Oleg caminhava pela rua ao entardecer como se tivesse perdido o chão debaixo dos pés.
A chuva caía fina, escorrendo pelas faces, mas ele não enxugava o rosto — sem distinguir onde era água e onde eram lágrimas.

Tudo o que parecia sólido e eterno desmoronou num instante.
Ainda naquela manhã ele falara com Valéria, ouvira sua voz doce, tão amada.
Ela prometera preparar borsch, assar os seus syrniki preferidos, e agora… agora uma desconhecida morava na sua casa.
Ele parou no banco do pátio onde, antes, nas noites, ele e Lera sentavam a sós, construindo planos para o futuro.
Lembrou-se do primeiro encontro: primavera, um parque barulhento, Valéria de vestido azul e cabelo curto, sorrindo tímida quando ele se ofereceu para levá-la para casa.
Foi ali que tudo começou.
Ela lhe pareceu frágil, delicada — e ele quis protegê-la por toda a vida.
— Como pôde, Lerka… — sussurrou, apertando um buquê já murchado.
— Por que você fez isso?
Discou o número dela pela décima vez — de novo sem resposta.
Só a voz seca da operadora repetiu: “A pessoa chamada está temporariamente indisponível”.
Mil pensamentos giravam na cabeça: talvez a tenham obrigado?
Talvez tenha acontecido algo horrível?
Mas os documentos… os documentos eram verdadeiros.
Lá estava a assinatura dela.
Oleg se levantou e andou sem rumo pela rua.
As pernas o levaram sozinhas ao escritório da imobiliária onde, cinco anos antes, haviam comprado o apartamento.
A placa ainda estava lá, mas dentro só uma luz permanecia acesa.
Ele bateu à porta, e um homem de óculos o olhou, cansado.
— Desculpe, já fechamos. —
— Por favor, só um minuto.
Preciso saber quem comprou o apartamento na Gogol, 17, ap. 42.
Sou o marido de Valéria Somova.
O gerente franziu a testa, conferiu no sistema.
— Sim, a venda foi há um mês.
Compradora — Anna Vetrova.
Tudo oficial. —
— E a minha esposa?
O senhor a viu? —
— Claro.
Mulher jovem, bonita, tranquila.
Com ela estava um homem… acho que se apresentou como irmão dela, mas não tenho certeza.
Oleg empalideceu.
Valéria não tinha irmãos.
Agradeceu ao gerente e saiu.
O coração batia oco, como se o advertisse: “Você não sabia nada sobre ela, Oleg.
Absolutamente nada”.
Ele voltou ao quarto alugado, para onde se mudara temporariamente antes do turno, jogou a mochila no chão e sentou, cobrindo o rosto com as mãos.
Na cabeça martelava um único pensamento: “Ela não vendeu só o apartamento.
Vendeu a minha vida, o nosso amor, a nossa história”.
À noite Oleg não pregou os olhos.
Na memória surgiam fragmentos — Valéria à janela com uma xícara de café, o perfume dela, risos ao jantar…
E tudo isso agora pertencia ao passado.
Mas ao amanhecer, reacendeu-se nele a determinação.
Se ela se foi — ele precisava entender por quê.
Encontrá-la.
Olhar em seus olhos e ouvir a verdade.
Por mais dor que trouxesse.
Tirou uma fotografia antiga — os dois à beira-mar, felizes e despreocupados.
— Lera, — sussurrou, — eu vou te encontrar.
Oleg despertou ao raiar do dia, como sobressaltado.
Lá fora garoava, o céu cinzento pendia baixo, como se lhe pesasse nos ombros.
Sentia cansaço e vazio, mas por dentro já ardia uma faísca de decisão.
Não podia simplesmente sentar e ter pena de si mesmo — havia coisas demais pedindo resposta.
Primeiro, foi até a vizinha do antigo andar — tia Nina, mulher de bom coração que sempre sabia de tudo.
Tocou a campainha, e logo a porta se abriu, soltando o cheiro de pastéis recém-assados.
— Olezka? Meu Deus, você voltou? — tia Nina bateu palmas, surpresa.
— E onde está a sua Lerinha? Não tinha viajado para algum lugar?
— Para onde — a senhora não sabe? — perguntou baixinho, quase num sussurro.
— Quem é que vai saber…
Umas três semanas atrás tiraram os móveis, chegaram uns carregadores.
Depois ela mesma saiu — de casaco branco, com uma mala, e só.
Só um rapaz a ajudava, alto, de jaqueta esportiva.
Pensei que fosse irmão ou parente.
Oleg sentiu o sangue martelar nas têmporas.
O tal “irmão”.
Agradeceu à tia Nina e saiu apressado.
Na cabeça pipocaram suspeitas — tudo arrumadinho demais: vendeu o apartamento, trocou o número, sumiu.
Quem era aquele homem?
Um amante?
Decidiu procurar um conhecido da polícia — Andréi, com quem servira no exército.
Andréi trabalhava na divisão de crimes, e se alguém podia ajudar, era ele.
— Você se meteu numa boa, irmão, — balançou a cabeça Andréi, após ouvir a história.
— Me dá alguns dias.
Vamos ver no sistema.
Talvez ela tenha sacado dinheiro ou deixado rastro num hotel.
Dois dias pareceram uma eternidade para Oleg.
Ele não achava lugar, andava de um lado a outro do quarto, repassando na cabeça tudo que poderia levar à resposta.
