Enquanto se preparava para ir à casa de campo, Vika ouviu escondida uma conversa telefónica do marido e preparou para ele um final espetacular.

Vika enfiava com fúria frascos de conservas dentro da mala.

A cozinha parecia um ponto de distribuição: sobre a mesa amontoavam-se sacos, uma garrafa térmica e um estojo de primeiros socorros.

Anton estava encostado ao batente da porta, com os braços cruzados sobre o peito, e olhava para a esposa com uma irritação mal disfarçada.

— Outra vez este trabalho forçado — resmungou ele entre os dentes.

— As pessoas vão para o mar, e eu, como um condenado, tenho de regar os canteiros e alimentar os mosquitos.

Vika não respondeu.

Ela já estava habituada ao facto de o marido considerar qualquer viagem à casa de campo uma ofensa pessoal.

Antes, tentava justificar-se, mas agora limitava-se a ficar em silêncio.

Tatiana Mikhailovna entrou na cozinha com um andar majestoso.

A sogra lançou um olhar à mala, apertou os lábios e tirou imediatamente de lá um frasco de café solúvel.

— E isto é para quê?

— Na casa de campo há ar puro e natureza, e tu levas este veneno.

— Eu coloquei para ti uma mistura de ervas com hortelã e orégãos.

— Faz bem à pele e também acalma os nervos.

— Antosha, diz-lhe alguma coisa.

— Mãe, deixa-a em paz — resmungou Anton.

— Que faça o que quiser.

Mas Vika reparou na forma como ele olhou de soslaio para o telemóvel, que estava no parapeito da janela.

O aparelho vibrou e o ecrã iluminou-se.

Anton agarrou-o rapidamente e saiu para o corredor, fechando bem a porta atrás de si.

Vika ficou alerta.

Nas últimas semanas, o marido comportava-se de maneira estranha: chegava tarde, escondia o telemóvel e, no dia anterior, ela encontrara por acaso no bolso dele uma conta de um restaurante caro, embora ele tivesse dito que estivera numa reunião.

Ela fingiu arrumar os sacos e aproximou-se silenciosamente da porta.

Através do fino painel de madeira, ouviu a voz dele, carinhosa e melosa, completamente diferente do seu tom habitual.

— Svetik, tenho saudades tuas.

— Vou aí no fim de semana.

— A casa de campo ficará inteiramente à nossa disposição, e a minha mãe vai ajudar.

— Os documentos estão quase prontos, não te preocupes.

— Vamos passar tudo para outro nome.

— E quanto àquela… resolveremos.

— Ela nem sequer desconfia.

Vika sentiu como se tudo dentro dela desabasse.

Afastou-se da porta e regressou à mesa com as pernas bambas.

O coração batia-lhe com tanta força que o som ecoava nos ouvidos.

Um minuto depois, Anton voltou à cozinha, sorrindo de canto.

— Ligaram do trabalho, há problemas com os relatórios — disse ele com indiferença.

— Entendo — respondeu Vika em voz baixa e começou a dobrar as toalhas, embora as mãos lhe tremessem.

Ela não dormiu durante toda a noite.

Na sua cabeça repetiam-se fragmentos da conversa que ouvira: “Svetik”, “vamos passar para outro nome”, “resolveremos”.

Portanto, ele tinha uma amante.

Portanto, pelas costas dela, preparavam algum tipo de fraude envolvendo a casa de campo.

E a sogra sabia de tudo e estava a ajudá-los.

Vika cerrou os punhos.

Eles consideravam-na um zero à esquerda, um objeto descartável.

Muito bem.

Veremos quem vai rir por último.

De manhã, mal Vika entrou na cozinha, Tatiana Mikhailovna começou imediatamente a importuná-la.

— Vikulia, hoje estás tão pálida.

— Dormiste mal?

— Eu bem senti e preparei-te uma infusão de hortelã.

— Bebe, e todas essas tolices sairão da tua cabeça como levadas pelo vento.

Ela estendeu-lhe uma chávena com uma infusão turva.

Vika afastou-a.

— Obrigada, beberei o chá mais tarde.

— Como assim, mais tarde?

— Bebe agora.

— Tens de pensar na tua saúde, pois ainda nem sequer tentaste verdadeiramente ter filhos.

— E com essa atitude, também não vais conseguir.

