— Tu és obrigada a nos deixar entrar, Sveta! Afinal, somos família! — gritou Artióm já da soleira, de modo que os vidros tremeram.
Svetlana ficou paralisada na cozinha com a concha na mão, sem entender de imediato o que ele estava sequer dizendo.

No fogão, uma panela fervilhava baixinho, e do quarto ao lado veio a voz de Liza — a menina cantarolava algo em voz baixa, juntando os brinquedos depois das aulas.
O mundo era normal, habitual, acolhedor.
E de repente — isto.
— O que quer dizer “obrigada”? — perguntou Svetlana, sentindo um frio descer pelo ventre.
— Mamãe disse que eles não têm para onde ir, — Artióm tirou os sapatos bem no hall de entrada, sem nem se dar ao trabalho de colocá-los no tapete.
— Eles desocuparam o apartamento e agora vão morar conosco.
— Conosco? — repetiu Svetlana, já entendendo para onde tudo aquilo estava indo.
— No meu apartamento?
— No nosso, — corrigiu o marido, sem encará-la nos olhos.
— Depois do casamento, tudo é de ambos.
A boca de Svetlana ficou seca.
Ela ficou ali, ouvindo, e a cada segundo algo dentro dela se quebrava — como se móveis estalassem sob o peso de malas velhas.
— Artióm, — disse ela devagar, quase num sussurro.
— Isto não está em discussão.
Ninguém vai se mudar para cá.
— Foste tu que decidiste isso? — resmungou ele.
— Pois eu decidi diferente.
Denis, Irina e as crianças, mamãe — todos virão.
Estás com pena do espaço, é?
Svetlana olhou para o marido com um espanto tal, como se o estivesse vendo pela primeira vez.
Ainda na semana passada ele trazia flores para casa sem motivo e a chamava de “esperta”.
E agora estava ali diante dela, todo eriçado como um estudante ofendido, exigindo instalar na casa inteira uma caravana de parentes.
— Com pena? — repetiu ela.
— Sim, com pena.
Tenho pena da tranquilidade.
Tenho pena da minha filha.
Tenho pena de mim, afinal de contas.
Ele fez um gesto de desdém com a mão:
— Estás a exagerar tudo.
Apertados, mas sem ressentimentos.
Mamãe vai te ajudar com a casa, Irina com as crianças não será um fardo, pelo contrário, vai ser divertido.
Svetlana soltou um muxoxo.
Divertido — é quando para ir ao banheiro haverá fila de oito pessoas?
Quando na cozinha não se poderá passar por causa das panelas e dos gritos das crianças?
Quando a sogra vai ensinar Liza a “viver direito”?
— Artióm, — ela apoiou as mãos na mesa.
— Tu tens trabalho, o teu irmão também.
Se querem ajudar — aluguem um apartamento para eles.
— E com que dinheiro, Svet? — retrucou ele, irritado.
— Eu não sou milionário.
— Então que Denis resolva os próprios problemas.
Eu não devo nada a ninguém.
— Tu és egoísta, — respondeu Artióm de forma brusca.
— Uma mulher deve ser mais dócil, entender os parentes do marido.
— Uma mulher deve respeitar-se, — cortou ela.
— E não transformar a própria casa num corredor de passagem.
Um segundo de silêncio.
Só o relógio fazia tique-taque.
Depois ele explodiu:
— Tu simplesmente não queres viver com a minha mãe!
Ela te incomoda, não é?
É só isso!
— E a ti não incomoda que a tua mãe se meta na nossa vida? — perguntou Svetlana com calma.
— Tu achas normal que ela decida onde vamos morar e quem manda neste apartamento?
— Mamãe está sempre certa, — disse Artióm com teimosia, como um adolescente repetindo uma frase decorada.
Svetlana entendeu: discutir era inútil.
Aquilo já tinha sido enfiado na cabeça dele — e, ao que parecia, bem fundo.
À noite tudo se repetiu.
Ele voltou tarde, irritado, com cheiro de cigarro, embora tivesse parado de fumar dois anos antes.
Sentou-se no sofá, ligou o noticiário e, sem olhar para ela, disse:
— No sábado eles chegam.
