— Gena, nem tente me dizer que você não sabia de nada!
Nina estava no meio da sala, apertando alguns papéis nas mãos.

O rosto ardia, os olhos brilhavam de raiva e de lágrimas não derramadas.
Ela nem percebeu de imediato que o marido tinha entrado em casa: estava absorvida demais pelo que acabara de encontrar na gaveta da velha cômoda.
— Nem uma palavra de resposta?
— a voz dela subiu para uma nota aguda.
— Documentos para a transferência do apartamento!
No nome da sua mãe!
Aqui tem até o carimbo preliminar do tabelião!
Gena parou na soleira da porta, com a sacola de compras ainda pendurada no ombro.
Olhou para a esposa, depois para os papéis nas mãos dela, e algo vacilou em seu rosto.
Não culpa, não — mais o desnorteamento de uma pessoa pega em flagrante cedo demais.
— Nina, espera… não é o que você pensa.
— Não é o que eu penso?
— ela se aproximou, estendendo as folhas bem debaixo do nariz dele.
— Aqui está escrito preto no branco: contrato de doação!
O meu apartamento, que recebi da minha avó Vassa, de repente deveria passar para Susanna Ivanovna!
Você ao menos entende o que isso significa?
Gena colocou a sacola no chão e passou a mão pelo rosto.
Naquele instante parecia mais velho do que seus trinta e oito anos — cansado, exausto, encurralado.
— Mamãe só queria se resguardar, — começou ele em voz baixa.
— Ela está com problemas no apartamento dela, os vizinhos inundaram tudo, não consegue fazer a reforma… Ela pensou em se registrar aqui temporariamente, arrumar os documentos…
— Registrar-se temporariamente é uma coisa, mas doação é outra totalmente diferente!
— Nina sentiu tudo ferver por dentro.
— Sua mãe quer tirar de mim a única coisa que eu tenho!
Aquilo que minha avó me deixou!
Ela se virou para a janela, tentando controlar as emoções.
Do lado de fora já escurecia — a noite de inverno chegava depressa, os postes já estavam acesos ao longo da rua.
Nina se lembrou da avó Vassa, de suas mãos quentes, do cheiro de torta de maçã na cozinha daquele velho apartamento.
Vassa tinha morrido três anos antes, deixando para Nina aquele apartamento de dois cômodos no centro.
Na época, aquilo tinha sido uma salvação — ela e Gena moravam de aluguel, e o dinheiro nunca era suficiente.
E então veio aquilo — um lar próprio.
De verdade, com documentos, com história.
— Sua mãe nunca gostou de mim, — disse Nina sem se virar.
— Desde o primeiro dia.
Lembra como ela me recebeu no jantar da família de vocês?
Ela me examinou de cima a baixo e disse: “Bem, Genochka, na falta de peixe até lagostim é peixe”.
Naquele momento fiquei calada, pensei que com o tempo a gente acabaria se tolerando e talvez até se afeiçoando.
— Mamãe é assim mesmo… ríspida, mas não é má, — Gena tentou justificá-la, mas as palavras soavam pouco convincentes até para ele mesmo.
Nina se virou.
Nos olhos dela dançavam faíscas de cólera.
— Não é má?
Durante três anos ela foi corroendo o nosso casamento!
Uma hora insinua que eu sou uma dona de casa ruim, outra diz que não temos filhos porque evidentemente eu seria “defeituosa”.
E agora isso!
— ela sacudiu de novo os papéis.
Gena deu um passo em direção a ela, estendendo as mãos em sinal de paz:
— Nina, de verdade, eu não pensei que isso chegaria tão longe.
Mamãe disse que só queria consultar um advogado, entender como fazer um registro temporário…
— E você acreditou nela?
— na voz de Nina soou algo parecido com um riso amargo.
— Susanna Ivanovna nunca faz nada sem motivo.
Ela sempre age segundo um plano.
E esse plano, ao que parece, inclui me expulsar completamente daqui.
No corredor ouviu-se o som da porta se abrindo.
Os dois ficaram imóveis.