— O Antosha anda cansado, precisa de descanso, e tu estás sempre a correr por aí, ocupada com os teus assuntos.

— Ontem, o jantar voltou a estar demasiado salgado.

— Uma boa esposa cuida do marido, em vez de andar aos saltos sabe-se lá onde.

Nesse momento, Anton entrou na cozinha.

A sogra lançou-lhe um olhar expressivo.

— Antosh, olha só para ela.

— Bebe litros daquele café horrível e depois queixa-se do coração.

— Podia ao menos pensar na família.

— Mãe, já chega — disse Anton, bocejando.

— Vika esforça-se, eu vejo.

— Esforça-se?

— Não me faças rir.

— Mulheres como ela só se esforçam para mostrar aos outros.

— Uma verdadeira mulher faz o seu trabalho em silêncio e vive para agradar ao marido.

Vika cerrou os dentes.

A sogra estava claramente a testar os limites, verificando até que ponto ela estava disposta a engolir os insultos.

E havia algo mais no seu olhar: algo frio e calculista.

Ela sabia.

Ela sabia perfeitamente dos planos do filho e aguardava ansiosamente pelo desfecho.

Quando Anton foi tomar banho, Vika pegou no telemóvel e ligou para Oksana.

Oksana trabalhava na mesma empresa que Anton, no departamento de contabilidade, e tinha uma capacidade extraordinária de estar informada sobre os segredos alheios.

Ela tratava Vika com uma simpatia calorosa, porque também já tinha sofrido uma traição.

— Ksiusha, olá.

— Ouve, apareceu lá uma nova advogada chamada Sveta que trabalha com o Anton.

— Por acaso sabes do que ela trata?

— Quero fazer uma surpresa ao meu marido e preparar alguma coisa bonita relacionada com a casa de campo, por isso estou apenas a tentar descobrir como estão as coisas.

Do outro lado da linha, fez-se silêncio.

— Vik, estás a falar a sério ou estás a fingir? — perguntou Oksana, baixando a voz.

— Essa Sveta é uma verdadeira cobra.

— Oficialmente, trabalha como consultora, mas, na realidade, anda metida com o teu Anton.

— Pensei que soubesses.

— Já estão juntos há um mês.

— E ela está a preparar documentos relacionados com imóveis.

— Ouvi-os por acaso a discutir a casa de campo, uma avaliação ridiculamente baixa e uma transferência para uma tal Aniuta.

— É um esquema muito suspeito, Vik.

— Devias ter cuidado.

Vika ficou sem fôlego.

Agradeceu a Oksana e desligou a chamada.

Agora, a situação estava finalmente clara.

Queriam expulsá-la, deixá-la sem a casa de campo, sem dinheiro, destruída e humilhada.

E, para isso, tinham envolvido a advogada que também era amante de Anton.

E a sogra, Tatiana Mikhailovna, abençoava tudo e encobria-os.

Pois bem, se queriam guerra, teriam guerra.

No dia da partida para a casa de campo, Vika apresentou-se com uma expressão de pedra e um plano firme.

Antes de tudo, precisava de adormecer a vigilância dos inimigos.

Levantou-se às cinco da manhã.

Preparou café turco para Anton, fez ovos estrelados com tomates e cortou pão fresco.

Para a sogra, preparou uma infusão de ervas num bule de porcelana, comprado no dia anterior especialmente para aquela ocasião, e serviu-a com uma reverência.

— Tatiana Mikhailovna, tive em consideração as suas recomendações.

— Aqui está, experimente.

— Passei pela farmácia, e a farmacêutica disse que esta mistura é a melhor, acalma e dá forças.

A sogra ficou perplexa.

Ela esperava a habitual resistência silenciosa, e não tamanha submissão.

Cheirou o chá com desconfiança.

— A que se deve esta mudança? — perguntou ela.

— Só quero que haja paz na família — respondeu Vika, baixando os olhos.

— Compreendo que não tenho sido uma esposa muito boa.

— Quero corrigir-me.

Anton, que entrou na cozinha com o cabelo molhado, olhou para ela com ligeira surpresa.

— Ora essa.

— Parece que finalmente ganhaste juízo — disse ele com um sorriso irónico.

— Claro que sim — confirmou Vika, aproximando-lhe o prato.

— Come.

