— Mais uma semana, — Alisa jogou a bolsa no cabideiro e tirou os sapatos bem ali, junto à porta.
— Meu Deus, como estou cansada.

Sexta-feira.
Finalmente sexta-feira.
Cinco dias de apresentações, reuniões e discussões com clientes.
Alisa trabalhava como gerente em uma agência de publicidade, e o último projeto havia sugado todas as suas forças.
O cliente mudava as exigências três vezes por dia, os designers ficavam à beira de um ataque de nervos, e o diretor exigia resultados.
Agora Alisa sonhava apenas com uma coisa — dois dias de silêncio.
Dormir até o meio-dia, assistir à série que vinha adiando havia um mês, ficar deitada em uma banheira cheia de espuma.
Nenhum plano, nenhuma pessoa, nenhum barulho.
Artur saiu do quarto, abotoando a camisa:
— Oi.
Como foi o dia?
— Sobrevivi, — Alisa foi para a cozinha e abriu a geladeira.
— Vai jantar?
— Não, vou para a casa dos meus pais.
Meu pai pediu ajuda com o telhado da garagem — parece que está vazando em algum lugar.
Alisa se virou:
— Agora?
Numa sexta-feira à noite?
— Sim, — Artur deu de ombros.
— Vou dormir lá, no sábado ajudo, e no domingo volto.
Algo quente se espalhou dentro de Alisa.
Um fim de semana inteiro sozinha.
Sem Artur, sem os seus…
— Tudo bem, — Alisa sorriu.
— Vá.
Mande lembranças para Nadezhda Valentinovna e Timur Olegovich.
Os pais de Artur moravam em um povoado a quarenta quilômetros da cidade.
Nadezhda Valentinovna era ex-professora de língua russa, e Timur Olegovich era aposentado, tendo trabalhado a vida inteira em uma fábrica.
No fundo, não eram pessoas ruins.
Só tinham uma característica.
Essa característica consistia no fato de que os sogros consideravam o apartamento do filho como seu segundo território, embora oficialmente ele pertencesse a Alisa.
Podiam aparecer a qualquer momento — no fim de semana, em dia útil, de manhã ou à noite.
Não avisavam e não perguntavam.
Simplesmente surgiam na porta com sacolas cheias de tortas e a declaração: “É só por pouco tempo!”
Esse “pouco tempo” se transformava em quatro ou cinco horas.
Nadezhda Valentinovna inspecionava o apartamento, dava conselhos sobre limpeza e criticava a disposição dos móveis.
Timur Olegovich ligava a televisão no volume máximo e assistia ao noticiário.
Depois começavam as conversas sobre como Artur era na infância, sobre os vizinhos do povoado e sobre política.
Alisa tentava conversar com o marido.
Várias vezes.
Explicava que se sentia desconfortável, que queria saber com antecedência e que era preciso ao menos perguntar se podiam vir.
Artur assentia:
— Tudo bem, eu vou falar com eles.
Mas nada mudava.
Nadezhda Valentinovna e Timur Olegovich continuavam aparecendo como se surgissem do nada, e Artur continuava fingindo que nada de grave estava acontecendo.
— Escuta, — Artur tirou as chaves do bolso.
— No domingo, meus pais vêm.
Minha mãe quer ver as cortinas novas que você pendurou.
Alisa ficou imóvel com o iogurte na mão:
— O quê?
— Meus pais, — Artur fechou o zíper da jaqueta.
— Vão passar de manhã, por volta das dez.
Minha mãe vai assar uma torta, como sempre.
— Artur, — Alisa colocou o iogurte sobre a mesa.
— Estou cansada.
Quero descansar no fim de semana.
Em casa.
Sozinha.
— Eles não vão demorar, — o marido fez um gesto com a mão.
— Umas duas horas, no máximo.
— Artur!
— Alisa, qual é o problema?
— o marido franziu a testa.
— Meus pais vêm, ficam um pouco e vão embora.
Você sabe como minha mãe é — para ela é importante ver tudo e discutir tudo.
— Para mim, é importante descansar!
— Você vai descansar, — Artur abriu a porta de entrada.
— Certo, eu preciso ir.
Até domingo.
A porta se fechou.
Alisa ficou parada no meio da cozinha, com os punhos cerrados.
