A cunhada derramou tinta no meu vestido diante dos convidados: “Idiota!”. Depois de 18 minutos, ela já não conseguia gritar.

— Idiota! — Ksênia gritou isso com tanta força e nitidez que o tilintar do cristal sobre a mesa, ao que parece, silenciou por si só.

Eu olhava para o meu peito.

Sobre a seda clara, bem no meu vestido mais caro, que eu tinha comprado em um leilão em Helsinque ainda antes de todas aquelas fronteiras fechadas, espalhava-se lentamente uma mancha branca e espessa.

Tinha um cheiro forte, enjoativo, químico, que encobria o aroma do pato assado e dos perfumes caros das senhoras convidadas.

Ksênia estava diante de mim, apertando na mão o meu próprio pote de trabalho com branco de titânio, que eu tinha deixado imprudentemente sobre a cômoda no corredor.

— Lidotchka, mas como foi acontecer isso? — minha sogra, Antonina Svet-Mikhailovna, levou a palma da mão à bochecha, mas nos olhos dela vi não compaixão, e sim justamente aquela centelha que aparece nos espectadores do circo quando o acrobata passa voando além do trapézio.

— Ksyushenka, mas foi sem querer, não foi?

Ksênia não respondeu.

Ela sorria.

Era o sorriso de uma pessoa que acabou de lançar uma bomba atômica e agora aprecia a nuvem em forma de cogumelo.

Lentamente, ela pousou o pote sobre a toalha de mesa branca como a neve, bem ao lado do prato do meu marido.

Uma gota branca desprendeu-se da borda da lata e caiu com um ploft na molheira.

— Ai, — Ksênia cobriu teatralmente a boca com a mão.

— As mãos estão tremendo.

Estou cansada, Lida.

Você é a grande trabalhadora daqui, e eu sou só a que serve e obedece.

Então não consegui segurar.

Passei o guardanapo da mão esquerda para a direita.

Três vezes.

Os dedos sentiam a borda áspera do linho, e isso me ajudava a não olhar para Ksênia.

Se eu olhasse para ela naquele momento, veria suas pupilas dilatadas: ela se embriagava do instante.

Os convidados à mesa — colegas do meu marido da administração portuária, com suas esposas elegantemente vestidas — tinham congelado.

No ar não havia apenas cheiro de tinta.

Havia cheiro de execução pública.

— Isso é branco de titânio em óleo de linhaça, — eu disse.

Minha voz soava firme, até demais.

— Com adição de secativo número quarenta e dois.

— Dane-se, Lida! — Ksênia de repente explodiu num grito estridente.

— Para você o vestido vale mais do que a família?

Olhe para você!

Sentada aí, rainha da restauração, com essa sua chavezinha tilintando no pescoço, e querendo mandar a própria mãe para um asilo!

Era mentira.

Mentira pura, destilada, que Ksênia preparara a noite inteira.

A própria Antonina Mikhailovna tinha pedido para ir durante duas semanas ao sanatório “Riviera do Norte”, e Ksênia apresentou isso como se fosse uma tentativa de se livrar da mãe.

Levantei-me.

A mancha branca na altura do ventre já começava a secar nas bordas.

O branco de titânio é traiçoeiro.

Não apenas mancha.

Ele penetra na estrutura da fibra, se não for removido a tempo com uma composição especial.

— Lida, aonde você vai? — meu marido, enfim, recuperou a fala.

Ele olhava para o pote de tinta como se fosse uma cobra viva.

— A Ksyusha só está… nervosa.

Peça desculpas, Ksyush.

— Nem pensar! — Ksênia ergueu orgulhosamente o queixo.

— Que ela aprenda o lugar dela.

Ela se acha demais: veio de Petersburgo, cutuca móveis velhos, junta dinheiro aos montes…

Saí da sala sem ouvir o resto.

No corredor, parei diante do espelho.

A pequena chave de latão numa corrente fina esfriava a pele na cavidade entre as clavículas.

Era a chave de uma escrivaninha do século dezoito que eu restaurava havia seis meses.

Meu orgulho.

Minha armadura.

Será que ela ao menos entende o que abriu?, pensei, olhando para meu reflexo.

Dentro de mim não havia lágrimas.

Havia justamente aquela sensação que surge quando se remove a camada de verniz antigo e escurecido de um painel de carvalho: o entusiasmo do descobridor.

Entrei no meu ateliê, um pequeno cômodo no fim do corredor, onde havia cheiro de cera, terebintina e madeira antiga.

Ali fazia fresco.

Sobre a bancada estavam espátulas, pincéis e justamente aquele pequeno frasco com removedor que eu havia preparado para o trabalho do dia seguinte.

