Um dia o meu marido confessou que não me amava e então, pela primeira vez, eu lhe disse toda a verdade.

Valentina olhava para a sopa e pensava: quando foi a última vez que tinha cozinhado alguma coisa para si mesma?

Borscht — porque o Kolya gosta.

Almôndegas — porque o Kolya está habituado.

Até o chá ela preparava forte, embora ela mesma preferisse fraco.

— Kolya, vais jantar?

Silêncio.

Ele estava sentado na poltrona, enfiado no telemóvel.

De novo aqueles jogos ou as notícias.

Valentina pousou o prato na mesa com mais barulho do que o necessário.

— Kolya!

— Hã? Sim, já vou.

“Já vou” queria dizer dali a meia hora.

Ela sabia.

Trinta e dois anos de casamento a tinham ensinado a lê-lo como um livro aberto.

Só que o livro tinha acabado por ser aborrecido.

Muito aborrecido.

Valentina sentou-se à mesa sozinha.

A sopa tinha arrefecido.

O pão tinha ficado duro.

E ela continuava à espera.

Para quê?

Hábito?

— Val, eu já comi no trabalho.

Claro.

Ela levantou-se, tirou os pratos.

Kolya nem levantou os olhos.

— Como vai a Lena? — tentou ela puxar conversa.

— Bem.

— E o Dima?

— Também.

E esse era todo o diálogo.

Antes eles conversavam horas a fio.

Sobre o trabalho, os vizinhos, os planos.

Agora Kolya respondia por monossílabos, como se ela fosse uma mosca chata.

Valentina lavava a loiça e refletia.

Quando foi que ele deixou de lhe dar um beijo de manhã?

Um ano atrás?

Dois?

Quando tinham ido ao cinema pela última vez?

Ela não se lembrava.

— Kolya, talvez a gente vá amanhã ao teatro?

A Lena ofereceu bilhetes.

— Estou cansado, Val.

Vou descansar quando me reformar.

Ainda faltavam cinco anos para a reforma.

Então, era para esperar cinco anos?

E depois ele ia arranjar outra desculpa.

Valentina enxugou as mãos com a toalha e virou-se.

Kolya estava sentado na mesma poltrona.

As costas curvadas, a careca brilhava debaixo do candeeiro.

Quando foi que ele se tornou tão… estranho, tão distante?

— Kolya, nós precisamos conversar.

— Sobre o quê?

— Sobre nós.

Ele finalmente pousou o telemóvel.

Olhou para ela com surpresa.

— O que foi que aconteceu?

— Não aconteceu nada.

Só que… nós quase não conversamos mais.

— Mas sobre o que é que temos que falar?

Está tudo bem.

“Bem”?

Ele chamava aquilo de bem?

Valentina sentiu alguma coisa apertar por dentro.

Será possível que para ele fosse normal viver como colegas de quarto num apartamento partilhado?

— Kolya, nós vivemos como… como pessoas estranhas uma à outra.

Ele ficou calado.

Depois levantou-se, aproximou-se da janela.

— Val, o que é que querias ouvir?

— A verdade.

— A verdade?

— Sim.

Só a verdade.

Kolya virou-se para ela.

Nos olhos havia algo novo.

Cansaço?

Determinação?

— Está bem, Val.

Vamos falar com sinceridade.

Kolya sentou-se no sofá, esfregou o rosto com as mãos.

Valentina ficou imóvel junto à janela.

— Olha, Val…

Não sei como dizer isto.

— É só dizer.

— Eu não te amo.

As palavras ficaram suspensas no ar.

Valentina sentiu como se tivesse levado uma martelada na cabeça.

— O quê?

— Eu não te amo.

Já há muito tempo.

Talvez há dez anos.

E talvez até mais.

— Kolya, o que é que estás a dizer?

— Val, tu é que querias a verdade.

Aqui está.

Eu só… estou cansado de fingir.

Valentina deixou-se cair na poltrona.

As pernas ficaram sem forças.

— Por que é que ficaste calado?

— Para que é que ia dizer alguma coisa?