De novo.
Mais uma vez, ele tinha decidido tudo sozinho, sem perguntar, sem se interessar.
Domingo de manhã.
Dez horas.
Nadezhda Valentinovna com uma torta e comentários sobre as cortinas, que “estão penduradas meio tortas, seria bom ajeitar”.
Timur Olegovich com o noticiário eterno em volume alto pela casa toda.
Artur, que sorriria e diria: “Ah, mãe, ah, pai, não impliquem.”
Alisa pegou o telefone e escreveu para a amiga Vera: “Obrigada pelo conselho sobre a advogada.
Acho que vou precisar dela.”
A noite de sexta-feira passou em silêncio.
Alisa pediu pizza, colocou uma comédia e se esticou no sofá.
Ninguém tocou a campainha, ninguém perguntou por que ela não estava preparando um jantar de verdade.
Uma bênção.
O sábado começou com um longo sono até as onze.
Alisa acordou, espreguiçou-se e olhou pela janela.
Sol.
Ótimo.
Café da manhã na cama, banho de espuma com máscara facial, dois filmes seguidos.
À noite, ela ficou sentada na varanda com uma taça de vinho, olhando para a cidade.
Os postes de luz se acendiam um após o outro, em algum lugar lá embaixo adolescentes riam, carros passavam.
E de repente ela pensou: e se fosse sempre assim?
E se não houvesse mais visitas inesperadas dos sogros, explicações sobre por que ela se sentia desconfortável, um marido que assentia e não mudava nada?
Vera, sua amiga, havia se divorciado um ano antes.
Na época, ela dissera: “Sabe quando percebi que ia me divorciar?
Quando imaginei a vida sem ele — e ficou mais fácil respirar.”
Alisa tomou um gole de vinho.
Mais fácil respirar.
Sim.
Exatamente assim.
Ela pegou o telefone e abriu os contatos.
A advogada Marina Sergeevna.
Vera havia dado o número ainda um mês antes, quando Alisa reclamara mais uma vez da situação com os pais do marido.
Ela digitou uma mensagem: “Boa noite.
Gostaria de fazer uma consulta sobre divórcio.
É possível marcar para segunda-feira?”
A resposta veio cinco minutos depois: “Boa noite.
Segunda-feira, 15h00.
Enviarei o endereço separadamente.”
Alisa soltou o ar.
Pronto.
Estava decidido.
A manhã de domingo foi igualmente silenciosa.
Alisa levantou às nove, tomou banho e preparou café.
Colocou música — não alta, apenas ao fundo.
Sentou-se perto da janela com um livro que havia comprado seis meses antes e ainda não conseguira começar.
Às nove e cinquenta e cinco, aproximou-se do interfone e o desligou.
Simplesmente apertou o botão de desligar o som.
O aparelho apagou.
Colocou o telefone ao lado e o deixou no modo silencioso.
A tela se acendeu várias vezes — chamadas recebidas.
Alisa não olhou quem estava ligando.
Exatamente às dez da manhã, o telefone vibrou com especial insistência.
Alisa olhou para a tela.
Nadezhda Valentinovna.
Ela atendeu:
— Alô?
— Alisochka!
— a voz da sogra soava alegre e alta.
— Já estamos na entrada do prédio!
Abra!
Alisa tomou um gole de café e virou a página do livro:
— Nadezhda Valentinovna, eu não estou em casa.
Pausa.
Uma pausa longa e pesada.
— Como assim não está em casa?
— a voz da sogra mudou, ficou áspera.
— Artur disse que você estava em casa!
— Artur se enganou, — respondeu Alisa calmamente.
— Eu não estou.
E não posso abrir a porta.
Tenha um bom dia, Nadezhda Valentinovna.
Alisa encerrou a chamada.
Colocou o telefone sobre a mesa.
Voltou ao livro.
O telefone vibrou novamente.
Nadezhda Valentinovna.
Alisa recusou a chamada.
Outra vibração.
Timur Olegovich.
Recusada.
Artur estava fora de área, aparentemente ao volante.
Alisa lia.
A protagonista do romance deixava a cidade, abandonando um trabalho que não amava e um homem que não a valorizava.
Alisa sorriu.
Como na vida.
