Parte 1.
A arquitetura do sabor e a geometria da mentira.

Na cozinha, havia cheiro de alecrim queimado e de uma acidez complexa, quase imperceptível, de musgo fermentado.
Savva se movia entre as superfícies cromadas como um cirurgião que decidira se requalificar como alquimista.
Ele não estava apenas cozinhando — ele estava construindo uma realidade em que o pato confitado era obrigado a fazer amizade com o gel de amora-dos-bosques.
A pinça em sua mão não tremia.
O que tremia era outra coisa, mais profunda, em algum lugar na região do diafragma, mas ele atribuía isso à expectativa da noite.
Galina estava sentada na sala, cercada por uma aura de poeira de papel e ouro antigo.
Ela trabalhava como caixa, mas não em um supermercado com scanners apitando, e sim na loja de antiguidades “Chronos”, onde o dinheiro era recebido com a mesma solenidade com que um padre recebe uma confissão.
Seu mundo era feito de catálogos, lupas e relatórios impecáveis.
Ela odiava o caos tanto quanto Savva odiava um bife passado demais.
— Prata de mesa ou alpaca? — perguntou ela, sem se virar.
Sua voz era uniforme como a superfície de um lago em um dia sem vento.
— Alpaca.
É mais honesta, respondeu Savva, aplicando o último toque de molho no prato.
— Galia, você se lembra do nosso acordo?
— Nenhum parente.
Só nós, Alina com o marido e aquele artista estranho que você encontrou na exposição.
Eu disse à minha mãe que estamos indo para Bali.
Virtualmente, claro.
Ela ficou ofendida, mas esse é o estado permanente dela.
Savva ficou imóvel.
A pinça tilintou na borda do prato.
— Sim.
Ótimo.
Minha… minha mãe também não virá.
Liguei para ela de manhã.
Disse que estamos de quarentena.
Catapora.
Em mim.
— Aos trinta e cinco anos? — Galina finalmente ergueu a cabeça.
Seu olhar, acostumado a distinguir moedas falsas da época de Nicolau II, deslizou pelas costas do marido.
— Savva, você está suando.
— É o vapor do sous-vide, respondeu ele rapidamente, ligando o exaustor na potência máxima.
O ruído do motor abafou seu suspiro pesado.
Savva estava mentindo.
Mentia de forma desastrosa, como um estagiário que tivesse roubado uma trufa.
Eleonora Vitalievna, sua mãe, não aceitava recusas.
Para ela, a palavra “não” era apenas um sinal para o início das hostilidades.
Ela não “tinha um pouco de medo” do filho, como ele gostava de contar aos amigos.
Ela simplesmente sabia que ele era argila mole.
Já Galina, ela odiava com aquele ódio puro e destilado que aristocratas arruinados sentem pelos novos-ricos que compraram a propriedade ancestral da família.
Para ela, Galina era “a caixeira”, “a contadora”, um equívoco na biografia de seu menino genial.
E Albert Konstantinovich, o pai, era um apêndice da esposa, uma espécie de mala sem alça que ela arrastava consigo para todos os lugares.
Se Eleonora era um aríete, Albert era uma torre de cerco, silenciosa e volumosa.
Savva sabia que eles viriam.
A mãe havia ligado uma hora antes, já de dentro do táxi.
E ele, em vez de se pôr de peito aberto em defesa de sua casa, murmurara algo indistinto sobre um “interfone quebrado”.
O medo do escândalo materno pesou mais que o respeito pela esposa.
Ele esperava contar com a sorte.
Esperava que Galina, ao ver os convidados, não fizesse uma cena diante dos outros.
Que engolisse.
Que suportasse.
Como sempre.
Afinal, ela o amava.
E amor, na compreensão de Savva, era antes de tudo comodidade e a capacidade de perdoar uma vileza disfarçada de fraqueza.
Parte 2.
Erro nos cálculos.
Os convidados chegaram exatamente às sete.
O artista Arkadi trouxe o cheiro de tinta a óleo e uma garrafa de algo turvo, caseiro.
Alina e o marido trouxeram o conjunto padrão de fofocas sociais e chocolate caro.
Galina estava magnífica.
Em seu vestido rigoroso azul-escuro, ela lembrava uma estatueta de pedra preciosa — fria, dura e impecável.