— O que quer dizer “chegam”? — perguntou Svetlana, sentindo uma onda de raiva subir.
— O que ouviste.
Mamãe já arrumou tudo.
Denis e Irina também.
Ela se sentou ao lado, olhando diretamente para o perfil do marido.
— Então decidiste por mim?
Sem o meu consentimento?
— É temporário, — disse ele, acenando com desdém.
— Até encontrarem moradia.
— Temporário? — repetiu ela.
— Já viste alguma vez alguém da tua família fazer algo “temporariamente”?
Ele não respondeu.
Apenas aumentou o volume da televisão.
No dia seguinte, às sete da manhã, Svetlana estava à janela com uma caneca de café.
O pátio estava cinzento, húmido, as árvores quase sem folhas.
As folhas secas farfalhavam sob as rodas dos carros, o cheiro de humidade e gasolina enchia o ar.
Novembro — aquele mesmo mês em que tudo parece cansado.
Liza dormia, abraçada a um urso de pelúcia macio.
Svetlana olhava para a filha e pensava: em que foi que me meti?
O telefone vibrou — mensagem de Artióm:
“A mamãe chega por volta das nove. Nem penses em fazer cena.”
Svetlana sentiu a respiração falhar.
Pousou devagar a caneca no peitoril da janela.
Então ele nem sequer pretendia discutir.
Apenas a colocava diante do fato consumado.
Exatamente às nove tocaram à porta.
Uma campainha insistente, longa.
Svetlana aproximou-se, espreitou pelo olho mágico — Tamara Ivanovna, de casaco, com duas malas enormes.
Ao lado, no corredor, pairava a figura de Denis, e atrás via-se um carrinho de criança.
— Sveta! — gritou a sogra.
— Que estás aí parada?
Abre!
Svetlana tirou a corrente, mas abriu a porta apenas a um palmo.
— Tamara Ivanovna, para onde pensam que vão?
— Como para onde?
Estamos nos mudando, — respondeu a sogra animadamente, como se fosse uma ninharia.
— Artióm disse que está tudo pronto.
Vamos dividir os quartos, fazer um cantinho para as crianças.
— Ele disse? — repetiu Svetlana.
— E eu disse não.
Tamara Ivanovna apertou os lábios.
— Menina, pelos vistos estás cansada, — disse ela num tom condescendente.
— Não vou discutir.
Só ajuda a levar as coisas para dentro, depois conversamos.
— Não, — respondeu Svetlana com calma.
— Vocês não entram.
— O que quer dizer “não entram”? — explodiu a sogra.
— O meu filho vive aqui!
O meu sangue!
Quem és tu para decidir?!
Svetlana sentiu os dedos tremerem.
Do lado de fora levantou-se um alvoroço — Denis subia as escadas, atrás dele Irina com as crianças.
O pequeno chorava, o mais velho resmungava que queria comer.
Tudo isso se misturou num caos de sons, como um ensaio maligno da futura cacofonia de uma casa abarrotada.
— Tia Sveta, vocês têm desenhos animados? — perguntou alegremente Maksim, correndo até à porta.
— Mamãe disse que vocês têm uma televisão grande!
Svetlana fechou os olhos, tentando recompor-se.
Depois pronunciou em voz baixa, mas firme:
— Vão-se embora.
— O quê? — Irina não acreditou.
— Nós já arrumámos tudo!
Temos coisas para meia carrinha!
— Voltem para trás, — repetiu Svetlana.
— Esta é a minha casa.
Tamara Ivanovna soltou o ar e depois começou a berrar, alto, para todo o prédio ouvir:
— Sem vergonha!
Põe as crianças na rua!
Artióm não te vai perdoar por isto!
Da porta do apartamento vizinho apareceu uma velhinha, depois outra pessoa — como se fosse um espetáculo.
Svetlana sentiu o rosto arder, mas não saiu do lugar.
E então Artióm subiu as escadas.
Ao que parecia, tinha esperado de propósito que todos se reunissem para aparecer no último momento.
— Que circo é este? — resmungou.
— Sveta, deixa as pessoas entrarem.
