Durante vinte e dois anos, ela pagou a hipoteca sozinha — mas, assim que terminou de quitá-la, a filha e o genro apareceram para “conversar sobre uma questão”.

Duzentos rublos por uma hora extra no estacionamento pago.

Marina olha para o recibo e sorri pela primeira vez naquele dia.

Vinte e dois anos antes, ela teria ficado chateada por causa de duzentos rublos.

Hoje, não.

Em suas mãos está uma pasta azul.

Dentro dela, há um documento confirmando que a restrição sobre o imóvel foi retirada.

O apartamento é dela.

Completamente dela.

Ela se senta ao volante, coloca a pasta no banco do passageiro e permanece assim por cerca de cinco minutos, sem ligar o motor.

Durante vinte e dois anos, pagou a hipoteca daquele pequeno apartamento de um quarto na periferia.

Naquele dia, havia feito o último pagamento.

Mais precisamente, fizera o pagamento em março, mas só naquele dia recebera os documentos.

Em casa, na cozinha, tira da geladeira uma garrafa de Borjomi e a abre com um chiado.

Ela não gosta de champanhe há uns quinze anos, pois lhe dá dor de cabeça e ela considera um desperdício de dinheiro.

A filha telefona.

— Mãe, como você está?

— Recebeu os documentos?

— Recebi.

— Graças a Deus.

— Escuta, eu e o Lyosha vamos passar aí hoje à noite.

— Vamos comemorar com você.

— Podem vir.

— A mãe do Lyosha também virá conosco.

— Tamara Viktorovna.

— Ela queria conversar com você sobre uma questão.

— Que questão?

— Não dá para falar pelo telefone.

— Quando chegarmos, explicaremos.

Marina desliga o telefone e, pela primeira vez naquele dia, sente uma pontada.

Não é uma dor aguda, mas incômoda.

É como se alguém pressionasse levemente um hematoma do qual você já havia se esquecido.

Vinte e dois anos antes, ela era uma mulher divorciada de trinta e dois anos, com uma filha de oito anos e um quarto alugado num apartamento comunitário na Avenida Leninsky.

Seu ex-marido havia desaparecido junto com a pensão alimentícia.

Naquela época, a mãe de Marina, Vera Semyonovna, lhe dissera:

— Marishka, você precisa ter algo seu.

— Faça uma hipoteca, e eu ajudarei.

A ajuda de Vera Semyonovna consistiu em vender a casa de campo da avó, perto de Serpukhov.

Os duzentos mil rublos recebidos serviram como entrada, e ela se mudou com Marina para o novo apartamento.

Cuidava de Katya, preparava sopa e, três vezes por semana, lembrava Marina de que, sem ela, estaria perdida.

O irmão de Marina, Oleg, também tinha direito à casa de campo.

Naquela época, ele dissera:

— Está bem, deixem para elas, pois a situação delas é difícil.

Marina nunca esqueceu aquela frase.

Depois vieram vinte e dois anos de hipoteca.

No início, a taxa de juros era de quinze por cento.

Depois, houve um refinanciamento e, mais tarde, outro.

Marina trabalhava como contadora.

Primeiro trabalhou numa empresa pequena, depois numa empresa maior e, por fim, tornou-se contadora-chefe.

Raramente viajava durante as férias.

Foi duas vezes a Anapa e uma vez à Turquia durante cinco dias.

Usava as mesmas botas de inverno durante quatro temporadas.

Quando Katya entrou numa universidade particular, Marina fez um empréstimo pessoal e passou a pagar as duas dívidas ao mesmo tempo.

Vendeu o anel de ouro da avó para pagar o primeiro semestre.

E agora tudo havia terminado.

O interfone tocou às oito da noite.

Eram Katya, Lyosha e Tamara Viktorovna.

Tamara Viktorovna era uma mulher grande, com os cabelos cuidadosamente penteados e a convicção de que sua opinião era importante para todos.

Marina a conhecia havia quatro anos, desde que Katya se casara.

Durante esses quatro anos, Tamara Viktorovna não dissera uma única frase que não começasse com “eu acho”.

Todos se sentaram à mesa da cozinha.

Marina colocou um bolo de chocolate Praga sobre a mesa e começou a cortá-lo.

— Marishenka, meus parabéns — disse Tamara Viktorovna.

— Isso é realmente um acontecimento importante.

— Vinte e dois anos são uma época inteira.

— Obrigada.

— Eu e Alexei Mikhailovich trabalhamos durante toda a vida e nunca economizamos quando se tratava dos nossos filhos.

— Eu acho que os pais devem ser o apoio dos filhos.

Marina assentiu e continuou cortando o bolo.

— Mãe — começou Katya.

— Escuta, nós estivemos pensando…

— Quem são “nós”?