Olhei o relógio de parede.

Eram 19h42.

Um minuto depois, ouvi passos no corredor.

Pesados, confiantes.

Ksênia.

Ela não conseguia me deixar em paz.

Precisava ver minhas lágrimas, ouvir meus soluços.

Precisava do final triunfal da própria vitória.

Ela entrou voando no ateliê, sem sequer bater.

— Se escondeu? — apoiou-se no batente da porta.

— Você acha que agora seu Yura vai vir correndo te consolar?

Não vai.

Agora ele está discutindo o contrato com Boris Ivanovich.

E você aqui… fique fuçando no seu pó.

Ela avançou até o fundo da sala.

Seus olhos brilharam quando viram sobre a bancada justamente aquela escrivaninha.

Uma peça rara, folheada em bétula da Carélia, com incrustações de madrepérola.

— E por esse traste pagam a você tanto quanto eu não ganho em um ano? — Ksênia estendeu a mão para o tampo.

— Não toque, — eu disse, continuando a mexer nos frascos.

— Tem uma composição fresca aí.

— Ai, que medo! — Ksênia riu.

— Uma composição, vejam só.

Agora eu vou mostrar para você todas as suas composições…

Ela pegou da prateleira o primeiro pote que lhe caiu à mão.

Era meu orgulho: uma mistura à base de verniz damar e um ingrediente secreto que eu encomendava a um velho mestre em Veneza.

— Ksênia, coloque no lugar.

Você não entende o que isso é.

— Eu entendo tudo, Lidotchka.

Você não nos considera gente.

Acha que nós aqui em Vyborg tomamos sopa com tamanco de palha?

De repente ela abriu o pote com brusquidão.

Espalhou-se um cheiro doce e pegajoso.

Ksênia, sem olhar, derramou o conteúdo sobre a escrivaninha.

E depois, vendo que eu não partia para cima dela aos punhos, fez uma coisa que eu de forma alguma esperava.

Mergulhou a palma da mão no pote e começou a espalhar o verniz sobre a superfície polida.

— Toma!

Toma essa sua restauração! — repetia.

— Vai fazer tudo de novo!

Vai passar as noites nisso!

Olhei o relógio.

19h46.

— Ksênia, — eu disse muito baixo.

— Olhe para as suas mãos.

— E daí?

Vão lavar! — ela limpou as palmas nas calças elegantes de poliéster.

— Não sou de açúcar!

Ela saiu, batendo a porta com força.

Fiquei no silêncio.

Sobre a escrivaninha, a mancha da composição veneziana se espalhava lentamente.

Mas não era isso o que me preocupava.

Eu sabia que esse verniz tinha uma particularidade.

Ele não simplesmente seca.

Em contato com certos tipos de tecido sintético — e Ksênia usava justamente esse tipo de calça — ele entra em reação de polimerização em dez ou doze minutos.

E fica duro como resina epóxi.

Liberando, além disso, uma boa quantidade de calor.

Mas o mais interessante não estava no verniz.

O mais interessante era que Ksênia, enquanto o espalhava, tinha tocado sem querer no rosto.

Na bochecha e perto dos lábios havia ficado um rastro brilhante bem visível.

Peguei minha pequena espátula e a coloquei no bolso do avental.

Na sala, voltara a haver barulho.

Alguém começara a cantar “Noite no ancoradouro”, meu marido ria com sua voz de barítono enquanto servia conhaque a Boris Ivanovich.

Ksênia estava sentada em seu lugar, ruborizada, triunfante.

Sussurrava algo com ardor ao ouvido da sogra, e esta assentia com aprovação, lançando olhares para a porta pela qual eu, “chorando”, deveria aparecer.

Entrei.

Sem avental, com o mesmo vestido de mancha branca.

Não tentei lavá-lo.

Eu o trazia como uma bandeira.

— Oh, Lidotchka voltou! — Boris Ivanovich, um homem corpulento, com o rosto da cor de um tomate passado do ponto, acenou amistosamente com a mão.

— E nós aqui estamos brindando à dupla de vocês!

Yura diz que em breve vocês vão abrir seu próprio museu em Vyborg!

— Museu de antiguidades e esquisitices, — comentou Ksênia.

De repente, ela começou a se mexer desconfortavelmente na cadeira.

— Só que alguns exemplares se comportam de forma estranha.

Não é, Lida?

Sentei-me diante dela.

— Ksênia, como você está se sentindo? — perguntei, inclinando a cabeça.

— Muito bem!

Melhor do que todo mundo! — ela quis erguer o queixo, mas conseguiu fazê-lo de um modo estranho.

