Sua alma estava pesada e vazia, como se algo dentro dela tivesse se partido.
Hoje Oleg disse que em breve vai se casar.

E pensar que ainda um ano atrás ele a cortejava, ligava, escrevia… e depois esfriou de repente, como se ela nunca tivesse existido na vida dele.
Ela entrou no apartamento, tirou o casaco e o pendurou cuidadosamente no gancho.
— Ah, Katjucha chegou! — a mãe saiu da cozinha, enxugando as mãos.
— Preparei o jantar.
Por que você está tão triste?
— O Oleg vai se casar — respondeu Katja calmamente, tentando não demonstrar o que sentia.
— Eu te avisei, ele não é confiável — disse a mãe de imediato, de forma ríspida.
— Ele não precisava de você, mas do seu apartamento.
Lembre-se: além de mim, ninguém precisa de você.
Vá jantar.
— Obrigada, não estou com vontade.
Prefiro me deitar um pouco… estou cansada.
Katja foi para o seu quarto.
O pensamento não a deixava: “Ninguém precisa de mim”.
Primeiro, o pai deixou a família, porque queria um filho homem, e não uma filha.
Depois, as amigas foram desaparecendo uma após a outra de sua vida.
E quando começaram a surgir rapazes, a mãe a convencia de que eles só queriam uma coisa e depois a abandonariam.
No fim, restou apenas a mãe — a única pessoa que se compadecia dela, cuidava dela… e a mantinha por perto.
E assim tudo foi seguindo até que um dia um homem desconhecido lhe telefonou.
— Katja, aqui é seu pai.
Precisamos conversar.
— Não temos nada para conversar.
Você nos abandonou — respondeu ela friamente e desligou.
Mas logo a ligação se repetiu, já de outro número.
— Ekaterina Vitalievna, por favor, não desligue.
Sou o médico do seu pai.
Ele está no hospital, em estado grave.
Ele quer muito vê-la.
— Por que estão mentindo?
Eu sei que ele está bem.
— Antes estava.
Agora tudo é diferente.
Por favor, venha.
Vou lhe enviar o endereço.
Durante dois dias, Katja ficou angustiada, sem saber o que fazer.
Tinha medo de contar à mãe — ela odiava o pai, e qualquer conversa sobre ele terminava em escândalo.
A única pessoa em quem confiava era Polina, amiga desde a escola.
— Katja, vá — disse ela.
— Você vai ver o que está acontecendo.
Talvez ele deixe alguma coisa para você.
— E o que eu digo para a mamãe?
— Diga que vão mandar você em viagem de trabalho.
Por um dia só.
— Nunca me mandaram…
— Então diga que querem te promover, e para isso você precisa ir a Kiev.
Você confere a situação e volta.
— Acho que vou fazer isso…
A mãe ficou preocupada, mas a perspectiva de uma promoção a convenceu a deixar a filha ir.
Na clínica, Katja já era esperada.
O pai estava deitado em um quarto particular.
Ela o reconheceu imediatamente — eles eram parecidos demais.
— Katienka… — ele sorriu.
— Eu vim.
O que você queria?
— Conversar… pedir perdão.
— Não tenho nada a perdoar.
Foi você quem nos deixou.
— Eu não fui embora.
Sua mãe me obrigou.
— Como assim? — Katja olhou para ele com desconfiança.
— Se você quisesse, teria ficado.
— Ela ameaçou me mandar para a prisão por eu supostamente ter machucado você.
— O quê?! — Katja olhou para ele, chocada.
— Eu não toquei em você.
Você caiu sozinha do morrinho.
Quebrou o braço.
A cicatriz ainda está aí, não está?
Katja passou a mão automaticamente pelo antebraço.
A cicatriz estava lá.
— E daí?
— Naquela época eu disse a ela que levaria você comigo, já que ela não cuidava de você.
Então ela ameaçou fazer uma denúncia à polícia.
Eu não podia arriscar.
— Eu não acredito… mamãe não é assim.
— Você simplesmente não a conhece.
Ela sempre pensou em si mesma.