— Eu, o Lyosha e Tamara Viktorovna.

Marina colocou a faca sobre a mesa.

— E o que vocês pensaram?

Katya olhou para a sogra.

Tamara Viktorovna assumiu uma expressão importante.

— Marishenka, os jovens precisam de um apartamento.

— Atualmente, eles pagam quarenta e cinco mil rublos por mês de aluguel.

— Na minha opinião, é dinheiro jogado fora.

— A senhora tem um apartamento pequeno e mora aqui sozinha.

— Talvez faça sentido passá-lo para o nome da Katyusha?

— Afinal, a senhora é a mãe dela.

— Ela não é uma estranha.

Marina ficou em silêncio.

No corredor, a torneira pingava.

Havia três meses que ela planejava chamar um encanador.

— Passar para o nome dela como?

— Por meio de uma doação — respondeu Katya.

— Mãe, isso é lógico.

— Você pagou este apartamento para mim.

— Eu paguei este apartamento para mim.

— Mas acabou sendo assim.

— Você está sozinha, e eu e o Lyosha não temos onde morar.

— Você pode morar com a vovó.

— Ela tem um apartamento de dois quartos e ficará feliz.

Marina ergueu os olhos para a filha.

Katya tinha vinte e oito anos.

Era uma boa moça, inteligente.

Havia terminado a faculdade, trabalhava como gerente num banco e era casada com um rapaz normal.

E agora estava sentada à mesa de Marina, dizendo-lhe para transferir o apartamento.

— Katya — disse Marina lentamente.

— Sua avó tem oitenta e dois anos.

— Ela mal consegue cuidar de si mesma.

— Morar com ela significa cuidar dela vinte e quatro horas por dia.

— Mas ela é sua mãe.

— Sim, é minha mãe.

— Está vendo?

Tamara Viktorovna entrou na conversa.

— Marishenka, eu acho que não devemos ser egoístas.

— Os filhos são sagrados.

Marina virou lentamente a cabeça para Tamara Viktorovna.

— Tamara Viktorovna, eu criei Katya durante vinte e dois anos.

— Agora ela tem vinte e oito anos.

— Fui eu que dediquei minha vida a ela, e não o contrário.

— Eu não quis ofendê-la.

— Não entendo essa expressão “não quis ofender”.

— Sou contadora.

— Entendo de números.

Lyosha, que até então permanecera em silêncio, cutucando o bolo com o garfo, falou:

— Marina Sergeyevna, nós não estamos exigindo nada.

— Estamos apenas discutindo uma possibilidade.

— Continuem discutindo.

Katya olhou para a mãe.

— Mãe, o que há com você?

— Você está agindo como se fôssemos estranhos.

— Você sempre dizia que tudo era para mim.

— Lembra quando entrei na universidade?

— Você dizia: “Tenha paciência, minha filha, quando eu terminar de pagar a hipoteca, começaremos a viver bem”.

— Nós tivemos paciência.

— E agora?

— O que quer dizer com “agora”?

— Agora você está dizendo que o apartamento é seu.

— É meu, Katya.

— Ele realmente é meu.

A cozinha ficou em silêncio.

— Mãe — disse Katya, agora sem sorrir.

— Você tem cinquenta e quatro anos.

— Já não precisa disso tanto quanto nós.

— Temos a vida inteira pela frente e queremos ter um filho.

— Onde vamos criá-lo?

— Num apartamento alugado?

Marina olhou para a filha e, pela primeira vez naquela noite, perguntou a si mesma quem era aquela mulher sentada diante dela.

Seis anos antes, Katya estivera sentada na mesma cozinha, chorando porque o namorado a havia traído.

Marina permanecera ao seu lado até as três da manhã, acariciando seus cabelos e dizendo que tudo ficaria bem.

Dez anos antes, Katya entrara na universidade, e Marina vendera seu único anel de ouro, que pertencera à avó.

Quinze anos antes, Katya tivera uma forte inflamação na garganta durante duas semanas.

Marina não fora trabalhar e perdera o bônus.

E agora Katya lhe dizia que ela já não precisava de nada.

— Katya — disse Marina.

— Tenho cinquenta e quatro anos.

— Trabalho.

— Quero morar no meu próprio apartamento.

— Moro aqui há vinte e dois anos.

— Não vou morar com a vovó.

— E nós vamos para onde?

— Continuem alugando.

— Como todo mundo.

— Mãe, você está ouvindo o que está dizendo?

— Estou.

Tamara Viktorovna se indignou.

— Marishenka, a senhora não é esse tipo de pessoa.

— Eu a conheço.

— A senhora é bondosa.

— Está falando assim porque está dominada pelas emoções.

— Que emoções?

— Cansaço.

— Seu dia foi difícil.

— Pense melhor.

— Não deve tomar uma decisão impulsiva.