Lá embaixo, junto à entrada do prédio, estavam Nadezhda Valentinovna e Timur Olegovich.
O sogro segurava uma sacola com a torta, e a sogra mexia nervosamente na bolsa.
— Timur, ligue mais uma vez!
— Nadezhda Valentinovna fez um gesto com a cabeça em direção ao interfone.
Timur Olegovich apertou o botão.
Silêncio.
Apertou outra vez.
Silêncio de novo.
— Será que não está funcionando?
— murmurou Timur Olegovich.
— Está funcionando, ela é que não abre!
— a sogra tirou o telefone e discou o número de Alisa.
— Ela está recusando!
Você acredita?!
Está recusando as chamadas!
Uma jovem com um cachorro passou ao lado e olhou de soslaio para o casal idoso.
Nadezhda Valentinovna apertou os lábios:
— Estamos aqui como idiotas.
Que vergonha.
— Talvez ela tenha saído de verdade?
— Timur Olegovich passou a sacola de uma mão para a outra.
— Saiu para onde?!
Numa manhã de domingo?!
— Nadezhda Valentinovna discou o número de Artur.
— Fora de área!
Nosso filho está fora de área!
Eles ficaram ali por mais de uma hora.
Nadezhda Valentinovna tocava o interfone, ligava sem parar para Alisa e para Artur.
Timur Olegovich permanecia em silêncio, mudando o peso de um pé para o outro, olhando para a porta fechada do prédio.
— Chega, — disse finalmente Nadezhda Valentinovna.
— Vamos para casa.
Depois ela vai explicar o que foi isso.
— Talvez ela tenha passado mal?
— sugeriu Timur Olegovich, inseguro.
— Talvez precise de ajuda?
— Que ajuda, Timur?!
Ela está recusando as chamadas!
Se tivesse passado mal, não recusaria!
Eles entraram no carro e foram embora.
Nadezhda Valentinovna reclamou durante todo o caminho, e Timur Olegovich ficou em silêncio, olhando para a estrada.
Alisa terminou de ler o capítulo quando o telefone vibrou novamente.
Artur.
Desta vez, ela atendeu:
— Sim?
— Alisa, o que está acontecendo?!
— a voz do marido soava confusa.
— Minha mãe está ligando sem parar, dizendo que você não os deixou entrar!
— Eu disse que não estava em casa, — Alisa virou a página.
— Alisa, chega!
Eu sei que você estava em casa!
Por que está fazendo isso?!
— Porque eu pedi para eles não virem, — respondeu Alisa de forma serena.
— E você não me ouviu.
Como sempre.
— Alisa, mas são meus pais!
Eles queriam ver você, conversar!
— Artur, estou cansada.
Eu queria descansar.
Eu te disse isso na sexta-feira.
— E agora, por causa de uma única visita, você vai fazer um escândalo?!
Alisa fechou o livro e o colocou sobre a mesa:
— Não por causa de uma única visita.
Por causa de centenas.
Por causa do fato de que meus pedidos são ignorados.
Por causa do fato de que minha opinião não tem importância.
— Alisa, vamos conversar com calma…
— Escute, — interrompeu Alisa.
— Venha à noite.
Vou preparar o jantar, e nós conversamos.
— Ótimo!
— Artur se animou.
— Estou saindo agora!
— Não, — Alisa olhou pela janela.
— À noite.
Por volta das sete.
Preciso de tempo para pensar.
Artur ficou em silêncio, depois perguntou, inseguro:
— Pensar sobre o quê?
— Sobre nós, — disse Alisa e desligou.
O dia se arrastou lentamente.
Alisa arrumou a casa, cozinhou e colocou as coisas de Artur no sofá da sala.
Algumas camisas, jeans, tênis, barbeador, carregador de telefone.
O mais necessário.
O resto ele pegaria depois.
Às sete da noite, a chave girou na fechadura.
Estranho.
A chave girou, mas a porta não abriu.
Mais uma tentativa.
Outro fracasso.
Artur tocou a campainha.
Alisa abriu.
O marido estava parado na soleira, com as chaves na mão, olhando sem entender para a fechadura:
— O que aconteceu com a fechadura?
A chave não encaixa.
— Encaixa, — Alisa afastou-se para o lado.
— Eu apenas troquei o miolo.
