Katya estava sentada em frente a Anton, com o garfo já frio nas mãos e a massa deixada pela metade.
As palavras do marido tinham ficado suspensas no ar, ecoando em sua cabeça: «Assim será justo».

— Um orçamento separado? — repetiu ela, tentando manter a voz firme.
Anton sorriu de lado, como se a pergunta dela o surpreendesse.
— Sim.
Cada um com o seu cartão, o seu dinheiro.
Hipoteca e contas da casa, metade para cada um.
O resto… bem, é lógico.
«Lógico», ecoou nos pensamentos de Katya.
Apenas três anos antes, quando tinha sido ela a propor a mesma solução, explicando a diferença entre os salários dos dois, Anton havia se oposto categoricamente.
— Que diferença faz quem ganha mais? — dissera ele na época.
— Somos uma família, uma coisa só!
Se começarmos a contar cada centavo, a confiança vai acabar.
Naquele momento, aquelas palavras lhe pareceram certas, comoventes.
Ela concordou: pagar mais não a incomodava, porque aquela era a casa dos dois, a família dos dois.
Agora, olhando para o marido, Katya já não via um parceiro.
Diante dela estava um homem que soubera adaptar habilmente os próprios princípios às circunstâncias mais convenientes.
— E em que isso seria diferente do que eu propus naquela época? — a voz dela vibrava de tensão, enquanto o olhar o atravessava de lado a lado.
— Tudo mudou, — Anton deu de ombros com indiferença, como se estivesse explicando algo óbvio.
— Naquela época eu estava só começando a carreira.
Agora eu ganho mais.
É… justo.
— E quando eu ganhava mais, também era justo que eu pagasse quase tudo? — a voz de Katya tremeu, mas Anton pareceu nem perceber.
— Bem… — hesitou ele.
— Naquela época você quis assim.
Katya ficou em silêncio, atônita, tentando compreender o sentido daquelas palavras.
Ele falava com tanta naturalidade, como se a contribuição dela tivesse sido algo óbvio, que nem merecia ser notado.
— Você percebe o que está dizendo? — perguntou por fim, olhando para ele.
Anton cruzou os braços no peito, e seu rosto demonstrava clara irritação.
— Katya, pronto, lá vem você de novo com a velha história de que tudo se sustentava por sua causa.
Sim, você ajudava.
Mas isso é normal para uma esposa, não é?
— Normal? — a voz de Katya tremeu, mas ela se obrigou a permanecer calma.
— Então, quando eu investia na nossa vida, isso era “normal”.
E assim que as coisas começaram a dar certo para você, decidiu refazer todas as contas?
Ele bufou.
— Desculpe, mas as suas reclamações são estranhas.
Talvez isso seja só inveja?
Katya o olhou com incredulidade, como se tivesse diante de si uma pessoa completamente diferente.
— Inveja? — repetiu, tentando não rir diante do absurdo.
— Anton, se não fossem as minhas conexões, o meu dinheiro e os meus nervos, você não teria sucesso nenhum.
O marido balançou a cabeça, quase com pesar.
— Ah, lá vamos nós outra vez…
Você entende que tudo o que conquistei eu consegui sozinho?
Eu trabalhei, estudei, abri meu próprio caminho!
Sim, você estava ao meu lado, me apoiava, mas isso não é normal para uma esposa?
O coração de Katya deu um aperto.
Ela se lembrou de todas aquelas noites sem dormir ajudando-o com projetos, de como organizava encontros com as pessoas certas, de como sustentava a família enquanto ele “se encontrava”.
Ela sempre tinha considerado tudo isso parte do caminho dos dois.
— Normal? — repetiu.
— É normal espremer de uma pessoa tudo o que se pode e depois dizer: “obrigado, daqui em diante eu sigo sozinho”?
Anton fez um gesto irritado com a mão.
— Pronto, lá vem você de novo se colocando como vítima.
Sabe, Katya, isso já me cansou.
Ele se levantou da mesa e, batendo a porta, foi para o quarto.
Katya ficou sozinha.
Permaneceu sentada no silêncio, olhando para o prato vazio.
A dor dentro dela deu lugar a uma determinação fria.
«Tudo bem, Anton, — pensou ela, — você quer jogar pelas suas regras?
Então se prepare, porque eu vou jogar pelas minhas».
No dia seguinte, Katya começou a organizar os documentos relativos aos bens do casal.
Formalmente, o apartamento estava registrado no nome dos dois, e metade realmente pertencia a Anton.
Mas todo o resto — eletrodomésticos, móveis, carro — tinha sido comprado com o dinheiro dela.
A maior parte dessas compras ainda estava vinculada a empréstimos que só ela pagava.
Katya olhou pensativa para a pilha de papéis.
Anton sempre dizia que “as despesas da família devem ser divididas”, mas, ao que tudo indicava, essas palavras não incluíam a participação dele no pagamento das dívidas.
«Muito bem, — pensou Katya, — se ele quer justiça, então vai tê-la.
Está na hora de colocar todos os pingos nos is».
Quando Anton voltou para casa tarde naquela noite, ela o recebeu com um sorriso.
— Oi.
Como foi o seu dia?
Ele a olhou, surpreso.
— Bem.
E o seu?
— Ótimo, — respondeu ela, como se nada tivesse acontecido.
— Acho que você estava certo sobre o orçamento separado.
É tão… revigorante.
O rosto dele se iluminou.
— Está vendo?
Eu disse que isso era sensato.
Katya assentiu, mas por dentro fervia.
Ela entendia muito bem que o marido sempre vivera na ilusão da própria infalibilidade.
E agora, com o poder e o dinheiro ao seu lado, sentia-se no topo do mundo.