— Coloquei lençóis limpos e deixei uma manta no carro, para ficares mais confortável.

— Da última vez, queixaste-te de que o banco era duro.

Anton trocou um olhar com a mãe.

Um brilho de alívio surgiu nos olhos dele.

Decidira que a esposa estava quebrada, reconhecera a própria insignificância e agora seria obediente.

Tatiana Mikhailovna também relaxou e até se permitiu um sorriso condescendente.

— Assim é que devia ter sido desde o início.

— Talvez agora tudo se resolva.

Vika esboçou um sorriso agradecido, enquanto pensava consigo mesma que os clientes já estavam preparados.

Eles tinham acreditado no espetáculo.

Agora, precisava de conseguir provas irrefutáveis.

Durante toda a viagem de carro, a sogra falou sobre como a casa de campo precisava de mãos cuidadosas, como a cerca estava inclinada e como já era hora de voltar a pintar o gazebo.

Anton concordava com ela e, de vez em quando, lançava olhares avaliadores a Vika.

Vika estava sentada no banco de trás, olhava pela janela e permanecia em silêncio.

Na sua cabeça, ensaiava a conversa que teria com o vizinho.

Ela lembrava-se de que, no terreno vizinho, vivia Dmitri Sergeievich, um antigo investigador.

Um ano antes, ele oferecera-lhe maçãs e mencionara casualmente que trabalhara durante trinta anos nos órgãos de investigação.

Se alguém podia dar-lhe um conselho útil, era ele.

Quando o carro parou diante da casa de campo, Vika foi a primeira a sair.

Enquanto Anton e a mãe descarregavam a bagageira, ela disse que queria esticar as pernas e dirigiu-se à cerca do vizinho.

Dmitri Sergeievich estava justamente a amarrar um arbusto de groselhas.

— Bom dia! — chamou Vika.

— Trouxe-lhe algumas guloseimas para acompanhar o chá.

O velho endireitou-se, ajustou os óculos e sorriu.

— Vika, minha vizinha.

— Há muito tempo que não nos víamos.

— Como tem passado?

— Para ser sincera, não muito bem — respondeu ela em voz baixa.

— Dmitri Sergeievich, posso pedir-lhe um conselho?

— Estou com um problema.

— O meu marido e a amante dele, que é advogada, estão a planear passar a casa de campo para o nome de outra pessoa, sem que eu saiba.

— A minha sogra está a ajudá-los.

— E, ao que parece, pretendem expulsar-me sem me deixarem um único cêntimo.

Dmitri Sergeievich ficou sério.

Pousou a tesoura de poda, limpou as mãos ao avental e aproximou-se da cerca.

— É um assunto sério.

— Conte-me tudo desde o início.

Vika descreveu a conversa que ouvira e mencionou Sveta e Aniuta.

O vizinho franziu a testa enquanto escutava e depois começou a falar lentamente.

— Então é assim.

— A arma mais segura em situações destas são as provas.

— Precisa de gravar as conversas deles.

— Mas deve fazê-lo de forma que a gravação possa posteriormente ser aceite como prova fundamentada.

— Caso participe na conversa, tem todo o direito de a gravar sem avisar os outros.

— Caso esteja apenas a ouvir, também pode gravar, mas deve ter cuidado.

— O mais importante é não invadir nada nem entrar na casa de outra pessoa.

— Está na sua própria casa, no seu espaço legítimo.

— No seu lugar, eu provocaria uma conversa franca.

— Finja que está completamente perdida, e eles relaxarão e começarão a discutir os detalhes à sua frente.

— Nesse momento, ligue o gravador do telemóvel.

— E envie imediatamente o ficheiro para o seu e-mail, para que fique guardado em vários lugares.

— Isso é legal? — perguntou Vika.

— No seu caso, é completamente legal.

— Os tribunais aceitam gravações de áudio como prova, desde que não tenham sido obtidas através da violação do sigilo da correspondência.

— Apenas gravará aquilo que ouve com os próprios ouvidos, dentro da sua própria casa.

— Não existe crime algum nisso.

— Vá em frente.

— E, caso precise de alguma coisa, estou aqui.

— Nunca se sabe se poderá precisar de uma testemunha.

Vika agradeceu-lhe e regressou ao seu terreno.

Uma determinação calma e fria instalou-se no seu peito.

