A noite no nosso apartamento de três quartos arrastava-se como borracha.
Do lado de fora da janela, no bairro dormitório, as luzes das casas vizinhas já tinham se apagado havia muito tempo, e na nossa cozinha a luz ainda continuava acesa.

Eu estava sentado à mesa, passando distraidamente pelo feed de notícias no telemóvel, e ouvia Katya tilintando a loiça na cozinha.
A minha mãe estava sentada à minha frente, com os lábios apertados, tamborilando os dedos sobre a toalha de mesa plastificada.
— Dim, olha só para ela. Trabalha do amanhecer ao anoitecer, e quando chega logo vai para a cozinha. Ao menos sorrisse, ao menos dissesse uma palavra carinhosa. Anda pela casa como uma sombra, — dizia a minha mãe em voz baixa, mas suficientemente alta para que Katya ouvisse.
Fiquei calado.
Discutir com a minha mãe saía caro demais.
Valentina Ivanovna, ou simplesmente mamã para mim, sempre soube o que era melhor.
Depois da morte do meu pai, foi ela sozinha que me criou e que conseguiu este apartamento, por isso a palavra dela em casa era lei.
Katya, a minha esposa, aceitou essa lei há cinco anos, quando nos casámos.
Aceitou em silêncio, sem discussões.
E, desde então, calou-se.
Da cozinha vinha o cheiro de batatas fritas e almôndegas.
Um jantar comum.
Nada de especial.
Mas hoje havia algo de errado.
Katya mexia-se na cozinha mais tempo do que o habitual.
Eu ouvia-a deslocando algumas caixas, ouvia o farfalhar de papéis.
Deve estar a organizar contas antigas, pensei.
Ela é contabilista, anda sempre metida nesses papéis.
— Dim, já lhe disseste para arrumar a cozinha? — a minha mãe baixou a voz até um sussurro. — Ontem entrei lá e ela tem num armário uma data de tralha. Caixas com diplomas, pastas. Para quê guardar isso no apartamento? Só ocupa espaço.
— Mãe, deixa isso, — respondi cansado, sem levantar os olhos do ecrã. — É trabalho dela. Documentos e coisas assim.
— Trabalho, — resmungou a minha mãe. — O trabalho dela é só poeira para os olhos. Fica o dia inteiro sentada naquele escritório dela, e quanto é que recebe? Migalhas. Tu é que és o sustento da casa, tu é que trazes dinheiro. E ela… nem te deu filhos, nem cuida da casa como deve ser.
Suspirei.
A conversa sobre filhos era a mais dolorosa.
A minha mãe moía-nos, a mim e à Katya, com isso todos os dias.
E o que é que eu podia fazer?
Katya dizia que primeiro era preciso estabilizarmo-nos, que o trabalho dela era de responsabilidade, que não era o momento.
E eu também não a pressionava muito.
Mas a minha mãe pressionava.
— Não tem fibra, — continuou a minha mãe, mexendo o açúcar na chávena. — Olha para ela: magra, pálida. Como é que vai aguentar uma gravidez assim? Eu, na idade dela, já te carregava na barriga, e não me aconteceu nada, trabalhava, ia para o campo, e ainda tratava da casa. E esta… bah.
— Mãe, já chega, — resmunguei. — Ela vai ouvir.
— Que ouça! — elevou a voz a minha mãe. — Que ouça a verdade! Estou a esforçar-me por ti, seu idiota! Tens trinta e cinco anos e continuas a comportar-te como uma criança. A tua mulher não é carne nem peixe, e tu ainda ficas satisfeito assim.
Cerrei os dentes e fitei o telemóvel.
No trabalho, naquele dia, tinham-me esgotado, o chefe tinha berrado comigo por causa de um relatório que, segundo ele, eu não tinha entregue a tempo, embora eu o tivesse entregue.
Voltei para casa furioso como o diabo, e ainda havia isto.
Eu só queria comer e deitar-me para dormir.
Mas a minha mãe não parava.
— Filho, ouve-me a mim, que já sou velha, — de repente ela passou para um tom insinuante, e isso deixou-me logo desconfiado. — Eu só quero o teu bem. Sabes que me ficou o apartamento do meu irmão. Um T2 no centro, num bom prédio, renovado.
Levantei a cabeça.
Falávamos muitas vezes desse apartamento.
A minha mãe prometia deixá-lo para mim, mas sempre adiava a transferência.
— Sei, mãe. E então?
— Então, — inclinou-se para mim sobre a mesa. — Estive a pensar. É um bom apartamento, caro. Eu passo-o para teu nome. Mas com uma condição.
— Qual? — perguntei, já sentindo a armadilha.
A minha mãe acenou na direção da cozinha, de onde vinha o som da água — a Katya devia estar a lavar a loiça.
— Põe essa parasita na rua. Estou farta de olhar para ela. Já me dá nojo. Nem te traz felicidade, nem me dá paz. Expulsa-a, e eu passo-te logo o apartamento para o teu nome. Arranjo-te uma nova mulher. Tenho uma em vista, filha de uma amiga, com dinheiro, com posição. Haverá filhos e haverá casa bem tratada. E esta… para que te serve?
Senti tudo apertar-se dentro de mim.
Não de raiva contra a minha mãe, mas de uma fraqueza pegajosa, nojenta.
Um apartamento no centro era coisa séria.
Não era como o nosso T3 na periferia.
Era dinheiro, estatuto, futuro.
Mas a Katya… na verdade, ela nem me incomodava.
Eu tinha-me habituado a ela.
Calada, tranquila, cozinhava bem, criava conforto em casa.
Mas a minha mãe tinha razão: filhos não havia, grande carreira ela também não tinha, era só casa e mais casa.
— Mãe, isso assim não fica bem, — murmurei. — Estamos juntos há cinco anos. Ela não é um gato nem um cão.
— E o que é que fica bem? — a minha mãe bateu com a palma da mão na mesa, e as chávenas saltaram. — O que é que ela te deu? Felicidade? Dinheiro? Filhos? Nada! Só ocupa espaço e estraga o ar. És um trapo, Dimka! És homem ou és o quê? Decide-te!
Nesse momento, a porta da cozinha abriu-se e Katya entrou.
Trazia nas mãos um prato com uma montanha de almôndegas fumegantes e uma tigela com batatas.
Pousou-os na mesa, cuidadosamente, como sempre, e ficou imóvel.
Tinha vestido um velho roupão desbotado, com o cabelo preso num coque na nuca.
O rosto estava cansado, com sombras debaixo dos olhos.
Ela alternava o olhar entre mim e a minha mãe.
Percebi que tinha ouvido.
Ou então não tinha ouvido, mas tinha adivinhado.
— O jantar está servido, — disse Katya em voz baixa.
A sua voz era calma, uniforme.
— Valentina Ivanovna, quer que lhe sirva uma almôndega?
— Eu sirvo-me sozinha, — resmungou a minha mãe. — Não sou nenhuma criança.
Katya fez que sim com a cabeça e, em vez de se sentar à mesa, aproximou-se do aparador.
Abriu a gaveta de baixo, onde normalmente guardávamos álbuns antigos e documentos, e tirou de lá várias pastas gastas, atadas com cordel.
Pousou-as na cadeira ao lado dela.
— O que estás a fazer? — perguntei. — Agora vamos comer.
— Depois, — respondeu ela, sem levantar os olhos. — Preciso de resolver umas coisas.
A minha mãe fez uma careta ao olhar para as pastas.
— Outra vez com os teus papéis? Não suporto nem olhar para isso. Encheu a casa inteira de tralha. Dim, diz-lhe alguma coisa!
— Katya, põe isso no lugar, — disse eu, cansado. — Senta-te e come em condições.
— Eu disse: depois, — ergueu os olhos para mim, e vi neles algo estranho.
Não era raiva, não.
Era firmeza.
Como se ela tivesse decidido alguma coisa.
A minha mãe e eu trocámos um olhar.
Katya nunca falava assim.
Ela sempre fora calada, dócil, complacente.
E agora…
Eu quis dizer alguma coisa, mas a minha mãe antecipou-se.
— Como falas com o teu marido? — a voz da minha mãe tornou-se glacial. — Eu vejo bem os teus truques. Pensas que, por andares aí a remexer nos teus papéis, és mais inteligente do que toda a gente? Lembra-te: nesta casa, a dona sou eu. E o Dima é meu filho. E tu aqui não és ninguém. Uma agregada.
Katya endireitou-se lentamente.
As pastas continuaram sobre a cadeira.
Ela olhava diretamente para a minha mãe, e naquele olhar não havia medo.
Havia cansaço.
Um cansaço infinito, esgotante.
— Eu sei, Valentina Ivanovna, — disse Katya em voz baixa. — A senhora diz-me isso todos os dias. Há cinco anos seguidos.
— E achavas que eu ia ficar calada? — a minha mãe levantou-se de um salto. — Arruinaste a vida do meu filho! Nem filhos, nem dinheiro, nem felicidade! Sentas-te às custas dele, comes o pão dele, e ainda abres a boca!
— Mãe, basta! — gritei.
Levantei-me também, sem nem dar por isso.
Tudo fervia dentro de mim.
Contra quem?
Contra a minha mãe?
Contra Katya?
Contra mim mesmo?
Não sabia.
A minha mãe calou-se, mas só por um segundo.
Lançou-me um olhar cheio de triunfo.
Como quem diz: vá, filhinho, mostra quem manda nesta casa.
Olhei para Katya.
Ela estava ali, de braços caídos, a olhar para mim.
À espera.
De quê?
De que eu a defendesse?
De que mandasse a minha mãe para o inferno?
Ou de que a expulsasse, a ela, Katya?
— Katya, vai para a cozinha, — disse eu.
A minha voz soou abafada, estranha.
— Não me leves ao pecado.
Ela sorriu de leve.
Só os cantos dos lábios tremeram.
— Não sou eu que estou a levar isto até esse ponto, Dima. São vocês. Tu e a tua mãe.
— Estás a responder-me? — dei um passo na direção dela.
Não sei porquê.
Talvez quisesse agarrá-la pelo ombro, empurrá-la para o corredor, para que a minha mãe se acalmasse.
Mas Katya não recuou.
Ela tirou calmamente o avental, dobrou-o com cuidado e pendurou-o no encosto da cadeira onde estavam as suas pastas.
Depois aproximou-se do cabide na entrada, tirou o seu velho casaco de lã, que usava desde os tempos da universidade, e colocou-o sobre os ombros.
