O telefone tocava insistentemente, como se quisesse abrir caminho através do silêncio em que Elena tinha ficado presa.
Ela estava sentada no chão, com os joelhos abraçados, e chorava em silêncio.

Diante dos olhos, via o rosto daquela garota: perdido, assustado, mas ainda assim culpado.
Liócha… o seu Liócha… Será que é mesmo verdade?
— Esqueceu alguma coisa? — disse ela ao telefone, tentando fazer a voz soar calma.
— Não consegui dormir, — respondeu Alexei.
— Meu coração está inquieto.
Está tudo bem aí em casa?
Quem foi que esteve aí?
Eu ouvi a campainha.
— Veio a sua… conhecida, — disse Elena com dificuldade.
— Que conhecida? — na voz do marido surgiu uma nota de tensão.
— Uma jovem loira com uma mala.
Disse que veio morar aqui com você.
Do outro lado da linha caiu um silêncio sepulcral.
Até a respiração do marido pareceu desaparecer.
— Continua calado, Liócha, — disse ela bruscamente.
— Eu já entendi tudo mesmo assim.
— Lena, por favor, deixa eu explicar…
Não é aquilo que você está pensando.
— Não é aquilo?! — explodiu ela.
Ela morou aqui enquanto eu estava no mar com o Nikita!
Não é “aquilo”, é?
Ou talvez eu tenha inventado a mala no corredor e as lágrimas nos olhos da garota?
Os segundos passavam pesados como chumbo.
Depois ouviu-se um sussurro:
— Me perdoa.
Uma única palavra.
Curta.
Devastadora.
Elena sentiu algo se romper dentro do peito.
— Me perdoa? — repetiu ela.
E o que é que eu faço com esse “me perdoa”?
Onde é que eu ponho isso?
No coração?
Na cama em que você a abraçava?
Ele ficou em silêncio.
— Eu não queria, — conseguiu dizer por fim.
— Aconteceu por acaso.
— Por acaso? — ela riu com amargura.
Você tropeçou e caiu nos braços de outra?
Ela jogou o telefone no sofá.
O mundo ficou oco, como se ela tivesse ficado dentro de uma concha enorme e vazia.
Depois de alguns minutos, ouviram-se os passos de Nikita atrás da parede.
— Mãe, por que você está chorando?
— Está tudo bem, meu amor, vai dormir, — conseguiu dizer.
— Só estou cansada.
Quando o filho saiu, Elena se levantou e foi até a janela.
A cidade continuava a viver a própria vida: em algum lugar riam, em outro se despediam, em outro juravam amor.
Dentro dela, porém, parecia ter desabado uma casa construída vinte anos antes.
No reflexo do vidro ela viu o próprio rosto — cansado, com o rímel borrado — e disse baixinho:
— Pronto, Liócha.
Agora tudo é diferente.
Ela sabia que o dia seguinte seria longo.
Teria que decidir o que fazer a seguir: perdoar ou ir embora.
Só que não tinha forças para perdoar.
A noite foi em claro.
Elena se levantava e sentava de novo, sem conseguir encontrar paz.
Repassava na cabeça cada palavra, cada olhar do marido nos últimos meses.
Agora muita coisa começava a fazer sentido: a frieza dele, as viagens repentinas a trabalho, o telefone desligado.
Nada daquilo era “trabalho”, e sim mentira.
Mentira cuidadosamente embrulhada em cuidado.
De manhã ela já não chorava.
As lágrimas tinham acabado, restavam apenas o vazio e uma estranha calma.
Quando se ouviu o som da chave na fechadura, Elena nem sequer sobressaltou.
— Lena? — chamou Alexei em voz baixa.
— Entra, — respondeu ela friamente, parada à janela.
— Eu achei que você só ia chegar amanhã.
— Eu não consegui esperar, — disse ele.
— Dirigi a noite inteira.
A gente precisa conversar.
Ele parecia cansado, com o rosto abatido.
Mas isso já não a tocava.
— Conversar?
Depois de tudo isso? — ironizou ela.
Sobre o quê exatamente, Liócha?
Sobre como é conveniente mentir?
Ou sobre como é olhar nos olhos da esposa e contar historinhas sobre reuniões?
Ele se aproximou, estendeu a mão, mas ela se afastou.
— Eu errei.
De um jeito idiota, infantil, — disse ele.
— Não significou nada.
— Errou? — interrompeu Elena.
Você chama traição de erro?
Sabe o que isso é para mim?
O fim de tudo.
— Lena, — a voz dele tremeu.
Eu realmente amo você.
Só que… tudo tinha ficado meio igual demais.
Trabalho, casa, cansaço.
E ela apareceu de repente: atenciosa, jovem.
Eu nem percebi como me deixei envolver.
Foi fraqueza, não amor.
Elena fechou os olhos.