Vivia exigindo dinheiro, ameaçando.
Eu fui embora, comecei a cuidar dos negócios… e não consegui voltar.
Katja ficou em silêncio, sem saber o que pensar.
— Por que você está dizendo isso agora?
— Quero deixar para você todos os meus bens.
O passado não pode ser corrigido, mas eu posso ajudar você a viver de outro jeito.
Você mora com sua mãe… mas precisa construir a sua própria vida.
— Não ouse falar mal da mamãe! — respondeu Katja bruscamente.
— Ela fez de você uma pessoa dependente — disse ele em voz baixa.
— Proibições, medos… Katja, você precisa viver.
— Mesmo assim, ninguém precisa de mim…
Katja saiu correndo do quarto.
Já no corredor, ouviu:
— Eu preciso…
No elevador, o médico a encontrou.
— Obrigado por ter vindo.
Seu pai está muito fraco.
— O que ele tem?
— Os rins.
Ele lutou por muito tempo, mas a doença é mais forte.
— Ele queria… que eu fosse doadora? — perguntou Katja com desconfiança.
— Não.
Ele proibiu até que pensassem nisso.
Disse que já tinha arruinado bastante a sua vida.
Katja apenas assentiu em silêncio.
Ela voltou para casa com o coração pesado.
A mãe a recebeu com o jantar pronto.
— Então, como vão as coisas?
— Nada está claro… esse tipo de coisa não se resolve em um dia.
— Coma direito — disse a mãe em tom de advertência.
— A comida tem que ser caseira.
— Não estou com vontade…
— Coma à força!
Katja obedeceu e começou a comer.
— Isso mesmo, muito bem.
Eu tenho uma filha tão obediente… todo mundo sente inveja.
A palavra “obediente” ficou entalada em sua garganta.
— Mãe, de onde vem esta cicatriz? — perguntou ela, mostrando o braço.
— Você era pequena.
Caiu do morrinho.
Não fique pensando nisso.
— Entendi…
No trabalho, Katja inesperadamente se aproximou de Oleg.
— Posso fazer uma pergunta?
Só responda com sinceridade.
— Pode.
— Por que você parou de sair comigo?
Oleg hesitou.
— Você é uma boa moça, de verdade.
Mas… a sua mãe.
É impossível lidar com ela.
Ela me ligou e disse tanta coisa… Eu entendi que ela nunca deixaria você ir.
Você não vive a sua vida, mas a dela.
— Obrigada — disse Katja em voz baixa e foi embora.
À noite, ela estava mais calma.
— Mãe, no sábado vou a Kiev com a Polina.
— Para quê? — a mãe ficou alerta.
— Uma parente dela está com problemas.
Aproveito e dou uma passada nas lojas.
— Eu compro tudo para você!
— Mãe, eu só quero passear um pouco…
— Bem, faça como quiser…
Katja foi novamente ver o pai.
— Pai, estou pronta para mudar a minha vida.
— Fico feliz — ele sorriu.
— Mude-se para Kiev, trabalhe comigo.
Depois você vai dirigir a empresa.
Meu amigo vai ajudar você.
— E a mamãe?
— Diga que encontrou trabalho.
E… procure um psicólogo.
Você precisa disso.
A conversa com a mãe foi difícil.
Ela chorava, acusava, assustava.
— Quem vai cuidar de você lá?!
— Mãe, eu vou dar conta…
— Prometa que depois vai me levar com você!
— Prometo…
O pai viveu ainda mais seis meses e ajudou Katja a se firmar.
A mãe telefonava todos os dias, se lamentava, apelava para a pena, repetia que, além dela, ninguém amava Katja.
Mas Katja já sabia que isso não era verdade.
O trabalho com o psicólogo a ajudou a entender o quanto a mãe a mantinha presa ao seu lado, sufocando sua personalidade.
Quando a mãe percebeu que estava perdendo o controle, já era tarde demais.
Nem as ligações, nem os escândalos podiam trazer a filha de volta.
Katja tornou-se independente.
E, pela primeira vez na vida, começou a viver a sua própria vida.







