Drama tripla: amor, engano, sofrimento.

Artem estava junto à janela, apertando o telefone na mão e sorrindo com satisfação.

O reflexo no vidro sorria para ele — um homem bem-sucedido, realizado, que hoje se tornaria pai… duas vezes.

Seus pensamentos se embaralhavam, criando um coquetel estranho e vergonhoso de orgulho, medo e antecipação.

— A amante e a esposa foram levadas para o mesmo hospital… — sua própria voz no telefone soava surpreendentemente calma e confiante.

— Vai ficar tudo bem! Crianças são uma felicidade.

Não importa de qual mulher… Tenho certeza que tudo vai dar certo.

Vou dizer à Sveta para ficar calada, não conversar com as vizinhas do quarto.

E minha Anna de qualquer forma não conhece a Sveta pessoalmente.

E minha esposa nem suspeita da existência da Sveta.

Tá bom, amigo, te ligo mais tarde!

Ele desligou e respirou fundo.

Sim, hoje ele se tornaria pai de vários filhos.

Anna tinha gêmeos, Sveta tinha um menino.

Não é motivo suficiente para, à noite, sentar com os amigos e celebrar sua masculinidade bem-sucedida?

Ele se sentia o criador do próprio universo, senhor dos destinos, sortudo e habilidoso.

Ele conseguiu organizar tudo, fazer tudo acontecer.

Parecia que nada poderia estragar sua celebração.

Mas à noite, quando já antecipava o primeiro copo na companhia de amigos fiéis, o telefone tocou.

O nome “Anna” apareceu na tela.

Seu coração disparou por um momento, mas ele se acalmou: provavelmente queria chamar para ver a filha, queria se gabar.

— Com a filhinha está tudo bem, — a voz da esposa era baixa, plana, sem vida, como se viesse do fundo de um poço.

— E o filho… agora é um anjo.

Essas palavras carregavam um abismo de desespero gelado que fez Artem prender a respiração.

O mundo que ele havia construído rachou, e dessa fenda soprava o vento gelado de uma dor inevitável.

— Anna, como assim? O que aconteceu? Eu vou aí agora… O quê?..

— ele falou apressadamente, sentindo o chão desaparecer sob seus pés.

— Não.

Você não será deixado entrar de qualquer jeito.

Espere por nós em casa, — Anna desligou o telefone, sem se despedir, interrompendo a conversa no ponto mais aterrorizante.

No silêncio de sua própria sala, Artem ficou paralisado, incapaz de se mover.

Ele imaginava sua forte e sempre organizada Anna, no quarto do hospital, sozinha com sua dor insuportável.

Ela largou o telefone e soluçou baixinho.

Ela superaria essa dor.

Todos eles superariam.

Só que isso requer tempo.

Mas quanto tempo e esforço monstruoso isso exigiria?

Naquela noite, Artem cancelou todos os compromissos.

A garrafa de conhaque permaneceu intocada.

Em vez de uma companhia barulhenta, ele andava pelo apartamento, tentando inutilmente preparar tudo para a chegada da esposa e da filha.

Seu universo havia desmoronado, e ele ficava impotente entre os destroços.

A Sveta ele não contou nada, apenas parabenizou secamente pelo nascimento do filho.

— Olha, tenho problemas… Não importa, não pense nisso.

Agora o importante é que você e o filho estejam bem… — dizia ao telefone, tentando manter a voz firme.

— Eu não renuncio à paternidade! Eu disse, vou estar na certidão… Resolveremos isso.

Tá, preciso ir.

E vamos combinar, não me ligue nem me escreva por algum tempo.

Eu lembro de você e do filho, só preciso de tempo agora.

Tudo bem?

— Tudo entendido, Artem… Tá, vamos fazer como você disse, — na voz de Sveta havia mágoa e decepção.

Ela entendia que agora toda a atenção dele pertenceria à esposa, à “legítima”, que havia perdido o filho.

Mas ela sabia no que se metia ao se envolver com um homem casado e, por isso, ficou em silêncio, guardando a mágoa no fundo do coração.

Anna, ao voltar para casa, parecia uma sombra.

Ela fazia tudo para a filha mecanicamente, com olhos vazios e apagados.

Olhar para a recém-nascida sem sentir dor era impossível — em cada suspiro, em cada movimento, via o fantasma do segundo filho que perderam.