— Para quê?
Alisa foi até a sala e apontou para o sofá com as coisas:
— Pegue.
O resto você pega depois, quando combinarmos.
Artur entrou devagar e fechou a porta atrás de si.
Olhou para as coisas, para a esposa, e novamente para as coisas:
— Alisa, o que é isso?
— Você não mora mais aqui.
O marido ficou paralisado.
Abriu a boca, fechou-a e piscou várias vezes:
— Você está brincando?
— Não.
— Alisa, — Artur deu um passo em direção à esposa.
— Por causa de meus pais terem vindo?
Sério?
É por isso que está me expulsando?!
— Não é por isso, — Alisa sentou-se no braço da poltrona.
— É porque você não me escuta.
Você não me escuta de jeito nenhum.
— Eu escuto!
— Não, — Alisa balançou a cabeça.
— Você assente, diz “tudo bem, vou falar com meus pais”, e depois nada muda.
Eles vêm quando querem, você concorda, eu fico com raiva, nós brigamos, você promete mudar.
E tudo se repete em círculo.
— Alisa, podemos resolver isso!
Eu vou mesmo falar com minha mãe, explicar…
— Quantas vezes você já disse isso?
— Alisa ergueu as sobrancelhas.
— Dez?
Vinte?
Eu perdi a conta.
— Mas desta vez eu…
— Artur, chega, — interrompeu Alisa.
— Estou cansada.
Cansada de explicar a mesma coisa.
Cansada de ficar com raiva.
Cansada de me sentir uma estranha na minha própria casa.
— Alisa, — a voz do marido tremia.
— Vamos tentar mais uma vez.
Eu vou mudar, palavra de honra!
— Sabe o que eu entendi neste fim de semana?
— Alisa se levantou e foi até a janela.
— Quando você não estava aqui, eu respirava livremente.
Pela primeira vez em muito tempo.
Eu não precisava me justificar diante de ninguém, explicar, provar nada.
Eu simplesmente vivia.
— Alisa…
— E eu quero continuar vivendo assim, — Alisa virou-se.
— Sem a sensação constante de que minha opinião não significa nada.
Artur afundou no sofá e segurou a cabeça com as mãos:
— Eu não pensei que fosse tão sério.
— Devia ter pensado.
O silêncio pairou.
Artur estava sentado, olhando para o chão.
Alisa estava de pé junto à janela, com os braços cruzados sobre o peito.
— Você realmente decidiu?
— perguntou Artur em voz baixa.
— Sim.
— E nada vai mudar sua decisão?
— Não.
Artur se levantou e pegou a bolsa com suas coisas.
Parou na porta:
— Minha mãe vai ligar para você.
Vai acusá-la.
— Que ligue, — Alisa deu de ombros.
— Vou explicar a ela o mesmo que expliquei a você.
Embora ela provavelmente não entenda.
— Ela não vai entender, — concordou Artur.
— Para ela, família é quando todos estão sempre juntos e sempre felizes em se ver.
— Para mim, família é quando se respeitam limites, — Alisa abriu a porta.
— Pelo visto, temos ideias diferentes.
Artur saiu para o corredor e se virou:
— Eu posso…
Posso tentar mudar tudo?
Talvez você me dê tempo?
— De quanto tempo você precisa?
— perguntou Alisa.
— Mais um ano?
Dois?
Cinco?
Artur, somos casados há quatro anos.
Em quatro anos, você não mudou nada.
Por que eu deveria acreditar que vai mudar agora?
O marido ficou em silêncio.
— Exatamente, — Alisa assentiu.
— Vá, Artur.
A porta se fechou.
Alisa encostou as costas nela e fechou os olhos.
Pronto.
O fim.
Então por que estava tão calma?
Por que não havia lágrimas, histeria, vontade de voltar atrás?
Porque a decisão não tinha sido tomada hoje.
Nem ontem.
Nem uma semana atrás.
A decisão vinha amadurecendo havia meses, cada vez que Nadezhda Valentinovna e Timur Olegovich apareciam na porta sem avisar.
Cada vez que Artur assentia e prometia, mas nada mudava.
Na segunda-feira, Alisa foi até Marina Sergeevna.
A advogada escutou e assentiu:
— Os bens são comuns?