Ela servia vinho, mantinha a conversa sobre a queda das ações e o aumento dos preços da arte, mas seu radar interno continuava a escanear o espaço.
Savva estava inquieto.
De vez em quando corria para a cozinha, supostamente para verificar a sobremesa, mas na verdade hipnotizava a tela do smartphone.
— Seu marido hoje não está nada normal, observou Alina, espetando um pedaço de pato curado com o garfo.
— Cria obras-primas, mas está pálido como esse aspargo.
— Crise criativa, respondeu Galina calmamente.
— Ou espera de uma catástrofe.
Ele fica assim quando esquece de desligar o ferro, mas já saiu para o trabalho.
Nesse momento, o interfone não tocou.
Ele emitiu, antes, um som parecido com o último suspiro da esperança.
Savva deixou o guardanapo cair.
— Quem poderia ser? — perguntou o artista em tom social, virando a taça de uma vez.
— Entrega, provavelmente, chiou Savva, correndo para o aparelho.
Galina o observava.
Ela viu como seus ombros se tensionaram.
Viu como ele, sem tirar o aparelho do gancho, apertou o botão que abria a porta do prédio.
Sem perguntar: “Quem é?”.
— Savva? — a voz dela soou baixa, mas sobrepôs até o ruído da lava-louças.
— Estamos esperando alguém?
A entrega foi de manhã.
Ele se virou.
Seu rosto ficou coberto de manchas vermelhas.
— Galia, querida… É o seguinte.
Mamãe… eles estão de passagem.
Literalmente por um minutinho.
Eu não podia não abrir.
Ela disse que precisava ir ao banheiro.
E tomar o remédio.
— De passagem de outra cidade? — esclareceu Galina.
— Até o nosso nono andar?
Para ir ao banheiro?
— Não comece, Savva tentou sorrir, mas saiu uma careta de dor.
— Somos pessoas civilizadas.
Eles vão se sentar quietinhos, comer e ir embora.
Você prometeu não chamar sua mãe.
E ela não está aqui.
Mas os meus… isso é força maior.
— Você sabia, disse ela.
Não era uma pergunta.
Era uma constatação de fato, seca como um relatório da fiscalização tributária.
— Fiquei sabendo há meia hora! — mentiu ele de novo.
— Galia, por favor.
Por mim.
Não me envergonhe diante dos convidados.
Apenas aguente algumas horas.
No hall, já se ouvia o barulho do elevador.
Passos pesados no patamar.
Vozes não sobrecarregadas por dúvidas sobre serem bem-vindas.
— Eu te disse, Savvuchka, que o elevador de vocês fede a urina de gato!
Chamam isso de prédio de elite! — trovejou a voz de Eleonora Vitalievna antes mesmo de eles chegarem à porta.
Savva correu para abrir, tentando bloquear com o corpo a visão dos convidados na sala, como se isso pudesse ajudar.
Parte 3.
Intervenção sem declaração de guerra.
A porta se abriu de repente.
No limiar estava Eleonora Vitalievna — uma mulher-monumento em lurex e com um penteado que lembrava um excesso arquitetônico da era stalinista.
Ao lado dela, Albert Konstantinovich respirava pesadamente, apertando nas mãos uma bolsa xadrez da qual saía o rabo de um peixe defumado — uma dissonância monstruosa com a cozinha molecular do filho.
— Ora, olá, filhinho! — Eleonora deu um passo para dentro sem esperar convite e imediatamente enrugou o nariz.
— Que cheiro é esse aqui?
A Galka está queimando incenso de novo?
Ou foi você que estragou a comida?
— Mãe, mais baixo, temos pessoas aqui… sibilou Savva, recuando.
— Pessoas?
E nós somos o quê, bichos? — ela abriu os braços teatralmente.
— Albert, ouviu isso?
Eles têm vergonha de nós!
Mantêm a própria mãe na porta!
Ela avançou, afastando o filho com o quadril como um quebra-gelo afasta uma placa de gelo.
Albert, ofegante, espremeu-se atrás dela.
Galina saiu para o hall.
Ela não cruzou os braços sobre o peito nem apertou os lábios.
Estava relaxada, segurando em uma das mãos o tablet com o qual controlava a sequência dos pratos.
