Ele a olhava não como o «marido bem-sucedido da filha» ou o pai da noiva.

Ele a olhava não como o «marido bem-sucedido da filha» ou o pai da noiva, mas como uma pessoa para quem, até no dia do casamento, os familiares são avaliados pelo grau de utilidade.

— No monitor… — repetiu Olena em voz baixa. — Eu não vim ao cinema, Oleg. Eu vim ver a minha neta.

Igor, que estava ao lado, sorriu nervosamente e deu um passo à frente, tentando suavizar o constrangimento:

— Olena, talvez… agora não seja a melhor hora… As pessoas estão olhando. Está tudo de acordo com as regras… com o protocolo…

A palavra «protocolo» soou para ela como uma bofetada.

Por dentro, de repente, tudo ficou surpreendentemente claro e frio.

Não era raiva — era mais um ponto final.

Como se algo tivesse finalmente estalado de vez: basta.

Svetlana apressou-se a pegá-la pelo braço:

— Mãe, por favor, agora não. A Varya já está nervosa, a cerimónia já vai começar. Depois… depois de tudo isto…

— Depois de quê? — Olena virou-se para a filha. — Depois de me esconderes atrás de um biombo, para eu não estragar a imagem? Depois de eu «ver tudo pelo ecrã» e ir embora em silêncio?

Svetlana empalideceu.

No seu olhar surgiu não tanto vergonha, mas medo — medo de estragar a festa, de passar vergonha diante das «pessoas certas».

Oleg voltou a assumir o controlo da situação.

Levantou a mão, como se estivesse a acalmar todos:

— Sem emoções desnecessárias. Está tudo organizado. A senhora ficará onde for conveniente e… apropriado.

Olena sorriu quase impercetivelmente.

Aquela palavra foi a gota de água.

— «Apropriado»… — disse ela em voz baixa. — Está bem. Mostrem-me onde devo ficar para ser «apropriada».

Conduziram-nos por um corredor impregnado do aroma de perfume caro e flores, depois por detrás de uma divisória, para uma passagem estreita onde já se sentia cheiro a produtos de limpeza e metal quente.

A «salinha» revelou-se um simples canto de serviço: ao lado havia carrinhos com louça, na parede estavam penduradas instruções para o pessoal, e à mesa estavam sentadas duas empregadas de mesa, que se levantaram imediatamente.

— Ai, desculpem… disseram-nos que… — começou uma delas.

— Não faz mal, — interrompeu-a Svetlana bruscamente. — Afastem-se. Estes são os meus pais.

Olena sentou-se devagar na cadeira.

Uma cadeira simples, sem capa, como numa cantina.

À sua frente estava um prato coberto com um guardanapo e, ao lado, garrafas de plástico com água destinadas ao pessoal.

Igor olhou sem jeito para o ecrã, onde já estavam a mostrar os convidados na sala principal.

Lá tudo brilhava: os lustres, as taças, os sorrisos, os trajes elegantes.

Lá estava Varya — a sua «chapim» — de vestido branco, ao lado do noivo, como se tivesse saído da capa de uma revista.

Olena tirou da mala uma pasta.

Compacta, arrumada.

Lá dentro estava o seu presente principal.

— Mãe… — Svetlana ficou tensa ao notar aquele movimento. — Vais fazer isso agora?..

— E quando? — respondeu Olena com calma. — Quando me deixarem? Quando o Oleg der o sinal? Ou quando o «protocolo» acabar?

Igor tocou-lhe de leve no ombro:

— Olena, não faças isso… É pela Varya. Ela não tem culpa.

— É precisamente por isso que eu não quero mentir-lhe, — disse Olena em voz baixa. — Poupei durante três anos. Vivi modestamente durante três anos para hoje lhe oferecer um futuro. E afinal descobriram que sou eu quem precisa de ser escondida.

Svetlana apertou os lábios:

— Ninguém te está a esconder. É só que… é assim que se faz. Certas pessoas, certas regras.

— Regras? — Olena olhou-a diretamente. — Segundo essas regras, puseram-me sentada ao lado de um carrinho de loiça suja. E tu chamas a isso normal?

Ela abriu a pasta, tirou os documentos e passou os dedos pelas linhas.

A escritura de doação do apartamento.

Um papel que podia mudar a vida de Varya.

Nesse momento, Oleg apareceu na passagem.

Reparou imediatamente nos documentos e ficou alerta.