Fez uma careta e coçou a bochecha.

— Por que está me olhando assim?

— Tem alguma coisa brilhando no seu rosto, — observou Alla, mulher de Boris Ivanovich, uma dama de princípios rígidos e maquiagem impecável.

— Ksyusha, querida, você se sujou em algum lugar?

Ksênia agarrou um guardanapo e esfregou com força a bochecha.

— Ai! — ela se sobressaltou.

— O que é isso… pinica?

O processo começou, pensei.

19h54.

Oito minutos desde o contato.

O verniz veneziano não é apenas resina.

É uma mistura com cristais de mástique e óleos essenciais que, ao aquecerem, criam o efeito de “segunda pele”.

Na restauração, isso é usado para reforçar fibras de madeira deterioradas.

Na pele humana, ainda mais misturada com base barata, essa mistura se transformava em algo parecido com concreto armado.

— Ksyusha, a sua… sua boca está meio… — Antonina Mikhailovna interrompeu a frase.

Ksênia tentou sorrir, mas o canto direito da boca permaneceu imóvel.

Ela voltou a levar a mão à bochecha, mas seus dedos — justamente aqueles com os quais tinha espalhado tão generosamente meu verniz — de repente grudaram no tecido das calças.

— Ai, — tentou puxar a mão.

— Que di… Yura!

Meu marido se virou.

— Ksyukh, o que foi?

— Eu… eu… — Ksênia tentou abrir mais a boca, mas o verniz já havia fixado.

A cena era assustadora.

Imagine uma máscara em estilo veneziano que de repente ganhasse vida, mas só pela metade.

A parte direita do rosto dela ficou congelada numa expressão de leve espanto.

A pele sob o verniz começou a ficar rapidamente rosada: a reação de polimerização sempre libera calor.

Quarenta e cinco graus, no mínimo.

Não uma queimadura, mas muito desagradável.

— Lida, o que é isso? — Ksênia olhou para mim com olhos em que começava a nascer um medo verdadeiro, nada fingido.

Tentou levantar-se, mas não conseguiu.

A palma da mão havia se soldado à coxa.

O poliéster das calças dela, sob o efeito do solvente do verniz, começara a derreter, entrelaçando-se irreversivelmente com as fibras da resina e com a pele dos dedos.

— É aquilo que você pegou sem pedir, — eu disse, continuando a comer meu pato.

— Lembra que eu falei que não era para mexer no pote?

— Lida! — Yura levantou-se num pulo.

— Faça alguma coisa!

Está doendo nela!

— Claro que está doendo, — deixei o garfo de lado.

— É uma reação química.

Ksênia resolveu que é uma grande restauradora.

Resolveu que podia dispor do meu trabalho, dos meus materiais.

Os convidados se calaram.

Boris Ivanovich pousou o copinho fora da mesa.

Ksênia tentou dizer alguma coisa.

Da garganta dela saiu um som estranho, rouco.

Queria gritar — de dor, de pânico, de humilhação — mas seus lábios estavam selados por uma película transparente, invisível, que a cada segundo se tornava mais rígida.

— Aju…da… — soou como o assobio de um pneu furado.

— Lídia Stêpanovna, isso não pode ser assim! — Antonina Mikhailovna tremia.

— É a irmã dele, afinal!

Está bem, ela derramou tinta em você, estragou o vestido, mas…

— Ela não apenas estragou o vestido, — levantei-me e me aproximei de Ksênia.

— Ela entrou no meu ateliê.

Ela derramou uma composição sobre uma escrivaninha antiga no valor de três milhões de rublos, e essa composição não pode ser removida com solvente comum.

Inclinei-me até o ouvido dela.

Ela cheirava a pânico e sintético queimado.

— Sabe, Ksyusha, — sussurrei de modo que só ela pudesse ouvir.

— Restam a você cerca de três minutos antes que o verniz cristalize por completo.

Se agora você começar a se debater, vai arrancar a pele junto com as calças.

Ksênia congelou.

Seus olhos ficaram enormes, como pires.

Uma lágrima escorreu por sua bochecha, mas não conseguiu ultrapassar a barreira do verniz e parou junto à pálpebra, como uma mosca no âmbar.

— Yura, traga água! — gritou a sogra.

— Água não vai ajudar, — cortei.

— Só vai piorar.

Em contato com água, o mástique fica branco e áspero, como lixa.

Vai rasgá-la por dentro a cada movimento dos músculos faciais.

Yura ficou imóvel com a jarra na mão.

— E o que fazer, então? — ele me olhava suplicante.

Olhei o relógio.

20h00.