— Boa noite, Eleonora Vitalievna, Albert Konstantinovich, disse ela.
Seu tom era perfeitamente educado, mas nele não havia hospitalidade.
Era o tom de uma recepcionista de hotel informando que o cartão do hóspede havia sido bloqueado.
— Ah, apareceu sem se empoeirar, zombou a sogra, sem sequer olhar para a nora, examinando imediatamente o cabide com os casacos dos convidados.
— Quanta roupa pendurada.
Devem ser todos ricos, não é?
Savva, filhinho, pegue a bolsa.
Tem peixe ali, peixe de verdade, não essa sua química.
Corte rapidinho.
— Mãe, não podemos… há convidados, nosso jantar está planejado… começou Savva, mas sua voz falhou.
Ele olhou para Galina em súplica.
“Faça alguma coisa, ceda, dobre-se, salve-me”, lia-se em seus olhos.
Eleonora Vitalievna já desabotoava o casaco.
— Jantar planejado.
Só rindo.
Seu pai e eu estamos com fome depois da viagem.
Seus convidados se apertam.
Galia, por que está parada como uma estátua?
Traga chinelos.
Meus pés estão inchados.
Savva fez menção de ir até o armário de sapatos.
— Fique parado, disse Galina em voz baixa.
A palavra soou não como uma ordem, mas como o clique de uma trava de segurança.
Savva congelou.
A sogra virou lentamente a cabeça, e suas sobrancelhas subiram, reunindo-se em uma linha de ataque.
— O que você disse?
— Eu disse para Savva ficar parado.
E a senhora, Eleonora Vitalievna, não deve tirar o casaco.
— Você está em seu juízo, minha filha? — a sogra sorriu de modo predatório.
— Quem você está expulsando de casa?
A mãe do seu marido?
Savva, você está ouvindo como essa vendedora fala comigo?
Savva se apertou contra a parede.
Agora deveria começar a tempestade.
Ele esperava gritos, lágrimas, insultos mútuos, nos quais, como sempre, escolheria o lado da mãe para depois, à noite, pedir desculpas em sussurros à esposa.
Esse era o roteiro habitual.
Mas Galina não gritou.
Ela acendeu a tela do tablet.
— Savva, disse ela ao marido, ignorando o rosto cada vez mais rubro da sogra.
— Temos para hoje um jantar gastronômico fechado.
O número de porções é estritamente limitado.
O número de lugares também.
— Eu estou pouco me lixando para suas porções! — indignou-se Eleonora.
— Albert, entre!
O pai do marido deu um passo à frente.
Parte 4.
Protocolo de exclusão.
Galina fez um movimento quase imperceptível, bloqueando a passagem para a sala.
— Albert Konstantinovich, sou obrigada a detê-lo.
A entrada nesta parte do apartamento hoje é apenas mediante convite.
Da sala, o artista Arkadi espiava com curiosidade, mastigando um talo de aipo.
— Que circo você está armando? — sibilou Savva, correndo até a esposa e agarrando-a pelo cotovelo.
— Galia, pare.
São meus pais.
Vamos arranjar um prato para eles.
Que se sentem na cozinha, se isso é tão importante para você!
Galina soltou o cotovelo com suavidade, mas com firmeza.
Ela olhou para o marido como se o visse ao microscópio e a amostra descoberta a decepcionasse.
— Savva, nós combinamos.
Um acordo é a base de qualquer interação.
Você violou os termos do acordo.
Você me enganou de manhã.
Você me enganou agora.
Você sabia que eles viriam e esperava que eu, como sempre, “entendesse a situação”.
Que eu engolisse a humilhação quando seu pai fizesse o apartamento inteiro feder a peixe e sua mãe contasse aos meus amigos que eu não sei passar camisas.
— Que vadia você é… suspirou Eleonora Vitalievna, percebendo que a tática habitual de pressão não funcionava.
— Savva!
Você é homem ou pano de chão?
Estão expulsando sua mãe para a escada!
Bata nela!
Coloque-a no lugar dela!
Savva ficou parado, dividido entre o medo da mãe e a calma gelada da esposa.
O medo venceu.
— Galia, você está passando dos limites, disse ele, tentando dar firmeza à voz.
