Mas esse ouro acabou saindo caro para ela.
Dasha não era apenas uma moça inteligente, ela possuía aquele raro e cristalino tipo de caráter que lhe permitia sair vencedora até das mais desesperadoras batalhas da vida cotidiana.

Ela lia muito, tinha uma memória fenomenal e acreditava piamente que um sorriso era uma forma legal de autodefesa.
Ela não deixava ninguém humilhá-la, mas fazia isso com tanta graça que o adversário só percebia que tinha sido colocado no seu devido lugar no dia seguinte.
A única calamidade natural na sua vida equilibrada era a sogra, Larisa Maksimovna.
Essa senhora morava na casa em frente, algo que Dasha considerava uma zombaria arquitetônica do destino.
Larisa Maksimovna tinha o talento de transferir os próprios problemas para os ombros alheios, escondendo-se atrás do cuidado materno.
Normalmente, as suas visitas começavam com as palavras: «Dashenka, a minha pressão está tão instável que eu não consigo cozinhar! Vamos jantar na sua casa, eu levo um bolinho».
O bolinho sempre acabava sendo minúsculo, comprado em promoção, enquanto Larisa Maksimovna devorava as iguarias de Dasha como se fosse alimentar um batalhão de soldados.
Mas, naquela terça-feira, aconteceu um milagre.
Larisa Maksimovna apareceu “só por um minutinho”, brilhando como uma moedinha de cobre.
— Dashenka, que alegria! — anunciou ela, apertando teatralmente as mãos contra o busto farto.
— A minha parentela do interior vem me visitar!
A minha prima de terceiro grau Zinaida com o marido Kolya, os filhos deles e ainda a tia Lyuba.
Faz um ano que eu não os vejo!
— Estou tão feliz, quero tanto rever todo mundo e fazer uma verdadeira festa para eles!
Dasha sorriu com sinceridade.
Finalmente!
A sogra ia receber os convidados no próprio território.
— Isso é uma notícia maravilhosa, Larisa Maksimovna — respondeu Dasha calorosamente.
— Tenho certeza de que eles vão adorar.
— Ah, sim… — de repente a sogra fez uma expressão sofrida.
— Só que, Dashunka, você sabe como é o meu forno.
É forno só no nome!
E a Zina gosta tanto de tortas.
— Não seria incômodo nenhum você assar as suas famosas, as de carne?
Umas duas assadeiras grandes.
Você é uma verdadeira maga!
Dasha, animada com a ideia de que a invasão dos parentes não atingiria o seu território, concordou generosamente.
Na quarta-feira à noite, a cozinha de Dasha parecia uma filial de padaria.
Ela matou quatro horas depois do trabalho: sovando massa, preparando o recheio, fritando cebola.
Às oito da noite, sobre a mesa erguia-se uma montanha de pirozhki perfeitos, dourados e exalando um aroma divino.
Dasha limpou a cozinha até deixá-la brilhando, tirou a farinha da testa e saboreou antecipadamente a ideia de agora arrumá-los com cuidado nas caixas, levá-los até a casa em frente e depois se afundar na banheira com um livro.
O marido, Anton, estava viajando a trabalho, então a noite prometia ser deliciosamente silenciosa.
A campainha tocou.
«Provavelmente Larisa Maksimovna não aguentou esperar e veio ela mesma buscar as tortas», pensou Dasha, abrindo a fechadura.
Quando escancarou a porta, ficou paralisada.
No patamar não estava apenas a sogra.
Havia uma caravana inteira.
Um homem corpulento de camisa xadrez (obviamente o tio Kolya) segurava uma bolsa enorme.
Ao lado dele, uma mulher robusta com permanente (Zinaida) trocava o peso de um pé para o outro, três adolescentes dividiam ruidosamente um pacote de batatas fritas, e uma velhinha seca (tia Lyuba) já se apoiava no batente da porta de Dasha.
No centro dessa composição erguia-se Larisa Maksimovna.
— E aqui estamos nós! — berrou alegremente a sogra, afastando Dasha sem cerimônia e fazendo a multidão entrar no corredor.
— Surpresa!
Dashenka, decidimos que o apartamento de vocês é mais espaçoso e a aura aqui é mais clara.
Entrem, meus queridos, tirem os sapatos!
A nossa Dashka é uma dona de casa de ouro, agora vai alimentar todo mundo!