Lembrou que, ultimamente, Valéria ficava muito no notebook, cochichava ao telefone, se irritava quando ele entrava no quarto.
Na época, não deu importância — achou que era trabalho, amigas.
No terceiro dia Andréi ligou.
— Achei algo.
Ela sacou uma grande quantia no banco e comprou passagem para Kaliningrado.
Depois, o rastro se perde.
— Kaliningrado? — repetiu Oleg.
— Mas por que lá?
— Talvez tenha ido ver alguém.
Ou… tenha ido embora de vez.
Essas palavras cortaram como faca.
Mas Oleg não pretendia desistir.
No dia seguinte já estava no aeroporto.
Comprou a passagem — e voou no encalço dela.
Kaliningrado o recebeu com vento frio e cheiro de mar.
Hospedou-se numa pensão barata e, de manhã, foi a endereços de agências, bancos, estações — buscava qualquer pista.
No terceiro dia deu sorte: num café, a garçonete reconheceu Valéria pela foto.
— Sim, sim, esteve aqui.
Com um homem.
Alugaram quarto ali em frente, há duas semanas.
Parece que iam para a Polônia.
O coração de Oleg se apertou.
Sentiu crescer no peito não a raiva, mas o vazio.
Tudo desabou de vez.
À noite, ele foi até o mar.
As ondas batiam na costa, e ele ficou ouvindo o rumor, como se o mar soubesse as respostas.
— Por quê, Lera? — sussurrou.
— Será que tudo foi mentira?
E de repente, como resposta ao desespero, o telefone vibrou no bolso.
Número desconhecido.
Com a mão trêmula, Oleg apertou “atender”.
— Oleg… não me procure, — soou a voz conhecida, baixa.
— Vai ser melhor para nós dois.
A ligação caiu.
Por muito tempo Oleg permaneceu no calçadão, apertando o telefone entre as mãos.
O coração batia surdo, a respiração falhava, e nos ouvidos ecoavam as últimas palavras de Valéria: “Vai ser melhor para nós dois…”
Essas palavras corroíam a alma como sal na ferida.
Mas agora ele ao menos sabia uma coisa — ela estava viva.
E, portanto, nem tudo estava perdido.
Ele não conseguia simplesmente deixar ir.
Teimosia e amor, misturados à dor, o empurravam adiante.
Na manhã seguinte foi ao hotel onde, segundo a garçonete, tinham visto Valéria.
O gerente, vendo a foto, assentiu na hora.
— Sim, sim, lembro.
Casal jovem, quarto no segundo andar.
A mulher, calma e educada, e o homem… meio estranho, nervoso.
Foram embora de repente, sem esperar amanhecer.
— Sabe para onde foram? — perguntou Oleg.
— Acho que falaram de uma viagem a Gdansk.
Uma hora depois ele já estava no ônibus rumo à fronteira polonesa.
O vento açoitando o vidro, e os pensamentos rodopiando como folhas de outono.
É amor, se ela o deixou, enganou, tirou-lhe tudo?
Ou talvez haja algo importante que ele ainda não sabe?
A travessia de fronteira foi longa.
Oleg seguiu a pé, com uma mochila e a foto de Valéria no bolso.
À noite chegou a Gdansk — cidade estranha, língua estranha, rostos estranhos.
Mas seus olhos captavam sem parar traços familiares na multidão — parecia-lhe que ela apareceria a qualquer momento, se voltaria, sorriria.
Alugou um quarto com uma senhora polonesa e já ia deitar quando ouviu batidas na porta.
— Pani Kowalewska? — perguntou ele pelo tradutor.
— Não, é para você, — respondeu a mulher e estendeu um envelope.
— Uma moça deixou.
Com as mãos trêmulas, Oleg abriu o envelope.
Dentro havia uma carta.
“ Oleg,
Se você está lendo isto, é porque não me obedeceu.
Eu sabia que você não desistiria.
Eu não fui embora porque deixei de te amar.
É exatamente o contrário.
Vendi o apartamento para te salvar.
Você tem dívidas de que não sabia.
Aquelas pessoas me encontraram, ameaçaram, exigiram dinheiro.
Estavam te vigiando.
Fiz a única coisa que podia — desapareci, para que não te tocassem.
Agora você está em segurança.
Não me procure mais.
Viva.
Apenas viva.
Valéria. ”
Oleg releu a carta várias vezes.
Os olhos se encheram de lágrimas.
Lembrou os últimos meses antes do turno — ligações estranhas, olhares inquietos de Valéria, suas noites insones.
Na época, pensou que fosse apenas cansaço.
Agora entendeu — ela lutava sozinha.
Saiu para a rua.
O vento do mar batia em seu rosto, o céu estava salpicado de estrelas.
Ficou muito tempo olhando para o infinito do horizonte, onde, talvez, naquele momento, estivesse ela — a sua Valéria.
— Obrigado, Lera, — disse baixo.
— Por tudo.
De volta à Rússia, Oleg recomeçou a vida.
Conseguiu emprego em outra empresa, alugou um pequeno apartamento e, todas as manhãs, colocava na janela uma xícara de café — a segunda, para ela.
Às vezes ele ouvia em sonhos a voz dela, sussurrando: “Estou aqui do seu lado”.
Ele não a procurou mais.
Mas, sempre que passava diante das vitrines das imobiliárias, surpreendia-se pensando: tudo pode ser vendido — casa, carro, até o nome.
Tudo, menos o amor que, uma vez instalado no coração, nunca se vende.