— Para onde vais? — perguntei estupidamente.
— Vou-me embora, Dima, — respondeu ela, apertando o cinto. — Era isso que tu querias. Ou melhor, era isso que a tua mãe queria. E tu… tu fazes sempre aquilo que a tua mãe manda.
— Katya, para com isso, — senti algo apertar-se dentro de mim.
Medo?
Pena?
— Lá fora é noite. Para onde vais?
— Isso já não te diz respeito, — aproximou-se da porta de entrada e pegou na maçaneta.
Depois voltou-se.
Olhou para o relógio pendurado por cima da porta no corredor.
— Lembra-te disto, Dima: eu não vou embora porque me expulsaste. Vou embora porque foste tu que fechaste a porta atrás de mim. Com as tuas próprias mãos.
Ela abriu a porta e saiu para o patamar.
Eu fiquei parado como uma estátua.
A minha mãe levantou-se da mesa de repente e correu até mim.
— Dimka! Porque estás aí parado? Fecha a porta! Ainda vai cair em si e voltar! Não a deixes entrar outra vez!
Saí para a soleira.
Katya estava junto ao elevador, de costas para mim.
Os ombros direitos, a cabeça erguida.
Não se voltava.
— Katya… — chamei baixinho.
Ela não respondeu.
O elevador chegou, as portas abriram-se, ela entrou, e só então se virou.
No rosto dela não havia lágrimas.
Não havia raiva.
Havia outra coisa.
Calma.
E um sorriso leve, quase impercetível.
— Fecha a porta, Dmitry, — disse ela em voz clara, para todo o prédio ouvir. — Não constipes a tua mãe.
As portas do elevador fecharam-se, e a cabine desceu.
Voltei para dentro do apartamento.
A minha mãe estava no corredor, de braços cruzados sobre o peito, e sorria satisfeita.
— Pois então, graças a Deus, — disse ela. — Foi-se embora sozinha, e ainda bem. Nem foi preciso expulsá-la. Amanhã mudamos as fechaduras, para que ela nem pense em vir buscar as coisas dela sem pedir autorização. Tudo isto é para melhor, filho. Vais ver.
Atravessei a sala em silêncio, deixei-me cair no sofá e fiquei a olhar para o teto.
Nos ouvidos ecoava o som das portas do elevador a fecharem-se e a voz tranquila de Katya: “Fecha a porta”.
Algo estava errado.
Eu sentia isso na pele.
Katya foi-se embora com demasiada calma.
Com demasiada facilidade.
Como se soubesse algo que eu não sabia.
Um minuto depois levantei-me e fui até à porta.
Olhei pelo olho mágico.
No patamar não havia ninguém, apenas ardia uma lâmpada fraca.
Tudo como sempre.
Mas o coração batia-me algures na garganta.
E, de repente, vi-a.
Ela estava lá em baixo, no patamar entre os andares, onde havia uma grande janela.
Estava parada a olhar para o telemóvel.
Depois levantou a cabeça, olhou diretamente para a nossa porta e sorriu.
Não para mim.
Para dentro de si mesma.
De um modo assustador, calmo e resignado.
E depois virou-se e desceu para a noite.
Afastei-me da porta.
No relógio eram 23:45.
A porta fechou-se atrás de Katya, e no corredor instalou-se o silêncio.
A minha mãe estava encostada à parede, com um sorriso vitorioso no rosto.
Ela ainda não sabia que aquela vitória em breve se transformaria em pó.
E eu estava ali, a ouvir o coração bater com força.
Nos meus ouvidos continuava a ecoar a voz de Katya: “Fecha a porta, Dmitry”.
— Então, porque ficaste parado? — a minha mãe aproximou-se e tocou-me no ombro. — Vamos beber chá. Está tudo bem, filho. Fizeste o correto. Fizeste o correto.
Fui em silêncio até à cozinha, sentei-me no banco e fiquei a olhar para um ponto fixo.
Na mesa, as batatas arrefeciam, e as almôndegas já estavam cobertas por uma película esbranquiçada de gordura endurecida.
Na cadeira onde Katya se sentara, ainda estavam as suas pastas atadas com cordel.
Estendi a mão maquinalmente e toquei no papel áspero.
— Mãe, que documentos são estes? — perguntei, desatando o nó.
— Ah, larga isso, — fez a minha mãe um gesto com a mão, servindo-se de chá. — É a tralha dela. Amanhã deitamos isso fora ou levamos para a cave. Para que raio nos serve isso?
Desatei o cordel.
Lá dentro havia uns contratos antigos, extratos bancários, recibos de pagamento.
Eu não percebia nada daqueles papéis, a Katya sempre tratara de todos os assuntos financeiros.
Eu só trazia o dinheiro para casa, e ela distribuía-o pelas contas, pagava o apartamento, os créditos.
Eu nem sabia quanto ainda devíamos ao banco pelo carro.
Katya dizia: “Não te preocupes com isso, eu trato de pagar tudo”.
— De facto, é uma parvoíce, — disse eu, voltando a atar as pastas. — Amanhã tratamos disso.
A minha mãe sorvia o chá satisfeita, de olhos semicerrados.
Estava com o seu roupão quente favorito, o cabelo solto, e nos pés as velhas pantufas de feltro.
Toda ela tão caseira, tão acolhedora.
E só eu sabia que tipo de carácter de aço se escondia por detrás daquela suavidade exterior.
— Dim, vai deitar-te, — disse ela. — Amanhã vai ser um dia pesado. Temos de mudar as fechaduras, juntar as coisas dela, para que nem o espírito dela fique aqui. Vou telefonar ao tio Vitya, ele é um homem habilidoso, vai ajudar.
— Que tio Vitya? — perguntei, surpreendido. — Nós não temos tio nenhum chamado Vitya.
A minha mãe desviou o olhar e começou a mexer diligentemente o açúcar na chávena.
— Há um conhecido, — murmurou ela. — Antigo. Tu não o conheces. Vai ajudar como bom vizinho.
Eu quis perguntar mais, mas o cansaço venceu.
Só queria deitar-me e esquecer aquela noite como um pesadelo.
Levantei-me, arrastei-me até ao quarto, despi-me e caí na cama.
Os olhos fechavam-se, mas o sono não vinha.
Na minha cabeça giravam imagens: Katya junto ao elevador, o seu sorriso calmo, as suas palavras: “Tu mesmo fechaste a porta atrás de mim”.
Revirava-me de um lado para o outro, empurrei o cobertor para longe, depois puxei-o de novo.
O quarto estava abafado, os aquecedores trabalhavam no máximo.
Levantei-me e abri a janela basculante.
O ar frio entrou de rompante, trazendo cheiro a neve e a gases de escape vindos da rua.
Olhei para as horas no telemóvel: uma e meia da manhã.
Voltei a deitar-me.
E então lembrei-me de como Katya certa vez me pedira que eu não me metesse em negócios duvidosos com os amigos.
Eu tinha um amigo, o Seryoga, que me propunha comprar uma participação nalgum negócio para ganhar dinheiro depressa.
Eu já quase tinha concordado, até já tinha levantado o dinheiro da conta.
Mas nesse dia Katya chegou do trabalho, olhou para mim com os olhos cansados e disse: “Dima, não faças isso. É uma burla. Já vi esquemas desses, lá na empresa tivemos clientes que caíram neles”.
Eu gritei com ela, dizendo que não se metesse em assuntos de homens, que não percebia nada daquilo.
E um mês depois o Seryoga foi preso por fraude.
Eu teria perdido todo o dinheiro naquela altura.
E Katya calou-se.
Nem sequer disse: “Eu avisei-te”.
Ou então quando a minha mãe adoeceu há dois anos.
Adoeceu gravemente, com problemas de coração, e foi parar ao hospital.
Katya, nessa altura, deixou tudo, tirou férias sem vencimento e ficou com ela no quarto do hospital.
Eu chegava depois do trabalho, e ela já estava de saída para casa, para cozinhar, lavar, arrumar.
A minha mãe estava deitada, pálida, fraca, e Katya dava-lhe comida à colher, dava-lhe de beber, mudava-lhe a roupa de cama.
E a minha mãe resmungava sempre: “Vai-te embora, eu consigo sozinha, não preciso da tua ajuda”.
E quando a minha mãe teve alta, a primeira coisa que disse foi: “Dim, dá-lhe lá um prémio por cuidar de mim. Senão ainda pensa que lhe fico a dever isso para o resto da vida”.
Na altura, calei-me.
E Katya fingiu não ouvir.
As lembranças vinham uma atrás da outra, e cada uma me deixava mais enjoado.
Lembrei-me de como Katya tentou abrir um pequeno negócio.
Queria fazer bolos por encomenda.
Saía-se bem, decorava-os lindamente, eram saborosos.
Pediu-me ajuda para promover o negócio, alugar um pequeno espaço, comprar equipamento.
Mas nessa altura a minha mãe armou um escândalo: “Queres deitar dinheiro fora? Que ficasse em casa a cozinhar para a família, e não para os outros!”.
E eu recusei ajudar Katya.
Disse-lhe: “Quem é que precisa dos teus bolos? Fica mas é no teu trabalho”.
Ela não respondeu nada, apenas os olhos se apagaram.
Virei-me para o outro lado e fiquei a olhar para a parede.
No quarto estava escuro, só o candeeiro da rua lançava faixas amarelas sobre o papel de parede.
E de repente compreendi com clareza: Katya nunca se queixou.
Nem uma única vez em cinco anos.
Ela simplesmente, em silêncio, fazia o que tinha de fazer e suportava.
Suportava a minha mãe, suportava a minha indiferença, suportava a ausência de filhos, embora eu soubesse que ela os queria.
Queria-os muito.
Mas a minha mãe dizia: “Para quê filhos, se não têm dinheiro, o apartamento é pequeno, vocês próprios ainda são como crianças”.
E nós não os tivemos.
Às três da manhã, por fim, mergulhei num sono pesado, pegajoso, sem sonhos.
Mas às quatro alguma coisa me acordou.
Abri os olhos e escutei.
Silêncio.
Só o relógio a fazer tique-taque na parede.
E de repente vi: uma luz fraca entrava no quarto a partir do corredor.
Não brilhante como a do candeeiro, mas tremeluzente, como se alguém estivesse a passar uma lanterna.
Levantei-me, procurei as pantufas e fui em direção à luz.
Saí para o corredor.