— Agora todos nós vamos para o meu ateliê.

Todos juntos.

Boris Ivanovich, o senhor queria ver como trabalham os profissionais, não era?

Pois veja o resultado do trabalho de uma amadora.

Peguei Ksênia pelo cotovelo.

Ela estava rígida como um manequim.

O braço grudado à coxa a obrigava a andar meio agachada, mancando da perna direita.

Os convidados vieram atrás, como hipnotizados.

Era uma procissão estranha: eu na frente, atrás de mim Ksênia, encolhida e muda, e atrás a comitiva de parentes assustados e importantes funcionários do porto.

No ateliê ainda havia cheiro de verniz veneziano.

Sobre a escrivaninha brilhava a mancha.

Ksênia a viu e começou a tremer.

— Sente-se, — indiquei-lhe o banco dos visitantes.

Ela desabou sobre ele.

— Lidotchka, faça alguma coisa! — minha sogra estava quase chorando.

— Está vendo, ela não consegue dizer nada!

Ela quer pedir desculpas!

— Ela não consegue pedir desculpas, Antonina Mikhailovna.

Não porque o verniz atrapalhe.

Mas porque ela não sabe.

Mas não tem problema, hoje vamos aprender.

Tirei do armário um frasco pesado de vidro escuro.

Não havia rótulo, apenas um número.

— Isto é o neutralizador, — expliquei aos convidados.

— Custa cerca de duzentos euros por cem mililitros.

Ksênia, você entende o que está acontecendo agora?

Ksênia tentou assentir.

Sua pálpebra tremia nervosamente.

— Yura, — virei-me para meu marido.

— Você ia comprar amanhã um telefone novo para Ksênia, não ia?

O quinto no ano, me parece.

Yura hesitou.

— Bem… ela pediu…

— Pois não vai ter telefone.

Porque agora Ksênia vai me pagar pela composição estragada e pela restauração desta mancha na escrivaninha.

E também pela limpeza do rosto dela.

Desenrosquei a tampa do frasco.

Espalhou-se um cheiro de cítricos e aço.

— Mas há um problema, — fiz uma pausa, olhando para Ksênia.

— O neutralizador age muito rápido.

E de forma muito… intensa.

A sensação será de vidro moído sendo esfregado no seu rosto.

Mas se você não aguentar dezoito minutos imóvel, seu rosto ficará assim para sempre.

Ksênia soltou um som borbulhante.

— Escolha, — aproximei o frasco do rosto dela.

— Ou você fica sentada aqui por dezoito minutos, sem emitir um som, e nós esquecemos o seu comportamento.

Ou eu chamo a ambulância, e eles arrancam isso junto com a camada superficial da epiderme na cirurgia bucomaxilofacial.

Na sua opinião, o que Boris Ivanovich escolheria como seu possível empregador?

Ele precisa de funcionários que saibam se controlar?

Boris Ivanovich lançou um olhar sombrio a Ksênia.

— Pois é, — resmungou em voz grave.

— Tudo isso é… muito feio, Ksênia Igorevna.

Muito feio.

Ksênia fechou os olhos.

No queixo, onde o verniz ainda não tinha endurecido completamente, escorria um fio de suor.

Umedeci um chumaço de algodão no neutralizador.

— O tempo começou, — eu disse.

Nos primeiros três minutos, Ksênia permaneceu imóvel.

Depois começou a tremer de leve.

Eu via que, sob a crosta transparente do verniz, a pele da bochecha tinha ficado de um vermelho intenso.

O neutralizador dissolvia a resina, transformando-a numa massa quente e pegajosa que imediatamente começava a evaporar.

Doía de verdade — eu sabia disso porque certa vez uma gota daquele verniz caiu no dorso da minha mão.

Mas Ksênia se calava.

Não podia gritar, não apenas por causa do verniz, mas por causa do medo que eu lhe havia incutido.

Ela olhava para Boris Ivanovich, para a esposa dele, para o irmão.

E via nos olhos deles não compaixão, mas curiosidade enojada.

— Oito minutos, — eu disse, olhando o cronômetro.

— Este é o momento mais delicado.

Agora vai começar a reação com o tecido das calças.

Agachei-me diante dela.

Ksênia me olhava com um ódio tão grande que parecia que o ar ao redor dela deveria ferver.

Mas por trás desse ódio escondia-se a consciência de que ela tinha perdido.

Pela primeira vez na vida, sua maldade “sem querer” não passava sem consequências.

Ninguém a tinha poupado, ninguém a tinha desculpado por causa do “mau humor”.

Ela fora colocada dentro dos limites da técnica.