Dasha sentiu o olho esquerdo tremer.
Passando pela nora, Larisa Maksimovna rapidamente e em voz baixa sibilou no ouvido dela:
— Não olhe para mim desse jeito.
Só ontem trouxeram o meu tapete branco da lavanderia, e o meu sofá novo é claro.
Onde eu vou deixar essa horda entrar?
— Eles vão sujar tudo.
Você dá conta deles, não vai quebrar por causa disso.
Dasha, mantendo no rosto uma máscara de polida estupefação, recuou um passo.
A parentela já começava a abrir as malas, o tio Kolya perguntou em voz alta onde ficava o banheiro e se havia algo mais forte para beber, enquanto os adolescentes correram para a sala, derrubando no caminho o arranhador do gato.
— Vou só um instante ao banheiro — sorriu Dasha radiantemente para os convidados.
— Preciso lavar as mãos antes de servir a mesa.
Trancando-se no banheiro, ela discou freneticamente o número de Anton.
“O assinante está temporariamente indisponível.”
Ótimo.
Viagem de trabalho no meio da taiga.
Não havia ajuda a esperar de lugar nenhum.
Dasha olhou para o próprio reflexo no espelho.
Ela não pretendia suportar aquela humilhação e trabalhar como garçonete gratuita na festa da esperteza da sua sogra.
Ainda mais porque os convidados não tinham culpa de nada, eles realmente tinham acabado de chegar da estrada e queriam comer.
Castigá-los seria uma baixeza, mas Larisa Maksimovna…
Nos olhos de Dasha acendeu-se uma perigosa e fria centelha.
Ela pegou o telefone, abriu o aplicativo do seu restaurante georgiano favorito — e muito caro.
Os dedos voavam pela tela: cinco porções de churrasco de vitela, lula-kebab, três enormes khachapuris ao estilo adjariano, rolinhos de berinjela, truta assada e, já que era para caprichar, três garrafas de excelente champanhe francês.
No campo “Endereço”, digitou cuidadosamente o apartamento de Larisa Maksimovna.
No campo “Pagamento”, apertou com firmeza: “Cartão ou dinheiro ao entregador no recebimento”.
O valor do pedido ficou tão alto que a sogra certamente teria um tique no olho, mas o status obriga!
«Muito bem, Larisa Maksimovna — pensou Dasha, ajeitando o penteado. — Como a senhora gosta de dizer? Vamos jantar na sua casa, e eu levo um bolinho? Vamos jogar pelas suas regras».
Dasha saiu para o corredor.
Os convidados já se amontoavam na entrada da cozinha, esfregando as mãos por causa do cheiro da comida assada.
A sogra, como se fosse a dona da casa, abria os armários e tirava os melhores pratos de Dasha.
— Um minutinho de atenção! — disse Dasha em voz alta, solene e incrivelmente alegre.
Os convidados se calaram.
Dasha aproximou-se de Larisa Maksimovna e, com delicadeza, mas com firmeza, segurou-a pelo braço.
— Queridos convidados! — a voz de Dasha tilintava de entusiasmo.
— Vocês foram vítimas do cuidado incrível, simplesmente grandioso, da nossa Larisa Maksimovna!
Ela estava tão preocupada com o cansaço de vocês da viagem que decidiu preparar uma surpresa em duas etapas!
A sogra lançou um olhar desconfiado à nora, tentando puxar o braço de volta, mas Dasha a segurava com mão de ferro.
— Ela não contou para vocês, contou? — Dasha gesticulou com a mão livre, dirigindo-se a Zinaida.
— Ah, Larisa Maksimovna, não se pode guardar o mistério até esse ponto!
— Que mistério? — perguntou o tio Kolya com voz grave.
— Larisa Maksimovna sabia que os meus pirozhki eram só um aquecimento! — começou Dasha a discursar com entusiasmo.
— Ela me pediu especialmente para prepará-los para vocês levarem, assim vocês poderiam fazer um lanche enquanto um luxuoso banquete de restaurante seguia para a casa dela!
— Mas o que é isso, Lorka? — exclamou Zinaida.
— Banquete de restaurante?!
— Ora, Zinaida! — interrompeu Dasha.
— Larisa Maksimovna me disse: “Dasha, para a minha amada parentela, nada é demais! Quero preparar para eles uma mesa de rei bem na minha sala de estar!”.