Mas, no fundo, ela sabia que pelo bem da filha precisava juntar os pedaços de sua alma e tentar seguir em frente.

Artem constantemente insistia nisso.

— Quer marcar psicólogo? Talvez você precise de algum remédio… Para ajudar, — sugeria ele cautelosamente, observando seu rosto apático.

— Talvez, — respondeu Anna baixinho, quase sussurrando, enquanto enrolava a filha.

— Por enquanto vou me virar com práticas espirituais.

— Querida, você prometeu que abandonaria suas coisas de bruxaria, — Artem se irritou, lembrando dos estranhos hobbies da esposa.

— Está tudo bem.

Não se preocupe comigo.

Apenas… você queria tanto uma família grande.

Você queria tanto muitos filhos.

E nosso filho… — sua voz quebrou.

— Chore se isso ajudar.

Eu estarei ao seu lado, — Artem tentou abraçá-la, mas ela se afastou bruscamente, quase desesperada.

— Não.

Lágrimas não ajudarão.

Nada ajudará.

Ele já não pode ser recuperado.

Você pode trazê-lo de volta? Não! Então me deixe sozinha, eu preciso superar essa dor sozinha!

Anna foi para outro quarto, fechando a porta atrás de si.

Artem ficou sozinho, segurando a filha adormecida.

Ela era tão pequena, indefesa e cheirava tão delicadamente a infância e inocência.

— Como isso pôde acontecer? — sussurrou, tentando conter o choro.

— Por que conosco? Por que comigo?

E naquele momento, sentiu, com dor quase física, o desejo de segurar outro filho.

O filho que Sveta lhe dera.

O pensamento era traiçoeiro e horrível, mas apareceu e se instalou nele, atormentando-o.

DOIS MESES DEPOIS

A vida voltava lentamente ao seu curso, mas uma tristeza silenciosa permaneceu para sempre na casa deles.

Anna cantava uma canção de ninar para a filha quando Artem finalmente voltou para casa.

Era muito tarde da noite, ele nem se deu ao trabalho de avisar.

A mulher saiu silenciosamente do quarto e olhou para o marido com olhar cansado e questionador.

— Anna, precisamos conversar.

Sei que não é o momento certo, mas a questão precisa ser resolvida agora, — sua voz tremia, e as mãos visivelmente também.

— O que aconteceu? — havia preocupação em sua voz.

— Eu tenho um filho.

De outra mulher.

Ele nasceu no mesmo dia que nossa filha, — Artem fez uma pausa, tentando controlar a emoção.

— Mas hoje aconteceu uma tragédia… A mãe dele… ela morreu.

Um pedaço de gelo caiu do telhado enquanto ela passeava com o carrinho.

Com a criança está tudo bem, nem foi atingido.

Mas ela… ela não está mais.

Ele soluçou, incapaz de conter as lágrimas.

Anna congelou, olhando para ele com os olhos arregalados.

Sentiu o chão desaparecer sob seus pés e a sala girar lentamente diante de seus olhos.

— Do que você está falando? Aonde quer chegar? — sua própria voz parecia estranha, distante.

— A criança está registrada em meu nome.

Agora há duas opções.

Primeira: eu escrevo a renúncia, e meu filho cresce em um orfanato.

Segunda: nós pegamos a criança e criamos como nosso.

Anna cambaleou e lentamente deslizou para o chão.

Artem se ajoelhou ao lado dela, segurando sua mão fria e sem vida.

Ela não resistiu.

A notícia que o marido trouxe golpeou com tal força que queimou tudo dentro dela — dor, raiva e restos de esperança.

Restou apenas o vazio e o entorpecimento gelado.

— Eu te imploro, eu suplico… Este é meu filho.

Ele é pequeno e precisa de cuidados.

Ele precisa de mãe! Agora ele precisa da mãe, depois do pai.

Digo desde já, e você deve entender, não há volta.

Então pense bem.

Pela manhã, ou no máximo à noite, preciso da sua resposta.

Anna, não é apenas um garotinho.

É meu filho, meu filho biológico.

Quero estar com ele.

Você está pronta para percorrer esse caminho comigo?

— E… onde ele está agora? — perguntou Anna baixinho, cobrindo os olhos, tentando se esconder da realidade insuportável.

— Ele está com a amiga de Sv… a amiga da mãe dele levou o menino para casa.

Ela também teve um bebê recentemente e prometeu ajudar nos primeiros dias.

Eu sei como é difícil para você.

