Era doloroso e repugnante para Sashka observar aquele circo que os parentes haviam armado na luta pela herança. Então ele pegava os cães e ia com eles até o rio, onde passava horas lembrando a sua infância…

Marta Vassílievna passeava calmamente por seu amplo jardim na companhia de dois fiéis collies — César e Barão.

Sua postura, a cabeça erguida com orgulho e os passos firmes pareciam realçar sua nobreza, e os cães não pareciam menos majestosos.

Havia algo de régio naquele trio, como se pertencessem a um mundo especial, no qual reinavam harmonia e dignidade.

A mulher dedicara toda a sua vida ao negócio de flores, e sua rede de lojas funcionava com sucesso em todo o país.

Graças a isso, Marta Vassílievna acumulou uma fortuna considerável, mas com os anos entregou a gestão a especialistas, ficando apenas com o papel de observadora e a possibilidade de viver no conforto, desfrutando dos frutos do seu trabalho.

Perdera o marido ainda jovem, quando ele morreu na guerra do Afeganistão.

Desde então, seu coração permaneceu fechado aos outros — era uma mulher de um único amor e guardou fidelidade a um só homem durante toda a vida.

Marta Vassílievna nunca teve filhos, mas tinha três irmãos e uma grande família de sobrinhos.

No entanto, as relações com eles eram superficiais: reuniam-se apenas duas vezes por ano — no aniversário da tia e no Natal.

Esses encontros eram mais uma formalidade do que uma verdadeira tradição familiar.

Com o tempo, o caráter da mulher tornou-se severo. O trabalho constante, a solidão e a ausência de pessoas próximas a deixaram mais reservada.

Os únicos que viam seu verdadeiro sorriso e recebiam seu carinho eram os seus cães.

Havia, porém, mais uma pessoa — o sobrinho-neto Sashka, o mais jovem.

Na infância, passava todos os verões com ela, era o seu “neto” preferido, mas, ao crescer, passou a visitá-la cada vez menos, embora ligasse com frequência, perguntando sinceramente por sua saúde.

Quando a saúde de Marta Vassílievna começou a declinar, parentes de todas as partes do país começaram a chegar à sua casa.

O zelo deles não era movido pelo cuidado, mas pela sede de herança.

A idosa entendia isso perfeitamente e apenas observava aquele jogo de hipocrisia.

A enorme casa foi dividida em quartos para cada um, e eles se encontravam principalmente apenas no jantar, quando todos tentavam bajular a dona — oferecendo um copo de água ou ajeitando um guardanapo.

Mas tudo aquilo parecia falso e até ridículo.

À noite, ninguém cuidava dos cães — soltavam-nos no jardim, alimentavam-nos mecanicamente, e só a dona lhes dedicava atenção.

Quando tinha forças, fazia-lhes carinho e permitia que dormissem ao lado de sua cama.

Certa noite, durante o jantar, Marta Vassílievna fez um discurso inesperado.

Disse claramente que conhecia as verdadeiras intenções deles e anunciou: toda a sua fortuna seria de quem cumprisse uma única condição.

Qual seria, ela não especificou. Isso desencadeou uma verdadeira corrida.

Os parentes se esforçavam de todas as formas: chamavam médicos, contratavam cuidadoras, encomendavam iguarias caras, liam contos de fadas antes de dormir.

Mas tudo aquilo parecia miserável e grotesco.

Sashka, no entanto, comportava-se de maneira diferente. Não buscava agradar nem pensava em dinheiro.

Todas as noites beijava a mão de Marta Vassílievna e encostava nela o rosto — para ele isso era o mais importante.

O estado da mulher piorava, a demência avançava.

Às vezes insultava a todos, chamando-os de aproveitadores, mas os parentes suportavam pacientemente seus ataques, apenas para permanecerem próximos da herança.

Sashka, por sua vez, ia passear com os cães até o rio, lembrando sua infância.

Ele amava aqueles cães, e eles lhe retribuíam com lealdade.

Sashka decidiu firmemente: se a avó morresse, levaria os cães com ele.

E então, certa noite, Marta Vassílievna, voltando a si por um breve instante, pronunciou apenas uma palavra: «Sashka…» — e se foi.

Os parentes, em pânico, correram para “salvá-la”, arrancando uns dos outros a máscara de oxigênio, mas era tarde demais.

Mesmo no último momento conseguiram arranjar uma briga.

Após a morte da dona, as máscaras caíram. Ninguém escondia mais a ganância, discutindo sobre quem havia feito mais por ela.

Cada um achava que merecia toda a herança.

Todas essas conversas cessaram no dia da leitura do testamento.

Os parentes reunidos esperavam que os bens fossem divididos igualmente, mas o tabelião leu a última vontade: «Toda a fortuna irá para aquele que for escolhido pelos meus cães».

Na sala entraram César e Barão e, sem hesitar, correram felizes até Sashka, abanando o rabo.

Era ele a verdadeira família deles — alimentava-os, passeava e brincava com eles, enquanto os outros apenas bajulavam a idosa.

Sashka não esperava tal desfecho. Nunca almejara a riqueza, mas o destino decidiu de outra forma.

O jovem vendeu o negócio de flores e abriu sua própria empresa de tecnologia, mas continuou a viver na casa da tia, onde sempre pairava o seu espírito.

Mais tarde, fundou um lar de idosos, quente, acolhedor e verdadeiramente humano.

Ali também havia espaço para os animais de estimação dos velhinhos, que parentes sem coração haviam deixado na instituição.

Assim se cumpriu a vontade de Marta Vassílievna.

Toda a sua fortuna ficou não para quem bajulava e fingia, mas para aquele que realmente a amava, junto com os seus fiéis amigos — César e Barão.