Na soleira apareceu em pessoa Susanna Ivanovna — alta, de traços marcantes, de casaco escuro e chapéu, debaixo do qual escapavam fios grisalhos.
Atrás dela vinha trotando tio Vitia, irmão de Gena, um homem baixo com uma expressão eternamente culpada.
— Ah, vejo que o segredo foi descoberto, — disse a sogra sem sequer se dar ao trabalho de cumprimentar.
Tirou o chapéu, pendurou o casaco no cabide, como se estivesse na própria casa.
— Pois bem, Nina, mais cedo ou mais tarde isso de qualquer forma viria à tona.
— Como a senhora ousou!
— Nina deu um passo à frente.
— Como a senhora ousou mexer nas minhas coisas, preparar papéis sem que eu soubesse de nada!
Susanna Ivanovna a examinou com um olhar gelado:
— Minha querida, este é o apartamento do meu filho.
Ele está registrado aqui, ele mora aqui.
E eu, como mãe dele, tenho todo o direito de me preocupar com o futuro dele.
— Este apartamento é meu!
— a voz de Nina soava como metal.
— Meu, da minha avó!
Seu filho está registrado aqui porque fui eu quem o registrei quando nos casamos!
— Um detalhe, — Susanna Ivanovna fez um gesto com a mão.
— Você e Gena são casados, então isto é um bem adquirido durante o casamento.
E eu me preocupo para que, se acontecer alguma coisa, tudo permaneça na família.
— Se acontecer alguma coisa?!
— Nina sentiu um frio por dentro.
— A senhora já está planejando o nosso divórcio?
Tio Vitia tossiu, mudando o peso de um pé para o outro:
— Susanna, talvez não precise ser assim… Os dois se amam…
— Cala a boca, Viktor, — interrompeu a sogra.
— Ninguém te perguntou nada.
Nina se voltou para o marido:
— Você está ouvindo o que sua mãe está dizendo?
Vai dizer alguma coisa em minha defesa ou não?
Gena ficou ali, de cabeça baixa.
O silêncio durou dolorosamente muito tempo.
Por fim ele levantou os olhos:
— Mãe, desta vez você realmente passou dos limites.
Primeiro devia ter falado comigo, e só depois com a Nina…
— Comigo?
— retomou Nina.
— Então vocês teriam falado disso de qualquer jeito?
Pelas minhas costas?
Só num momento mais conveniente para vocês?
— Nina, não se exalte, — a voz de Susanna Ivanovna era calma e fria como gelo.
— Você é jovem, boba.
Não entende como a vida funciona.
Imóveis precisam ser passados corretamente, para depois não haver problemas com impostos, com herança…
— Leve seus trapos junto com a sua mamãezinha e sumam daqui!
— gritou Nina, voltando-se para o marido.
— Ninguém tem o direito de mandar no meu apartamento!
Está ouvindo?
Ninguém!
Fez-se silêncio.
Até Susanna Ivanovna, por um instante, ficou sem palavras.
Tio Vitia encarava o chão com culpa.
Gena empalideceu.
— Você… Você está falando sério?
— balbuciou.
— Absolutamente, — Nina sentia as mãos tremerem, mas a voz estava firme.
— Não vou permitir que você e sua mãe levem adiante essa trapaça.
Amanhã mesmo vou a um advogado, quero entender que papéis são esses e como anulá-los.
Susanna Ivanovna bufou com desprezo:
— O advogado não vai te ajudar, querida.
Já tem a assinatura do Gena.
Ele concorda com a transferência de propriedade.
Nina se virou lentamente para o marido.
Naquele instante o viu completamente diferente — não o Gena por quem se apaixonara cinco anos antes, não aquele rapaz alegre e leve que a levava ao cinema e lhe dava flores.
Diante dela estava um homem que a havia traído.
Que assinara os papéis sem lhe dizer uma palavra.
— É verdade?
— perguntou baixinho.
Gena assentiu sem levantar os olhos.
Nina se deixou cair no sofá.
As pernas cederam sozinhas — como se o próprio corpo se recusasse a acreditar no que estava acontecendo.
