O que aconteceu naquela noite de casamento mudou para sempre o destino não apenas do velho fazendeiro, mas também da jovem de vinte anos que ele tomou por esposa por causa do filho, pela continuidade da linhagem, pela ilusão de juventude que escapava de suas mãos como água entre os dedos.
Quando ele a conduziu ao quarto, impregnado do cheiro de madeira antiga, de caros óleos herbais e de pesadas colchas de seda, a garota apertou os dedos tão forte que as unhas se cravaram na pele.

Ela se sentia como um pássaro colocado numa gaiola dourada.
Muito luxo, e de liberdade — nem uma gota.
— Não tenha medo, — sussurrou ele, tentando falar com suavidade, embora na voz se ouvisse o orgulho de um homem confiante em si e nas próprias forças.
— Hoje começará um novo capítulo da nossa vida.
Mas, quando ele se aproximou, estendeu a mão para ela, apoiou-se nos travesseiros para parecer mais jovem do que era, de repente soou um ruído curto e estranho — como se uma corda esticada demais tivesse se partido.
O velho ficou imóvel.
Sua mão estremeceu.
Por um segundo, pareceu-lhe que o quarto oscilou.
A garota recuou assustada.
— O que há com você? — sussurrou ela, sentindo que algo tinha dado errado.
Ele quis responder, mas os lábios lhe tremeram — e no instante seguinte desabou, como se a vida tivesse abandonado seu corpo.
Os olhos se reviraram, a respiração se descompassou.
A garota gritou, lançando-se para ele.
— Meu Deus… o que é isso?.. — Ela o sacudia pelo ombro, esquecida de tudo.
O medo venceu a submissão.
O velho tombou na cama, batendo a têmpora na cabeceira entalhada.
O sangue brotou num fio fino.
Ela gritou tão alto que os criados acorreram em questão de segundos.
No quarto irrompeu a filha mais velha do velho — Marfa, uma mulher de olhar pesado e caráter autoritário.
— O que você fez com ele?! — rosnou ela, vendo o pai imóvel e pálido como giz.
— Garota! O que foi que você aprontou com ele?!
— Eu… eu não fiz nada… ele… foi sozinho… — A garota mal conseguia falar, sufocada em lágrimas e pânico.
Mas nos olhos de Marfa já cintilava o ódio — não à situação, e sim à própria garota, à sua juventude, à sua possibilidade de dar à luz aquele mesmo filho que as filhas não puderam dar ao pai.
Os criados trouxeram o médico, um idoso doutor distrital.
Ele se curvou demoradamente sobre o velho, auscultou, apalpou, balançou a cabeça.
Depois soltou um suspiro pesado:
— Ele está vivo.
Mas… o choque foi forte.
O coração é fraco.
Precisa de repouso.
Repouso absoluto.
E sem… — lançou um olhar rápido à jovem esposa, — sem contratempos.
Marfa apertou os lábios.
— Só faltava essa… acabar de vez com o pai, — sibilou.
A garota soluçou, mas permaneceu calada.
Ela sentia o círculo de desconfiança e rancor se fechar lentamente ao seu redor.
Naquela noite, dormiu num banco duro junto à porta do quarto, sem pregar os olhos.
Cada ruído, cada gemido do marido enfraquecido a fazia levantar.
Mas pela manhã aconteceu um novo abalo.
O velho, mal recobrando os sentidos, pediu que todos saíssem e, com um gesto, chamou só a ela.
— Menina… — murmurou rouco.
— O que aconteceu… não foi acaso.
Querem me tirar do caminho.
E você — agora também está em perigo…
As mãos da garota tremeram.
— Quem?..
Ele expirou com esforço:
— Alguém dos meus… dos meus próprios…
E antes que conseguisse dizer um nome — a porta se escancarou.
A porta se abriu tão bruscamente que a garota sobressaltou-se.
No limiar estava Marfa — o rosto severo, os olhos cheios de suspeita e fúria contida.
Ela percorreu com o olhar o pai e a jovem esposa, sentada ao lado dele no chão.
— Pai, você precisa de repouso, — pronunciou Marfa em tom de quem já se apossou do direito de decidir do que cada um precisa.
— E ela… ela não tem nada que fazer aqui.