Ela sabia o que precisava de fazer.

Até ao anoitecer, fingiu ser uma anfitriã hospitaleira: ajudou a sogra a separar os cereais na varanda, arrancou ervas daninhas no jardim e arrumou a louça.

Anton estava deitado na rede e bebia cerveja preguiçosamente.

Tatiana Mikhailovna, ao ver a docilidade de Vika, tornava-se cada vez mais faladora e descuidada.

Perto do pôr do sol, Vika reparou que a sogra pegou no telemóvel e se dirigiu para a extremidade mais distante da varanda.

Ela falava em voz baixa, mas Vika, que fingia arrumar um armário, entreabriu a janela e ligou o gravador do telemóvel.

As palavras começaram a sair do aparelho.

— Svetochka, sou eu.

— Sim, já chegámos.

— Os documentos estão prontos?

— Excelente.

— Coloquem uma data anterior, como se a escritura de doação tivesse sido feita há um mês.

— Antosha disse que Vika ficou completamente sem vontade própria.

— Depois de amanhã, durante o jantar de família, vamos contar-lhe tudo.

— Diremos que, como ela não sabe cuidar da casa, a propriedade passará para Aniuta, a filha de uma amiga minha.

— E pediremos imediatamente o divórcio.

— Não aumentes a avaliação, coloca um valor insignificante, para que ela não receba absolutamente nada.

— Sim, está bem, beijinhos.

Um minuto depois, Anton saiu para a varanda.

— Então, mãe, já falaste com ela?

— Sim, filho.

— Sveta é muito competente, vai tratar de tudo.

— Amanhã, acabaremos finalmente com isto.

— Excelente.

— Já não a suporto.

— Que desapareça da minha vida.

Vika parou a gravação.

As mãos tremiam-lhe de raiva e triunfo ao mesmo tempo.

Ela enviou imediatamente o ficheiro para o seu e-mail protegido e mandou uma segunda cópia a Oksana, pedindo-lhe que a guardasse como a menina dos olhos.

O dia seguinte passou lentamente.

Vika continuou a representar o papel de tola obediente, e isso custava-lhe muito.

Finalmente, perto do anoitecer, Tatiana Mikhailovna ordenou-lhe que preparasse o jantar no gazebo.

A própria sogra colocou as velas, trouxe uma garrafa de vinho caseiro e até vestiu um vestido de festa.

Anton estava animado, contava piadas e enchia constantemente o copo da esposa.

Vika sentia a falsidade em cada um dos sorrisos deles.

Quando terminaram de comer, a sogra suspirou teatralmente e colocou a mão sobre a da nora.

— Vikulia, minha querida.

— Eu e o Antosha conversámos e decidimos que está na hora de mudar algumas coisas.

— A vossa vida não está a resultar, e tu própria consegues ver isso.

— Cozinhas mais ou menos, não sabes criar conforto em casa, e o Antosha está sempre tenso.

— A casa de campo é um ninho familiar e precisa de boas mãos para cuidar dela.

— Tenho uma conhecida chamada Aniuta, uma jovem maravilhosa, que está a passar por uma situação difícil e ficou sem casa.

— Decidimos agir com humanidade e passar a casa de campo para o nome dela.

— Ela precisa mais do que tu.

— Tu ainda és jovem e tens toda a vida pela frente.

— O Antosha vai dar-te alguma ajuda durante os primeiros tempos, e vocês separar-se-ão de forma amigável.

Anton assentiu com uma compaixão fingida.

— Sim, Vik.

— Já preparei os documentos.

— Sveta, a advogada, tratou de tudo corretamente.

— O negócio está praticamente concluído.

— Só precisas de assinar o consentimento para a transferência da propriedade, e separar-nos-emos pacificamente.

— Caso não assines, resolveremos o assunto em tribunal, mas será mais demorado e doloroso.

Vika levantou-se em silêncio.

Puxou calmamente a sua mala de debaixo do banco, tirou de lá um pequeno computador portátil e colocou-o sobre a mesa diante deles.

— O que estás a fazer? — perguntou Anton, franzindo a testa.

— Decidiste mostrar-nos um filme?

— Quase acertaste — respondeu Vika, abrindo o computador e carregando no botão de reprodução.

— Escutem com atenção.