— Não estou tomando uma decisão impulsiva.

— Estou dizendo que não.

Lyosha voltou a falar.

— Marina Sergeyevna, vamos fazer de outra forma.

— Não precisa doar o apartamento inteiro.

— Passe-nos uma parte.

— Metade.

— Nós pagaremos à senhora com o tempo.

— Quanto tempo?

— Uns dez anos.

Marina riu.

Não riu com maldade.

Apenas riu.

— Lyosha, quando isso terminar, terei sessenta e quatro anos.

— Vou vender o apartamento para você, para que o pague durante dez anos em pequenas parcelas.

— E onde vou morar durante esse tempo?

— Conosco.

— Com vocês.

— Sim.

— No meu próprio apartamento.

— Bem…

Marina se levantou.

Foi até a pia.

Abriu a torneira e lavou as mãos.

A água começou fria, depois ficou quente e voltou a ficar fria.

O aquecedor não funcionava direito.

Ela se virou.

— Vão embora.

— O quê?

— Estou dizendo para irem embora.

— Estou cansada.

— Estou cansada há vinte e dois anos.

— Quero ficar sozinha.

Katya se levantou.

— Mãe, ainda não terminamos.

— Terminamos.

Eles foram embora.

Ao se despedir, Tamara Viktorovna disse:

— Pense melhor.

Katya não disse nada.

Apenas olhou para Marina da mesma maneira que olhava aos sete anos, quando a mãe se recusara a comprar-lhe uma boneca.

Marina fechou a porta, encostou as costas nela e permaneceu assim durante cerca de dez minutos.

Depois, foi para a cozinha e terminou o bolo.

Comeu tudo.

Até a última migalha.

O telefone tocou.

Era seu irmão, Oleg.

— Marishka, parabéns!

— Katyukha me telefonou e contou tudo.

— O que ela contou?

— Que você terminou de pagar o apartamento.

— E o que mais?

Oleg fez uma pausa.

— Contou que vocês discutiram um pouco.

— Oleg.

— O quê?

— O que Katya lhe disse?

— Disse que você está sendo teimosa.

— Marish, a menina quer ter um filho.

— Onde vai morar com a criança?

— Não pode continuar num apartamento alugado.

— Oleg, você tem um apartamento de dois quartos.

— Deixe que eles morem com você.

— Marish, o que está dizendo?

— Tenho esposa e filhos.

— Eu também tenho uma vida, Oleg.

— Que vida você tem?

— Você está sozinha.

Marina ficou em silêncio.

— Oleg — disse finalmente.

— Lembra da casa de campo em Serpukhov?

— Que casa de campo?

— A da nossa avó.

— Aquela que nossa mãe vendeu para pagar a entrada do meu apartamento.

— Ah, aquela.

— Sim, lembro.

— Naquela época, você disse: “Deixem para elas, pois a situação delas é difícil”.

— Sim, eu disse.

— E agora você pergunta que vida eu tenho.

Oleg permaneceu em silêncio.

— Marish, onde quer chegar com isso?

— A lugar nenhum.

— Adeus.

Ela desligou.

Às sete da manhã, sua mãe telefonou.

— Marishka, Katyukha me contou.

— Bom dia.

— O que você está fazendo?

— Não estou fazendo nada.

— Estou vivendo.

— Marishka, somos uma família.

— Meu apartamento de dois quartos está vazio.

— Mude-se para cá.

— Você está sozinha.

— Katyukha é jovem e precisa mais do apartamento.

— Mãe, você tem oitenta e dois anos.

— Se eu me mudar para sua casa, passarei a cuidar de você vinte e quatro horas por dia.

— Não será meu apartamento.

— Serei sua cuidadora.

— Mas sou eu.

— Sua mãe.

— Mãe, eu a amei durante vinte e dois anos.

— Você morou comigo por seis anos, quando Katya era pequena.

— Quando teve um derrame, fui buscá-la no hospital e cuidei de você até se recuperar.

— Até hoje, pago uma cuidadora para visitá-la duas vezes por semana.

— E daí?

— Não estou abandonando você.

— Vou visitá-la.

— Pago suas despesas.

— Mas não vou me mudar.

— Ficarei no meu apartamento.

— Egoísta.

— Está bem.

— Sou egoísta.

Marina olhou para o teto.

Havia uma mancha de infiltração num dos cantos.

Precisava ser pintada.

Uma semana depois, Katya apareceu sozinha.

Sem Lyosha e sem Tamara Viktorovna.

Sentou-se na cozinha e começou a chorar.

— Mãe, perdoe-me.

— Eu não pensei direito.

— Tamara Viktorovna colocou essas ideias na minha cabeça.

Marina olhou para a filha.

Pensou que aquilo não era toda a verdade.