Larisa Maksimovna empalideceu e tentou piar alguma coisa, mas Dasha abafou a voz dela com o próprio soprano sonoro.
— Sim, sim!
Larisa Maksimovna me encarregou de pedir para vocês uma entrega: churrascos, khachapuri, peixe assado e o melhor champanhe francês!
E o entregador estará no prédio dela em literalmente quinze minutos!
No corredor instalou-se um silêncio reverente.
O tio Kolya engoliu em seco.
Os adolescentes pararam de gritar e trocaram olhares entusiasmados.
— D-Dasha, o que você está dizendo… — grasnou a sogra, sentindo as pernas fraquejarem com a perspectiva da conta.
— Que entregador…
— Lá vem ela bancando a modesta de novo! — Dasha soltou uma gargalhada cristalina.
— Ela queria que isso fosse uma surpresa bem na porta!
Mas perdoe, mamãe, eu tive de abrir o jogo.
O motivo é sério.
Dasha fez de repente uma expressão triste e preocupada.
— Eu não queria assustá-los logo na entrada, mas meia hora atrás ligaram da administração do prédio: um cano de esgoto rompeu na nossa coluna.
Daqui a dez minutos os encanadores vão chegar — terão de abrir tudo às pressas na nossa linha e trocar os canos.
Vão cortar a água até amanhã de manhã.
Vai haver sujeira, barulho e… um cheiro bem específico.
Ainda bem, Larisa Maksimovna, que a senhora organizou a parte principal da festa na sua casa!
Dasha apertou discretamente o botão do controle da casa inteligente que estava no bolso, e a luz do corredor e da cozinha apagou ao mesmo tempo.
— Ai, minha nossa! — gritou tia Lyuba na penumbra.
— Já começou, até a luz desligaram!
— Rápido! — ordenou Dasha com a entonação de um general.
— Peguem as bolsas!
Tio Kolya, pegue as caixas com as tortas, elas estão em cima da mesa!
Tem carne selecionada de fazenda, eu assei tudo especialmente para vocês!
— Corram para o outro lado da rua antes que a água comece a subir e antes que o entregador com os churrascos vá embora!
Larisa Maksimovna, leve os seus convidados até a mesa posta!
Os parentes, apressados pelo medo de uma inundação de esgoto e pelo cheiro sedutor dos imaginários churrascos, entraram em agitação com força redobrada.
Num instante, calçaram os sapatos, apanharam as bolsas, pegaram com cuidado as caixas com os maravilhosos pirozhki de Dasha e arrastaram consigo a sogra atônita, que tinha perdido completamente a fala.
Larisa Maksimovna voltou-se na porta.
Nos olhos dela lia-se um horror primitivo diante do pagamento iminente da conta.
Recusar-se diante da parentela ela não poderia — iriam zombar dela e chamá-la de pão-duro em toda a aldeia.
— Você… você… — foi tudo o que conseguiu balbuciar, olhando para a nora.
— Bom apetite, Larisa Maksimovna! — arrulhou Dasha com doçura.
E depois acrescentou com um sorriso… mais tarde eu apareço e levo um bolinho!
A porta bateu.
Dasha clicou o controle, e a luz voltou a acender.
Ela aproximou-se da janela e observou sorrindo a multidão barulhenta atravessar a rua e desaparecer na entrada do prédio da sogra.
Exatamente dez minutos depois, um carro amarelo do serviço de entrega parou velozmente diante daquele mesmo prédio, e dele desceu um entregador com três enormes bolsas térmicas.
Dasha imaginou vivamente como Larisa Maksimovna, naquele exato momento, estaria passando o cartão com as mãos trêmulas na maquininha, sob os suspiros admirados do tio Kolya e de Zinaida.
Dasha voltou para a cozinha.
Os convidados tinham levado consigo as magníficas tortas, feitas com todo o capricho — eles mereciam.
Mas, para si mesma, Dasha prudentemente havia deixado um pratinho com as mais douradas.
Preparou para si um chá verde, pegou um pirozhok quente, abriu o livro e acomodou-se confortavelmente na poltrona.
O silêncio no apartamento era simplesmente maravilhoso.
A vingança dera certo, e o karma, como se sabe, nunca erra o alvo.
Especialmente quando se lhe dá uma ajudinha por meio de um aplicativo de entregas.