A luz vinha da cozinha — a lâmpada por cima da mesa estava a piscar.
Estranho, ela nunca piscava.
Espreitei para a cozinha.
Vazio.
Só as pastas de Katya continuavam na cadeira, e na mesa permanecia a loiça por arrumar.
Eu já ia voltar para o quarto, mas alguma coisa me obrigou a aproximar-me da porta de entrada.
Verifiquei a fechadura.
Estava fechada.
Tudo normal.
Depois virei-me e bati com o ombro no cabide.
Um casaco caiu.
Baixei-me para o apanhar e congelei.
A prateleira debaixo do cabide, onde deixávamos sempre as chaves, estava vazia.
Passei a mão pela madeira — nada.
As chaves do carro.
As minhas chaves.
Não estavam lá.
O coração falhou uma batida.
Revirei febrilmente toda a prateleira, espreitei debaixo dos sapatos, nos bolsos dos casacos.
Vazio.
Depois corri para o quarto, acendi a luz e abri o armário.
Ali, numa caixa de sapatos, eu guardava o passaporte e alguns documentos importantes.
A caixa estava no lugar.
Abri a tampa e gelei.
O passaporte não estava lá.
Não havia documento nenhum.
Nem o meu, nem os de Katya, que ela também guardava ali.
Vazio.
Saí disparado para o corredor e comecei a bater à porta da minha mãe.
— Mãe! Mãe, acorda! — gritava eu, sem perceber bem o que fazia.
A porta abriu-se quase de imediato.
A minha mãe estava na soleira, de camisa de noite, assustada, de olhos arregalados.
— O que foi? Incêndio? O que aconteceu?
— Os documentos, — eu disse sem fôlego. — Meus documentos desapareceram.
E as chaves do carro também.
Minha mãe empalideceu, me empurrou para o lado e correu para o quarto dela.
Fui atrás.
Ela se lançou ao guarda-roupa, afastou as roupas e enfiou a mão no esconderijo — velho, ainda dos tempos soviéticos, na parede atrás de uma chapa de compensado.
Ela sempre guardava ali o dinheiro e os documentos do apartamento.
Eu sabia disso, mas nunca toquei em nada.
Minha mãe tateava o vazio, e o rosto dela ficava cada vez mais branco.
— Não, — sussurrou ela. — Não pode ser.
Aqui estavam… aqui estavam os documentos do apartamento, do apartamento da mamãe, do apartamento do meu irmão… e o dinheiro…
Dimka, aqui tinha dinheiro!
— Que dinheiro? — eu não entendi.
— O meu, — minha mãe se virou para mim, e nos olhos dela transbordava pavor. — Juntei por cinco anos.
Para um dia ruim.
Meio milhão.
Sumiu tudo.
Tudo!
Ficamos um diante do outro olhando para o vazio.
Senti minhas pernas fraquejarem.
Meio milhão.
Era uma fortuna.
Quase um carro.
Era…
— Katia, — minha mãe sussurrou, sem ar. — Foi a Katia.
Não pode ter sido mais ninguém.
Eu quis retrucar, dizer que Katia tinha ido embora à noite e não podia ter voltado, mas me lembrei da luz piscando na cozinha.
Lembrei de como me pareceu que alguém estava andando.
E também me lembrei de outra coisa: Katia sabia o código do meu telefone.
E a senha do cofre da mamãe.
A própria mamãe tinha mostrado a ela quando ficou doente e pediu que pegasse os documentos para o hospital.
Na época, Katia anotou tudo num caderno, dizendo que era para não esquecer.
— Liga para ela, — minha mãe me estendeu o telefone com as mãos trêmulas. — Liga agora mesmo!
Disquei o número de Katia.
O telefone apitou e desligou.
Tentei de novo — a mesma coisa.
Na terceira vez — assinante indisponível.
Disquei outra vez, e outra.
Silêncio.
— Ela desligou, — eu disse, com a voz abafada. — Não atende.
Minha mãe desabou na cama e começou a uivar.
Não a chorar, mas a uivar mesmo, como uma camponesa velha velando um morto.
— Estamos perdidos, Dimotchka!
Perdidos!
Sem apartamento, sem dinheiro!
O que é que vamos fazer agora?
Temos que ir à polícia!
Imediatamente à polícia!
— À polícia? — fiquei olhando para ela, atordoado. — E o que vamos dizer?
Que expulsamos a esposa no meio da noite, e ela levou documentos que ela mesma organizava?
Vão dizer que é briga de família e mandar a gente ir ao tribunal.
— E o apartamento? — minha mãe agarrou meu braço. — O apartamento do meu irmão!
Os documentos estão lá!
Se ela levou, pode vender!
— Vender para quem? — eu tentava pensar com lógica, embora meu cérebro se recusasse a funcionar. — A propriedade não está no nome dela.
A proprietária é você.
Minha mãe de repente ficou imóvel.
Olhou para mim de um jeito estranho.
— Dim, — sussurrou. — Você se lembra de que, há seis meses, quando eu estava doente, Katia me levou ao cartório?
— Lembro, — assenti. — Você disse naquela época que tinha feito uma procuração, para que ela pudesse receber sua pensão enquanto você estava de cama.
Minha mãe empalideceu ainda mais, se isso era possível.
— Dim, eu não lembro o que assinei.
Ela ia me dando os papéis, eu enxergava mal, não tinha levado os óculos.
Ela dizia: assina aqui, assina aqui.
E eu assinava.
E se não fosse uma procuração?
Senti um gelo por dentro.
Lembrei de como, nas últimas semanas, Katia mexia frequentemente em algumas pastas, de como estudava atentamente os documentos, de como anotava alguma coisa no caderno.
E da calma dela naquela noite.
Do sorriso dela na escada.
Ela sabia.
Ela sabia de tudo de antemão.
— Vamos à polícia, — eu disse com firmeza. — Agora mesmo.
Nos vestimos de qualquer jeito e corremos para a rua.
Ainda estava escuro, só começava a clarear.
O vento frio atravessava os ossos.
Meu carro não estava no pátio.
No começo eu não entendi, depois caiu a ficha: as chaves tinham sumido.
Ela roubou o carro.
Katia roubou o meu carro.
Fomos até a delegacia de táxi.
Eu estava sentado no banco de trás, olhando pela janela as ruas vazias, os poucos postes, as casas adormecidas.
E de repente um pensamento me atravessou: eu não sabia nada sobre ela.
Passei cinco anos vivendo com uma pessoa sem saber quem ela realmente era.
Quieta, dócil, invisível.
E no fim…
Quem ela era afinal?
Uma ladra?
Uma golpista?
Ou simplesmente uma mulher levada ao limite?
Na polícia, nos ouviram, mas sem entusiasmo.
Um jovem tenente bocejava de cansaço e anotava os depoimentos.
— Certo, cidadãos, vamos por partes.
Vocês dizem que a esposa foi embora?
Foi embora por conta própria ou vocês a expulsaram?
— Foi embora por conta própria, — minha mãe respondeu depressa. — Sozinha, nós não a expulsamos.
Eu fiquei calado.
O tenente olhou para mim com atenção.
— E quando os documentos sumiram?
Durante a noite?
E as chaves?
E o carro?
— Durante a noite, — confirmei. — Descobrimos por volta das quatro.
— Certo, — o tenente largou a caneta. — Vão registrar ocorrência?
Furto?
Roubo do carro?
— Vamos, — assenti.
— Então é o seguinte: furto é caso criminal.
Mas, se é a esposa, então não é furto, e sim apropriação de bens do cônjuge.
A tipificação é outra.
E depois, vocês a expulsaram ou não?
Se expulsaram, ela podia levar as coisas dela.
Mas, se isso era algo pessoal de vocês, vai ser preciso provar que ela agiu com intenção.
Eu e minha mãe trocamos um olhar.
Entendi que o tenente tinha razão.
Katia oficialmente era minha esposa, tinha as chaves, conhecia os códigos, tinha acesso a tudo.
Provar que ela roubou seria muito difícil.
— E o apartamento? — perguntou minha mãe. — O apartamento do meu irmão!
Ela pode ter levado os documentos para passar para o nome dela!
— O apartamento está registrado no nome da senhora? — perguntou o tenente.
— No meu, — minha mãe assentiu.
— Então não se preocupe.
Sem a sua presença pessoal e a sua assinatura, ninguém vai transferir nada.
A não ser que a senhora tenha assinado algum papel.
Minha mãe empalideceu e se calou.
Saímos da delegacia quando já havia amanhecido completamente.
A cidade acordava, carros passavam, pessoas se apressavam.
E nós estávamos ali, na escadaria, dois miseráveis, sem dinheiro, sem documentos, sem carro.
De repente minha mãe levou a mão ao peito.
— Dim, estou me sentindo mal, — sussurrou.
Eu a amparei pelo braço, sentei-a num banco.
Ela ficou ali, curvada, tremendo levemente.
Pela primeira vez na minha vida eu via minha mãe tão indefesa.
Sempre forte, mandona, segura de si, agora tinha se transformado numa velha comum, roubada e abandonada.
— O que vamos fazer? — ela perguntou baixinho.
Eu não sabia o que responder.
Peguei o telefone para chamar um táxi e levar minha mãe para casa, e foi então que vi a mensagem.
De Katia.
Tinha chegado cinco minutos antes.
“Não me procure.
No apartamento da mamãe eu não mexi, ele é de vocês.
Mas aquele em que vocês moram agora é meu.
Pelos documentos.
Agradeça à sua mãe pelas assinaturas.
E obrigada também por ter fechado a porta.
Eu te amei de verdade.
Adeus.”
Reli a mensagem uma, duas, três vezes.
As palavras nadavam diante dos meus olhos.
O apartamento em que moramos agora é dela?
Como?
Isso não pode ser.
Nós o privatizamos há muito tempo, a proprietária é a mamãe.
Ou…
— Mãe, — virei-me para ela, e minha voz tremia. — O que foi que você assinou há seis meses?
Minha mãe olhava para mim com os olhos vazios e não dizia nada.
E eu já sabia a resposta.
Sabia, porque me lembrei de que uma vez Katia disse: “Dima, um dia você vai entender o que eu fiz por você.
Mas vai ser tarde demais.”
Esse “tarde demais” chegou esta manhã.
Voltamos para casa ao amanhecer.
A cidade já tinha acordado, atrás das janelas os pneus sussurravam sobre o asfalto molhado, em algum lugar um cachorro latia, o elevador batia as portas com estrondo.
