Parte 2: A sombra da lei e o preço do orgulho

O ar frio do supermercado parecia ter ficado imóvel no silêncio pesado que se instalara após as palavras de Adrian Moretti.

O ruído das vitrines refrigeradas tornou-se subitamente ensurdecedor.

Os clientes, que um minuto antes observavam com curiosidade a cena de humilhação, agora evitavam olhar para o grupo junto à seção de laticínios, recuando instintivamente.

Ninguém queria se colocar no caminho de um homem cujo nome fazia empalidecer os funcionários do conselho municipal e tremer os donos das maiores corporações de Chicago.

Toda a arrogância ostensiva desapareceu do rosto de Nathan.

O caro terno de grife de repente parecia não lhe servir mais: estava ridículo, e Nathan engoliu em seco ao sentir o suor brotar na testa.

O dinheiro que, um segundo antes, ele segurava com tanta superioridade ficou amassado entre seus dedos trêmulos, transformando-se em pedaços inúteis de papel.

Sua nova noiva se apertou contra seu ombro, olhando assustada para as silhuetas escuras dos seguranças de ternos sóbrios que bloqueavam a única saída do corredor.

— S-senhor Moretti… — conseguiu dizer Nathan, com a voz subitamente rouca e sem qualquer vestígio de confiança.

— Nós… nós só estávamos conversando.

É um assunto pessoal… eu e uma velha conhecida…

Adrian não virou a cabeça na direção dele.

Sua mão quente e firme continuava apoiada delicadamente no ombro de Claire, como se a protegesse da mais leve corrente de ar frio vinda das vitrines.

O olhar de Moretti, porém, estava fixo apenas em Nathan, com seus olhos cinzentos frios e penetrantes como aço.

— Pessoal? — perguntou Adrian em voz baixa, mas cada som parecia penetrar sob a pele.

— Chamar de mãe do seu futuro filho uma mulher que merece coisa melhor e agitar notas sujas diante de alguém cujo dedo mindinho vale mais do que toda a sua empresa?

Você chama isso de conversa?

Um dos seguranças de terno preto deu um passo à frente.

O passo pesado do homem corpulento fez Nathan recuar bruscamente, quase esbarrando na prateleira de laticínios.

Algumas caixas de suco caíram no piso de cerâmica com um baque surdo, mas ninguém sequer tentou recolhê-las.

— Escute com atenção, rapaz — continuou Adrian, dando um passo em direção ao ex-noivo trêmulo.

— Nesta cidade existem regras.

Uma delas diz: nunca, sob nenhuma circunstância, ouse levantar a voz para Claire Hayes nem insultar alguém que tenha o sobrenome dela.

Você tem sorte de ela ser nobre demais para descer ao seu nível.

Mas eu não dou a mínima para a sua nobreza.

Nathan recuou mais um passo, enroscou os pés em uma cesta de compras e quase caiu no chão, agarrando-se ao braço da acompanhante, que também já estava prestes a chorar de pavor.

— Suma daqui — disse Adrian sem raiva, mas com uma autoridade tão absoluta na voz que Nathan não teve a menor dúvida: se demorasse mais um segundo, seria encontrado na manhã seguinte no lago Michigan.

— E que eu nunca mais veja a sua cara num raio de oitenta quilômetros daqui.

Fora.

Sem dizer uma palavra, humilhado e arrasado, Nathan puxou sua acompanhante e correu para a saída, quase derrubando um segurança perto dos caixas.

O celular com que alguém filmava instantes antes escorregou das mãos de um curioso atônito e se espatifou no piso, mas ninguém o recolheu.

Quando o som dos passos do casal assustado desapareceu junto às portas automáticas, Claire respirou fundo.

Seus ombros tremiam levemente — não por medo de Moretti, mas por toda a tensão acumulada ao longo do dia, que finalmente rompera a barreira de seu autocontrole.

Pela primeira vez em meses, ela sentiu que havia um muro às suas costas no qual podia se apoiar.

Adrian percebeu imediatamente seu estado.

Toda a dureza e a autoridade glacial desapareceram de seus olhos, substituídas por um cuidado profundo, quase doloroso.

Com delicadeza, ele tirou das mãos dela a pesada cesta com leite e a colocou sobre o balcão mais próximo.

— Você está bem, Claire? — perguntou com uma voz suave, quase íntima, como só se fala com a pessoa mais preciosa do mundo.

— Estou procurando você pela cidade inteira desde cedo.

Meus homens disseram que você tinha saído do apartamento…

Por que foi ao mercado a pé nesse estado?

Você sabe que os médicos proibiram qualquer esforço.

Claire ergueu os olhos para ele, com lágrimas involuntárias brilhando no olhar.

— Adrian, não posso aceitar sua ajuda para sempre…

Você não é obrigado a me salvar de cada idiota na rua.

Só tenho dezessete dólares na conta e preciso aprender a cuidar da minha própria vida.

O bebê… é minha responsabilidade.

Adrian sorriu de leve, e naquele sorriso se desfez toda a severidade do chefe do crime que Chicago inteira temia.

Ele tocou delicadamente o rosto dela com os dedos, enxugando uma lágrima solitária.

— Responsabilidade?

Claire, escute — disse ele, olhando diretamente nos olhos dela.

— Há cinco meses, você salvou a vida do meu irmão mais novo quando os outros médicos da clínica lhe deram as costas.

Você arriscou sua carreira para tirá-lo das garras de funcionários corruptos.

Achou que eu esqueceria isso?

Achou que eu permitiria que uma mulher que carrega o futuro no ventre ficasse numa fila para comprar leite barato e suportasse os insultos de um sujeito insignificante como aquele?

Ele fez um sinal aos seguranças, e um deles se aproximou imediatamente para pegar a cesta.

— A partir de hoje, este supermercado passa a ser administrado pela nossa fundação — acrescentou Adrian calmamente, dirigindo-se agora ao gerente assustado, que se escondia atrás de um dos caixas.

— E todas as contas da senhorita Hayes, em qualquer lugar do país, serão pagas com meus recursos pessoais.

Isso não está em discussão.

Claire balançou a cabeça, sentindo-se inteiramente envolvida pelo absurdo da situação e, ao mesmo tempo, por sua incrível ternura.

— Você não tem jeito, Adrian Moretti.

— Eu apenas sei dar valor ao ouro verdadeiro quando o encontro — respondeu ele, segurando delicadamente a mão dela.

— Vamos para casa, Claire.

Um verdadeiro lar espera por você.

E acredite: ninguém jamais voltará a ousar estragar o seu dia.

Quando saíram do supermercado sob o frio céu de novembro de Chicago, uma luxuosa limusine preta blindada já havia parado diante da entrada principal.

O motorista abriu a porta respeitosamente.

Claire olhou para trás, para as luzes da cidade à noite, sentindo o medo do amanhã finalmente dar lugar à confiança.

Sua vida realmente havia mudado para sempre, mas agora ela sabia que, por trás daquela mudança, não estava um destino impiedoso, e sim um homem disposto a virar o mundo de cabeça para baixo por ela e pelo bebê que estava por nascer.