As crianças eram pequenas, depois a faculdade, os casamentos.

Tudo como é com toda a gente.

Para que estragar tudo?

— Estragar?

— Sim.

Estragar a família.

Ele falava com calma.

Como se estivesse a falar do tempo.

E dentro dela tudo se tinha virado ao contrário.

— Kolya, mas nós…

estamos juntos há trinta e dois anos.

— Hábito, Val.

Só hábito.

— E eu?

Para ti eu sou o quê — um hábito?

Ele ficou em silêncio.

— Provavelmente, sim.

Valentina levantou-se, andou de um lado para o outro pela sala.

Teve vontade de gritar, de fugir, de desaparecer.

Mas em vez disso parou e olhou para o marido.

— E sabes de uma coisa, Kolya?

Eu também estou cansada.

— Cansada de quê?

— De ti.

Desta vida.

Do facto de que há trinta anos eu represento o papel de esposa perfeita.

Dessa vez foi ele que ficou espantado.

— Val…

— Não, espera.

Tu disseste a verdade — agora digo eu.

Achaste que para mim era divertido?

Cozinhar o teu borscht, lavar as tuas meias, ouvir as tuas histórias do trabalho?

— Mas tu…

— Eu ficava calada?

Sim, ficava calada.

Porque era assim que tinha que ser.

Uma boa esposa tem que ficar calada.

Uma boa mãe não deve pensar em si mesma.

Kolya olhava para ela de olhos bem abertos.

— Mas eu pensava!

Todos os dias eu pensava: e se eu não tivesse casado contigo?

E se eu tivesse ido estudar em Moscovo?

E se eu não tivesse tido filhos aos vinte anos?

— Valentina, acalma-te.

— Eu não vou acalmar-me!

Passei trinta anos a acalmar-me!

Sabes quantas vezes eu quis ir embora?

Quantas vezes fiz a mala?

— Eu não sabia.

— Claro que não sabias.

Tu não sabias de nada.

Não sabias que eu sonhava em desenhar.

Não sabias que eu queria viajar.

Não sabias que todas as noites eu adormecia a pensar: mas eu ainda estou mesmo viva?

— Val, por que é que estás a fazer esse drama?

— Drama?

Kolya, eu passei trinta anos sem viver a minha própria vida!

Eu fui a tua sombra!

— Ninguém te obrigou.

— Ninguém me obrigou?

E quem é que gritava quando o jantar não estava pronto?

Quem fazia birra quando eu queria ir ver as amigas?

Quem dizia: a família é o mais importante?

Kolya ficou calado.

— Eu sacrifiquei-me por ti, pelos filhos.

E tu nem sequer reparaste.

— Eu reparei.

— Não é verdade.

— Eu reparei, Val.

Só que… para mim era conveniente assim.

Essa frase acabou de a destruir de vez.

— Conveniente? — Valentina sentiu tudo ferver por dentro. — Era conveniente para ti?

— Val, não era isso que eu queria dizer…

— Não, era exatamente isso!

Conveniente ter uma esposa-empregada, não é?

Que faz tudo, toma conta de tudo, e tu podes simplesmente existir!

Kolya levantou-se, gesticulando com as mãos.

— Que é que tem a ver empregada?

Tu és a minha mulher!

— Mulher? — Valentina riu. — Kolya, quando foi a última vez que me perguntaste como eu estava?

Quando te interessaste pelos meus pensamentos?

Quando simplesmente me abraçaste?

— Já não somos jovens…

— Ah, já não somos jovens!

E então, as pessoas mais velhas não têm direito ao amor?

À atenção?

A sentir-se vivas?

— Valentina, não grites.

Os vizinhos vão ouvir.

— Não quero saber dos vizinhos!

Durante trinta anos eu não quis saber de mim — agora não vou querer saber dos vizinhos!

Kolya recuou em direção à porta.

— Hoje estás estranha.

— Estranha?

Kolya, pela primeira vez em trinta anos eu estou normal!

Sabes o que eu entendi?