E no nosso apartamento havia silêncio e frio.
Minha mãe foi até a cozinha, sentou-se à mesa e ficou olhando para um ponto fixo.
Eu fiquei na entrada olhando para a prateleira vazia onde as chaves sempre ficavam.
— Quer chá? — perguntei estupidamente.
Minha mãe não respondeu.
Ela estava sentada, curvada, tremendo levemente.
Coloquei água na chaleira e apertei o botão.
Movimentos matinais comuns, mas minhas mãos não obedeciam.
Tudo parecia irreal, como se eu estivesse vendo um filme sobre a vida de outra pessoa.
— Dim, — minha mãe levantou os olhos para mim. — Liga mais uma vez.
Talvez ela tenha ligado o telefone.
Peguei o celular e disquei o número de Katia.
Chamadas longas começaram a tocar, e meu coração deu um salto.
— Alô, — disse uma voz mecânica. — O assinante está temporariamente indisponível.
Desliguei e liguei de novo.
A mesma coisa.
— Não atende, — eu disse. — Ou me bloqueou.
Minha mãe cobriu o rosto com as mãos e começou a balançar de um lado para o outro.
— Meu Deus, por que isso comigo?
Por quê?
Eu fui como uma mãe para ela, eu a acolhi, dei comida, dei bebida…
E ela…
Que desgraçada!
— Mãe, para com isso, — eu disse, cansado. — Suas lamentações não vão ajudar em nada agora.
Sentei-me diante dela e fiquei olhando pela janela.
Do lado de fora caía uma garoa fina, o céu cinzento pesava sobre os telhados.
Eu queria sumir da face da terra.
— Temos que ir ao banco, — eu disse. — Conferir os cartões.
E se ela tirou dinheiro?
Peguei o telefone, abri o aplicativo do banco.
Digitei a senha — não funcionou.
De novo — erro.
Na terceira vez — acesso bloqueado.
— O que houve? — minha mãe levantou a cabeça.
— Não aceita a senha, — senti um frio pegajoso se espalhar dentro de mim. — Ela mudou a senha.
— Como mudou?
Ela não tem acesso ao seu telefone.
— Esta noite teve, — eu disse baixinho. — Eu dormia como uma pedra.
E pelo visto ela voltou.
Nós nos entreolhamos.
Lembrei da luz piscando na cozinha.
Lembrei de como me pareceu que alguém estava andando.
Era ela.
Katia tinha voltado.
Pegou os documentos, as chaves, o dinheiro, mudou a senha do meu telefone.
E foi embora.
O telefone tocou no meu bolso.
Agarrei-o pensando que fosse Katia, mas apareceu um número desconhecido na tela.
— Alô, — atendi.
— Dmitri Andreevitch? — perguntou uma voz feminina educada. — Estamos ligando da concessionária “Avtomir”, do setor de crédito.
Temos um problema com os seus pagamentos do carro.
Há dois meses de atraso.
Não conseguimos falar com o senhor, enviamos notificações.
— Que atraso? — eu não entendi. — Eu pago todo mês.
Minha esposa paga.
— Segundo nossas informações, o último pagamento foi há três meses, — disse a voz. — O valor da dívida, incluindo multas, é de cento e vinte mil rublos.
Se o senhor não quitar o débito nos próximos cinco dias, seremos obrigados a recorrer à justiça e apreender o veículo.
— Espere, — eu pulei da cadeira. — Não pode ser!
Katia disse que pagava!
Eu dava o dinheiro para ela!
— Infelizmente o dinheiro não entrou na conta, — a voz permaneceu impassível. — Recomendamos que o senhor entre em contato urgentemente com o banco e regularize a situação.
Desliguei e fiquei olhando para minha mãe, atordoado.
— O que foi? — ela perguntou.
— O crédito do carro não foi pago por dois meses, — soltei. — Katia pegava o dinheiro e não depositava no banco.
Minha mãe levou a mão ao peito.
— Ela roubou tudo, roubou tudo! — começou a lamentar. — Liga para a polícia, que procurem por ela!
— Mãe, nós já fomos à polícia, você mesma sabe, — comecei a andar de um lado para o outro na cozinha. — Eles não vão fazer nada enquanto Katia não aparecer.
Disquei o número do banco que cuidava do financiamento.
Uma longa espera, respostas automáticas, até que finalmente me passaram para uma atendente.
— Por favor, verifique meu contrato de crédito, — eu disse, informando os dados.
— Um momento, — a atendente digitou algo. — Dmitri Andreevitch, o senhor tem dois empréstimos contratados.
Em um há dívida em atraso, no outro está tudo em ordem.
— Dois? — fiquei pasmo. — Eu só tenho um, o do carro.
— Segundo nossos dados, há um ano o senhor contratou um empréstimo pessoal de quinhentos mil rublos.
O dinheiro foi transferido para uma conta em outro banco.
O empréstimo foi quitado integralmente há três meses.
— Como assim quitado? — gritei. — Eu não peguei quinhentos mil rublos nenhum!
— O contrato está no seu nome, a assinatura é sua, — disse a atendente. — Se o senhor tiver dúvidas, pode se dirigir a uma agência com o passaporte.
Desliguei.
Minhas mãos tremiam.
Quinhentos mil rublos.
Há um ano.
Eu não peguei nada.
Foi Katia.
Ela fez um empréstimo no meu nome e transferiu o dinheiro para algum lugar.
E depois quitou tudo há três meses.
De onde ela tirou o dinheiro para quitar?
Das economias da mamãe?
— Mãe, — eu disse com voz abafada. — Katia fez um empréstimo no meu nome há um ano.
Meio milhão.
Minha mãe ficou branca.
— Empréstimo?
Mas você disse que não tinha pego nada!
— Não peguei!
Foi ela que falsificou a assinatura!
— Então à polícia!
Agora mesmo!
Eu já estava discando o número, mas de repente entendi: provar a falsificação seria difícil.
Se a letra fosse parecida, se no banco não tivessem gravação em vídeo…
E além disso, Katia é minha esposa, tem acesso a todos os documentos.
A campainha tocou.
Nós dois nos assustamos.
— Quem é? — sussurrou minha mãe.
Fui abrir.
Na soleira estava um homem idoso, de terno austero, gravata e pasta.
Eu o reconheci — era o tabelião que tinha cuidado da herança depois da morte do meu tio.
Tínhamos nos encontrado algumas vezes.
— Bom dia, Dmitri Andreevitch, — disse ele. — Desculpe a visita tão cedo.
Eu estava passando por aqui e resolvi entrar.
O senhor não imagina que encontro!
— Bom dia, — respondi, confuso. — Entre.
O tabelião entrou no hall e olhou em volta.
— Sua esposa está em casa? — perguntou. — É que, hoje de manhã, ela esteve no meu cartório.
Deu entrada no pedido de divórcio e de partilha de bens.
Fiquei surpreso, achei que vocês viriam juntos.
Ela apresentou a escritura de doação do apartamento de vocês, lavrada por mim há seis meses.
Um documento muito bem redigido.
Sua mãe, Valentina Ivanovna, doou o apartamento à sua esposa.
Com a condição de que ela prestasse cuidados à doadora em caso de doença.
Todas as assinaturas são autênticas, eu as conferi.
Eu me apoiei na parede.
As pernas deixaram de me sustentar.
— O quê? — perguntei de novo. — Que escritura de doação?
Minha mãe não doou nada!
— O documento existe, — o tabelião deu de ombros. — Na verdade, eu passei aqui para avisar.
Como o divórcio foi iniciado, os bens serão divididos.
Mas, como o apartamento já pertence à sua esposa por doação, ele não integra o patrimônio comum do casal.
Ou seja, o apartamento fica com ela.
E o senhor pode pleitear aquilo que foi adquirido durante o casamento.
— Nós não adquirimos nada! — gritei. — Tudo o que havia era da minha mãe!
O tabelião abriu os braços.
— Eu apenas constato um fato.
Sua esposa apresentou os documentos hoje ao tribunal.
Aguarde a citação.
Tudo de bom.
Ele se virou e saiu, fechando a porta com cuidado.
Eu fiquei parado no corredor olhando para minha mãe, que tinha saído da cozinha arrastando os pés e se agarrado ao batente da porta.
— Mãe, — eu disse baixinho. — O que foi que você assinou há seis meses?
Ela ficou calada.
Os olhos corriam de um lado para o outro, os lábios tremiam.
— Fala! — eu gritei, sem esperar de mim mesmo um grito daqueles.
— Eu não lembro! — começou a lamentar minha mãe. — Ela trouxe os papéis, disse que eram para a invalidez, que aumentariam minha pensão se eu assinasse dizendo que precisava de cuidados!
Eu não achei os óculos, ela leu tudo em voz alta, e eu assinei!
Dim, eu não sabia!
— Não sabia? — levei as mãos à cabeça. — Você deu nosso apartamento para a Katia!
Você entende?
Nosso apartamento!
Onde nós moramos!
— Ela disse que era temporário, que depois passaria de volta! — minha mãe caiu de joelhos. — Dim, me perdoa, sua velha idiota!
Eu olhava para ela e sentia tudo ruir dentro de mim.
Minha mãe, sempre tão inteligente, tão calculista, tinha caído na conversa da nora.
E agora não tínhamos ficado com nada.
A campainha tocou de novo.
Abri, já sem me surpreender.
Na soleira estavam dois homens de uniforme — oficiais de justiça.
— Sobolev Dmitri Andreevitch? — perguntou um deles.
— Sim, — respondi.
— Temos uma decisão judicial para despejar você e sua mãe deste imóvel.
A proprietária é a cidadã Katerina Sergeevna Soboleva.
A decisão entrou em vigor hoje de manhã.
Vocês têm uma hora para recolher seus pertences pessoais.
— Como assim uma hora? — gritou minha mãe às minhas costas.
— Para onde vamos?
Este apartamento é nosso!
— É uma decisão judicial, cidadã, — o oficial de justiça mostrou um papel com carimbo.
— A senhora pode recorrer, mas por enquanto estamos cumprindo a ordem.
Vamos, arrumem-se.
Nós vamos esperar.
Virei-me e fui para o quarto.
Peguei uma bolsa velha e comecei a jogar minhas coisas lá dentro.
Minha mãe se agitava pelo apartamento, pegava uma coisa, depois outra, largava, pegava de novo.
— Dim, o que vamos fazer? — gritava ela.
