Descendo para a fresca profundidade do porão, Lídia acendeu a lamparina de querosene, e a luz trêmula arrancou das trevas contornos que lhe eram familiares.
Ela contava mentalmente as reservas, verificando com os dedos a integridade dos cestos de vime e a frescura dos potes de barro.

Três garrafões de infusão de lúpulo, cuidadosamente envoltos em palha, um barril de chucrute, de onde vinha um aroma acre conhecido desde a infância, uma tina com maçãs e pepinos em conserva.
No canto mais distante, cobertas de areia dourada, jaziam batatas firmes, e ao lado, espalhando um perfume sutil, pendia uma guirlanda de cebolas.
Na cabeça ela já montava o cardápio para a mesa festiva do dia seguinte: era absolutamente necessária a beterraba para a salada vinagrete, o prato preferido do marido.
Precisava visitar a vizinha Taíssia e pedir a ela algumas raízes rubi.
Ao pensar em Vladimir, um sorriso leve, quase imperceptível, surgiu em seus lábios.
Amanhã.
Amanhã ele deveria voltar.
São e salvo, como se dizia no vilarejo, como se o próprio destino o tivesse protegido das tempestades de chumbo da guerra.
Ela tivera uma sorte incrível.
E quando ele cruzasse o limiar da casa deles, começaria um novo e brilhante capítulo da vida em comum, cheio de risadas de crianças e da luz das esperanças.
Até aquele momento fatídico, quando o trovão estourou do oeste, o céu os tinha impedido de pôr no mundo um bebê, protegendo assim uma vida frágil da fome e do frio que tinham caído sobre os conterrâneos, amontoados em tocas úmidas enquanto estrangeiros mandavam naquelas terras.
Quantas almas inocentes aquele inverno cruel levou…
Ela amava o seu escolhido com toda a profundidade do seu ser, embora o casamento deles, celebrado no distante trinta e oito, no início não fosse união de dois corações, mas de dois clãs, selada pela vontade dos mais velhos.
Os pais lhe tinham arranjado o noivo, ele dera o seu consentimento, e a jovem, mal desabrochada, obediente à vontade da família, foi para o altar.
Mas no silêncio dos anos juntos, nas preocupações do dia a dia e nos raros momentos de descanso, no coração dela acendeu e cresceu um sentimento tão grande pelo marido, que a vida sem ele lhe parecia impensável, como respirar sem ar.
Por três anos caminharam pela vida de mãos dadas, mas o berço em sua casa continuava vazio, e Vladimir começou a resmungar, irritado, que tinha se casado com “mercadoria defeituosa”, fechando-se em si mesmo.
Ele, homem de temperamento ardente e apaixonado, no momento do casamento tinha acabado de completar vinte e três anos, enquanto o irmão, só dois anos mais velho, já tinha três pestinhas correndo pela casa.
Adorando os sobrinhos com toda a alma, ele sonhava com seus próprios filhos, desejando pelo menos três meninos e uma filhinha carinhosa.
Mas chegou o fatídico quarenta e um…
Ao se despedir do marido que ia para a frente, Lídia se desfazia em lágrimas amargas, e a dor mais aguda vinha da consciência da solidão na casa vazia, onde nem sequer havia uma criança para consolar seu coração de mãe.
No entanto, passado um ano, nas suas preces silenciosas ela agradecia ao céu por ter ficado sozinha e não carregar o fardo pesado da responsabilidade por um serzinho frágil.
Os tempos ficaram sombrios.
Naquele inverno terrível e impiedoso ela perdeu ambos os pais, suspeitos de ajudar os justiceiros do povo…
A própria Lídia escapou por milagre para a mata, juntando-se a esses mesmos partidários.
E no fim de quarenta e dois, quando o vilarejo natal foi libertado, o destacamento seguiu adiante, e ela ficou nas cinzas da própria felicidade à espera do retorno do marido.
E enfim, uma boa notícia bateu à porta de sua casa: Vladimir e o irmão Gennádi estavam voltando para casa.
Decidiu-se que as mesas festivas seriam armadas no amplo quintal dos pais deles, enquanto Lídia se agitava junto ao fogão, preparando os quitutes para que os soldados cansados e exaustos da estrada pudessem comer à vontade e aliviar o coração.
Ela foi até Taíssia, pegou beterrabas, cozinhou os legumes por muito tempo, enchendo a casa com o hálito quente da terra, e depois começou uma limpeza caprichosa.