A vida inteira lhe disseram que casamento é paciência, que maridos erram, mas esposas devem perdoar.
Só que agora ela sentia algo se quebrar dentro de si, algo que já não dava para consertar.
— Fraqueza? — sussurrou.
E eu então, o que fui para você?
Uma força que pode ser enganada?
Ou só um hábito?
Ele ficou calado.
Olhava para o chão como um aluno culpado.
Nikita entrou no quarto, esfregando os olhos.
— Pai! — exclamou feliz e correu até ele.
Alexei ajoelhou-se e abraçou o filho.
Elena virou o rosto.
Ver o filho se apertar contra o pai que tinha traído a família era insuportável.
— Mãe, por que você está triste? — perguntou Nikita.
— Está tudo bem, meu amor, — respondeu ela.
— O papai só está cansado.
Quando o menino saiu, voltou a cair entre os dois um silêncio pesado.
— Eu vou sair por um tempo, — disse Alexei.
— Me dá uma chance de consertar tudo.
— Consertar? — Elena sorriu com amargura.
E como é que você pretende consertar o que destruiu?
Nós éramos uma família, Liócha.
Você apagou tudo com um único gesto.
Ele ia dizer alguma coisa, mas ela levantou a mão.
— Chega de palavras.
Estou cansada.
Vai embora antes que eu perca o controle.
Ele ficou parado alguns segundos, depois abaixou o olhar, pegou o casaco e saiu.
Quando a porta se fechou atrás dele, Elena sentiu pela primeira vez o quanto era realmente assustador estar sozinha.
Mas ainda mais assustador era viver na mentira.
Passou uma semana.
A casa ficou estranhamente silenciosa.
As coisas de Alexei tinham desaparecido: ele pegou o indispensável e foi morar com os pais.
Elena não ligava nem mandava mensagens.
À noite ela simplesmente se sentava à janela, ouvia o filho brincar no quarto ao lado e tentava entender em que momento, exatamente, tudo tinha começado a dar errado.
Às vezes, parecia-lhe que a vida tinha se dividido em “antes” e “depois”.
Antes — as risadas, o cheiro de café pela manhã, os cafés da manhã em família, a voz clara do marido.
Depois — o vazio e o cansaço.
— Mãe, o pai vai voltar? — perguntou certo dia Nikita, sem tirar os olhos do notebook.
Elena suspirou.
— Eu não sei, filho.
Talvez.
— Mas vocês não brigaram para sempre, né?
— Às vezes as pessoas precisam de tempo para entender tudo, — disse ela.
O importante é que nós dois estamos juntos.
À noite Alexei telefonou.
A voz dele estava baixa, meio quebrada.
— Lena, eu entendi tudo.
Quero voltar para casa.
Não por costume, mas por você e por Nikita.
Ela ficou em silêncio.
— Eu não peço que você me perdoe de imediato, — continuou ele.
Só me deixa tentar ser de novo quem eu era.
Elena saiu para a varanda.
A neve caía devagar, pousando no corrimão.
— Sabe, Liócha, — disse ela, — o perdão não é uma porta que você possa abrir quando quiser.
É um caminho.
Eu estou seguindo por ele, mas não sei aonde ele vai me levar.
— Eu vou esperar, — respondeu ele.
E, pela primeira vez em muitos dias, ela se sentiu um pouco mais leve.
Passou um mês.
Certa noite, Elena voltava do trabalho para casa.
Na porta do prédio estava Alexei, com um buquê de lírios brancos e um olhar apreensivo.
— A gente pode conversar? — perguntou ele.
— Fala.
— Eu vendi o carro, paguei a dívida do apartamento da sua mãe, arranjei outro trabalho.
Quero recomeçar do zero.
Mas só se você… se você permitir.
Ela o olhou por um longo tempo.
Nos olhos dele já não havia nenhuma autoconfiança, apenas cansaço e sinceridade.
— As pessoas não mudam rápido, — disse ela.
Mas talvez nós dois consigamos aprender a viver de novo.
Ele deu um passo em direção a ela, mas Elena o deteve com a mão.
— Sem promessas.
Sem “para sempre”.
Só… vamos tentar.
Pelo Nikita.
Por nós.
Alexei assentiu e, naquele momento, pareceu correr de novo entre eles uma faísca quente, mas não mais a de antes: outra, adulta, cautelosa.
Mais tarde, enquanto colocava o filho para dormir, Elena pensou em como é tênue a linha entre o amor e a dor.
Talvez o destino lhes tivesse dado uma chance não para que tudo voltasse a ser como era, mas para que entendessem o preço da confiança.
Ela se aproximou do espelho e, pela primeira vez em muito tempo, sorriu.
— Eu vou superar tudo, — disse baixinho para si mesma.
Até isso.
Do lado de fora, a neve caía, cobrindo as marcas dos erros de ontem.
E na casa voltava a haver cheiro de vida.







