humilhando a minha mãe agora, está entendendo?

Ela veio atravessando a cidade inteira, carregou bolsas, arrebentou as costas para nos alimentar!

E você torce o nariz?

Come, eu mandei!

Ele pegou sua colher e, de forma demonstrativa, tirou o grosso da sua tigela, levando à boca com um forte som de sucção.

— M-m-m, mamãe, isso é uma obra-prima! — murmurou, olhando para Olga com olhos maus.

— Isso sim é comida!

Aprende, sua inútil, enquanto a mãe está viva.

Senão você vai definhar com as suas saladinhas.

Olga entendeu que não havia caminho de volta.

Se ela não comesse nem que fosse uma colherada, aquela cena iria piorar.

Denis estava exaltado, o álcool lhe subira à cabeça, e a presença da mãe, que colocava lenha na fogueira com seus comentários, o tornava completamente incontrolável.

Ele se exibia diante dela, representando o papel de “homem da casa” que sabe colocar a mulher rebelde em seu lugar.

Ela tirou um pouco do líquido da borda do prato, tentando não pegar pedaços de toucinho.

Sua mão tremia traiçoeiramente.

A substância gordurosa alaranjada balançou na colher.

Olga fechou os olhos e enfiou rapidamente a colher na boca.

O gosto era monstruoso.

A sopa não era apenas gordurosa, era salgada até amargar.

O sal queimava a língua, e o gosto de gordura velha e rançosa cobriu imediatamente o céu da boca com uma película oleosa que dava vontade de cuspir na hora.

A beterraba estava mal cozida e crocante nos dentes, e o repolho havia se transformado numa papa viscosa.

— Pronto, — assentiu satisfeita Galina Ivanovna, lambendo os dedos gordurosos.

— Agora sim.

Fez toda essa cena feito uma bonequinha.

Talvez tenha pouco sal?

Eu gosto de comida com sabor forte.

— Está ótimo, mamãe, no ponto certo! — concordou Denis.

— Sal é vida.

Ela só come comida sem graça, igual hospital.

Vai, Olya, não para.

Uma colher pela mamãe, uma colher pelo papai.

Olga engoliu a primeira porção com dificuldade.

O estômago respondeu imediatamente com um espasmo, como se tivessem derramado chumbo derretido dentro dele.

— Gostoso? — perguntou Denis com insistência, inclinando-se para ela sobre a mesa.

— Diz para a mamãe que está gostoso.

Estou esperando.

— Denis, por favor… — começou Olga, sentindo as lágrimas subirem aos olhos, não de ofensa, mas de repulsa física.

— Fala! — rugiu ele.

— Obrigada, Galina Ivanovna… é bem reforçado, — conseguiu dizer Olga.

— “Reforçado”, — imitou a sogra, tirando com a unha carne presa entre os dentes.

— Você é uma ingrata.

Eu olho para você e penso: por que meu filhinho mereceu esse castigo?

Não sabe cozinhar, não sabe receber o marido, não sabe respeitar a mãe dele.

Fica aí se engasgando como se eu tivesse posto veneno.

E isso tudo é caseiro, do nosso!

O repolho eu mesma fermentei, num tonel, sob pressão.

E a carne de porco veio do tio Vitya, fresquinha, ele abateu o porquinho só na semana passada.

Você ao menos podia comer com pão, sua idiota, comida gordurosa não se come sem pão!

Galina Ivanovna agarrou uma fatia de pão e praticamente a atirou sobre a mesa diante de Olga.

As migalhas se espalharam em leque.

— Pega! — ordenou com voz de carcereira.

Olga partiu mecanicamente um pedaço de pão.

Parecia-lhe que tinha caído num filme de terror surrealista.

Sua cozinha, suas regras, sua vida, tudo aquilo fora pisoteado numa única noite por duas pessoas que acreditavam ter o direito de decidir o que ela devia comer e como devia viver.

Nesse meio-tempo, Denis já tinha terminado sua porção e agora limpava o prato com um pedaço de pão, recolhendo os restos de gordura.

— Termina, — disse, acenando com a cabeça para o prato quase cheio de Olga.

— Quero ele limpo.

E pega uma almôndega.

E prova o repolho.

Mãe, põe um pouco de repolho para ela, senão ela fica com vergonha.

Galina Ivanovna, prontamente, apanhou com o garfo um enorme monte de chucrute do pote.

