«Estou lhes dando esta casa de campo!» — irradiava a sogra no casamento.

Mas uma pergunta da nora fez os convidados se calarem.

O zíper do vestido de noiva travou no meio das costas.

Tentei ajeitar com cuidado o cursor metálico, com medo de danificar o tecido fino.

A tela do smartphone sobre a mesinha brilhava sem parar, exibindo o nome de Svetlana Yurievna.

Anton estava de pé junto à janela, ajustando a gravata.

Ele parecia muito cansado, como se não tivesse descansado a semana inteira.

— Veronika, atenda ela, — disse Anton, olhando para mim pelo espelho.

— A pessoa está preocupada.

Ela está de pé desde cedo, acompanhando os preparativos no restaurante.

— Acompanhando? — virei-me.

— Anton, ela ligou ainda há pouco para me obrigar a mudar os lugares dos convidados.

Ela não gostou que os meus parentes estivessem sentados perto demais do palco.

E antes disso insistiu para que eu tirasse a maquiagem chamativa.

— Veronika, tenha paciência hoje, — Anton se aproximou e colocou as mãos com cuidado sobre os meus ombros.

— Ela quer que tudo corra bem para nós.

Ela tem um temperamento difícil, mas está se esforçando por nós.

Fiquei calada.

Não fazia sentido tentar provar nada.

Svetlana Yurievna adorava fazer o papel de mulher santa.

Na frente dos outros ela me chamava de menina querida, mas quando ficávamos sozinhas sua voz se tornava fria.

Ela vivia insinuando que, sem o conforto financeiro de Anton, eu continuaria morando no meu quartinho, sobrevivendo de trabalhos ocasionais.

Ao anoitecer, o salão estava cheio de gente.

Os garçons serviam pratos com peixe e frios.

No ambiente misturavam-se muitos aromas diferentes.

Os parentes de Svetlana Yurievna — pessoas barulhentas, confiantes — erguiam constantemente as taças, serviam vinho tinto seco e faziam longos discursos.

Anton sorria, apertando a minha mão, enquanto eu sentia a irritação se acumulando por dentro.

Parecíamos pessoas aleatórias naquela festa da vida.

O mestre de cerimônias bateu no microfone, pedindo atenção.

— E agora a palavra vai para a mãe do nosso noivo!

Svetlana Yurievna levantou-se.

Ela usava um tailleur rigoroso cor de café, e o penteado parecia impecável.

Foi até o meio do salão, pegou o microfone e percorreu os convidados com um olhar atento.

Fez-se um silêncio completo.

— Meus queridos, — sua voz soou suave.

— Hoje o meu único filho começa um novo caminho.

Observei Veronika por muito tempo.

E decidi que essa moça quieta será para ele uma companheira fiel.

Esbocei um sorriso, embora estivesse extremamente desconfortável.

— Para os jovens não é fácil começar sem ter seu próprio canto, — continuou Svetlana Yurievna, falando mais alto.

— Dívidas, apartamentos alheios.

Eu não quero essa vida para os meus filhos.

Por isso preparei uma surpresa especial.

Ela tirou da bolsa uma caixinha.

A tampa estalou baixinho.

Sobre o forro repousava um grande molho de chaves.

— Estou lhes dando esta casa de campo!

Uma grande casa no povoado de Kedrovy.

Para que vocês vivam com conforto e não precisem se preocupar com nada!

No salão começaram aplausos intensos.

Alguém gritou algo em aprovação.

Anton ficou paralisado de surpresa.

— Mãe… — sussurrou ele, e foi ao encontro dela.

Svetlana Yurievna abraçou o filho, puxou-me para perto de si com autoridade e murmurou no meu ouvido:

— Agora vocês estão me devendo, Veronika.

Experimente só discutir comigo.

Ela se afastou e voltou a sorrir amplamente para todos os presentes.

Anton segurava as chaves como se fossem um grande tesouro.

Os convidados nos felicitavam em voz alta.

E eu olhava para o rosto satisfeito da sogra e, naquele momento, entendi que não podia mais ficar calada.

Eu sabia a verdade sobre aquela casa.

Meu irmão Denis tinha me contado tudo alguns dias antes.

E eu não pretendia aceitar aquele presente.

Empurrei a cadeira para trás e fui em direção ao mestre de cerimônias.