Os papéis escorregaram de suas mãos e se espalharam em leque pelo chão.
Ela olhava para eles sem realmente vê-los, enquanto os pensamentos corriam desordenados.
— Quando?
— conseguiu dizer.
— Quando você assinou?
Gena mudou o peso de um pé para o outro, enfiou as mãos nos bolsos do jeans.
— Há duas semanas.
Mamãe disse que era só uma formalidade, que era necessário para o registro dela…
— Uma formalidade, — repetiu Nina, e na sua voz soou uma nota de escárnio.
Susanna Ivanovna entrou no cômodo, sentou-se na poltrona cruzando as pernas.
Comportava-se como a dona da casa que viera colocar nos eixos uma criada incompetente.
— Nina, você é uma moça inteligente, — começou com tom condescendente.
— Vamos conversar como adultas.
Eu realmente tenho problemas com a minha casa.
Os vizinhos de cima causaram um alagamento, meu apartamento de um cômodo na rua Partizanskaya virou um pântano.
A seguradora recusou a indenização, dizendo que o problema era o desgaste das instalações.
Tenho sessenta e dois anos, de onde vou tirar dinheiro para uma reforma grande?
— E por isso a senhora decidiu tirar meu apartamento de mim?
— Nina ergueu a cabeça.
— Não tirar, mas transferir de forma inteligente, — corrigiu a sogra.
— O apartamento vai continuar na família.
Você não vai a lugar nenhum, vai continuar morando aqui.
Só que a proprietária serei eu.
— E depois vai me expulsar na primeira oportunidade, — concluiu Nina por ela.
— Que paranoia, — suspirou Susanna Ivanovna.
— Viktor, ouviu isso?
Eis a juventude de hoje.
Nem confiança, nem respeito pelos mais velhos.
Tio Vitia assentiu sem jeito, claramente desconfortável.
Tirou do bolso um maço de cigarros, girou-o nas mãos e depois guardou de novo.
— Susanna, talvez realmente valha a pena conversar com calma?
— arriscou ele.
— Vamos deixar que os dois decidam sozinhos…
— Fique calado quando os adultos falam, — cortou a sogra.
Nina se levantou do sofá.
Dentro dela algo havia se quebrado definitivamente — não com estrondo, mas devagar, quase imperceptivelmente.
Como se o último fio que ainda a ligava àquela família tivesse se rompido.
— Saiam da minha casa, — disse com voz plana.
— Agora mesmo.
— Como você ousa falar assim com a minha mãe!
— pela primeira vez em toda a conversa Gena levantou a voz.
— Você ao menos percebe que…
— Que o quê?!
— Nina deu um passo em direção a ele.
— Que eu deveria ficar calada e esperar humildemente vocês me limparem?
Que a sua mamãezinha pegue tudo o que eu tenho?
— Ninguém está te limpando!
— Gena também explodiu.
— Você sempre exagera tudo!
Sempre faz escândalo por nada!
— Por nada?
— a voz de Nina falhou.
— Você assinou papéis pelas minhas costas!
Queria dar meu apartamento para sua mãe!
E isso para você é nada?
No corredor a porta bateu de novo.
Apareceu tia Lília, irmã mais nova de Susanna Ivanovna, uma mulher corpulenta na casa dos cinquenta com permanente e lábios fortemente maquiados.
— Ah, já estão todos aqui!
— ela trouxe para o apartamento uma lufada de frio e cheiro de perfume barato.
— Cheguei bem na hora, hein?
— Lília, sente-se, — assentiu Susanna Ivanovna.
— Aqui a nossa norinha está se revoltando.
Tia Lília tirou o casaco de pele e se deixou cair na cadeira ao lado do tio Vitia.
— Ah, e por que está se revoltando?
Susanna explicou tudo com calma e gentileza…
— A senhora também sabia?!
— Nina sentiu o chão faltar sob seus pés.
— A família inteira de vocês sabia que uma trapaça estava sendo preparada e todos ficaram calados?
— Que trapaça, meu Deus, — tia Lília abriu os braços.
— Susanna quer ajudar o filho, garantir o futuro dele.