— Dim, liga para ela, implora, diz que vamos devolver tudo, só não deixa ela nos expulsar!
Eu jogava as coisas na bolsa em silêncio.
Camisas, calças, artigos de higiene.
Para quê?
Para onde iríamos?
Para a casa de quem?
Os oficiais de justiça ficaram no corredor, esperando pacientemente.
Um deles olhou para o relógio.
— Faltam quarenta minutos, — disse ele.
Lembrei-me de que minha mãe tinha um apartamento antigo, justamente aquele do irmão, sobre o qual ela falava.
Mas os documentos dele tinham desaparecido.
E as chaves, provavelmente, também.
Mas e se ele não tivesse sido vendido?
E se Katya não o tivesse tocado?
— Mãe, onde estão as chaves do apartamento do tio? — perguntei.
— Eu tinha, — minha mãe apalpou os bolsos.
— Estavam no cofre…
Mas o cofre está vazio.
Fechei os olhos.
Então Katya também tinha tomado aquele apartamento.
Ou os documentos, para vendê-lo.
Uma hora depois, estávamos no pátio com duas bolsas e uma sacola.
Caía uma garoa fina, e fazia frio.
Minha mãe se encolhia em seu velho casaco, que jogara por cima do roupão.
Eu olhava para as janelas do nosso apartamento no quinto andar e não conseguia acreditar que aquilo realmente tinha acontecido.
— E agora, para onde? — perguntou minha mãe.
— Não sei, — respondi.
E, de repente, o telefone tocou no meu bolso.
Olhei para a tela: Katya.
Meu coração disparou.
Apertei para atender.
— Alô, — disse eu, com a voz rouca.
— Dima, — a voz de Katya soava calma e cansada.
— Eu sei que vocês foram despejados.
Não me ligue e não me peça nada.
O apartamento do tio, o da sua mãe, é de vocês.
Eu não toquei nele.
Os documentos estão comigo, eu os entregarei quando sua mãe assinar uma renúncia às reivindicações.
E mais uma coisa: o empréstimo que eu fiz no seu nome, eu quitei.
Para que você não ficasse endividado.
O carro está em frente ao meu escritório, as chaves estão com a segurança.
Vá buscá-lo.
Fiquei em silêncio, incapaz de dizer uma palavra.
— Você está me ouvindo? — perguntou Katya.
— Estou, — consegui dizer.
— Eu não queria te punir, Dima.
Eu só queria que você finalmente entendesse quem você é e quem eu sou.
Você escolheu sua mãe.
Você sempre escolheu sua mãe.
Durante cinco anos eu esperei que você despertasse, que visse como ela me humilhava, como você nem me percebia.
Eu me cansei de esperar.
Adeus.
— Katya, espera, — gritei.
— Espera!
Nós podemos conversar?
— Tarde demais, — disse ela.
— Está tudo decidido.
Os papéis do divórcio já estão no tribunal.
Vivam como quiserem.
E ela desligou.
Eu olhava para a tela apagada.
Minha mãe me fitava com esperança nos olhos.
— O que ela disse?
Vai nos devolver o apartamento?
O dinheiro?
Virei-me lentamente para ela e a encarei de um jeito que nunca tinha encarado antes.
— O carro está no escritório, — eu disse.
— Vamos buscá-lo.
E depois vamos para o apartamento do tio.
Se as chaves estão com ela, então vamos ter que esperar.
— E vamos morar onde? — perguntou minha mãe.
— Não sei, — respondi.
— Talvez com algum conhecido seu.
Na casa do tio Vitya, por exemplo.
Minha mãe estremeceu e desviou o olhar.
Entendi: esse tio Vitya não tinha aparecido à toa nas conversas dela.
Mas aquele não era o momento para esclarecimentos.
Atravessamos o pátio em direção ao ponto de ônibus.
A chuva ficava mais forte, o vento nos atirava gotas geladas no rosto.
Olhei para trás, para a nossa casa, para as janelas atrás das quais tantos anos tinham passado, e de repente senti um estranho alívio.
Como se um fardo pesado tivesse caído dos meus ombros.
Tínhamos perdido tudo.
Mas talvez aquilo fosse uma chance de recomeçar?
Sem as ordens da minha mãe, sem a tensão constante, sem as mentiras?
Olhei para minha mãe, que vinha trotando ao meu lado, curvada e miserável, e compreendi: agora tudo seria diferente.
Eu não ouviria mais os conselhos dela.
Nunca mais.
Chegamos ao ponto encharcados até os ossos.
A chuva caía como se fosse despejada por baldes, e não tínhamos guarda-chuva.
Minha mãe tremia, batia os dentes e apertava contra si uma sacola com alguns trapos.
Parei um táxi, colocamos as bolsas dentro e fomos para o escritório de Katya.
Eu conhecia aquele prédio: uma torre de vidro no centro empresarial, onde ela trabalhara nos últimos três anos.
Antes, eu nunca tinha estado lá; de alguma forma, nunca tinha sobrado tempo.
O táxi parou na entrada.
Desci, aproximei-me da segurança.
Um rapaz jovem, de uniforme, ouviu atentamente meu pedido confuso.
— Soboleva? — repetiu ele.
— A que pediu demissão hoje?
Sim, ela deixou as chaves do carro.
Disse que o marido viria buscá-las.
Você é Dmitri?
— Sim, sou eu.
O segurança me entregou o chaveiro e um cartão de estacionamento.
— O carro está no estacionamento subterrâneo, na segunda vaga a partir da entrada.
Pode pegar.
Peguei as chaves, voltei ao táxi e paguei o motorista.
Eu e minha mãe seguimos para o estacionamento.
Encontramos o carro — minha velha Lada, mas bem cuidada, que eu comprara a crédito três anos antes.
Ela estava ali, inteira, limpa.
Abri a porta, sentei ao volante.
Minha mãe se jogou no banco de trás, largando as bolsas ao lado.
No carro ainda havia o perfume de Katya — leve, floral, tão familiar.
No banco do passageiro estava a necessaire dela, esquecida.
Apertei o volante e soltei o ar.
— E agora, para onde? — perguntou minha mãe, atrás de mim.
— Para o apartamento do tio, — respondi.
— Você lembra o endereço?
— Rua Pushkin, número dez, apartamento vinte e cinco, — disse minha mãe rapidamente.
— Já fui lá cem vezes.
Liguei o motor, saí do estacionamento e segui para o centro.
A chuva continuava a açoitar, e os limpadores mal davam conta.
Ficamos em silêncio.
Minha mãe às vezes soluçava, mas eu não me virava.
Na minha cabeça girava a conversa com Katya.
Ela disse que o apartamento do tio era nosso.
Isso significava que os documentos estavam com ela, mas o apartamento em si estava livre?
Talvez conseguíssemos entrar?
O prédio na rua Pushkin era de estilo stalinista, com tetos altos e ornamentos de gesso na fachada.
Subimos ao terceiro andar a pé — o elevador não funcionava.
Toquei a campainha do apartamento vinte e cinco.
Ninguém abriu por um longo tempo, depois ouvi passos, e a porta se escancarou.
Na soleira estava uma mulher desconhecida, de uns quarenta anos, de roupão e com bobs no cabelo.
— Quem vocês querem? — perguntou ela, desconfiada.
— Desculpe, mas onde estão os proprietários? — perguntei.
— Este é o apartamento do meu tio.
Quer dizer, da minha mãe.
— Que tio? — a mulher franziu a testa.
— Eu sou a dona daqui.
Comprei este apartamento há seis meses.
Todos os documentos estão regularizados.
E vocês, afinal, quem são?
Tudo escureceu diante dos meus olhos.
Virei-me para minha mãe.
Ela estava branca como giz, agarrada ao corrimão.
— Como assim comprou? — consegui dizer.
— De quem?
— De uma mulher, — respondeu a dona.
— Uma moça jovem, bonita.
Disse que estava vendendo o apartamento de uma parente com procuração.
Nós fizemos tudo pelo cartório, tudo legalmente.
Se têm perguntas, procurem o seu notário.
E bateu a porta na nossa cara.
Fiquei olhando para minha mãe.
Ela tremia, os lábios se mexiam, mas nenhum som saía.
— Você ouviu? — perguntei baixinho.
— Vendido.
Há seis meses.
Justamente quando você estava doente e assinando papéis.
— Dim, eu não sabia! — minha mãe agarrou meu braço.
— Juro, eu não sabia!
Ela disse que era temporário, que precisava ser feito para eu poder receber benefícios!
— Que benefícios, mãe? — arranquei meu braço da mão dela.
— Você é completamente idiota?
Assinar sem olhar!
— Eu não encontrava meus óculos! — ela desabou em lágrimas.
— Ela leu tudo em voz alta, eu acreditei!
Virei-me e comecei a descer as escadas.
Minha mãe vinha mancando atrás de mim, apoiando-se nas paredes.
Lá fora, sentei no carro e dei um soco no volante.
Doeu, mas não me senti melhor.
Minha mãe entrou no banco de trás e começou a chorar baixinho.
— E agora o que vamos fazer, Dim?
Para onde vamos?
Sem dizer nada, liguei o motor e voltei.
Para onde?
Eu mesmo não sabia.
Apenas rodava pela cidade, olhando para as ruas molhadas, para as pessoas com guarda-chuvas, para os ônibus cheios de passageiros.
Todos corriam para algum lugar, todos tinham alguma coisa para fazer, e nós não tínhamos nada.
— Dim, talvez para a casa da tia Klava? — sugeriu minha mãe, timidamente.
— Ela mora no interior, tem casa própria.
Talvez nos deixe passar a noite.
— Liga, — resmunguei.
Minha mãe tirou o telefone, discou o número.
Falou por um bom tempo, soluçando, depois encerrou a chamada.
— Não atende, — disse ela.
— Talvez esteja no trabalho.
Parei o carro no acostamento e me recostei cansado no banco.
Minha cabeça estava um caos.
E então me ocorreu: Katya disse que os documentos do apartamento do tio estavam com ela.
Então ela não os destruiu, apenas os levou.
Talvez ela não tivesse vendido nada?
Talvez aquela mulher no apartamento estivesse mentindo?
Dei meia-volta e voltei para o escritório de Katya.
O segurança na entrada era o mesmo.
— Escuta, — falei com o rapaz.
— Katya Soboleva esteve aqui hoje?
Posso vê-la?
— Esteve de manhã, — respondeu o segurança.
— Pegou a carteira de trabalho e foi embora.