— Saia, — disse inesperadamente o velho, com firmeza.
— É uma ordem.
Marfa ficou imóvel.
Alguns segundos de silêncio ficaram suspensos no ar.
Só a respiração rouca do velho rasgava o ambiente.
— Como queira… — respondeu Marfa lentamente, com veneno na voz.
— Mas não se esqueça de quem esteve ao seu lado por muitos anos, quando ela nem tinha nascido.
A porta se fechou, deixando a garota e o marido a sós.
Ele virou a cabeça com dificuldade e sussurrou baixinho:
— Elas não querem um herdeiro.
Nenhuma delas.
As palavras caíam pesadas como pedras.
— Mas… por quê? — perguntou a garota, sentindo o medo subir do ventre à garganta.
Ele sorriu fracamente, mas havia mais amargura do que calor no sorriso.
— Pensam que, se eu tiver um filho, toda a herança irá para ele.
E os filhos delas… ficarão sem nada.
A garota baixou os olhos.
Ela não pensava em dinheiro.
Pensava no fato de terem-na dado em casamento a um homem que podia ser seu avô.
No dever.
No medo.
Na escuridão em que se viu.
Ele continuou:
— Por isso, menina… tenha cuidado.
Aqui cada passo está à vista de todos.
E cada passo… é perigoso.
A mão dele amoleceu.
Ele estava cansado.
A garota sentou-se ao lado, ajeitou-lhe a coberta, umedeceu-lhe os lábios com água.
Pela primeira vez, viu nele não o velho rico e nem o dono de seu destino, mas um homem indefeso, tornado refém da própria família.
Alguns dias depois o velho ficou um pouco mais forte.
Instalou-se na casa um silêncio de apreensão.
Os criados andavam na ponta dos pés e falavam em sussurros.
As filhas — Marfa, Dária e Evdóquia — vinham todos os dias, tentando descobrir do pai o que ele pretendia fazer com a herança.
O velho se esquivava das respostas.
Mas certa noite, quando a garota levava a comida para ele, ouviu, detrás da porta do quarto, vozes alteradas.
— Você não precisa de um filho! — gritava Marfa.
— Você precisa de nós!
Nós — o seu próprio sangue!
— E ela? — interrompeu bruscamente Evdóquia.
— Essa pobrezinha?
Ela veio aqui só por dinheiro!
A garota ficou estática, como fincada no chão.
Um aperto doeu no peito.
E então a voz do velho — fraca, mas firme:
— Ela veio… porque eu a chamei.
E só ela… não deseja a minha morte.
Essas palavras foram como um golpe.
As irmãs emudeceram.
Depois a porta se abriu, e Marfa viu a garota parada com a bandeja.
— Está escutando às escondidas? — sibilou Marfa.
— Que habilidosa… silenciosa… conveniente, não?
Passou por ela tão perto que roçou o ombro da garota.
— Mas eu não confio em você, — sussurrou.
— E nunca vou confiar.
A garota entrou no quarto.
O velho recostou a cabeça e fechou os olhos.
— Não as tema, — disse quase sem voz.
— São elas… que têm medo de você.
— De mim? — Ela não acreditou.
— Sim.
Porque você — é o fim delas.
Se nascer um filho… tudo mudará.
A garota baixou o olhar.
E nesse momento, pela porta entreaberta, ela viu uma sombra.
Alguém estava no corredor, ouvindo.
Alguém que não queria que a verdade chegasse até a manhã…
A sombra sumiu tão rápido quanto apareceu, como se tivesse se dissolvido na escuridão do longo corredor.
Mas a garota sentiu na pele: a desgraça já estava muito próxima.
A casa tinha se tornado um redemoinho que a puxava cada vez mais para o fundo.
À noite, demorou a conseguir adormecer.
O velho respirava pesado, áspero.
Do outro lado da parede, as tábuas estalavam, como se alguém pisasse com cuidado no corredor.
Ela se levantou e olhou para fora em silêncio, mas não viu ninguém.
Ainda assim, a inquietação crescia em seu peito.
Pela manhã o velho conseguiu erguer-se um pouco.
O rosto estava pálido, encovado, mas nos olhos ardia uma chama teimosa.
— Hoje, — disse ele, — vou ditar um novo testamento.
Essas palavras soaram como um trovão.