Tudo caiu sobre nós.

Isso… me perdoe, Anna! Estou de joelhos diante de você…

— De manhã vamos buscar o filho.

A que horas essa amiga acorda? Melhor colocar despertador.

Senão vamos perder o horário, — Anna levantou-se do chão lentamente, com esforço sobre-humano, e foi para o quarto sem olhar para o marido.

Artem, atônito com a reação dela, seguiu atrás.

Ele esperava lágrimas, crises, acusações — qualquer coisa, menos aquela calma gelada e antinatural.

Anna agia como se ele tivesse avisado sobre uma ida ao supermercado, e não sobre a maior traição de suas vidas.

Ela não fez escândalo.

Não gritou.

Silenciosamente, colocou o despertador e deitou-se, virando-se para a parede.

Todos os documentos necessários foram preparados com rapidez assustadora.

O pequeno menino, chamado Misha, se acostumava gradualmente à nova casa, à nova mãe, à irmãzinha.

Anna o tratava com uma ternura surpreendente, quase dolorosa.

Parecia que não fazia distinção entre ele e sua filha biológica.

Os dois pequenos se tornaram completamente familiares para ela.

Artem respirava aliviado, pensando que o acidente terrível de algum modo havia devolvido o filho a Anna.

Ele tinha medo de admitir a si mesmo esse pensamento horrível, mas a tragédia veio a calhar.

Ele não precisaria mais se dividir entre duas famílias, mentir ou se esquivar.

Agora seus filhos estavam sob o mesmo teto.

E a esposa parecia tê-lo perdoado.

Tudo se encaixou quase perfeitamente por quase um ano.

Mas depois, coisas estranhas e assustadoras começaram a acontecer com Anna.

Ela organizava as crianças para passear.

Irmão e irmã, dois pequenos furacões, corriam pelo apartamento, tirando meias-calças e blusas recém-vestidas, rindo e se divertindo com a impunidade.

Anna já estava exausta.

— Isso! — gritou Artem severamente, aparecendo na porta.

— Criançada, parem de enlouquecer a mamãe.

Sentem-se direito e vamos nos preparar para o passeio.

— Oh, Artem, pare.

Eles não vão se sentar quietos.

São crianças.

Mas tudo bem, logo vão crescer e se vestir sozinhos.

E nós… só resta esperar.

Mas eu já estava pronta para que nossos gêmeos fossem muito ativos.

Eles chutavam tanto na barriga que me quebraram algumas costelas antes de nascerem.

Artem olhou para a esposa com crescente preocupação.

Ela, segundo os documentos, era mãe das duas crianças.

E eles concordaram entre si em não contar a ninguém sobre a origem de Misha.

Mas Anna sabia muito bem que aquele não era seu filho biológico.

Então por que ela fala sobre como “eles” chutavam? Era uma tentativa de se aproximar, apagar a diferença? Ou algo mais preocupante? Talvez ela precise mesmo de um psicólogo? E ele também não deveria procurar um — quanto mais Misha crescia, mais se parecia com Sveta.

Só de pensar nisso, o coração de Artem apertava.

Pobre, pobre Sveta…

Anna vestiu as crianças com um sorriso.

Colocou um cachecol rosa na filha e um azul no filho.

O menino puxava insatisfeito o tecido de lã áspero.

— Não enrole meu filho! — ouviu-se um sussurro suave, mas claro, atrás dele.

Artem se virou bruscamente.

Não havia ninguém na sala além deles.

— O que quer dizer com “meu filho”? Está ventando muito, — disse Anna, sem olhar para trás, ajustando o cachecol.

— E o que significa “seu filho”? É NOSSO filho! Eu o gerei e sei muito bem como vestir as crianças conforme o tempo!

— Anna, o que você está fazendo? — perguntou Artem assustado, sentindo arrepios na espinha.

— Eu não disse nada.

— Disse.

Eu ouvi.

Você disse: não enrole meu filho, — agora Anna se assustou.

Ela claramente ouviu as palavras, mas soaram baixas, como um sonho ou um delírio.

Artem decidiu não insistir no assunto, mas um frio sólido de preocupação se instalou em sua alma.

Algo definitivamente não estava certo com a esposa.

E seus próprios nervos estavam à flor da pele.

Ele começou a se lembrar cada vez mais de Sveta.

Seu riso, seu olhar.

Sentia-se terrivelmente culpado — com ela, com Anna, com todos.