Deixou um envelope para você.
Quase me esqueci.
Espere.
Ele entrou na guarita de vidro e voltou com um envelope amarelo e grosso.
Nele estava escrito: “Para Dmitri”.
Peguei o envelope e o rasguei ali mesmo.
Lá dentro havia um pen drive e um bilhete curto.
Li: “Você queria viver com sua mãe?
Então viva.
Eu me cansei de ser um objeto.
Assista ao vídeo e entenda quem de nós é o traidor.”
Guardei o pen drive no bolso e saí para a rua.
Minha mãe esperava no carro.
Sentei ao volante, liguei a ignição e fui sem rumo.
Eu precisava de um lugar onde pudesse ver com calma o que havia naquele pen drive.
— O que tem aí? — perguntou minha mãe.
— Depois, — cortei.
Entrei numa rua tranquila, estacionei junto ao meio-fio.
Tirei o telefone e, com um adaptador, conectei o pen drive.
Minha mãe se inclinou do banco de trás.
— Não olha, — eu disse.
— Depois você vê.
Mas ela não obedeceu.
Na tela apareceu um vídeo.
A qualidade era ruim, mas dava para entender.
A nossa cozinha, a mesa, xícaras sobre a mesa.
Minha mãe sentada à mesa e, diante dela, um homem qualquer, desconhecido, já idoso, de bigode grisalho.
Eu nunca o tinha visto.
Eles conversavam sobre algo, mas não havia som.
Depois o vídeo mudou — a mesma cozinha, minha mãe sozinha, falando ao telefone, gesticulando.
E de repente ouvi a voz.
Katya, pelo visto, tinha sobreposto o áudio ou ligado o microfone.
— …entendeu? — dizia minha mãe ao telefone.
— Vamos vender o apartamento do meu irmão, o dinheiro fica meio a meio.
E esse idiota com a mulher dele eu vou botar para fora.
Ela já me encheu.
Que sumam para onde quiserem.
— E se o seu filho descobrir? — a voz do outro lado da linha era abafada, mas dava para entender.
— E o que ele vai descobrir? — minha mãe ria.
— Ele é um molenga, um filhinho da mamãe.
Eu o manipulo como quiser.
O importante é que a Katka não desconfie.
Mas eu a mantenho na coleira curta.
Fiz a ela uma promessa tão boa que ela vai trabalhar para mim até o fim da vida.
Vou dizer que passo o apartamento para o nome dela se ela cuidar de mim.
E depois da minha morte aquela pobretana não vai receber nada.
Vou deixar tudo no nome do Dima.
Mas, por enquanto, que continue trabalhando como burra.
Meus braços caíram sem força.
Eu olhava para a tela e não acreditava nos meus próprios olhos.
Essa era minha mãe?
A mulher que me criou, que sempre dizia que eu era seu único apoio?
Ela esteve todo esse tempo brincando comigo?
E com Katya?
O vídeo seguinte mostrava minha mãe com o mesmo homem, sentados num café, tomando café.
Desta vez havia som.
— Vitya, o principal é não se apressar, — dizia minha mãe.
— Vamos vender o apartamento, pegar o dinheiro.
E eu já vou ter expulsado a Katka até lá.
Vou dizer ao Dima que ela é ladra, que roubou os documentos.
Ele vai acreditar.
Ele sempre acredita em mim.
— E se não acreditar? — perguntou o homem.
— Vai acreditar, — sorriu minha mãe com desprezo.
— Eu o eduquei por vinte e cinco anos.
Ele come na minha mão.
E só suporta essa nora porque eu deixo.
Assim que eu mandar, ele a põe na rua.
Você vai ver.
Depois vinham outros trechos.
Minha mãe discutia com esse Vitya como falsificar assinaturas, como transferir o apartamento por doação, como depois culpar Katya por todos os pecados.
Eu assistia e gelava por dentro.
Ao que tudo indicava, minha mãe preparava esse plano havia muito tempo.
E Katya, pelo visto, instalara câmeras escondidas porque sentia o perigo.
Ou simplesmente queria provas.
Desliguei o vídeo e me virei para minha mãe.
Ela estava sentada de boca aberta, os olhos correndo de um lado para o outro.
— Então? — perguntei baixinho.
— Vai explicar alguma coisa?
— Dim, isso é montagem! — gritou ela.
— Ela falsificou tudo!
A Katya é uma desgraçada, fez isso de propósito!
— Cala a boca, — eu disse.
Minha mãe se calou.
Eu a olhava e via uma estranha.
Aquela que eu considerava a mais próxima, a mais querida.
Durante todo esse tempo ela me manipulara, usara Katya, mentira, roubara.
E eu tinha sido um cachorrinho cego, cumprindo suas ordens.
— Quem é esse Vitya? — perguntei.
— O tio Vitya de quem você falou ontem?
Minha mãe ficou em silêncio, encolhida no banco.
— Estou perguntando, quem é ele?
— Um conhecido, — sussurrou ela.
— Antigo.
— Amante?
— Isso não é da sua conta!
— É da minha conta, sim, — levantei a voz.
— Porque, por sua causa e por causa do seu amante, eu perdi minha esposa, meu apartamento, meu dinheiro!
Por sua causa virei um sem-teto!
— Eu não sabia que ia dar nisso! — minha mãe começou a chorar.
— Eu queria o melhor!
Queria que você tivesse alguma coisa, que não se perdesse!
— Que eu tivesse alguma coisa? — eu ri com uma risada ruim.
— Você queria que eu continuasse preso a você.
Que Katya fosse embora e você continuasse mandando.
Você nunca quis o meu bem.
Você só quis a si mesma.
Liguei o carro e arranquei.
Minha mãe gritou e segurou a maçaneta da porta.
— Para onde você está indo?
Dim, para!
Eu não respondia.
Eu apenas dirigia para onde desse na telha.
Pelas ruas, pelas avenidas, passando por casas e lojas.
Eu queria fugir de todo aquele pesadelo.
Da minha mãe, das mentiras, de mim mesmo.
Só parei uma hora depois, já fora da cidade, perto de uma floresta qualquer.
A chuva tinha parado, as nuvens se abriam, o sol aparecia.
Saí do carro, apoiei-me no capô e acendi um cigarro, embora tivesse parado havia cinco anos.
Minha mãe ficou no carro, chorando baixinho.
Eu olhava para as árvores molhadas e pensava em Katya.
Em como ela suportou tudo aquilo.
Cinco anos em silêncio, sem reclamações, sem escândalos.
Suportando minha mãe, suportando a minha indiferença.
E, durante todo esse tempo, provavelmente reunindo provas.
Preparando-se para a fuga.
E eu nem sequer percebi.
Senti vergonha.
Não diante da minha mãe, mas de mim mesmo.
Por ter sido cego, fraco, inútil.
Por ter permitido que minha mãe controlasse a minha vida.
Por não ter protegido Katya.
Voltei para o carro.
Minha mãe estava encolhida no banco de trás, olhando para mim com os olhos inchados de tanto chorar.
— Dim, me perdoa, — sussurrou ela.
— Sou uma velha idiota.
Vou consertar tudo.
— Como você vai consertar? — perguntei, cansado.
— Vai devolver o apartamento?
O dinheiro?
A Katya?
— Eu vou falar com ela, — começou minha mãe, apressada.
— Vou explicar que não fui eu, que foi tudo ideia do Vitka.
Que eu não queria.
— E o vídeo? — olhei fixamente para ela.
— Você mesma dizia tudo ali.
Você.
Sem o Vitya.
Minha mãe se calou.
Desviou o olhar.
Liguei o motor e voltei para a cidade.
Precisávamos de algum lugar para dormir.
Quase não restava dinheiro, só algumas moedas no bolso.
Os cartões estavam bloqueados.
Lembrei que eu tinha um amigo, Seryoga, com quem trabalhei há algum tempo.
Talvez ele me deixasse ficar uns dias.
Disquei o número dele.
Seryoga atendeu rápido.
— Dimka, meu velho!
Quanto tempo!
— Seryog, me ajuda, — eu disse.
— Aconteceu uma coisa comigo.
Posso ficar na sua casa uns dias?
— O que aconteceu? — perguntou o amigo, desconfiado.
— Depois eu conto.
Vou aí e explico.
— Vem, — suspirou Seryoga.
— Você lembra o endereço?
Eu lembrava.
Era um bairro dormitório na periferia, um prédio apertado, antigo, mas naquele momento eu já ficava grato por isso.
Uma hora depois, já estávamos sentados na cozinha de Seryoga.
Ele e a esposa, Natasha, nos davam chá e ouviam meu relato confuso.
Minha mãe se mantinha em silêncio, apenas soluçando de vez em quando.
Seryoga me olhava com compaixão; Natasha, com uma antipatia mal disfarçada em relação à minha mãe.
— Que situação, — disse Seryoga.
— E você foi à polícia?
— Fui.
Não adiantou.
Katya fez tudo legalmente, e minha mãe assinou.
— E esse pen drive? — perguntou Natasha.
— Ali há provas de que sua mãe e o amante estavam em conluio.
— Isso é contra a minha mãe, não contra a Katya, — expliquei.
— A Katya não tem nada a ver com isso.
Ela só estava se defendendo.
— E o que você vai fazer agora?
Eu não sabia.
Ficava sentado olhando para a caneca de chá já frio.
Minha mãe ao lado tremia miudinho.
Miserável, velha, arrasada.
E então compreendi: eu não viveria mais com ela.
Chega.
Que ela mesma resolvesse suas questões com esse Vitya, com seus problemas.
Eu estava cansado.
— Mãe, — eu disse em voz alta.
— Amanhã você vai para a casa desse seu Vitya.
E vai resolver com ele todas as questões.
E eu vou procurar a Katya.
Minha mãe levantou os olhos para mim.
— Para quê?
— Quero entender se ainda é possível consertar alguma coisa.
E, se não for, pelo menos pedir desculpas.
Por mim e por você.
— Ela não vai te perdoar, — sussurrou minha mãe.
— Isso é problema meu, — respondi.
Naquela noite, deitado numa cama dobrável no pequeno quarto de Seryoga, fiquei olhando para o teto.
Ao lado, no chão, sobre um colchão, minha mãe ressonava baixinho.
Eu pensava em Katya, no sorriso dela na escada, na voz calma ao telefone.
Onde ela estaria agora?
O que estaria fazendo?
Talvez já tivesse deixado a cidade?