— Veronika, aonde você vai? — Anton tentou me impedir, mas eu passei por ele.

Peguei o microfone.

A música parou imediatamente.

Todos olharam para mim.

Svetlana Yurievna assentiu — ela esperava palavras de gratidão.

— Svetlana Yurievna, — minha voz estava firme.

— Este é um presente maravilhoso.

Uma grande casa em Kedrovy.

Um verdadeiro conto de fadas.

A sogra assentia satisfeita.

— Mas diga a todos nós, — aproximei-me mais, olhando nos olhos dela.

— Por que a senhora esqueceu uma coisa?

Por que não mencionou que essa casa está oficialmente no nome da sua irmã, Raisa Yurievna?

No salão ficou um silêncio absoluto.

Os talheres pararam de tilintar.

Só se ouvia o funcionamento do exaustor.

O rosto de Svetlana Yurievna mudou.

— Que bobagem é essa? — disparou ela de modo grosseiro, sem olhar para o microfone.

— Eu quero saber, — disse eu ainda mais alto.

— Onde está agora Raisa Yurievna?

Por que ela não está aqui?

Talvez porque a senhora a obrigou a assinar papéis e colocou a idosa numa instituição pública?

— Chega! — gritou a sogra.

Seu rosto ficou vermelho.

— Você está mentindo sobre tudo!

Anton, faça alguma coisa!

Anton veio depressa até mim e me puxou para o lado.

— Veronika, pare!

Você está colocando a minha mãe numa situação constrangedora!

Vamos embora!

Ele tirou o microfone da minha mão, que bateu de leve no chão, e me conduziu até a saída.

Os convidados começaram a cochichar.

Meu irmão Denis também se levantou e nos seguiu.

Saímos para a varanda.

Lá fora estava fresco.

Anton encontrou o carro rapidamente.

Poucos minutos depois, estávamos atravessando a cidade.

— Está satisfeita? — disse Anton entre os dentes.

— Estragou a noite.

Transformou minha mãe numa vilã.

Você ao menos entende o que fez?

— Sua mãe fez tudo sozinha, — respondi.

— Anton, ela tirou a casa de um parente próximo.

— Ela não enganou ninguém! — exclamou ele.

— Raisa Yurievna tem uma doença incurável.

Ela precisa de acompanhamento constante.

Minha mãe encontrou para ela um ótimo lugar, com bons cuidados.

E a tia entregou a casa por vontade própria, porque era difícil demais cuidar dela!

— Um lugar com cuidados? — sorri com ironia.

— Você mesmo esteve lá?

Viu as condições?

— Eu acredito na minha mãe!

— Pare aqui, — pedi ao motorista.

Estávamos perto da casa de Denis.

— Aonde você pensa que vai? — Anton tentou me impedir.

— Vou ficar na casa do meu irmão.

E você pode ir comemorar.

Saí do carro.

Denis me esperava.

Sobre a mesa havia chá quente.

Meu irmão trabalhava numa empresa que levava equipamentos para centros sociais.

— Houve briga? — perguntou Denis.

— Ele não acredita, — peguei a xícara quente.

— Fala em sanatório e boa vontade.

Denis colocou documentos sobre a mesa.

— Não foi à toa que eu pedi para você não se apressar.

Estive naquele centro há alguns dias.

Passei pelo corredor do andar, e lá estava Raisa Yurievna.

Com roupas velhas, desorientada.

Ela me reconheceu e chorou.

Denis me mostrou um endereço numa folha.

— É um prédio público comum para pessoas solitárias, no povoado de Zarechny.

Sua sogra fez tudo em segredo.

Disse à irmã que a casa estava em reforma, pegou os documentos e a levou para lá.

— Ele vai dizer que é um mal-entendido, — suspirei.

— E você não discuta, — Denis olhou para mim com seriedade.

— Amanhã apenas leve-o até lá.

Deixe que ele veja.

Se mesmo assim continuar defendendo a mãe, então nossos caminhos não são os mesmos.

Na manhã seguinte liguei para Anton.

— Desça.

Estou aqui embaixo.

Se você não sair, eu vou dar entrada nos papéis do divórcio.

Ele desceu carrancudo e sentou-se no carro em silêncio.

— Para onde vamos? — perguntou secamente.