O repolho era amarelado e acinzentado, com aspecto viscoso.

A salmoura pingava direto na mesa enquanto a sogra o levava ao prato de Olga.

— Aqui, vitaminazinhas! — ela despejou o repolho diretamente na sopa ainda não terminada, levantando respingos.

— Come, não faz careta.

Isso faz bem para a saúde, porque você está toda verde, parecendo um cogumelo venenoso.

O cheiro de repolho azedo fermentado misturou-se ao cheiro de gordura quente.

Essa mistura foi a gota d’água.

Olga foi tomada por um suor frio.

Sentiu o espasmo no estômago transformar-se num impulso irresistível.

A boca se encheu de saliva, sinal certo de que o corpo não pretendia mais tolerar aquela violência.

— Eu não aguento mais, — sussurrou, cobrindo a boca com a mão.

— O que você não aguenta? — Denis estreitou os olhos, o rosto deformado por nojo e raiva.

— Está fingindo?

Fazendo teatrinho de novo?

“Ai, estou passando mal, ai, sou tão sensível”?

Come, eu falei!

Você já me encheu com essas frescuras!

Ele agarrou o prato dela e o empurrou com força, de modo que o caldo gorduroso espirrou na camiseta de casa de Olga, deixando uma mancha alaranjada horrível.

— Come!

Ou eu despejo isso em você! — gritou ele, cuspindo saliva.

— Mamãe viveu uma vida inteira, ela sabe melhor o que faz bem!

E você fica aí, rainha do lixo, torcendo o nariz!

Com o movimento brusco e o grito, a náusea subiu até a garganta.

Olga entendeu que tinha dois segundos, não mais.

Ela empurrou a cadeira, que arranhou o piso com um som desagradável, e se levantou de um salto.

— Fica aí! — rugiu Denis.

— Vai para onde?!

Nós não terminamos!

Mas Olga já não podia responder.

Tapou a boca com as duas mãos e correu para o corredor, sentindo nas costas o olhar odiado do marido e ouvindo a risadinha sarcástica da sogra.

Olga não conseguiu chegar à salvadora brancura do vaso sanitário por apenas dois metros.

A mão pesada de Denis, impregnada de cheiro de tabaco barato e gordura, agarrou seus cabelos na nuca.

O puxão foi tão brusco que o pescoço dela estalou, e lágrimas de dor saltaram de seus olhos, misturando-se ao mal-estar crescente.

Os pés nas pantufas macias de casa deslizaram pelo laminado e, perdendo o equilíbrio, ela caiu de joelhos bem no corredor.

— Para onde você foi?! — o rugido de Denis ecoou pelas paredes estreitas do corredor, batendo nos tímpanos.

— Eu estou falando com você!

Volta para a mesa, sua ingrata!

O estômago de Olga se contraiu com tamanha força que ela se curvou ao meio, apoiando as mãos no chão.

O mundo diante de seus olhos ondulava, transformando-se numa mancha turva.

Ela não conseguia respirar.

O ar abafado do apartamento parecia composto apenas de átomos de gordura e álcool.

— Me solta… eu vou vomitar… — ofegou ela, tentando se arrastar na direção da porta do banheiro, cuja maçaneta estava tão perto.

— Mentira! — Denis não afrouxava o punho com o qual segurava seus cabelos.

Puxou a cabeça dela para trás, obrigando-a a olhar para ele de baixo para cima.

Seu rosto estava rubro, as veias da testa saltadas, e nos olhos borbulhava uma fúria animal e bêbada.

— Você faz tudo isso de propósito!

Encena esse espetáculo para ofender a mamãe!

Para mostrar que você é refinada e nós somos uns animais, é isso?

Você é um lixo, não atriz!

— Denis, por favor… — Olga tentou segurar o braço dele para afrouxar o aperto, mas um novo espasmo a fez perder o ar.

Por fim, ele entendeu que aquilo não era fingimento, mas, em vez de compaixão, isso lhe provocou uma nova crise de fúria.

Ele a empurrou com força para dentro da porta aberta do banheiro.

Olga caiu para dentro, batendo o ombro no batente, e desabou diante do vaso, agarrando-se convulsivamente à borda fria.

Ela vomitou de forma dolorosa e ruidosa.

O organismo rejeitava aquela substância pesada e estranha que lhe haviam enfiado à força.

A garganta ardia por causa dos temperos e do suco gástrico.