Mas Katya tinha um plano.
Decidiu esperar.
Deixar que ele relaxasse, que acreditasse que tudo estava indo exatamente como queria.
E depois atacar.
Com precisão, com força, de um jeito que não lhe restasse nem uma única chance de se justificar.
«Você queria justiça, Anton? — passou-lhe pela cabeça enquanto observava o rosto satisfeito dele.
— Pois bem, você a terá».
Anton estava sentado à mesa da cozinha, tentando processar o que acabara de ouvir.
Seu olhar corria dos comprovantes de transferências que Katya havia colocado diante dele para o rosto frio e concentrado dela.
— Katya, isso é ridículo, — conseguiu dizer por fim.
— Que recibos são esses?
Esta é a nossa vida em comum!
Nós a construímos juntos!
— Sério? — a voz dela era baixa, mas cada palavra caía como um martelo.
— E onde estava esse seu “juntos” quando você propôs dividir o orçamento?
Onde estava o nosso “em comum” quando você falava em dividir tudo pela metade?
Anton tentou sorrir.
— Você está se exaltando demais, Katya.
Me diga sinceramente, você não gosta do fato de eu ganhar mais do que você?
Katya sorriu com amargura.
— Você ainda não entendeu, não é?
O seu dinheiro não me interessa, Anton.
Só me interessa uma coisa: a justiça de que você tanto gosta de falar.
Ela empurrou para ele os documentos marcados com adesivos coloridos: pagamento da reforma, do notebook dele, das viagens dos dois para o exterior.
— Tudo isso fui eu que paguei.
Tudo isso você chamava de “unidade da família”.
E agora, porque a sua conta de repente ficou mais recheada do que a minha, você decidiu que eu não mereço mais dividir nada com você.
Ele se endireitou, tamborilando os dedos sobre a mesa.
— Isso é um absurdo.
Mesmo que você esteja certa… eu não vou permitir que destrua a família assim tão facilmente.
Katya se levantou de repente.
— Anton, não fui eu que a destruí.
Foi você, no momento em que decidiu que eu já não servia como companheira, mas apenas como um recurso conveniente.
O rosto dele corou.
— Você não tem o direito de exigir a metade!
O apartamento foi comprado pelos dois, eu também trabalhei!
— Você trabalhou, — assentiu ela com calma.
— E o apartamento é realmente metade seu.
Mas todo o resto — eletrodomésticos, móveis, carro — é dinheiro meu, dívidas minhas e responsabilidade minha.
Eu vou ficar com isso.
Afinal, foi você mesmo quem quis que tudo fosse “justo”.
— Você está exagerando! — a voz dele falhou.
— Sim, você contribuía, mas eu também…
— Você também? — ela sorriu com amargura.
— Anton, se não fosse pela minha ajuda, você nem teria conseguido esse emprego.
Ou quer que eu lembre como você foi parar “por acaso” sob a direção do meu antigo chefe?
Quem organizou aquele encontro?
Ele se levantou de repente, derrubando a cadeira.
— Isso é chantagem?
— Não, Anton, — a voz dela continuou firme.
— Isso é exatamente o que você quis.
Vamos dividir tudo: o apartamento pela metade, e tudo o que foi comprado com o meu dinheiro fica comigo.
Foi você quem me ensinou sobre justiça: agora chegou a hora de usá-la.
Ele abriu a boca para dizer algo, mas as palavras morreram na garganta.
A segurança calma dela o desarmava.
— Nós tivemos uma chance, Anton, — continuou Katya.
— Mas você escolheu a vantagem em vez do amor.
E agora eu escolho a liberdade em vez da mentira.
Anton agarrou os documentos, procurando desesperadamente uma brecha que lhe permitisse se justificar.
Mas tudo o que via eram as provas da contribuição dela, impossíveis de descartar com um simples gesto.
— Você vai fazer isso mesmo? — perguntou, erguendo para ela um olhar perdido.
— Vou, — respondeu ela sem hesitar.
— Porque você já fez tudo.
Um mês depois, Katya concluiu definitivamente todas as formalidades do divórcio.
Ela deixou o apartamento, que Anton ficou para si, pagando-lhe uma quantia como compensação.
Comprou um estúdio pequeno, mas aconchegante, quase no centro da cidade, onde pela primeira vez em muitos anos se sentia livre.
Anton, por sua vez, contava aos amigos e colegas a sua versão dos fatos.
— Vocês conseguem imaginar? — indignava-se entre os amigos.
— Depois de tudo o que eu fiz por ela, decidiu que eu devia alguma coisa!
Alguns assentiam com ar compreensivo, outros sorriam discretamente: a história dele parecia unilateral demais.
Katya evitava os amigos em comum.
Não queria explicar nem se justificar.
Para ela, aquilo era um capítulo encerrado.
Certa noite, estava sentada na varanda do seu novo apartamento com uma xícara de chá.
Observava as luzes da cidade e pensava em como a sua vida havia mudado de forma tão estranha.
Sim, tinha sido difícil.
Sim, às vezes a mágoa e a dor voltavam.
Mas, junto com tudo isso, também chegava uma sensação nova: leveza.
O telefone vibrou.
Uma mensagem de Anton:
«Katya, podemos conversar?
Eu entendi tudo.
Vamos recomeçar do zero».
Ela sorriu com tristeza e apagou a mensagem.
Anton não tinha entendido nada: só estava com medo de ficar sozinho.
Katya se levantou e fechou a porta da varanda.
Um novo dia a esperava, cheio de possibilidades.
Agora ela estava livre não apenas do casamento, mas também das ilusões.
A verdadeira vida estava apenas começando.