Ou estivesse sentada em algum apartamento, tomando chá, feliz por ter se livrado de nós?
Peguei o telefone e disquei o número dela.
Longos toques, depois a secretária eletrônica: “O assinante está temporariamente indisponível”.
Liguei de novo — a mesma coisa.
Diante dos meus olhos surgiu o vídeo em que minha mãe dizia sobre Katya: “Eu a mantenho na coleira curta.”
E, no fim, quem estava presa na coleira era minha mãe — da própria ganância e maldade.
E eu — da minha mãe.
Amanhã vou encontrar a Katya.
Custe o que custar.
Passou-se um mês.
Um mês que virou minha vida de cabeça para baixo.
Eu alugava um quartinho numa pensão na periferia, trabalhava como taxista, levava as pessoas para seus compromissos e ouvia conversas sobre trabalho, filhos, problemas.
As vozes alheias preenchiam o vazio dentro de mim, mas não conseguiam calar os pensamentos sobre Katya.
Minha mãe vivia num asilo.
Eu a colocara lá duas semanas depois de termos ido morar na casa de Seryoga.
Não dava para ficar mais tempo com os amigos, e, a cada dia, minha mãe se tornava ainda mais insuportável.
Ela chorava, se queixava do coração, exigia que eu encontrasse aquele Vitya e o obrigasse a devolver o dinheiro.
Eu o encontrei.
Vitya era um velho conhecido da minha mãe, com quem ela tivera um caso quando meu pai ainda era vivo.
Quando fui falar com ele, primeiro negou tudo, depois, pressionado pelas minhas perguntas e pelo pen drive, confessou que minha mãe o envolvera naquela fraude por vontade própria.
O dinheiro da venda do apartamento do tio eles dividiram, mas a maior parte ficou com minha mãe.
E depois, quando tudo desmoronou, Vitya desapareceu.
Sacou todas as economias e foi para a casa da filha, em outra cidade.
Minha mãe ficou sem nada.
Eu não sentia pena dela.
Pela primeira vez na vida, eu a olhava sem sentir nada além de cansaço.
Ela destruíra minha família, minha vida, meu futuro.
E para quê?
Por dinheiro que, no fim das contas, nem conseguiu manter.
— Dim, não me abandona, — implorou ela enquanto eu a levava para o asilo.
— Eu sou sua mãe.
Eu criei você.
— Criou, — concordei.
— Para depois me controlar a vida inteira.
Chega, mãe.
Eu cresci.
Ela ficou ali, num lugar limpo, mas impessoal, entre outros velhos solitários como ela.
Eu pagava sua permanência com o dinheiro que ganhava no táxi.
Era o suficiente para que ela não passasse fome nem frio.
Mas para amá-la — isso já não existia mais dentro de mim.
Eu procurava Katya.
Liguei para todas as amigas dela, fui a todos os lugares em que ela poderia estar.
Ninguém sabia de nada.
Na antiga empresa dela me disseram que ela havia pedido demissão e se mudado para outra cidade.
Para onde, não diziam, alegando sigilo de dados pessoais.
Eu já estava quase desesperado quando, certa noite, fazendo uma corrida, a vi.
Ela estava num ponto de ônibus, com uma pequena mala, esperando o ônibus.
No começo, não acreditei nos meus olhos, achei que estivesse imaginando.
Mas era ela.
Katya.
Com o mesmo casaco velho com que saíra naquela noite.
Só que o rosto estava diferente.
Calmo, sereno, sem aquele cansaço de antes.
Frenei bruscamente, saltei do carro e corri até ela.
— Katya!
Ela se virou, e nos olhos dela passou um lampejo de surpresa.
Mas não de alegria.
Mais de pena, talvez.
— Dima, — disse ela baixinho.
— Por que você está aqui?
— Eu te procurei, — disparei.
— O mês inteiro.
Queria conversar.
— Já dissemos tudo o que havia para dizer, — ela se voltou para a rua.
— O ônibus já vai chegar.
— Katya, por favor.
Senta comigo cinco minutos.
No carro.
Não vai embora sem me ouvir.
Ela ficou em silêncio, depois assentiu devagar.
Entramos no carro.
Desliguei o motor e me virei para ela.
No interior do carro havia cheiro de gasolina e do perfume dela — o mesmo, floral.
— Como você está? — perguntei, estupidamente.
— Bem, — respondeu ela.
— Consegui um novo emprego, alugo um apartamento.
Estou vivendo.
— Onde?
— Longe.
Não vou te dizer.
Assenti.
Entendia que eu não tinha o direito de perguntar.
— Katya, eu queria te pedir perdão.
Por tudo.
Por não ter te defendido, por ter permitido que minha mãe te humilhasse, por ter sido um idiota cego.
Você merecia outra coisa.
Ela olhava pela janela, para os carros que passavam.
Permaneceu em silêncio.
— Eu sei do Vitya, — continuei.
— Sei que minha mãe inventou tudo.
Sei que você não é ladra nem golpista.
Você só estava se defendendo.
Eu vi o vídeo.
Lá está tudo claro.
— O vídeo, — Katya sorriu de leve.
— Você acha que eu instalei aquilo para me vingar?
Não, Dima.
Instalei porque eu tinha medo.
Sua mãe dizia todos os dias que ia me expulsar, que tinha um plano.
Eu queria saber o que ela estava tramando para me proteger.
E, de quebra, proteger você também.
— A mim?
— A você, — ela se virou e me olhou nos olhos.
— Você acha que eu não via como ela te manipulava?
Você era como uma criança, captava cada palavra dela.
Eu tentava te explicar, mas você não me ouvia.
Você sempre escolhia ela.
Mesmo quando ela estava errada.
Baixei a cabeça.
Era verdade.
Amarga, dolorosa, mas verdade.
— Eu não peguei o apartamento de vocês, — disse Katya.
— Nos documentos ele está no meu nome, mas eu não vou tocar nele.
Você pode morar lá.
Vou te mandar uma procuração para administrar.
E, quando sua mãe morrer, passo de volta.
Eu não quero o que é dos outros.
— E o apartamento do tio? — perguntei.
— Aquele que foi vendido?
— Foi sua mãe que vendeu, — disse Katya, seca.
— Por meio do Vitya.
Eu só ajudei com os documentos porque ela pediu.
Achei que ela realmente quisesse vender para que vocês tivessem mais facilidade com o dinheiro.
E ela acabou armando tudo contra mim.
Mas eu não tenho provas, e ela tem minha assinatura em alguns papéis.
Então, formalmente, eu sou cúmplice.
Mas todo o dinheiro ficou com ela e com o Vitya.
Eu não peguei um centavo.
— E o empréstimo no meu nome? — perguntei.
— Foi você que fez?
— Fiz, — assentiu Katya.
— Mas não para mim.
Você se lembra de que, há um ano, queria entrar naquele negócio idiota com o Seryoga?
Eu sabia que era uma fraude, mas você não me ouvia.
Fiz o empréstimo no meu nome para que você não tivesse dinheiro para aquela aventura.
E, quando você caiu em si, eu quitei com o meu dinheiro.
Depois, quando sua mãe começou seus joguinhos, transferi para o seu nome para que, no divórcio, você não pudesse exigir minhas economias.
Estúpido, não é?
Eu a olhava e não conseguia acreditar.
Ela me salvava dos meus próprios erros, e eu nem sabia.
— Katya, me perdoa, — eu disse.
— Eu fui um idiota.
Agora eu entendi tudo.
Tarde, mas entendi.
— Não é tarde, Dima, — ela suspirou.
— Para você não é tarde.
Você ainda é jovem, pode recomeçar tudo do zero.
Sem sua mãe, sem mim, sozinho.
Você vai conseguir.
— E nós? — perguntei, com esperança.
— Ainda podemos dar certo?
Ela balançou a cabeça.
— Não, Dima.
Eu te amei.
Muito.
Durante cinco anos suportei, esperei, tive esperança.
Mas naquela noite, quando você me empurrou para fora da porta, eu entendi: tinha acabado.
Eu não quero mais esperar.
Quero viver.
Sem humilhações, sem mentiras, sem a sua mãe.
Eu vou embora hoje.
Para sempre.
— Para onde?
— Para outra cidade.
Grande.
Lá eu tenho trabalho, apartamento, uma vida nova.
E talvez um novo homem.
Ainda não sei.
Meu coração se apertou.
— Você vai ser feliz? — perguntei.
— Vou tentar, — ela sorriu.
— E você seja feliz, Dima.
Você é bom, só é fraco.
Procure um psicólogo, resolva as coisas com sua mãe, comece a viver com a sua própria cabeça.
Você consegue.
Ela abriu a porta e saiu.
Eu a observei ir até o ponto e entrar no ônibus que acabara de chegar.
No último instante, ela se virou e acenou com a mão.
Eu acenei de volta.
O ônibus partiu, desapareceu na curva.
Eu fiquei sozinho no carro, numa rua vazia, sob a fria chuva de outono.
Fiquei muito tempo sentado, apertando o volante.
Depois liguei o motor e fui embora.
Para onde?
Primeiro, para o asilo.
Eu precisava dizer à minha mãe que não pagaria mais a estadia dela se ela não confessasse tudo e não devolvesse o dinheiro que roubou de mim e da Katya.
Que vendesse as joias dela, que pedisse ao Vitya, que trabalhasse.
Eu não era mais o menininho dela.
Entrei no quarto.
Minha mãe estava sentada perto da janela, olhando a chuva.
Quando me viu, se animou.
— Dimka, meu filho!
Finalmente!
Estou aqui sozinha, que tédio.
Tira-me daqui, vai?
— Não, mãe, — eu disse.
— Você vai ficar aqui.
Ela parou, sem acreditar no que ouvia.
— Como assim, não?
Você vai abandonar a própria mãe?
— Eu não estou te abandonando, — respondi.
— Só estou deixando de ser o seu capacho.
Você me roubou a esposa, o dinheiro, o apartamento.
Você destruiu a minha vida.
Agora viva sozinha.
— Como você ousa! — gritou ela.
— Eu criei você!
Fiz tudo por você!
— Você fez tudo por você mesma, — interrompi.
— Eu sei de tudo.
Do Vitya, do apartamento do tio, dos seus planos.
Pare de mentir.
Minha mãe empalideceu, depois ficou vermelha de raiva.
Abriu a boca para gritar de novo, mas eu não deixei.
— Se você não se acalmar, eu vou te processar.
Por fraude.