— O apartamento é meu, comprado antes do casamento, — respondeu Alisa.
— O carro é dele.
Não há empréstimos, não há filhos.
— Então o divórcio será rápido, — Marina Sergeevna anotou algo em um bloco.
— Se seu marido não se opuser, em um mês ou um mês e meio tudo estará terminado.
Artur não se opôs.
Ligou várias vezes, pediu para se encontrarem e conversarem.
Alisa aceitava os encontros — em cafés, em território neutro.
Eles discutiam documentos, divisão das coisas e formalidades.
Artur tentava sempre iniciar uma conversa sobre reconciliação.
Alisa o interrompia com suavidade, mas com firmeza:
— Artur, não.
A decisão está tomada.
Nadezhda Valentinovna ligou duas vezes.
Na primeira vez, gritou ao telefone, acusando Alisa de destruir a família, de frieza e de falta de respeito pelos mais velhos.
Alisa ouviu em silêncio e depois respondeu calmamente:
— Nadezhda Valentinovna, se a senhora tivesse respeitado meus limites, talvez agora não estivéssemos falando sobre divórcio.
— Que limites?!
— a sogra sufocava de indignação.
— Somos pais!
Temos o direito de ver nosso filho!
— Têm, — concordou Alisa.
— Mas avisar com antecedência também faz sentido.
— Nós sempre fizemos assim!
E tudo bem, vivíamos normalmente!
— Vocês viviam normalmente, — Alisa olhou pela janela.
— Eu, não.
Nadezhda Valentinovna desligou na cara dela.
Na segunda vez, ligou duas semanas depois, com a voz mais baixa, quase suplicante:
— Alisa, talvez você e Artur façam as pazes?
Para que se divorciar por causa de uma bobagem?
— Nadezhda Valentinovna, para a senhora isso é uma bobagem.
Para mim, não.
— Mas nós podemos combinar!
Eu vou avisar com antecedência!
— É tarde, — Alisa suspirou.
— Desculpe.
O divórcio foi oficializado.
Alisa recebeu a certidão e a colocou em uma pasta com documentos.
À noite, sentou-se na varanda com uma taça de vinho, olhando para a cidade.
Vera ligou:
— E então, como você está?
— Normal, — Alisa tomou um gole de vinho.
— Sabe, eu esperava que fosse mais difícil.
Mas, na verdade, ficou mais leve.
— Entendo, — a amiga suspirou.
— Comigo foi igual.
Quando me divorciei, meu primeiro pensamento foi: “Nossa, que alívio!”
— Exatamente, — Alisa riu.
— Que alívio.
A vida se ajeitou rapidamente.
Alisa mudou os móveis de lugar no apartamento, comprou novas almofadas e pendurou quadros dos quais Artur não gostava.
Inscreveu-se em ioga e começou a ir ao teatro com as amigas.
Nos fins de semana, acordava quando queria e fazia o que queria.
Ninguém tocava a campainha sem avisar.
Ninguém inspecionava o apartamento com olhar crítico.
Ninguém ligava a televisão no volume máximo.
Silêncio.
Liberdade.
Respeito pelo próprio espaço.
Um dia, três meses depois do divórcio, Alisa encontrou Artur em um shopping.
Ele caminhava com uma moça e ria.
Viu a ex-esposa, ficou imóvel, e a moça o puxou pela mão.
Alisa assentiu e sorriu.
Artur assentiu em resposta, sem jeito e constrangido.
Eles seguiram em direções diferentes.
À noite, Artur escreveu: “Desculpe pelo encontro.
Não queria que ficasse estranho.”
Alisa respondeu: “Está tudo bem.
Viva feliz.”
E ela realmente queria que ele vivesse feliz.
Sem raiva, sem ressentimento.
Apenas… não com ela.
Com alguém que não se importasse com visitas inesperadas dos sogros.
Com alguém para quem isso não fosse importante.
Mas para Alisa era importante.
E agora ela podia viver como queria.
Sem compromissos, sem explicações, sem culpa por proteger seus limites.
Ela voltou a se sentar na varanda e voltou a olhar para a cidade.
Uma taça de vinho, um livro sobre os joelhos, silêncio ao redor.
E era tão bom.
Simplesmente tão bom.