— Para aquele lugar, — respondi e pisei no acelerador.

Dirigimos por muito tempo.

A estrada lisa deu lugar a uma via velha no meio da floresta.

Ao redor havia campos cinzentos e construções abandonadas.

Anton olhava pela janela, cada vez mais sombrio.

Estacionamos diante de uma cerca velha.

Atrás dela havia um edifício triste de tijolos.

Nas janelas viam-se grades.

As paredes precisavam de pintura havia muito tempo.

— Que lugar é esse? — Anton ficou tenso.

— Este é o “sanatório” de que sua mãe falava.

Vamos.

Lá dentro cheirava a coisas velhas, produtos químicos e comida do refeitório.

As paredes estavam pintadas de uma cor escura.

Pelo corredor andava lentamente uma mulher com andador.

Não vimos nenhum equipamento moderno nem funcionários cordiais.

Encontramos o quarto certo.

A porta estava entreaberta.

Lá dentro havia várias camas com colchões finos.

Raisa Yurievna estava sentada numa cadeira.

Ela parecia muito fraca.

Os cabelos estavam despenteados, e nos olhos havia tristeza.

Ao nos ver, ela se assustou.

Depois sorriu timidamente.

— Anton… Veronika… Vocês vieram mesmo…

Anton ficou imóvel como uma estátua.

Ele observava os móveis descascados e a tia exausta.

— Raisa Yurievna, — a voz de Anton tremeu.

Ele se aproximou dela.

— Por que a senhora está aqui?

— Foi o que Sveta disse, que precisavam trocar a fiação da casa, — a velhinha olhava para ele com esperança.

— Disse que eu ficaria aqui um pouco, que cuidariam de mim e depois eu voltaria para casa.

Só que aqui ninguém cuida de mim, Anton.

E me alimentam mal.

E a Sveta não atende as ligações.

Vocês vão me tirar daqui, não vão?

Anton sentou-se ao lado dela.

Não disse uma palavra.

Apenas cobriu o rosto com as mãos e ficou assim por alguns minutos.

Eu via como ele cerrava os punhos.

Naquele instante, tudo o que ele pensava sobre a família desmoronou.

O caminho de volta transcorreu em silêncio.

Fomos até Svetlana Yurievna.

Ela abriu a porta rapidamente, como se estivesse esperando.

— Anton, querido! — começou ela, mas se calou ao me ver.

— E essa o que está fazendo aqui?

Anton entrou no apartamento sem dizer nada.

Tirou uma caixinha de veludo e a colocou sobre a mesa.

As chaves tilintaram.

— Amanhã de manhã você vai a Zarechny, pega Raisa Yurievna e devolve a casa dela.

Eu mesmo vou verificar se todos os documentos estão em ordem, — a voz de Anton estava seca e dura.

— O que você está dizendo?! — gritou Svetlana Yurievna.

— Foi ela que colocou essas ideias na sua cabeça!

A sua tia não precisa da casa, ela já tem idade!

E vocês precisam pensar nos filhos!

Eu fiz tudo por vocês!

— À custa de uma pessoa que você simplesmente largou na miséria? — Anton olhou para ela como se a estivesse vendo pela primeira vez.

— Eu não quero mais saber de você.

Ele pegou a minha mão.

A palma dele estava fria, mas ele segurava com firmeza.

— Vamos, Veronika.

Saímos do prédio sob os gritos da sogra.

Quando chegamos à rua, respiramos fundo.

A festa terminou em escândalo, mas enquanto caminhávamos pela calçada e sentíamos o apoio um do outro, entendemos que agora realmente havíamos nos tornado pessoas próximas, sem segredos entre nós.

***O gato ruivo foi devolvido ao abrigo três vezes.

“Incômodo.

Tem personalidade difícil.”

“Não se adapta às pessoas.

Mia se algo não lhe agrada.

Arranha.

Não procura agradar.”

Uma mulher de cinquenta anos olhou para ele.

O gato estava sentado de costas para todos, olhando pela janela.

“É assim como é.

Não finge.”

“Quando foi a última vez que eu mesma fui assim?” — pensou ela.

Pegou o gato.

Em casa, o marido gritou: “Devolva-o imediatamente!

Nós tínhamos combinado!”

Ela respondeu: “Você tinha combinado.

Eu fiquei calada.”