Cada onda de espasmos doía nas costelas.

Denis ficou parado no vão da porta do banheiro, com as mãos na cintura.

Ele não foi embora.

Não trouxe água.

Ficou ali olhando com expressão de desprezo enojado, como se observasse uma bêbada num beco.

— Fraca, — cuspiu ele.

— Mamãe se esforçou, gastou comida, colocou alma nisso.

E você joga tudo no vaso.

Essa é toda a sua gratidão.

Mamãe está certa, você é podre por dentro.

Da cozinha, arrastando as chinelas gastas, veio Galina Ivanovna.

Ela parou atrás do filho, espiando por cima do ombro dele para dentro do banheiro.

Nas mãos ainda havia um pedaço de pão com banha, que ela mastigava com total calma.

— Então, Denis, eu não tinha dito? — sua voz soava cotidiana, quase entediada.

— Não adianta alimentar uma dessas.

O estômago dela é estragado, igual ao caráter.

Só desperdiçou produto, parasita.

Tinha meio quilo de banha ali, e ela jogou tudo no esgoto.

Tsc.

Olga, recuperando o fôlego, tentou se levantar, apoiando a mão trêmula na borda da pia.

Na boca havia o gosto horrível de bile e daquela mesma sopa “especial”.

Ela abriu a água para lavar o rosto, mas Denis em dois passos chegou ao lado dela e fechou a torneira com força.

— Para de gastar água! — berrou ele.

— Os medidores já estão girando, e você aqui fazendo show.

Olha para você!

Cara vermelha, nariz escorrendo.

Linda, poxa.

Como é que eu vivo com você?

Ele pegou a toalha — a toalha favorita dela, macia, branca — e a atirou no rosto dela.

O tecido bateu dolorosamente na pele molhada.

— Se enxuga e vai para a cozinha limpar a sua bagunça! — ordenou.

— Mamãe não foi contratada para lavar louça atrás de você depois de cozinhar para um batalhão inteiro.

Olga puxou devagar a toalha do rosto.

O tremor aos poucos cedia, sendo substituído por outra coisa.

Uma compreensão fria, sonora, cristalina.

Ela olhava para o marido e não via mais o homem com quem se casara três anos antes.

Diante dela estava um estranho suado e agressivo, para quem a dor dela não significava nada.

Para ele importava mais agradar a mamãezinha e afirmar sua própria importância humilhando a esposa.

— Eu não vou para a cozinha, — disse Olga em voz baixa, mas clara.

A voz estava rouca por causa do vômito, mas firme.

— E não vou mais comer a comida imunda de vocês.

— O quê?! — Denis ficou desnorteado.

Ele esperava desculpas, lágrimas, súplicas de perdão, mas não resistência.

— Como foi que você chamou a comida da minha mãe?

Imunda?

Agora eu vou te…

Ele ergueu a mão, mas Olga nem se mexeu.

Ela o encarava diretamente nos olhos, e havia em seu olhar tanto desprezo gelado que a mão de Denis ficou suspensa no ar.

— Bate, — disse ela.

— Vai, me bate.

Para a sua mamãezinha ficar feliz.

É isso que ela quer, não é?

Processo educativo, não é, Galina Ivanovna?

A sogra no corredor apertou os lábios e virou o rosto de forma demonstrativa.

— Não suja as mãos, meu filho, — resmungou ela.

— Só o túmulo conserta corcunda.

Deixa ela sentada no chiqueiro dela, pensando.

Nós vamos, as almôndegas ainda estão esfriando.

Ela nunca vai entender o sabor da comida de verdade.

O corpo dela desaprendeu comida normal, vive se envenenando com essas químicas dela.

— Ouviu? — Denis enfiou o dedo no peito de Olga, pressionando dolorosamente a falange.

— Você não serve nem para limpar o sapato da minha mãe.

Fica aí e não sai enquanto não criar juízo.

Vergonha.

Ele se virou e saiu do banheiro, batendo a porta com tanta força que caiu poeira do teto.

Ouviu-se o clique do interruptor, Denis apagou a luz, deixando Olga na completa escuridão.

— Para não gastar eletricidade, já que você não serve para nada! — veio a voz do corredor.

Olga ficou de pé no escuro, encostada com as costas nos azulejos frios.

Do outro lado da porta vinham sons que lhe traziam novamente náusea: tilintar de garfos nos pratos, mastigação alta, o riso da sogra e os grunhidos aprovadores do marido.