Tamara Viktorovna certamente a influenciara, mas a própria Katya havia aparecido com aquela ideia.

Talvez estivesse pensando nisso havia um ano.

Talvez desde o momento em que descobrira que Marina faria em breve o último pagamento.

Mas era sua filha.

E estava chorando.

— Katya, não estou zangada.

— Não lhe darei o apartamento, mas não estou zangada.

— Mãe, eu entendo.

— Entende?

— Sim.

— Ele é seu.

— É meu.

Elas ficaram em silêncio.

Katya bebeu o chá.

— Mãe, você pode nos ajudar com a entrada de uma hipoteca?

— Pelo menos uns trezentos mil rublos?

Marina olhou para a filha.

— Katya, não tenho trezentos mil.

— Mãe, claro que tem.

— Você trabalhou durante vinte e dois anos.

— Katya, durante vinte e dois anos eu paguei a hipoteca.

— Não tenho economias.

— Vivo do meu salário.

— Não tiro férias há cinco anos.

— Meu fogão é de dezessete anos atrás, e não o troco porque tenho pena de gastar dinheiro.

— Então, pelo menos cem mil.

— Posso lhe dar cem mil.

— Uma única vez.

— Não todos os meses.

Katya assentiu.

— Obrigada, mãe.

Ela foi embora.

Marina fechou a porta e percebeu que estava mais cansada do que depois de passar o dia anterior inteiro no cartório.

Em julho, Katya parou de telefonar.

Tamara Viktorovna, conforme Marina soube por uma vizinha, contava a todos no bairro que Marina havia “se recusado a ajudar sua única filha, e ainda se dizia mãe”.

Oleg enviou uma única mensagem.

“Você agiu mal, Marish.”

Depois disso, não escreveu mais.

Sua mãe telefonava uma vez por semana, usando uma voz ofendida.

Em agosto, Marina tirou suas primeiras férias completas em cinco anos.

Duas semanas.

Viajou sozinha para Kislovodsk, para um sanatório.

O pacote, incluindo a viagem, custou sessenta mil rublos.

No sanatório, conheceu uma mulher aproximadamente da mesma idade chamada Lyudmila.

As duas faziam caminhadas terapêuticas juntas e bebiam água mineral Narzan.

Lyudmila contou que tinha três filhos e cinco netos.

Disse que os adorava, mas preferia encontrá-los apenas nos feriados.

— Sabe, Marina — disse Lyudmila certo dia, enquanto estavam sentadas num banco perto da fonte.

— Quando completei cinquenta anos, entendi uma coisa.

— Os filhos não são um investimento.

— São pessoas.

— Como assim?

— Quando você investe neles, isso não significa que eles lhe devem alguma coisa.

— Você investe porque os ama.

— Depois, eles decidem por conta própria se querem amar você ou não.

Em setembro, depois de voltar para casa, Marina comprou um fogão novo.

Não o comprou a crédito.

Economizou durante o verão o dinheiro que não havia dado aos outros.

O fogão custou quarenta e oito mil rublos.

A entrega e a instalação custaram mais cinco mil.

Os entregadores levaram o fogão novo para dentro e retiraram o antigo.

Katya telefonou.

— Mãe, olá.

— Como você está?

— Estou bem.

— Comprei um fogão.

— Que fogão?

— Um fogão novo para a cozinha.

Katya ficou em silêncio.

— Nós também estamos pensando em reformar a cozinha.

— Quando nos mudarmos.

— Para onde vão se mudar?

— Fizemos uma hipoteca.

— Compramos um estúdio.

— Tem vinte metros quadrados e fica na região da Nova Moscou.

— Parabéns.

— Mãe, talvez você possa nos ajudar com a entrada?

Marina estava diante do fogão novo.

Colocou a palma da mão sobre a boca quente do fogão, onde acabara de ferver a chaleira.

— Katya, eu lhe dei cem mil rublos em maio.

— Mãe, ainda preciso de mais.

— E eu precisava de um fogão.

— Mãe, não dá para comparar.

— Estou comparando.

Houve silêncio.

— Mãe, você mudou.

— Sim.

— Sua mãe sempre dizia que você era bondosa.

— Agora você se tornou gananciosa.

— Katya, não sou gananciosa.

— Apenas finalmente me tornei adulta.

— Como assim?

— Exatamente como estou dizendo.

— Tenho cinquenta e quatro anos e, finalmente, estou vivendo a minha própria vida.

— Não a sua, não a da minha mãe e não a do Oleg.

— A minha.

— Mãe, isso é egoísmo.

— Então que seja egoísmo.

Katya desligou primeiro.

Marina tirou uma frigideira do armário e quebrou três ovos.

Ligou o fogão.

Colocou sal e pimenta.

Cortou o pão.

Sentou-se à mesa e começou a comer.