Ele estava vivo, saudável, seus filhos cresciam ao seu lado, e ela não estava mais lá.

E esse pensamento o consumia por dentro.

Certa vez, ele voltou do trabalho tarde, cansado e exausto.

Só sonhava com silêncio, um banho quente e a cama.

Naquele dia, apareceu uma nova funcionária no escritório — Lenochka…

Jovem, muito bonita, com um olhar astuto e promissor.

Ela passou o dia inteiro girando ao redor dele, esbarrando “por acaso”, piscando os olhos.

Ainda há um ano, ele talvez tivesse caído nessa armadilha.

Mas depois da história com Sveta, a ideia de um novo romance, de uma nova mentira, provocava nele apenas náusea e repulsa.

Ele friamente rejeitou a beleza, e isso o irritou profundamente — irritou consigo mesmo, com sua fraqueza, com toda essa situação.

No corredor, ele encontrou Anna.

Ela estava imóvel, como uma estátua, olhando para ele com um olhar calmo, mas penetrante.

— Eu aviso: se você tiver outra mulher, você não verá mais nem a mim nem os gêmeos.

Você queria uma família grande, muitos filhos, não é? Então, mais um caso de infidelidade — e você terá que começar de novo… reconstruir a família.

Artem sentiu novamente um medo gelado.

Ela disse “gêmeos” de novo.

E ele estava mortalmente assustado com a possibilidade de alguém contar a ela sobre Lenochka.

Como mais ela poderia descobrir? A ideia de que estavam vigiando-o, de que sua vida estava sob controle, era insuportável.

— Eu não tenho ninguém.

E não posso ter, — respondeu ele cansado, quase automaticamente.

— Você marcou psicólogo?

— Não preciso dele.

Estou bem, — Anna dispensou.

— Coloquei as crianças para dormir.

Sente-se na cozinha por enquanto, jante.

Não entre no quarto.

— Por quê? — Artem esticou o pescoço, tentando ver algo no quarto escuro.

A luz do poste captou uma cena estranha: no chão, velas altas e finas queimavam, havia um livro grosso e gasto, uma tigela de metal e… uma faca.

— O que você está fazendo aí? O que é isso? — tentou afastar a esposa e entrar, mas ela se agarrou ao batente da porta, defendendo ferozmente seu espaço.

— Preciso realizar um ritual, — ela sussurrou, e nos olhos dela queimava um fogo selvagem e desconhecido.

— Você não tem direito de entrar!

— Que ritual? Do que você está falando? Que absurdo!

— Sveta está me perseguindo…

Ela fala comigo e não me deixa interagir normalmente com meu filho, — Anna se colocou em posição defensiva, pronta para lutar até o fim.

— Se eu não fizer isso, algo terrível pode acontecer.

Eu sinto, sinto!

— Querida, você prometeu que não praticaria magia negra! Nós combinamos! Isso é perigoso! — ele suplicou, sentindo o pânico apertar sua garganta.

— E você prometeu que seria fiel.

E agora? — o grito dela foi brusco, histérico, apesar das crianças dormindo no quarto ao lado.

— Senhor… Achei que já tínhamos resolvido isso.

Está tudo acabado.

— Claro que resolvemos.

E tive sorte de tudo ter saído como eu planejei, — disse Anna com um sorriso distante e arrepiante.

— Caso contrário… Caso contrário, nós agora não seríamos pais felizes dos gêmeos…

O silêncio pairou no ar, denso e ameaçador.

Artem sentiu o sangue gelar em suas veias.

— O que você disse? Não entendi, qual é a relação disso com você? O que você planejou? — ele se aproximou devagar, como se temesse assustar a terrível suspeita.

— Você tem alguma relação com o que aconteceu com Sveta?

Anna olhou para ele abatida, e em seus olhos brilhou um medo genuíno e primitivo.

Ela conseguiu guardar seu terrível segredo por tanto tempo… e agora, com suas próprias palavras, abriu as portas para aquele pesadelo.

Ela fechou os olhos, e a memória, contra sua vontade, a levou de volta à maternidade, ao quarto onde tudo começou…

Anna silenciosa, com olhos vazios, acariciava minúsculos sapatinhos azuis.

Enquanto isso, sua filha chorava lamentavelmente em seu berço.

O conjunto de roupas para o filho recém-nascido ainda estava na bolsa.

Hoje ela só conseguiu vestir um de seus filhos.