— Mamãe fica.
Papai fica.
Esta casa também é minha.
— Correto, assentiu Galina.
— Sua casa.
Mas o evento é organizado por mim.
Eu paguei pelos ingredientes.
Eu fiz a lista de convidados.
Eu cuido da logística.
Ela voltou o olhar para a sogra.
Em seus olhos não havia raiva, apenas repulsa.
— Eleonora Vitalievna, a senhora não me respeita.
A senhora despreza meu marido, considerando-o sua propriedade.
A senhora veio aqui não para visitá-lo, mas para marcar território como um cão junto a uma árvore.
Mas hoje o território está fechado para atendimento especial.
— Vá para… começou Albert Konstantinovich, falando pela primeira vez.
— A lista, interrompeu Galina, batendo com o dedo no tablet.
— Arkadi Werner.
Alina e Serguei Gromov.
Na lista não existe o sobrenome “Pais de Savva”.
— Vou chamar a polícia agora! — gritou a sogra.
— Minha nora está me agredindo!
— Há câmeras aqui, indicou Galina calmamente para o pequeno olho sob o teto do hall.
— Elas gravam som e vídeo.
Vocês invadiram sem convite e estão insultando a dona da casa.
Como caixa, sou muito atenta à documentação.
Juridicamente, vocês são convidados não chamados, perturbando a ordem pública.
Ela se virou para o marido.
— Savva, você tem uma escolha.
Ou agora você acompanha seus pais para fora, e amanhã discutimos este incidente em um ambiente calmo, ou você os deixa entrar.
Mas então eu vou embora.
Junto com os convidados.
E esta noite, que você preparou durante três meses, se transformará em uma palhaçada com peixe defumado.
Savva olhou para a mãe.
Ela estava ali, inflada como um peixe-balão.
Depois olhou para o pai com sua bolsa ridícula.
Depois para Galina.
— Galia, não se pode fazer isso… Eles são pessoas idosas… gemeu ele.
Ele fez sua escolha.
Escolheu o pântano habitual, esperando que Galina estivesse blefando.
Galina assentiu.
— Eu entendi você.
Ela deu um passo para trás, para dentro do corredor, deixando-os passar.
— Entrem.
Eleonora Vitalievna soltou um riso triunfante e avançou, empurrando Galina com o ombro.
Albert arrastou-se atrás.
Savva soltou o ar, enxugando o suor da testa.
— Obrigado, querida, eu sabia que você…
Galina não ouviu.
Ela passou por eles até a porta de entrada.
Pegou suas chaves sobre o aparador.
— Aonde você vai? — perguntou Savva, sem entender.
— Arkadi!
Alina!
Serguei! — chamou ela em voz alta.
Os convidados saíram para o corredor.
— A noite será transferida para o restaurante “Plato”, anunciou Galina calmamente.
— Reservei uma mesa por precaução.
Meu marido decidiu fazer um jantar familiar com os pais.
Nós seremos supérfluos.
Vamos.
Eu pago.
— O quê? — Savva empalideceu.
— Galia, você não pode…
— Já fiz.
Os convidados, pessoas discretas, mas não desprovidas de amor pelo drama, orientaram-se rapidamente.
O cheiro de peixe vindo da bolsa de Albert Konstantinovich já começava a conquistar o espaço, e a perspectiva de engolir espuma molecular ao acompanhamento de uma tia escandalosa não lhes agradava.
— Excelente ideia, disse Arkadi, pegando seu casaco.
— Savva, irmão, sem ressentimentos.
Cavala defumada é uma jogada forte, mas não hoje.
Eleonora Vitalievna congelou no meio do corredor.
Seu triunfo desmoronou em pó.
Ela ficou no apartamento, mas o público estava indo embora.
— Você está abandonando seu marido? — guinchou ela.
— Estou libertando-o da necessidade de escolher, respondeu Galina.
Ela abriu a porta, deixando os convidados saírem para o patamar.
— Galia! — gritou Savva, correndo até ela.
— Espere!
Eu vou com vocês!
Mãe, pai, vão embora!
Estou falando sério!
— Tarde demais, Savva, disse Galina.
— Você já fez sua escolha.
Coma seu peixinho.
Parte 5.
O balanço foi fechado.