— As pessoas? — repetiu ela.
— Ou os teus parentes, que decidiram instalar-se aqui sem permissão?
Ele fez uma careta.
— Não comeces.
Eles estão cansados, depois conversamos.
— Não depois, — disse Svetlana.
— Agora.
Na sua voz, pela primeira vez, soava não apenas irritação, mas aço.
Aquele que surge numa pessoa quando a encurralam.
Ela saiu para o corredor, bateu a porta atrás de si e girou a chave.
A sogra observava, espantada, enquanto Svetlana pegava calmamente nas malas e as levava rolando até ao elevador.
— O que estás a fazer?! — guinchou Tamara Ivanovna.
— São coisas nossas!
— Sim, vossas, — disse Svetlana.
— Então levem-nas para lá.
Artióm aproximou-se e tentou segurá-la pelo braço:
— Svet, acalma-te, chega de circo.
— Isto não é circo, — respondeu ela.
— Esta é a minha casa.
E aqui sou eu quem decide quem mora e quem não mora.
— Tu enlouqueceste, — sibilou ele.
— Nós somos uma família!
— Não, Artióm.
Família são aqueles que se respeitam mutuamente.
Silêncio.
Depois o elevador tocou, as portas se fecharam, levando Tamara Ivanovna, Denis, Irina e as crianças para baixo.
Svetlana ficou ali, respirando pesadamente.
Os vizinhos se dispersavam, cochichando entre si.
Artióm olhava para a mulher como se não a reconhecesse.
— Eu entro, — disse por fim.
— Entrarás se decidires de que lado estás, — respondeu ela.
E entrou, deixando-o no corredor.
À noite, quando Liza foi dormir, Svetlana estava sentada na cozinha, no escuro.
Na janela — uma chuva rala, luzes fracas.
No telefone — nem chamada, nem mensagem.
Apenas uma breve notificação do banco: “Levantamento em dinheiro. Artióm K.”
Ela olhava para a tela e pensava que talvez tudo estivesse realmente acabado.
Talvez fosse até melhor assim.
Mas o coração continuava a doer.
Na manhã seguinte, ela trocou as fechaduras.
Quando o chaveiro foi embora, Svetlana fechou a porta pela primeira vez em muito tempo — e sentiu o silêncio.
O verdadeiro.
O telefone tocou às nove e meia da manhã.
Svetlana estava justamente secando a pia — um hábito adquirido com os anos: para que nada pingasse, para que não ficassem marcas.
No visor — Artióm.
Ela ficou olhando para a tela por um longo tempo antes de atender.
— O que queres? — disse, seca.
— Svet… por que estás a agir como se eu fosse um estranho, — na voz do marido havia uma calma fingida.
— Eu só quero conversar.
— Fala.
— Não por telefone.
Eu vou à noite.
Sem eles.
Sozinho.
Svetlana ficou em silêncio.
Depois respondeu brevemente:
— Vem.
Mas já te aviso: não vais conseguir me convencer.
— Ninguém está tentando te convencer, — soltou ele com uma risada nervosa.
— Vamos apenas conversar.
Ele chegou perto das oito.
Com uma bolsa, por fazer a barba, com os olhos vermelhos.
Ao que tudo indicava, tinha dormido na casa da mãe.
Entrou, tirou o casaco, ficou parado no hall como se não soubesse onde se colocar.
— Queres chá? — perguntou Svetlana, de forma neutra, sem emoção.
— Quero, — assentiu ele.
Sentaram-se na cozinha, em silêncio.
Só o barulho da chaleira e a respiração abafada de Liza atrás da parede.
A menina já dormia.
— Eu exagerei, — disse Artióm por fim.
— Não devia ter feito assim, chegar impondo tudo de repente.
— Sim, não devias, — concordou Svetlana.
— Mas tu não apenas disseste — tu começaste a agir.
Ele suspirou e esfregou a testa.
— Mamãe… ela pressiona.
Entendes?
Denis e Irina realmente não cabem lá.
Eles têm dois filhos…
— Artióm, eu não sou contra ajudar.
Mas ajudar não significa instalar todos no nosso apartamento.