A dor era tão avassaladora que não havia espaço nem para lágrimas.

— Amiga! Ei, amiga! — uma voz suave a tirou do torpor.

— Eu entendo… Embora, não.

Não entendo e não consigo imaginar o que você está sentindo agora.

Não desejo isso a ninguém.

Mas você tem uma filha.

Ela é pequena e precisa muito de você.

Olhe como ela chora tristemente.

Está com fome, provavelmente.

Ajude-a, e ela ajudará você.

Anna se virou lentamente.

Atrás dela estava a colega de quarto, balançando desajeitadamente seu bebê recém-nascido.

— Sim, obrigada.

Claro, você tem razão.

Preciso cuidar da minha filha, — Anna se levantou abruptamente da cama, obedecendo à vontade alheia como um autômato.

Quando a bebê satisfeita adormeceu, um sorriso fraco e quase imperceptível surgiu nos lábios de Anna.

Depois, ela olhou para a colega com gratidão.

Um cuidado simples, cotidiano, a afastou por um momento do abismo da dor e a lembrou de seu dever.

A colega sorriu em resposta e sussurrou:

— Tudo bem.

Tudo certo.

É preciso ocupar a mente e as mãos para que a dor seja menor.

Meu nome é Sveta, aliás.

E vamos de “você”.

— Anna… E seu primeiro filho?

— Primeiro.

E acho que o último.

Sabe, agora não deixarei esses homens chegarem perto de mim.

— Espero ainda ter filhos.

E meu marido quer uma família grande.

— Viu, você tem marido… E o pai do meu bebê já tem família.

Esposa e filhos.

Também acontece… Desculpe, sei que é desagradável ouvir isso.

Mas Anna apenas deu de ombros.

Um sentimento estranho de alívio surgiu nela de repente.

Descobriu que nem tudo neste mundo é perfeito e sem nuvens.

Alguém também sofre, alguém também comete erros.

Esse pensamento, por mais horrível que parecesse, suavizou um pouco sua própria dor.

— Sim, acontece.

Não culpo, — mentiu para ouvir a continuação.

— E é bom que não culpe… Eu não planejava nenhum relacionamento, me queimei de alguma forma.

Mas queria filhos.

E então ele apareceu.

Um bom homem.

Abastado.

Casado.

Decidimos tudo na praia.

E sobre os filhos também.

Ele ficou satisfeito, pois eu não invadiria sua família.

E ele queria herdeiros.

E, ao que parece, não importa de qual mulher.

O importante é ter muitos filhos.

Curioso…

Anna de repente sentiu o coração apertar.

Uma sensação vaga, mas intensa de desgraça surgiu.

Ela olhou fixamente para Sveta.

Ela, nesse momento, estava distraída com uma mensagem que acabara de chegar no telefone.

— “Como vocês estão?” — leu Sveta em voz alta.

— “E por favor, não seja muito aberta com as colegas de quarto.

Minha esposa está na mesma maternidade.”

— “Ok”, — respondeu Sveta secamente, e uma careta de insatisfação apareceu em seu rosto.

Era visível que a situação a incomodava cada vez mais.

— Qual é o nome do seu… desse homem? — perguntou Anna, e sua voz tremeu.

— Hã? — Sveta desviou os olhos do telefone.

— Artem.

Ele se chama Artem.

O mundo desabou para Anna naquele instante.

Quando Sveta adormeceu, ela se aproximou do berço.

Por muito tempo, até a dor nos olhos, olhou para o rosto do bebê alheio, procurando traços familiares.

Depois, com mãos trêmulas, pegou o telefone de Sveta.

Não havia senha.

E tudo se confirmou.

As últimas mensagens, fotos… O pai daquele menino era seu Artem.

Foi com ele que aquela mulher “se divertiu” no último ano, enquanto Anna carregava seus filhos no ventre.

— Ela queria filhos, — Anna fechou os punhos, e uma fúria fria e avassaladora subiu em sua alma.

— Mas não queria destruir uma família!

Ela discretamente pegou a pequena proteção anti-arranhão do punho do bebê e cuidadosamente pegou do travesseiro um fio longo e loiro de Sveta.

Ainda não sabia exatamente como usaria essas coisas, mas tinha absoluta certeza: o momento delas chegaria.

E decidiu firmemente que não contaria nada a Artem.

Enquanto não tivesse um plano de vingança pronto, a relação dele com Sveta deveria permanecer um segredo.