E você aí fazendo cena como uma qualquer…
Ela se interrompeu, mas Nina entendeu tudo.
— Como uma estranha, não é?
— concluiu ela.
— Para vocês eu sempre fui uma estranha.
Desde o começo.
Lembro como no casamento vocês cochichavam que Gena poderia ter encontrado alguém melhor.
— Bem, você mesma entende, — tia Lília abriu as mãos.
— Você vem de uma família simples, não tem uma instrução de verdade, trabalha como vendedora numa loja…
— Basta!
— rosnou Gena de repente.
Todos se calaram, olhando para ele.
Ele passou a mão pelos cabelos e riu nervosamente.
— Chega de humilhá-la.
Mãe, Lília, isso já é demais.
Susanna Ivanovna ergueu uma sobrancelha:
— Finalmente acordou?
Ou foi ela que te domesticou de vez?
— Eu não te domestiquei, — disse Nina baixinho.
— Eu simplesmente te amei.
Instalou-se uma pausa.
Tio Vitia tossiu, tia Lília fixou o olhar no próprio celular.
Susanna Ivanovna observava o filho, esperando.
— Gena, — chamou Nina.
— Diga-me a verdade.
Você realmente queria fazer isso?
Ou mamãe obrigou você?
Ele não respondeu de imediato.
Ficou voltado para a janela, com os ombros tensos.
Por fim soltou o ar:
— Eu pensei que fosse uma solução.
Mamãe realmente tem problemas, e nós dois… — hesitou.
— Bem, você sabe como as coisas andam entre nós ultimamente.
Brigas, silêncios.
Não tenho certeza de que vamos aguentar por muito mais tempo.
Aí estava.
O verdadeiro motivo.
Nina assentiu, como se confirmasse as próprias suspeitas.
— Então você já está planejando o divórcio, — constatou.
— E quer se resguardar para que o apartamento fique com a sua família.
— Eu não estou planejando!
— exclamou Gena.
— Mas, por via das dúvidas…
— Por via das dúvidas você decidiu me passar para trás, — concluiu Nina.
— Entendi.
Foi até o quarto, tirou do armário uma bolsa esportiva e começou a colocar ali as roupas do marido.
Camisetas, jeans, meias — tudo ia parar na bolsa de qualquer jeito.
Gena correu atrás dela:
— O que você está fazendo?
— Estou juntando as suas coisas, — respondeu sem se virar.
— Você vai morar com a sua mãe, já que ela precisa tanto do seu apoio.
— Nina, não faça bobagem!
Esta é a nossa casa!
— Não, — ela se virou para ele.
— Esta é a minha casa.
E amanhã vou ao advogado para entender como anular aqueles documentos.
E se não der — vou à polícia fazer uma denúncia.
Fraude, é assim que isso se chama.
Susanna Ivanovna apareceu na porta do quarto:
— Você não vai ousar!
Nós somos uma família!
— Vocês não são a minha família, — Nina jogou a última camisa na bolsa e a entregou a Gena.
— Minha família era a vovó Vassa.
Ela me deixou este apartamento para que eu tivesse um lugar onde viver, para que eu estivesse protegida.
E vocês querem me tirar a última coisa que me resta.
— Você dramatiza, como sempre, — bufou a sogra.
Nina fechou o zíper da bolsa e a colocou na mão do marido.
— Amanhã ao meio-dia quero ver todos vocês fora deste apartamento.
Caso contrário, vou chamar a polícia.
No corredor tia Lília soltou um suspiro:
— Mas ela está falando sério?
— Absolutamente, — confirmou Nina.
Gena ficou ali com a bolsa na mão, perdido e esvaziado.
Abr ia a boca, tentava dizer alguma coisa, mas as palavras ficavam presas na garganta.
Por fim conseguiu dizer:
— Nina, vamos pelo menos tentar conversar com calma.
Sem gritos, sem ameaças.
— Conversar?
— ela sorriu com amargura.
— Sobre o quê deveríamos conversar, Gena?
Sobre como durante duas semanas você ficou calado?