Eles continuavam o banquete.

Comiam, falavam dela, chamavam-na de “seca” e “inútil”, e, pelo som, abriam outra garrafa.

Ela tateou a torneira e abriu a água gelada.

Lavou o rosto, bebeu avidamente um punhado de água diretamente das mãos, lavando o gosto de bile.

O medo passou.

A dor passou.

Restou apenas o nojo.

Tão forte como se ela tivesse se sujado de algo pegajoso e imundo que a água não pudesse remover.

Olga abriu o armário acima da pia, pegou a escova de dentes e começou a escovar os dentes com ferocidade, tentando arrancar de si até a lembrança daquilo que estivera em sua boca.

No espelho escuro, iluminado apenas por uma faixa de luz sob a porta, refletia-se uma mulher magra, de cabelos desgrenhados e olhos ardentes.

— “Comida de lixo”, — sussurrou ela para a escuridão, experimentando aquelas palavras.

Ela gostou delas.

Saiu do banheiro.

Na cozinha gargalhavam.

Denis contava alguma coisa de boca cheia, Galina Ivanovna concordava, batendo a faca na tábua.

Olga passou por eles e foi até o quarto, mas não se deitou na cama.

Parou no meio do cômodo, ouvindo as próprias sensações.

A adrenalina fervilhava no sangue, pedindo saída.

Ela não ia chorar no travesseiro.

Ela não ia esperar o amanhecer.

Esse circo de horrores precisava acabar agora mesmo.

Olga se virou e voltou para a cozinha.

Seus passos eram silenciosos, mas dentro dela rugia um furacão.

Ela sabia o que ia fazer.

E não dava a mínima para as consequências.

Olga voltou à cozinha.

Ali reinava uma atmosfera de saciedade bêbada e presunçosa.

Denis, com o botão de cima da calça jeans aberto, estava largado na cadeira, cutucando preguiçosamente com o garfo um prato de almôndegas.

Galina Ivanovna, corada pelo abafamento e pela própria importância, servia nos copinhos uma tintura caseira turva.

— Ah, rastejou de volta, — zombou Denis sem virar a cabeça.

— Então, limpou as ideias?

Senta aí, vamos te servir uma penalidade.

Mamãe é boa, ela perdoa.

Galina Ivanovna apertou os lábios, fazendo pose de mártir pronta para a condescendência.

— Primeiro ela pede desculpa, — sibilou.

— Por ter desperdiçado comida e acabado com os meus nervos.

Eu me esforço por vocês, seus idiotas…

Olga não respondeu.

Passou pela mesa sem sequer olhar para eles.

Seus movimentos eram precisos, sem aquele tremor que a sacudira cinco minutos antes.

Ela se aproximou da geladeira e puxou a porta com força.

Dentro, em todas as prateleiras, alinhavam-se fileiras densas de potes.

Pepinos, tomates, lecho, adjika, geleia, barricadas de vidro e vinagre que tinham expulsado a vida dela.

Olga estendeu a mão e pegou o primeiro pote de três litros que encontrou, com tomates em conserva.

O vidro estava frio e pegajoso.

— O que você está pensando em fazer? — Denis se alarmou, virando-se todo para ela.

— Olya, põe isso no lugar.

Olga se voltou lentamente para a mesa.

Em seus olhos não havia medo nem raiva, apenas um vazio gelado.

Ela ergueu o pote acima da mesa, bem sobre o prato com as almôndegas da sogra, e abriu os dedos.

O estrondo do impacto foi ensurdecedor.

O pote explodiu em estilhaços e salmoura vermelha.

Os tomates, rompidos pela pancada, espirraram para todos os lados, molhando a toalha, as paredes, a camisa de Denis e o robe de Galina Ivanovna.

Um caco de vidro tilintou contra a garrafa de tintura.

— O que você está fazendo, sua vadia?! — gritou Denis, levantando-se num salto.

Do rosto dele escorria a gosma vermelha, parecida com sangue.

— Meus tomates! — guinchou Galina Ivanovna, levando a mão ao peito.

— Era da variedade coração-de-boi!

Eu os cultivei o verão inteiro!

Mas Olga já não ouvia mais.

Mergulhou de novo na geladeira.

A vítima seguinte foi um pote de cogumelos.

Ela não o jogou na mesa.