A voz de Tatiana Mikhailovna soou alta e claramente através dos altifalantes: “Svetochka… transferência para Aniuta… coloca uma data anterior… vamos pô-la na rua sem um cêntimo…”

Depois, ouviu-se Anton: “Já não a suporto… Que desapareça.”

O gazebo mergulhou num silêncio ensurdecedor.

A sogra ficou imóvel, com a boca aberta, e o seu rosto passou de rosado a cinzento.

Anton derrubou o copo, e uma mancha vermelho-escura começou a espalhar-se pela toalha de mesa.

— Tu… tu estavas a escutar-nos escondida! — gritou Tatiana Mikhailovna com a voz rouca, levando a mão ao coração.

Desta vez, o gesto não parecia fingido.

— Eu estava a gravar — corrigiu Vika.

— E o meu advogado já ouviu esta gravação.

— Existem cópias guardadas em dois lugares seguros.

— Amanhã, vou apresentar um pedido de divórcio com a divisão completa dos bens adquiridos durante o casamento e uma denúncia à polícia por tentativa de fraude cometida por um grupo de pessoas mediante conspiração prévia.

— Também apresentarei uma denúncia por falsificação de documentos.

— Dmitri Sergeievich, o nosso vizinho e antigo investigador, teve a gentileza de me explicar como registar corretamente as provas.

Anton levantou-se bruscamente, com o rosto deformado pela raiva.

— Não vais conseguir provar nada!

— Vou destruir este computador!

— Experimenta — disse Vika com um sorriso irónico.

— Nesse caso, acrescentarão uma acusação por destruição de propriedade alheia e pressão sobre uma testemunha.

— Queres trocar uma pena suspensa por uma pena de prisão efetiva?

— A escolha é tua.

Ela fechou o computador e olhou para os familiares, que permaneciam imóveis.

— Nunca dei um consentimento reconhecido por notário para a transferência da casa de campo.

— Sem esse consentimento, a vossa escritura de doação não passa de um pedaço de papel sem valor.

— A casa de campo foi comprada durante o casamento, portanto é propriedade comum dos dois, e não vou entregá-la a ninguém.

— Nem a Aniuta, nem a Sveta, nem a vocês.

Tatiana Mikhailovna começou a lamentar-se, ofegando e tentando recuperar o ar.

— Vikulia, minha querida, nós estávamos apenas a brincar!

— Só queríamos fazer o melhor para todos, como uma família!

— Vamos cancelar tudo, não nos destruas!

— Como uma família — repetiu Vika com um sorriso amargo.

— Uma família não conspira pelas costas dos outros.

— Vocês não são a minha família.

— A partir deste momento, são estranhos para mim.

Ela virou-se e dirigiu-se para a casa.

Ao chegar aos degraus da varanda, voltou-se.

— Anton, arruma as tuas coisas.

— E leva a tua querida mãe contigo.

— O divórcio será rápido.

— E a casa de campo será transformada numa pensão para animais, um sonho antigo meu.

— Aliás, tu sempre gozaste com esse sonho.

— Fizeste mal.

Um mês depois, tudo terminou exatamente como ela prometera.

O tribunal reconheceu a tentativa de fraude, retirou a Sveta o direito de exercer a profissão jurídica e condenou Tatiana Mikhailovna a uma pena suspensa por cumplicidade.

Anton recebeu uma multa elevada e ficou com a reputação destruída.

A casa de campo ficou inteiramente com Vika.

No primeiro dia quente, ela estava à entrada do seu novo estabelecimento, um pequeno e acolhedor abrigo para cães e gatos.

Dos recintos, ouvia-se um latido alegre.

Alguém bateu ao portão.

Dmitri Sergeievich estava à entrada, com uma caixa nas mãos.

— Isto é para celebrar a nova casa.

— É um bolo de limão caseiro.

Vika riu-se sinceramente pela primeira vez em muito tempo.

— Entre, Dmitri Sergeievich.

— A água para o chá acabou de ferver.

Eles sentaram-se no gazebo, beberam chá e observaram o sol a pôr-se por detrás das árvores.

Em algum lugar distante, na cidade, Anton e a mãe lambiam as próprias feridas.

Mas ali, rodeada pelos animais resgatados e pela sua nova vida em liberdade, Vika sentia que o final tinha sido verdadeiramente espetacular.