— Mas é temporário.
— Qualquer “temporário” com a tua mãe vira permanente, — disse Svetlana.
— Tu sabes disso tão bem quanto eu.
Ele baixou os olhos.
Ficou alguns segundos em silêncio, depois tirou um cigarro, hesitou e o guardou de novo.
— Eu achei que ias entender, — disse baixo.
— Tu tens coração, não tens?
— Tenho.
E é justamente por isso que não vou deixar que ninguém limpe os pés nele.
Ele praguejou em voz baixa e se levantou.
— Está bem.
Vou tentar encontrar algo barato para eles.
Talvez com conhecidos.
Svetlana olhou para ele, surpresa.
Parecia que pela primeira vez nos últimos dias ele falava com sensatez.
— Isso seria o certo, — disse ela.
— Caso contrário, tudo vai ruir.
Ele assentiu, aproximou-se da janela e olhou para o pátio.
— Svet… e se eu ficasse aqui?
Sem eles.
— Não sei, Artióm.
Tudo o que fizeste — não foi apenas um erro.
Foi uma traição.
Ele se virou, os olhos brilhando de mágoa.
— Mas eu não te traí!
— Não é preciso trair para trair, — disse ela com calma.
— Às vezes basta simplesmente não ficar ao teu lado quando isso é necessário.
Ele se calou.
Depois perguntou de repente:
— Tu me expulsaste para sempre?
Svetlana não respondeu.
Apenas continuava a servir chá para si, sem erguer os olhos.
Dois dias depois, ele foi embora por conta própria.
Sem escândalo, sem última palavra.
Simplesmente juntou as coisas e partiu — talvez para a casa da mãe, talvez para a casa de um amigo.
Svetlana não perguntou.
Liza, claro, sofreu com isso.
— Mamãe, o papai não gosta mais de nós? — perguntou ela uma vez antes de dormir.
— Gosta, — respondeu Svetlana.
— É só que os adultos às vezes fazem tolices.
— E ele vai voltar?
— Se mudar, talvez, — disse Svetlana, sem acreditar nisso nem ela mesma.
Passou uma semana.
Depois outra.
Silêncio — nem chamadas, nem mensagens.
E de repente, como costuma acontecer, tudo caiu sobre ela de uma vez só.
Ligou a vizinha de Tamara Ivanovna — aquela que mora parede com parede.
— Svet, eu não quero me meter, mas o teu Artióm com o Denis estão aprontando alguma coisa na casa de campo.
Eu os vi tirando os teus móveis, os que deixaste lá no verão.
— Os meus? — repetiu Svetlana.
— Da casa de campo que está no meu nome?
— Sim.
Eles disseram que tu tinhas autorizado.
Svetlana sentou-se diretamente no chão.
A cabeça zumbia.
Ela se lembrou: depois do casamento, eles realmente tinham ido juntos para lá, colocado um sofá velho, poltronas, alguns aparelhos.
Mas os documentos do terreno estavam em seu nome.
Um presente dos pais, ainda antes do casamento.
Uma hora depois, ela já estava no carro, a caminho da casa de campo.
A chuva caía em cortinas, os limpadores se agitavam no para-brisa.
Às margens da estrada — lama, galhos molhados.
O caminho era conhecido, mas agora parecia estranho.
Quando Svetlana chegou, uma velha “Gazela” saía pelo portão.
Na carroceria — justamente aquele sofá, uma máquina de lavar e caixas.
Ao volante — Denis.
Ela bloqueou a estrada, acendendo os faróis.
Denis freou, desceu.
— Sveta, o que deu em ti?
Nós combinámos com o Artióm.
— Comigo, não, — respondeu ela.
— Descarreguem tudo de volta.
— Tu enlouqueceste? — bufou ele.
— Isso é tudo propriedade comum.
— Esta é a minha casa de campo.
E tudo o que há nela — é meu.
Ele quis dizer algo, mas Svetlana aproximou-se até ficar bem diante dele, com os olhos ardendo.
— Denis, não me ponhas à prova.
Vou ligar para a polícia e dizer que vocês estão roubando propriedade.