Savva ficou parado na porta, sem se decidir a cruzar o limiar.
Atrás dele, a mãe berrava, amaldiçoando o dia em que ele nasceu.
À sua frente estava a esposa, que ele se acostumara a considerar uma função conveniente de sua vida cotidiana.
Ele tentou agarrar a mão dela, mas ela se afastou.
— Eu volto tarde, disse ela.
— Ou não volto.
Vou passar a noite em um hotel.
E você… arrume tudo aqui.
E que, quando eu voltar, não haja nem cheiro nem essas pessoas.
Ela saiu para o patamar.
Savva instintivamente deu um passo atrás dela.
— Galia, espere!
Não me envergonhe!
Ele saiu correndo para a escada, só de meias, com uma concha na mão, esquecida no calor do momento.
— Crianças, para onde vocês vão? — ouviu-se a voz grave de Albert Konstantinovich vinda do hall.
O pai, sem entender a situação, decidiu espiar o corredor, segurando nas mãos uma cauda de peixe mordida, da qual pingava gordura no parquet.
— Pai, não pingue! — gritou Savva, virando-se.
Nesse momento, Galina, aproveitando que o marido havia deixado o perímetro do apartamento, fez algo que ninguém esperava.
Ela não foi até o elevador.
Ela se virou e, com um movimento fulminante, puxou para si a pesada porta de entrada.
— Vocês não estão na lista de convidados, pronunciou calmamente, olhando nos olhos do sogro, que brilhavam de horror enquanto ele aparecia no fundo do corredor.
E bateu a porta.
O clique da fechadura soou surdo.
Savva ficou parado no patamar.
De meias.
Com uma concha.
Diante dele estava Galina, ajeitando a bolsa.
— Você… você nos trancou do lado de fora? — balbuciou ele.
— A mim?
— A você, assentiu ela.
— Tem as chaves?
Savva apalpou os bolsos do avental.
Vazios.
Telefone, chaves — tudo havia ficado sobre o aparador, lá dentro.
— Galia, abra!
Meus pais estão lá dentro!
Eles vão destruir o apartamento!
— Isso é problema seu, Savva.
Você queria estar com eles?
Esteja.
Só que, do lado de fora, eles o atrapalhariam menos.
— Mas eu não consigo entrar!
— Sinto muito.
De trás da porta veio uma pancada surda e o grito de Eleonora Vitalievna: “Eles nos trancaram!
Albert, arrombe a porta!”.
Galina chamou o elevador.
— Galia, deixe-me entrar de volta!
Eu vou expulsá-los!
Eu juro!
— Você já tentou, disse ela, entrando na cabine.
Os convidados já haviam descido, ela estava sozinha.
— Sabe, há muito tempo eu queria fechar o caixa da nossa relação.
O rombo é enorme, Savva.
Você está falido.
— Para onde eu vou? — ele quase chorava.
Sua aparência era lamentável: o famoso chef parecia uma criança perdida.
— Para a mamãe, Savva.
Eles logo vão abrir a porta por dentro, não se preocupe.
A fechadura não é complicada.
E, aliás, o apartamento está em meu nome.
Doação da minha avó, lembra?
Eu lhe dou vinte e quatro horas para retirar suas coisas.
As suas e as dos seus pais.
— Galia!
As portas do elevador começaram a se fechar.
Savva correu até elas, tentando deter as folhas com a mão, mas o mecanismo automático funcionou impecavelmente, deslizando pelo metal.
A última coisa que ele viu foi o rosto dela.
Calmo.
Um pouco cansado.
O rosto de uma pessoa que finalmente havia fechado um balanço difícil e confuso e chegado ao zero.
Dentro do apartamento, atrás da porta, algo caiu com estrondo.
Talvez fosse o vaso da dinastia Ming que Savva comprara em um leilão no ano anterior.
Ou talvez fosse apenas sua vida se partindo em pequenos cacos impossíveis de restaurar.
— Mãe!
Abra! — ele começou a bater na própria porta.
Atrás da porta reinava o caos.
E Galina descia, em silêncio e frescor, sentindo como, a cada andar, ficava mais fácil respirar.
Como se tivesse se livrado de uma carga pesada e apodrecida que carregara sobre si por muitos anos.