E sua hora chegou alguns meses depois.

— Querida, hoje vou chegar tarde.

No trabalho, uma correria.

A reunião só começa às seis da tarde…

Acho que não chegarei antes da meia-noite, — Artem se apressava para o trabalho, sem olhar para ela.

— Sim, claro.

Eu entendo, — Anna percebeu perfeitamente que o marido iria para a casa de Sveta.

Quando a porta se fechou, um sorriso sombrio e triunfante se espalhou em seu rosto.

Ela tirou do esconderijo um antigo livro gasto, escondido do marido — uma herança de sua avó, que conhecia bem as artes sombrias.

E encontrou nele aquilo que procurava.

— Desculpe, meu amor.

Você não tem culpa de nada.

Mas sua mãe agiu muito mal comigo.

Por isso, vou fazê-la sofrer ainda mais.

Mas não se preocupe, cuidarei de você.

Você se tornará meu bebê.

Substituirá meu filhinho, que dorme entre as nuvens.

Ela beijou o talismã anti-arranhão, e colocou um fio de cabelo de Sveta em uma tigela de metal.

Tudo estava pronto para o ritual terrível.

Só restava pronunciar as antigas e proibidas palavras…

— O quê? O que você disse? Você está envolvida nisso? — a voz de Artem tremia de horror.

Ele olhou para a esposa, sem acreditar no que via em seus olhos.

— Não.

Claro que não.

Quis dizer que planejei criar seu filho como meu… E estou conseguindo… — Anna se virou, mas já era tarde.

A sombra da verdade passou entre eles, e era impossível escondê-la.

Artem suspirou profundamente.

— Certo.

Sim.

Eu pensei isso mesmo.

Ele lançou mais um olhar para os estranhos objetos no quarto.

Ele não acreditou nela.

Mas descobrir a verdade ali, naquele meio-escuro, com alguém que talvez tivesse ultrapassado o limite mais terrível, era mortalmente perigoso.

Seus pensamentos estavam confusos.

Se ela é capaz de tal coisa… o que poderia fazer com ele? Com as crianças? Ela precisava ser detida.

Neutralizada.

Mas como?

— Anna, hoje estou muito cansado.

Por favor, faça seu ritual amanhã.

Agora quero descansar.

A mulher apenas assentiu em silêncio.

Mesmo assim, tal ato exige silêncio e privacidade.

Ela faria isso depois.

Algum dia, quando ele saísse para passear com as crianças.

Pela manhã, a cozinha estava cheia da habitual correria.

Anna se ocupava no fogão, as crianças terminavam o café da manhã, Artem bebia o café.

E de repente…

— Basta! — o grito penetrante de Anna quebrou a paz matinal.

— Basta! Não se intrometa na minha família!

Ela pegou uma faca de pão da mesa e a sacudiu no ar, impotente, falando para o vazio.

As crianças começaram a chorar de medo imediatamente.

Artem, horrorizado, as pegou e levou para o lado.

Anna continuava no meio da cozinha, agitando a faca e ameaçando um inimigo invisível.

— Não tenho mais medo, — veio até ela um sussurro zombeteiro que só ela podia ouvir.

— A faca não me assusta!

— Fora! — ela gritou novamente, e havia loucura em seus olhos.

Enquanto a esposa se debatia pela cozinha, chorando e gritando, Artem, com mãos trêmulas, se trancou no quarto com as crianças e ligou para o serviço de emergência.

Tudo aconteceu muito rápido.

A equipe chegou, e Anna caiu nas mãos de estranhos, fortes.

Ela se debatia, chutava, xingava todos, continuando a ameaçar o fantasma de Sveta.

E aquele, invisível para todos, exceto ela, seguia-a de perto, sussurrando silenciosamente palavras terríveis ao ouvido.

— Ninguém vai acreditar em você… Ninguém acreditará… Melhor se calar, caso contrário a quantidade de remédios que te derem vai te impedir de falar… Acalme-se, Anna, eu vou cuidar de você…

— Ela enlouqueceu completamente! Tenho medo por mim e pelas crianças, — Artem, pálido e confuso, dizia ao amigo por telefone.

— E eu pedi a ela, logo após voltar da maternidade: vá ao psicólogo, ajude-se… E agora? Está no hospital… Sim, ela mesma assinou todos os papéis, concordou com o tratamento… Não sei, o médico dá de ombros.