Queres que façam um boletim?
Denis hesitou, depois fez um gesto com a mão.
— Faz o que quiseres.
Eu não quero saber de nada disso.
Ele pulou para a cabine, bateu a porta e foi embora, levantando uma nuvem de lama.
Svetlana ficou no meio da estrada, encharcada, mas como se tivesse ficado mais forte.
À noite Artióm ligou.
A voz era áspera, furiosa:
— Por que foste lá?
— Porque é a minha propriedade, — respondeu ela com calma.
— Estás fazendo um circo!
Nós só queríamos levar uma parte dos móveis para a casa da mamãe.
— Sem a minha permissão?
Isso se chama roubo.
Ele se calou e, de repente, começou a falar depressa, perdendo o controle:
— Tu destruíste tudo!
Agora mamãe diz que eu não sou homem, o meu irmão me olha de lado, Irina não consegue me encarar.
Estás satisfeita?
— Eu não destruí nada, Artióm.
Eu apenas não permiti que tu pisasses nos meus limites.
— Que limites são esses?! — gritou ele.
— Nós somos uma família!
— Nós somos uma ex-família, — disse Svetlana baixinho.
— Acabou tudo.
Ele ficou muito tempo em silêncio.
Depois apenas soltou um suspiro:
— Então alegra-te.
Eu não volto mais.
— E não é preciso, — respondeu ela, desligando o telefone.
Uma semana depois chegou uma carta do advogado.
Artióm entrou com um pedido de partilha de bens — tentava provar que o apartamento tinha sido “adquirido em conjunto”.
Svetlana apenas sorriu: os documentos da doação estavam guardados numa pasta separada.
Na audiência, ele parecia cansado.
Tamara Ivanovna foi com ele, olhando com raiva, como para uma inimiga.
Svetlana não baixou os olhos.
O juiz entendeu rapidamente: o apartamento realmente tinha sido doado a Svetlana antes do casamento.
O pedido foi rejeitado.
Na saída, Tamara Ivanovna sibilou:
— Tu acabaste com ele.
Alegra-te.
Svetlana respondeu calmamente:
— Não, eu apenas não deixo mais que me controlem.
Depois tudo ficou, de certo modo, simples.
Sem escândalos, sem nervos.
Liza estudava, Svetlana trabalhava muito.
À noite, preparavam o jantar juntas, viam velhos filmes soviéticos, riam.
Às vezes, porém, havia um vazio.
Principalmente à noite, quando lá fora chove e se quer que alguém te abrace.
Mas Svetlana sabia — isso passaria.
Certa vez, no fim de novembro, ela encontrou Artióm perto da loja.
Ele estava com uma sacola, mais magro, com a barba por fazer.
— Olá, — disse ele.
— Olá.
— Como está Liza?
— Bem.
Ele ficou em silêncio, depois perguntou:
— Posso vê-la algum dia?
Svetlana pensou e assentiu:
— Podes.
Mas não na minha casa.
Ele assentiu em resposta.
— Entendi.
Não disse mais nada.
Apenas a olhou — cansado, sem maldade.
E foi embora.
Svetlana o observou afastar-se e, pela primeira vez em muito tempo, não sentiu raiva.
Só uma leve pena — nem dele propriamente, mas daquilo que um dia existiu entre eles.
Ela levantou a gola do casaco, inspirou o ar frio e foi para casa.
O pátio estava inundado pela luz baça dos postes, o asfalto molhado brilhava como vidro.
Em casa, Liza estava sentada à mesa, desenhando um gato.
— Mamãe, estás de bom humor hoje?
— Acho que sim, — sorriu Svetlana.
— É só que ficou tudo mais tranquilo.
A menina assentiu, e elas continuaram a desenhar em silêncio — cada uma a sua linha, o seu contorno.
A noite se formava quieta, de um modo novo.
Svetlana sabia: agora tudo seria diferente.
Não mais fácil, mas mais honesto.
Ela olhou pela janela — raros flocos de neve caíam sobre o peitoril, derretendo lentamente.
Novembro estava terminando.
E com ele terminava a velha vida.