Sobre como chegava em casa, me beijava de boa-noite e sabia que já tinha assinado os papéis?
Sobre confiança?
Sobre amor?
Ele abaixou a cabeça.
Susanna Ivanovna apertou os lábios com desprezo:
— Está vendo, meu filho, eu te disse — com ela é impossível entrar em acordo.
Ela tem um péssimo caráter, sempre leva tudo a mal.
— E para a senhora, Susanna Ivanovna, eu não vou dizer absolutamente nada, — disse Nina com calma.
— Porque tudo o que penso da senhora ultrapassa os limites da decência.
Tio Vitia tossiu e recuou em direção à saída:
— Talvez realmente devêssemos ir, Susanna?
E depois os dois se entendem sozinhos…
— Fique onde está, — ordenou a sogra, mas notas de nervosismo apareceram em sua voz.
Claramente ela não esperava tamanha resistência.
Nina pegou o telefone e abriu a lista de contatos.
— Eu tenho o número de um bom advogado.
Uma colega me indicou, quando o irmão dela teve problemas imobiliários.
Vou ligar agora e ver se ele pode me atender amanhã de manhã.
— Você está blefando, — disse Susanna Ivanovna, mas a voz dela tremeu.
— Verifique, — Nina discou o número.
Atenderam no terceiro toque.
Uma voz masculina, profissional:
— Alô, estou ouvindo.
— Boa noite.
Meu nome é Nina Fiódorova.
O senhor atendeu Katia Ryzhova numa questão de moradia.
Foi ela quem me deu seu número.
Tenho uma situação urgente — uma tentativa de transferência ilegal de propriedade de um apartamento.
Ela falava com clareza, sem emoção, olhando diretamente para a sogra.
Esta empalideceu.
— Sim, entendo.
Amanhã às nove da manhã?
Perfeito.
Vou levar todos os documentos.
Muito obrigada.
Nina guardou o telefone no bolso.
— Pronto, já está combinado.
Agora peço que todos deixem o meu apartamento.
Tia Lília pulou de pé e agarrou o casaco de pele:
— Susanna, vamos embora daqui!
Eu não queria me meter nessa história, juro.
Você errou, devia primeiro ter conversado como gente civilizada.
— Cale-se, Lília, — sibilou a sogra entre os dentes, mas se levantou.
Gena ainda estava imóvel no meio do cômodo.
O rosto cinzento, os olhos apagados.
— Nina, — chamou ele baixinho.
— Eu realmente não queria te machucar.
Só que mamãe insistia, dizia que seria melhor para todos…
— Melhor para todos ou melhor para ela?
— interrompeu Nina.
— Você é um homem adulto, Gena.
Tem trinta e oito anos.
E ainda não aprendeu a distinguir onde há cuidado e onde há manipulação.
— Eu te amo, — explodiu ele desesperadamente.
Nina ficou imóvel.
Olhou para ele por um longo tempo.
— Se me amasse, não teria assinado aqueles papéis.
Amor é quando você protege uma pessoa, não quando a trai na primeira oportunidade.
Susanna Ivanovna vestiu o casaco e se virou para Nina:
— Você vai se arrepender disso.
Advogados são caros, processos se arrastam.
E você não tem dinheiro.
— Eu vou arrumar, — respondeu Nina secamente.
— Vou vender alguma coisa, pegar um empréstimo.
Mas este apartamento vai continuar sendo meu.
— Orgulhosa, — bufou a sogra.
— O orgulho não leva a nada de bom.
— E a baixeza leva?
— rebateu Nina.
Susanna Ivanovna se virou e saiu para o corredor.
Tia Lília foi trotando atrás dela, tio Vitia, depois de lançar um último olhar culpado para Nina, foi atrás lentamente.
Restaram apenas Gena e Nina.
Ele colocou a bolsa no chão.
— Não vou embora assim, — disse com teimosia.
— Esta também é a minha casa.
— Você fez a sua escolha quando colocou aquela assinatura, — respondeu Nina.
— Vá para a sua mãe.
Que ela sinta pena de você, te dê comida e conte como eu sou má.
— Nina…
— Vá embora, Gena.