Arremessou-o com força contra a parede, bem acima da cabeça da sogra.

Cogumelos viscosos e oleosos, misturados com vidro, se espalharam pela cozinha em leque, espatifando-se no chão e nos móveis com um som pastoso e nojento.

— Segura ela! — gritou a sogra, escondendo-se atrás das costas do filho.

— Ela ficou louca!

Vai matar a gente!

Denis, rosnando de raiva, correu para a esposa.

Mas, escorregando na salmoura dos tomates, agitou os braços desajeitadamente e mal conseguiu se equilibrar.

Essa hesitação foi suficiente para Olga.

Ela agarrou do fogão a mesma enorme panela de borsch gorduroso.

A panela era pesada, ainda estava quente, mas Olga parecia ter adquirido uma força desumana.

— Comam! — gritou ela com a voz trêmula.

— Comam até estourarem!

Ela virou a panela.

Uma torrente de mistura alaranjada e gordurosa se derramou pelo chão, alagando as pernas de Denis, espalhando-se numa poça oleosa imensa por toda a cozinha.

Repolho cozido, pedaços de toucinho, beterraba, tudo isso agora boiava sob os pés, transformando o piso num escorregador.

— A-a-ai!

Está quente! — gritou Denis, quando o líquido fervente atingiu seus pés através das meias.

Tentou dar um passo, mas a película gordurosa sob a sola lhe pregou uma peça cruel.

As pernas voaram para cima, e ele caiu de costas com estrondo bem na poça de borsch e cacos de vidro.

— Meu filhinho! — Galina Ivanovna, esquecendo o medo, correu para ele, mas logo escorregou num cogumelo e caiu pesadamente de quatro ao lado do filho, metendo as mãos na mistura de salmoura e gordura.

Olga ficou de pé no meio daquele apocalipse, respirando pesadamente.

Suas mãos tremiam, o peito subia e descia.

Ela olhava para o marido, debatendo-se naquela sujeira gordurosa, para a sogra, rastejando de quatro e lamentando o robe estragado.

— Você é doente… você é louca… — arquejava Denis, tentando se levantar, mas as mãos escorregavam no laminado engordurado e ele tornava a cair, sujando-se cada vez mais.

No cabelo dele pendia repolho, o rosto estava coberto de pasta de tomate.

— Eu vou te internar!

Você vai pagar por tudo!

— Eu já paguei, — disse Olga em voz baixa.

Ela se aproximou da mesa, onde estava o último pote intocado, a mesma banha com alho.

Galina Ivanovna, vendo aquilo, estendeu uma mão suja para ela:

— Não toque!

Não ouse!

Isso é para o inverno!

Olga abriu a tampa.

O cheiro de alho e gordura velha acertou-lhe o nariz com nova força, mas agora não lhe causava náusea.

Agora era o cheiro da vitória.

Ela virou o pote sobre a cabeça da sogra e despejou a massa branca e grossa diretamente sobre a permanente dela.

— Bom apetite, Galina Ivanovna.

Esse é o cheiro do cuidado.

Ela atirou o pote vazio na pia.

O som do vidro quebrando colocou um ponto final naquela loucura.

A cozinha estava destruída.

As fachadas caras dos armários estavam salpicadas de gordura e tomate.

No chão havia uma mistura de comida, vidro e corpos humanos.

O fedor era insuportável, uma mistura de vinagre, alho, álcool e suor.

Olga passou por cima das pernas do marido, tentando não pisar nos cacos.

— Limpem, — disse ela, saindo para o corredor.

— Vocês gostam tanto de ordem.

Atrás dela ouviam-se os palavrões de Denis e os lamentos da sogra, que tentava tirar a banha do cabelo, mas só a espalhava ainda mais pela cabeça.

Sem frases bonitas, sem promessas de divórcio nem ameaças de tribunal.

Tudo estava claro sem palavras.

O mundo em que viviam naquela manhã não existia mais.

Afundara em três litros de borsch e num pote de tomates.

Olga entrou no quarto e fechou bem a porta atrás de si.

Sentou-se na cama, olhando para as próprias mãos.

Elas cheiravam a salmoura.

No apartamento ecoava um tumulto, Denis tentava se levantar, derrubando cadeiras.

Mas Olga não se importava.

Pela primeira vez naquela noite, ela respirou fundo, e, apesar do mau cheiro que entrava pelas frestas, o ar pareceu surpreendentemente limpo.