Tenho um vídeo em que você discute tudo.
Você vai para a prisão, mãe.
E eu não quero ver minha mãe na prisão.
Por isso, viva aqui.
Eu vou pagar, como combinado.
Mas não quero mais te ver.
Virei-me e saí, sem ouvir os gritos dela.
No corredor, uma enfermeira se aproximou de mim.
— Está tudo bem? — perguntou.
— Está, — respondi.
— Cuide dela.
Saí para a rua.
A chuva tinha parado, e o sol surgia por trás das nuvens.
Entrei no carro e olhei para o telefone.
Havia uma mensagem de Katya.
Abri.
“Dima, deixei para você as chaves do apartamento na nossa caixa de correio.
More lá.
E me perdoe por tudo.
Eu não queria te ferir, só estava cansada.
Seja feliz.
Adeus.”
Recostei-me no banco e fechei os olhos.
Tinha acabado.
Acabado de verdade.
À frente havia um vazio que eu teria de preencher com alguma coisa nova.
Com o quê?
Eu ainda não sabia.
Liguei o carro e fui para casa.
Para a nossa casa, onde agora eu viveria sozinho.
Na caixa de correio, as chaves estavam mesmo lá, junto com um pequeno bilhete: “Os documentos do apartamento estão com o notário.
Quando você for lá, eles serão entregues.
Katya.”
Subi para o apartamento.
Tudo estava como antes, só que as coisas de Katya não estavam mais ali.
Vazio, limpo, silencioso.
Fui até a cozinha e sentei à mesa onde tantas vezes jantamos.
Sobre a mesa estava uma foto dela — aquela em que ela sorri, jovem, feliz.
Peguei-a nas mãos e fiquei olhando por muito tempo.
Depois tirei o telefone do bolso e liguei para o psicólogo que o Seryoga me recomendara um dia.
— Alô, bom dia, — eu disse.
— Eu preciso de ajuda.
E à noite fui à estação.
Não para trazer Katya de volta — o trem tinha partido pela manhã.
Só para olhar os trens, as pessoas, os trilhos que seguiam ao longe.
Fiquei na plataforma, tomando café num copo de papel, pensando que a vida continua.
Que eu ainda sou jovem, que tenho mãos, cabeça, carro.
Que posso começar tudo de novo.
O telefone tocou no meu bolso.
Olhei para a tela — minha mãe.
Recusei a chamada.
O telefone tocou de novo.
Recusei outra vez e desliguei o som.
Depois terminei o café, joguei o copo no lixo e fui em direção ao carro.
Era preciso trabalhar.
Era preciso viver.
Liguei o motor e dirigi noite adentro.
Os faróis arrancavam da escuridão o asfalto molhado, os poucos postes, as figuras dos pedestres.
Eu dirigia e pensava em Katya.
Em como ela era, em quem se tornou, em quem seria sem mim.
E então percebi: eu a estava deixando ir.
Pela primeira vez na vida, eu deixava alguém ir sem tentar segurar, sem ouvir minha mãe, sem ter medo da solidão.
Eu a deixo ir.
E isso me deixa leve.
Na manhã seguinte fui ao notário.
Peguei os documentos do apartamento.
Agora ele era oficialmente meu.
Katya tinha feito tudo corretamente, sem engano.
Simplesmente transferira para mim, deixando para si apenas o direito ao divórcio.
Uma semana depois recebi a intimação para o tribunal.
O divórcio foi rápido e tranquilo.
Katya não apareceu, mandou seu representante.
Nós nos divorciamos sem divisão de bens, porque, na prática, não havia bens a dividir.
O apartamento que ela me deixara era propriedade minha, o carro também.
Não restavam dívidas.
Depois da audiência, saí e fiquei muito tempo parado, olhando para o céu.
Liberdade.
Uma sensação estranha, quando você está sozinho e, ao mesmo tempo, livre.
Livre da minha mãe, do controle dela, da tensão constante.
Das mentiras.
Decidi vender o apartamento.
Aquele mesmo em que eu vivera com Katya e minha mãe.
Havia dor demais ali dentro.
Comprei um pequeno estúdio num bairro novo, longe daqueles lugares.
O restante do dinheiro deixei na conta.
Decidi que, dali a um ano, quando tudo se acalmasse, talvez abrisse meu próprio negócio.
Pequeno.
Ou talvez comprasse uma casinha fora da cidade.
Minha mãe ligava todos os dias.
Eu não atendia.
Depois ela parou.
Eu pagava a estadia dela no asilo, mas não a visitava.
Talvez um dia, daqui a muitos anos, eu consiga perdoá-la.
Mas não agora.
Agora só havia em mim vazio e uma tristeza silenciosa.
Passou-se um ano.
Eu trabalhava, dirigia táxi, às vezes me encontrava com o Seryoga, ia ao cinema, lia livros.
Aos poucos, a vida se enchia de novas cores.
Cheguei até a sair com uma mulher, Nadia, divorciada, com um filho.
Ela era boa, tranquila, não exigia de mim o impossível.
Íamos ao parque, dávamos comida aos patos, falávamos de bobagens.
Eu pensava que talvez aquilo fosse felicidade.
Silenciosa, simples, sem drama.
Mas às vezes, durante a noite, eu acordava e me lembrava de Katya.
Do sorriso dela, do cheiro dela, da voz dela.
E então doía.
Não como no primeiro mês, mas de um jeito surdo, dolorido.
Eu sabia que nunca mais a veria.
E isso era o certo.
Certa vez, levando um passageiro, passei em frente ao antigo trabalho dela.
Automaticamente reduzi a velocidade, olhei para as portas de vidro atrás das quais, um dia, ela passara tanto tempo.
E então a vi.
Ela saía do prédio, com uma pasta na mão, num belo casaco, penteada, sorrindo.
Ao lado dela vinha um homem alto, grisalho, distinto.
Ele abriu a porta de um carro caro para ela, ela entrou, sorriu para ele.
E foi embora.
Parei no acostamento e fiquei muito tempo olhando na direção em que tinham ido.
Meu coração batia na garganta.
Então ela tinha voltado.
Ou tinha vindo a trabalho.
Ou talvez nem fosse ela, talvez eu tivesse me enganado.
Mas eu sabia que era ela.
À noite liguei para o número dela.
O telefone estava ligado.
Longos toques, depois silêncio.
Eu já ia desligar quando ouvi a voz.
— Alô, Dima.
Quase deixei o telefone cair.
— Katya, — soltei num suspiro.
— Como você está?
— Bem, — respondeu ela.
— Estou na cidade de passagem.
Amanhã vou embora.
— Eu te vi hoje, — eu disse.
— Com aquele homem.
Ele é seu…?
— Meu marido, — disse Katya, simplesmente.
— Nós nos casamos há três meses.
Ele é um bom homem.
Fiquei em silêncio.
Na minha cabeça martelava um só pensamento: tarde demais.
Para sempre tarde demais.
— Fico feliz por você, — consegui dizer, enfim.
— De verdade.
— Obrigada, — ela fez uma pausa.
— E você, como está?
— Bem.
Trabalho, vivo.
Não falo com minha mãe.
— Isso é o certo, — disse Katya.
— Dima, eu preciso te dizer uma coisa.
Aquele empréstimo que fiz no seu nome há um ano…
Eu não te contei, mas parte daquele dinheiro eu dei à sua mãe.
Ela pediu, disse que era para uma cirurgia.
Eu acreditei.
E ela deu ao Vitya.
Depois encontrei os documentos.
Então, formalmente, você me deve, mas eu te perdoo.
— Katya, por que você está me dizendo isso?
— Para que você saiba.
Para que não me considere uma grande canalha.
Eu não queria te enganar, eu queria ajudar.
Mas tudo acabou como sempre.
— Eu sei, — respondi.
— Eu sei de tudo.
Da minha mãe, do Vitya.
Você não tem culpa.
— Obrigada, — ela suspirou.
— Então seja feliz, Dima.
Adeus.
— Adeus, Katya.
Ela desligou.
Fiquei muito tempo com o telefone na mão, depois o guardei no bolso e voltei para casa.
Naquela noite não dormi.
Fiquei deitado, olhando para o teto, lembrando de tudo o que tinha acontecido.
Cinco anos de vida, cinco anos de erros, cinco anos de amor que eu não soube preservar.
E então compreendi: eu era grato a Katya.
Por tudo.
Por ela ter existido na minha vida, por ter me ensinado a enxergar, por ter ido embora na hora certa.
Se não fosse por ela, eu teria continuado para sempre como o filhinho da mamãe, um fraco, um fracassado.
De manhã, liguei para minha mãe.
Pela primeira vez em um ano.
— Alô, — eu disse.
— Como você está?
— Dimka, meu filho! — gritou ela.
— Você deu sinal de vida!
Eu já achava que ia morrer sem te ver!
— Não vai morrer, — eu disse.
— Vou aí amanhã.
Nós vamos conversar.
Desliguei e olhei pela janela.
O sol estava nascendo, brilhante, primaveril.
Um novo dia começava.
Uma nova vida.
Saí para a rua, entrei no carro e fui cuidar da vida.
À minha frente havia trabalho, encontros, planos.
E, no espelho retrovisor, ficava o passado.
Eu o olhava e sorria.
Porque sabia: finalmente eu tinha feito tudo certo.
Seis meses depois vendi o estúdio e comprei uma pequena casa fora da cidade.
Com jardim, varanda e vista para a floresta.
Levei minha mãe do asilo para lá.
Ela envelhecera, se enfraquecera, deixara de mandar.
Vivíamos perto, mas não juntos.
Cada um tinha seu canto.
Às vezes eu ia vê-la, tomava chá, ouvia suas lembranças.
Ela já não falava mal de Katya.
Só suspirava e dizia: “Nós erramos naquela época, meu filho.
Erramos.”
Eu não discutia.
Apenas assentia e voltava para o meu lado.
E um dia, arrumando coisas velhas, encontrei uma fotografia.
Eu e Katya, jovens, felizes, diante do mar.
Nossa única viagem juntos.
Fiquei muito tempo olhando para ela, depois a guardei num álbum.
Escondi bem longe, para não mexer com o coração.
Mas, às vezes, nas noites tranquilas, eu pego esse álbum e olho.
E me lembro.
E agradeço ao destino por ela ter feito parte da minha vida.
Mesmo que tudo tenha acabado.
Mesmo que nunca volte.
Obrigado, Katya.
Por tudo.