Diz que a terapia não ajuda.

Está piorando.

Ouve vozes na cabeça…

Sim, minha esposa terá que se tratar por mais tempo.

Nesse estado, ela não pode ficar com as crianças.

Nada ajudava Anna.

Ela ou estava em completo vazio ensurdecedor, ou ouvia apenas a voz de Sveta.

Esta não a deixava por um passo, tornando-se sua eterna e amaldiçoada companheira.

— Agora estou com você… Não sei por que não consigo ir até as crianças.

Mas, provavelmente, você é meu castigo.

E eu sou o seu…

— Vá embora, por favor, cale-se! Minha cabeça vai explodir, — Anna sussurrou fraca, quase sem som, sem perceber que a enfermeira ao lado anotava cuidadosamente algo em seu prontuário.

— Sveta, poupe-me.

Eu cuido de nossas crianças.

— Não posso ir embora.

Estou ligada a você.

Mas não se preocupe.

Não vou incomodar muito.

Apenas, às vezes, conversamos e pronto.

Eu entendo como você se sente agora.

Sozinha, sem apoio.

Mas eu vou te dar isso, — o fantasma soltou um riso silencioso.

Anna, desesperada, tentou agarrar a visão aérea.

— Ai, já chega! Senão vão me obrigar a usar uma camisa de força.

Anna fechou os olhos, derrotada.

E as crianças? E Artem? E ela… o que acontecerá com ela? Haverá algo em sua vida além das intermináveis paredes do hospital, do cheiro de remédios e do sussurro fantasmagórico?

De repente, sentiu uma amargura e tristeza insuportáveis.

Era uma injustiça monstruosa! Ela, enganada, traída, levada ao desespero — aqui, em cativeiro.

E ele, o culpado, a fonte de toda essa dor — em casa, com as crianças.

Livre.

Livre para fazer o que quiser.

— Todos são livres para fazer o que querem, — Sveta leu seus pensamentos com prazer.

— Só não se deve esquecer dos limites que você não pode ultrapassar.

Você quis me punir por um ato horrível, sim, admito, muito horrível.

Mas por algum motivo decidiu que tinha o direito de tirar minha vida.

Respondeu ao mal com um mal ainda maior, o mais terrível.

Justo? Pense nisso quando invejar Artem.

Anna fechou os punhos e chorou silenciosamente.

Sveta estava certa? Talvez.

Mas essa ideia não trazia alívio.

Apenas piorava.

Mais desesperador.

— Humm, — a voz do fantasma soou quase consoladora.

— Artem é comum, um homem fraco como qualquer outro.

Podemos culpá-lo, odiá-lo, querer vingança.

Mas como será seu destino, não cabe a nós decidir.

Cada um pagará por seus próprios pecados.

Mais cedo ou mais tarde, isso acontecerá.

Acredito que já estou pagando pelos meus.

Você também, imagino… Aliás, com Artem está tudo bem por enquanto.

É assim que acontece, não é? Faz a confusão e quem resolve não é ele… Pois bem, esse é o destino.

Destino… Como correntes de ferro, prendendo a vontade.

Artem logo voltou a se envolver com a Lenochka do trabalho.

Ela aceitou com alegria cuidar de seus filhos, e depois teve mais uma criança para ele.

Mais tarde, o pai de muitos filhos conheceu Lyuba.

A mulher deixou seu filho em comum para o pai e saiu em busca de um novo amor.

Dez anos depois, Lera entrou em sua vida.

Mas ela nunca conseguiu dar um filho a ele.

Ou não quis.

E Anna estava sentada em uma cama rangente do hospital.

Por causa do excesso de medicamentos fortes, falava baixinho e de forma incompreensível, preferindo manter diálogos intermináveis com sua invisível e eterna companheira mentalmente.

Parecia que esta a entendia.

Ou apenas fingia que entendia.

Ou talvez nunca houvesse nenhuma Sveta.

Nem seus sussurros, nem suas zombarias.

Talvez tudo fosse apenas fruto de sua própria mente, exausta, consumida pela culpa e dor, mergulhando lentamente na escuridão, tentando encontrar uma explicação para o pesadelo que sua vida se tornara.

E nessa escuridão silenciosa e desesperadora, não restava nada além de fantasmas do passado e da amarga percepção do preço a pagar por erros, mentiras e pela tentativa de controlar o que pertence apenas ao destino…