— Ah, decidiram entregar o presente? — havia ironia na sua voz. — Eu já tinha dito: agora não. É preciso o momento certo, a câmara, o fotógrafo…

Olena ergueu os olhos:

— Está preocupado com a imagem?

— Estou preocupado com a ordem, — respondeu ele secamente, inclinando-se mais para perto. — Não preciso de surpresas.

Olena alinhou cuidadosamente as folhas.

E, de repente, sentiu que as mãos já não tremiam.

Por dentro, tudo ficou calmo, como antes de uma decisão definitiva.

— Então não haverá surpresas, — disse ela.

E, olhando-o nos olhos, rasgou o documento ao meio.

O som do papel a rasgar ecoou alto.

As empregadas ficaram imóveis, Igor levantou-se de um salto:

— Olena! O que estás a fazer?!

— Mãe… não… — sussurrou Svetlana.

— Posso, — respondeu Olena calmamente, rasgando a folha mais uma vez. — Porque isto é meu. E eu não vou dar isto a pessoas que me consideram «apropriada» nos bastidores.

Oleg empalideceu:

— Percebe o que fez?! Era um documento!

— Já não é, — respondeu ela baixinho. — Agora é apenas papel.

Apertou os pedaços na mão, colocou-os sobre a mesa e levantou-se.

De repente, o vestido deixou de ser um adorno e tornou-se uma proteção.

— Vamos para casa, — disse ela a Igor.

— Olena… — ele olhou para ela, perdido. — Talvez… ainda assim…

— Não, Igor. Vivemos demasiado tempo «de qualquer maneira». Chega.

Virou-se para a filha:

— Tu fizeste a tua escolha há muito tempo. Hoje apenas a mostraste em voz alta. Eu não estou a discutir. Vou-me embora.

— Mãe, por favor… ao menos pela Varya… — sussurrou Svetlana.

Olena parou por um segundo.

— Foi pela Varya que eu vim. Mas vocês não me sentaram ao lado da Varya, sentaram-me ao lado da vossa vergonha.

E foi-se embora.

No átrio do restaurante ouviam-se música, risos, o tilintar dos copos.

Ninguém prestava atenção à mulher de vestido elegante que acabara de renunciar a tudo.

— Avó!

Olena virou-se.

Varya.

— Varya… — a voz vacilou.

— Disseram-me que foste embora. O que aconteceu? Porque não estás na sala?

— Sentaram-me com o pessoal, — disse Olena simplesmente.

Varya ficou imóvel:

— O quê?.. Isso é uma piada?

Olena abanou a cabeça.

O rosto da rapariga mudou.

— Onde está a mãe? Onde está o Oleg?

— Varya, não… É o teu dia…

— O meu dia? — sorriu amargamente. — E no meu dia a minha avó está sentada a uma mesa de serviço? Então este não é o meu dia. É o espetáculo deles.

Virou-se e foi para a sala.

A música calou-se quando Varya se aproximou do microfone.

— Desculpem, — disse ela. — Quero dizer uma coisa.

Os convidados voltaram-se.

— Hoje estão aqui muitas «pessoas importantes». Mas há uma pessoa sem a qual eu não existiria. A minha avó. E hoje sentaram-na à mesa do pessoal. Porque ela não entra no protocolo.

Na sala caiu o silêncio.

— Se aqui não há lugar para a minha avó, — continuou Varya, — então aqui também não há lugar para mim.

Desceu e aproximou-se de Olena:

— Vamos. Vais sentar-te ao meu lado. Onde tu estás, é aí que está o lugar certo.

Oleg estava ali, de dentes cerrados.

Já não controlava nada.

— Vais estragar tudo, — sibilou ele.

— Eu compreendo tudo, — respondeu Varya. — Tu medes as pessoas pelo benefício. Eu, pelo coração.

Pegou na mão de Olena e conduziu-a até ao centro da sala.

— Senta-te aqui.

Olena sentou-se.

As mãos tremiam — mas não de medo.

Tremiam porque finalmente a tinham visto.

Varya inclinou-se para ela:

— Eu não preciso de um apartamento, se para isso te humilham. Prefiro começar do zero. Mas contigo.

Olena apertou-lhe a mão:

— Está bem, minha «chapim». Só promete-me uma coisa — nunca peças permissão para seres tu mesma.

— Prometo.

E Oleg ficou de lado, compreendendo pela primeira vez que nem tudo na vida é decidido pelo dinheiro.

E que nem toda a gente pode ser colocada «onde convém» — para que fique calada.