— Sabe, — comecei a esfregar lentamente a composição na região da coxa dela, — eu realmente queria ajudar você.

Yura me pediu para arranjar um lugar para você no arquivo do porto.

Disse que você era capaz, só meio perdida.

Ksênia se sobressaltou.

Sua mão grudada tremeu.

— Fique parada! — gritei.

— Quer deixar um pedaço de carne nas calças?

Fique quieta.

Ela se imobilizou.

Minha sogra, num canto do ateliê, fungava baixinho, mas não ousava aproximar-se.

Yura estava ao meu lado, pálido, abatido.

Só naquele momento começava a entender que cobra ele tinha aquecido sob a máscara da “pobre irmãzinha mais nova”.

— Lida, talvez já baste? — sussurrou ele.

— Faltam cinco minutos, — não olhei para ele.

— A técnica não pode ser violada.

Você sabe disso, Yura.

Se eu parar agora, a reação vai para mais fundo.

No décimo segundo minuto, Ksênia começou a chorar.

As lágrimas abriam caminho através do verniz em dissolução, deixando no rosto trilhas esbranquiçadas.

Ela parecia uma figura de cera derretendo.

Feia, miserável e completamente inofensiva.

Boris Ivanovich suspirou e ajeitou a gravata.

— Creio que nós vamos indo, — disse, dirigindo-se a Yura.

— O jantar foi… substancial.

Lídia Stêpanovna, sua habilidade impressiona.

Não apenas com a madeira, mas também com as pessoas.

— Obrigada, Boris Ivanovich.

Yura o acompanhará.

Quando a porta se fechou atrás dos convidados, o ateliê mergulhou num grande silêncio.

Só se ouvia o tique-taque do relógio e a respiração entrecortada de Ksênia.

— Pronto, — eu disse quando o ponteiro marcou dezoito minutos.

Peguei um pano limpo embebido em óleo e, com um único movimento firme, passei-o pela bochecha de Ksênia.

O verniz saiu numa só lâmina, parecida com escama de cobra.

Por baixo havia pele limpa, embora inflamada.

Depois tratei da mão dela.

O tecido das calças, claro, estava irremediavelmente estragado: na coxa abria-se um buraco horrível, de bordas derretidas, mas a mão estava livre.

Ksênia levantou lentamente a palma.

Olhou para os dedos.

Depois para mim.

Sua boca se abriu.

Ela inspirou profundamente.

Preparei-me para uma torrente de insultos, para gritos, para histeria.

Mas Ksênia permanecia muda.

Simplesmente não conseguia emitir som algum.

Talvez pelo choque vivido, talvez porque os vapores do neutralizador tivessem paralisado temporariamente as cordas vocais — eu sabia que esse efeito colateral era possível, se se respirasse fundo demais.

Ela se levantou.

As pernas lhe faltavam.

Não olhou para a mãe, nem para o irmão.

Saiu tropeçando em direção à porta, cobrindo com a mão o buraco nas calças.

— Ksyusha! — minha sogra correu atrás dela.

— Ksyushenka, espere!

Fiquei sozinha no ateliê.

Sobre a bancada jazia a escrivaninha estragada.

No chão, restos da película de verniz.

Aproximei-me do armário, peguei um pote de polidor e uma flanela macia.

Amanhã haverá muito trabalho, pensei.

Primeiro tiro essa mancha, depois passo a cera.

À noite estará como nova.

Peguei a espátula que estivera o tempo todo no meu bolso e raspei com cuidado os restos de verniz do tampo da escrivaninha.

Yura entrou na sala em silêncio.

Ficou um longo tempo parado à porta, olhando minhas costas.

— Ela foi embora, — disse.

— Chamou um táxi.

Mamãe foi com ela.

Não me virei.

Eu esfregava a madeira, sentindo como ela se aquecia sob meus dedos.

Como o desenho dela ganhava vida, como a profundidade da cor voltava.

— É uma pena o vestido, — disse Yura.

— Era bonito.

— O vestido é só seda, Yura, — parei e olhei para ele.

— Pode ser lavado.

Ou jogado fora.

Mas o que ela fez nesta sala… isso não se lava.

Voltei-me de novo para a escrivaninha.

Sob minha mão, a bétula da Carélia começava a brilhar com aquela luz de mel por causa da qual eu escolhi esta profissão.

— Vá dormir, — eu disse.

— Preciso terminar esta camada.

Mergulhei o dedo no pote de cera.

A pequena chave de latão no meu peito tilintou de leve, ao tocar a borda da bancada.

Trabalhei em absoluto silêncio.

A escrivaninha recebia a cera, absorvia-a, tornando-se lisa e quente.

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