A garota nem teve tempo de perguntar o que ele pretendia mudar, quando Marfa entrou no quarto sem bater.
— Nós ouvimos, pai, — disse ela friamente.
— Tem certeza de que agora é a hora certa para tomar tais decisões?
Ele a fitou longamente com um olhar que, por um instante, tirou Marfa do compasso.
— Perfeitíssima.
Chamem o tabelião.
Marfa saiu apressada, mas não disse palavra.
A garota sentia que, fosse o que fosse que estivesse sendo tramado, era algo sombrio.
O tabelião chegou à tarde.
A casa zumbia de ansiedade, como colmeias antes da tempestade.
As filhas sentavam-se à janela, sussurrando-se venenos uma à outra.
Quando o tabelião entrou, elas nem se deram ao trabalho de esconder a irritação.
O testamento foi redigido em meia hora.
Ninguém soube o que exatamente o velho mudara — ele não disse nem às filhas, nem à jovem esposa.
Depois de assinar, o velho pediu:
— Deixem-nos a sós.
O tabelião foi embora.
As filhas escorregaram para o corredor, mas seus rostos mostravam — ferviam por dentro.
O velho tomou a mão da garota.
— Lembre-se, aconteça o que acontecer… você não está sozinha.
O que eu fiz está certo.
Ninguém mais poderá feri-la.
Ela quis perguntar o que ele queria dizer, mas ele pousou o dedo em seus lábios.
— O tempo mostrará.
Mas o tempo mostrou outra coisa.
À noite, o velho de repente começou a respirar de modo ofegante, desordenado.
A garota pulou de pé, ofereceu-lhe água, mas ele não conseguia engolir.
Os olhos corriam de um lado a outro.
Ele arfava, como se estivesse sufocando.
— Socorro! — gritou ela, voando para o corredor.
Os criados apareceram.
Depois as filhas.
Mas ninguém se apressava.
Ninguém corria como se deveria num momento assim.
Quando o médico finalmente chegou, o velho já não respirava.
A garota caiu de joelhos, cobrindo o rosto com as mãos.
A dor era tão aguda que parecia terem arrancado uma parte de sua alma.
O velho era o único que, naquela casa, a tratara ao menos com uma sombra de bondade.
O médico olhou o corpo e franziu a testa.
— Estranho… — murmurou.
— Muito estranho.
Uma piora tão brusca…
Marfa intrometeu-se na hora:
— Ele tinha setenta anos!
Nada de estranho!
Limite-se a fazer o seu trabalho!
Mas o médico lançou um olhar para a garota.
E aquele olhar dizia: ele também entendera alguma coisa.
Dois dias depois realizaram-se as exéquias.
As irmãs usavam xales negros e rostos pesados.
A garota estava silenciosa, como uma folha que empalideceu.
Não comia, não dormia.
Após o velório, o tabelião pediu que todos se reunissem.
A casa emudeceu.
— O testamento, redigido há dois dias, — começou ele, — declara…
As irmãs lançaram à garota olhares assassinos.
— Toda a propriedade, as terras, a casa e os recursos… passam para sua esposa.
Silêncio.
Silêncio sepulcral.
Depois — a explosão.
— ISSO É IMPOSSÍVEL! — gritou Marfa, e a cadeira voou para trás.
— ELA PLANEJOU TUDO!
ELA O MATOU!
A garota soltou um grito, cobrindo a cabeça com as mãos.
As lágrimas jorraram sozinhas.
O tabelião ergueu a mão:
— Ele estava perfeitamente lúcido.
A decisão — é dele.
Marfa aproximou-se da garota de muito perto, o hálito cheirando a ódio:
— Você acha que venceu?
Isto é só o começo.
Mas a garota ergueu os olhos.
E pela primeira vez neles não havia medo, mas outra coisa.
Força.
Vontade.
Vida.
— Eu não tirei nada de vocês, — disse baixinho.
— Foi ele quem escolheu.
Ele quis me proteger.
E eu vou honrar sua palavra.
Ela saiu do aposento, e, do lado de fora da janela, soprou o vento, como se o velho em pessoa a acompanhasse para a nova vida.
Uma vida em que ela não seria mais vítima.
Mas a dona do próprio destino.