Que a vida toda eu tive medo de te aborrecer.

Tive medo de dizer que não gosto da tua mãe.

Tive medo de admitir que não suporto os teus amigos!

— Os meus amigos?

— Sim!

Aquele Vitalik com as piadas ordinárias!

Aquele Serguei que gasta todo o dinheiro em bebida!

E eu sorria, fazia jantar para eles, ouvia as conversas deles sobre pesca!

— Mas por que ficavas calada?

— Porque uma boa esposa não deve criticar o marido!

Uma boa esposa tem que apoiar!

E sabes o que mais eu devia?

Devia ficar contente quando tu passaste três meses sem trabalho a beber cerveja!

Devia ficar calada quando gritavas com as crianças!

Devia aguentar quando tu…

— Quando eu o quê?

Valentina parou.

O coração batia tão forte que parecia que ia saltar-lhe do peito.

— Quando arranjaste uma amante.

Kolya empalideceu.

— Do que é que estás a falar?

— Da Sveta da tua contabilidade.

Achaste que eu era parva?

Horas extras no trabalho, camisas novas, perfume no carro!

— Val, isso foi…

— Há muito tempo?

Sim, eu sei.

Cinco anos atrás.

E sabes o que eu fiz naquela altura?

Nada!

Fiquei calada!

Esperei que tu mesmo parasses!

— Mas eu parei…

— Porque foi ela que te deixou!

Por um mais novo!

Não porque tenhas caído em ti!

Kolya sentou-se no sofá, baixou a cabeça.

— Perdoa-me.

— É tarde, Kolya.

Demasiado tarde.

— Val, nós podemos mudar tudo…

— Não, nós não podemos mudar nada!

Sabes porquê?

Porque tu não me respeitas.

Nunca me respeitaste!

— Eu respeito-te…

— Não é verdade!

Tu estás habituado a achar que eu não conto para nada!

Que a minha opinião não é importante!

Que os meus desejos são uma bobagem!

— Não é assim!

— É exatamente assim!

Quando eu quis trabalhar — tu disseste que já havia trabalho demais em casa.

Quando eu quis estudar — tu disseste que já era tarde.

Quando eu quis mudar de casa — tu disseste que aqui estavam as nossas raízes!

Valentina aproximou-se da janela, escancarou-a.

Precisava de ar.

— E sabes o que é o mais assustador, Kolya?

Que eu própria acreditei nisso.

Acreditei que eu não era ninguém.

Que sem ti eu estaria perdida.

Que a minha vida era só a família.

— Mas a família é importante…

— É importante!

Mas não à custa de nós mesmos!

Eu dei-vos tudo — tempo, forças, sonhos, saúde!

E o que é que recebi em troca?

Indiferença!

— Valentina, vamos acalmar-nos um pouco…

— Não!

Eu não vou acalmar-me mais!

Chega!

Sabes de uma coisa, Kolya?

Eu vou embora.

— Como assim, vais embora?

— Vou embora de ti.

Desta vida.

Eu tenho sessenta e dois anos, mas ainda estou viva!

E quero viver para mim!

Kolya levantou-se.

— Val, enlouqueceste?

Para onde é que vais?

— Eu não sei.

Mas vou.

Porque é melhor estar sozinha do que sentir-se sozinha ao lado do marido.

— O que é que os filhos vão dizer?

— Os filhos?

Kolya, eles já passaram dos trinta!

Eles têm a própria vida!

E eu nunca tive a minha!

— Valentina, pensa bem…

— Eu pensei durante trinta anos!

Basta!

Durante três semanas Kolya não falou com ela.

Andava pela casa como uma sombra, batia com as portas, aquecia a própria comida de propósito, fazendo questão de mostrar.

Valentina não ligava.

Estava ocupada.

Primeiro, encontrou na internet cursos de desenho.

Inscreveu-se sem pensar duas vezes.

— Val, estás a falar sério? — perguntou Kolya ao vê-la com o cavalete.

— Muito sério.

— Na tua idade…

— Na minha idade é justamente a hora de fazer o que se quer.