Por favor.
Ele ficou parado mais um minuto, depois pegou a bolsa e caminhou lentamente em direção à saída.
Na porta se virou:
— Eu vou voltar.
Vamos conversar sobre tudo quando você se acalmar.
— Não precisa, — disse Nina cansadamente.
A porta se fechou.
O clique da fechadura soou como um acorde final.
Nina encostou as costas na parede e escorregou lentamente até o chão.
Só naquele momento, quando ficou sozinha, permitiu-se relaxar.
As mãos tremiam, a respiração estava irregular.
Ela olhou ao redor.
O apartamento que a vovó Vassa tinha decorado com tanto amor.
A velha cristaleira com os copos de cristal, o sofá com almofadas bordadas, as fotografias nas paredes.
Cada objeto guardava a lembrança de mãos bondosas, de uma voz quente, de uma pessoa que nunca a teria traído.
— Obrigada, vovó, — sussurrou Nina no vazio.
— Obrigada por ter me deixado este lugar.
Eu não vou entregá-lo.
Eu prometo.
Lá fora a neve caía.
A cidade ficava silenciosa, preparando-se para dormir.
Nina se levantou, foi até a cozinha e colocou a chaleira no fogo.
As mãos ainda tremiam, mas dentro dela havia uma estranha clareza.
Pela primeira vez em muito tempo, sentia que estava em terreno firme.
Amanhã haveria a conversa com o advogado.
Depois, talvez, o tribunal.
A luta.
Mas ela estava pronta.
Porque não era apenas um apartamento.
Era a vida dela, a história dela, as raízes dela.
E ninguém — nem a sogra, nem o marido, nem a família inteira deles — vai tirar dela aquilo que lhe pertence por direito.
A chaleira apitou.
Nina preparou o chá e se sentou perto da janela.
Olhava os flocos de neve girando na luz dos postes e, pela primeira vez em meses, sentiu algo parecido com paz.
Dois meses depois Nina estava no corredor do mesmo tabelião onde Gena havia assinado aqueles papéis malditos.
Só que agora segurava nas mãos um documento completamente diferente — uma decisão judicial que declarava nula a doação.
O advogado se revelou competente.
Percebeu imediatamente que a assinatura de Nina no contrato tinha sido falsificada.
A perícia confirmou — os documentos tinham sido elaborados com irregularidades, o consentimento da proprietária não havia sido obtido.
O tribunal deu razão a Nina.
— Pronto, está feito, — disse o tabelião, colocando o último carimbo.
— O apartamento é inteiramente seu.
Sem nenhum ônus.
Nina saiu para a rua.
A primavera já começava a chegar — a neve derretia, dos telhados pingava água, no ar havia cheiro de frescor e renovação.
Ela tirou o telefone do bolso.
Uma mensagem não lida de Gena: “Mamãe disse que você me processou.
Nina, é realmente o fim?”
Ela olhou para a tela e pensou.
Depois escreveu apenas: “Sim.
Você vai receber os papéis do divórcio pelo correio.
Boa sorte”.
Enviou a mensagem.
Bloqueou o número.
O telefone vibrou no bolso — era uma ligação da amiga Katia.
— Então, você venceu?
— soou alegre a voz no aparelho.
— Venci, — sorriu Nina.
— O apartamento é meu.
— Viva!
Hoje à noite vamos comemorar!
Já comprei champanhe!
Nina riu.
Pela primeira vez em muito tempo — de verdade, com leveza.
Ela andava pela rua, e a cada passo se sentia mais leve.
À sua frente a esperava uma nova vida.
Sem manipulações, sem traições, sem os sorrisos falsos de Susanna Ivanovna.
O apartamento da vovó Vassa continuava com ela — como um lembrete de que o amor verdadeiro não exige sacrifícios nem acordos.
Nina parou no semáforo e ergueu o rosto para o sol.
Os raios quentes tocaram sua pele.
— Eu consegui, vovó, — sussurrou.
— Vai ficar tudo bem.
E pela primeira vez em longos meses ela realmente acreditou nisso.