Depois telefonou para a Lyuba, amiga dos tempos de escola.

— Lyuba, lembras-te quando sonhávamos ir a São Petersburgo?

— Val, isso foi há quarenta anos!

— E daí?

Os sonhos não envelhecem.

— E o Kolya?

— O Kolya que vá pescar com os amigos dele.

Lyuba chegou uma hora depois.

Ficaram sentadas na cozinha, beberam chá, fizeram planos.

— Primeiro São Petersburgo, depois Pskov, Nóvgorod… — dizia Lyuba, sonhadora.

— E depois para o estrangeiro, — acrescentou Valentina.

— A sério?

— A sério.

Passei trinta anos sem ir a lugar nenhum.

Agora vou recuperar o tempo perdido.

Kolya estava de pé à porta, a ouvir.

— Val, nós precisamos conversar, — disse ele quando Lyuba foi embora.

— Fala.

— Eu pensei…

Talvez a gente possa tentar?

De um jeito novo?

Valentina olhou para ele atentamente.

— E o que é que vai mudar, Kolya?

— Bem… eu vou dar-te mais atenção.

— Por pena?

— Não por pena…

— Então por quê?

Tu mesmo disseste que não me amas.

Kolya ficou calado.

— Estou habituado a ti.

— Exatamente.

Estás habituado.

E para mim hábito não chega, Kolya.

Eu preciso de vida.

Na semana seguinte a Lena chegou.

— Mãe, o que está a acontecer?

O pai diz que tu te vais mudar.

— Vou mesmo.

— Mas porquê?

Vocês estiveram juntos tantos anos!

— Justamente por isso, Lena.

Eu gastei toda a minha juventude neste casamento.

Agora quero viver para mim.

— Mas isso é egoísmo!

— Talvez seja.

E então?

Não posso?

Lena ficou sem saber o que dizer.

— Mãe, e a família?

— A família não vai desaparecer.

Só que eu já não vou ser o centro dela.

O Dima também veio.

Tentou convencê-la durante muito tempo, quase a chorar.

— Mãe, como é que vamos ficar sem ti?

— Dima, tu tens trinta e quatro anos.

Tens mulher, filhos.

Vais conseguir viver sem mim.

— E o pai?

— O pai também é adulto.

Um mês depois decidiram tudo.

Kolya mudou-se para casa do Dima.

Por enquanto não venderam o apartamento.

— Se mudares de ideias… — disse ele, ao ir embora.

— Eu não vou mudar de ideias, Kolya.

— Como é que tens tanta certeza?

— Porque pela primeira vez em trinta anos eu me sinto viva.

Ele pegou na mala, ficou um momento à porta.

— Perdoa-me, Val.

— Eu não estou zangada contigo, Kolya.

Só estou cansada de não ser eu mesma.

Quando a porta se fechou, Valentina sentou-se na poltrona.

Na mesma em que ele sempre se sentava.

E sabes de uma coisa?

Ela estava bem.

Silêncio, calma, uma sensação boa.

À noite a Lyuba telefonou.

— Então, como é que estás?

Estás triste?

— Não.

Estranho, mas não.

— E o que é que sentes?

— Liberdade.

Pela primeira vez na vida — liberdade.

Nos cursos de desenho ela não era a mais velha.

Ao lado dela sentava-se uma senhora de setenta anos.

Tinha sonhado a vida inteira em pintar flores.

— Nunca é tarde para começar, — disse ela certa vez.

— Com certeza nunca é tarde, — concordou Valentina.

O primeiro quadro Valentina pintou em duas semanas.

Uma paisagem.

Uma estrada que ia para longe, em direção ao horizonte.

Um trabalho simples, mas seu.

— Está bonito, — disse a professora. — E o que é que vamos pintar a seguir?

— Eu não sei, — respondeu sinceramente Valentina. — Vamos ver o que eu tiver vontade.

Ela tinha sessenta e dois anos.

Tinha vivido metade da vida para os outros.

Agora ia viver a segunda metade para si mesma.

E isso era o certo.