Ao anoitecer, totalmente sem forças, desabou na cama e, de manhã, levantou antes mesmo do cantar do galo, pôs-se a preparar a salada preferida do marido, sovou uma massa firme para os pastéis e começou a vasculhar seu guarda-roupa modesto, já bem gasto, para escolher o vestido mais adequado para um acontecimento tão alegre.
A escolha recaiu no vestido azul-claro, de pequenos florzinhas brancas, com um acabamento simples de fitinhas.
Depois de trançar os cabelos em uma trança apertada e lançar um olhar satisfeito ao quarto brilhando de limpo, sentou-se junto à janela.
O trem deveria chegar à estação em duas horas; isso significava que os irmãos estariam no vilarejo em cerca de três.
Mas de repente, na rua, ecoaram latidos alegres de cachorros e gritos de boas-vindas.
Saltando para fora de casa, Lídia viu o motivo da alegria geral: o marido e o cunhado tinham chegado numa caminhonete militar que passava.
Descendo da lateral do caminhão, Vladimir se aproximou lentamente da esposa e, sem dizer uma palavra, a envolveu num abraço forte e respeitoso.
Ela, enterrando o rosto no tecido áspero da blusa do uniforme dele, chorava em silêncio, sentindo o cheiro há muito esquecido da pele e do fumo forte.
Uma hora depois ela, junto com a sogra, estava pondo uma mesa farta no quintal dos pais deles, de tempos em tempos aproximando-se às escondidas do marido e tocando de leve a mão ou o ombro dele, como se quisesse se certificar de que aquilo não era miragem, não era ilusão, mas carne real e quente.
— Bem, então, vamos brindar ao retorno, nossos heróis! — ergueu seu copo a idosa Taíssia, enxugando uma lágrima com a ponta do lenço.
— Deus não me concedeu esperar o meu próprio sangue, então pelo menos vou ver a felicidade de vocês e o coração vai esquentar.
Tenho netinhos, e já é de agradecer.
E vocês não demorem, a vida é, vejam só, que coisa frágil, não se sabe de que lado a desgraça se aproxima.
— Isso aí a gente não vai enrolar, não, — riu alegremente Vladimir, puxando a esposa para perto de si.
— Não é, minha adorada?
— Claro. Sabe quantas crianças ainda vou te dar! — sussurrou ela no ouvido dele, olhando nos olhos cansados, mas tão familiares.
Ano de 1948.
— Três anos! Já se passaram três anos desde que voltei, e o mesmo tanto vivemos juntos antes de eu partir, e mesmo assim nossa casa continua sem herdeiros.
Escuta, e se for verdade o que diziam, que você tem defeito? — soltou o marido com irritação, observando como ela esfregava panos de limpeza na bacia.
— Vladik, meu bem, qual é a minha culpa nisso? Eu, como você, desejo um filhinho com toda a minha alma, mas alguma coisa não está dando certo…
— E ontem, lá na casa do meu irmão, fizeram uma festa daquelas por causa do quinto filho, e entre nós são só dois anos de diferença.
— Querido, e se a raiz do problema não estiver só em mim? — arriscou Lídia, escolhendo as palavras com cuidado.
— O quê? Você quer dizer que sou eu que não dou conta como homem? Como é que você tem coragem de falar uma coisa dessas? Eu ponho a mão no fogo por mim, sei muito bem que sou capaz de continuar a linhagem.
— E como é que você pode saber disso, Vladik, se não tem nenhum filho seu por aí?
De repente o marido desviou o olhar e fixou o vidro congelado da janela.
Na mente de Lídia nasceu uma suspeita terrível, insuportável.
— Espera… Você… Você tem um filho?
— Não tenho filho nenhum.
— Volódia, olha para mim. — Ela se esforçou ao máximo para não deixar a voz denunciar o tremor interior.
— Olha nos meus olhos…
Mas ele não se virou.
A mulher se aproximou e apertou o ombro dele.
— Quem é ela? Onde está essa criança agora?
— Criança não tem, não sobreviveu ao parto.
Ela era enfermeira, do hospital.
Naquele quarenta e três eu estava em tratamento lá, e ela cuidava de mim, daí a gente acabou se envolvendo.
Lidka, não me olha assim, eu sou homem vivo, fiquei muito tempo sem carinho de mulher.
E todo dia podia ser o último…
— Você a amava? — perguntou ela com uma voz estranha, vazia.
— O quê? Claro que não.
Assim que melhorei, fui embora na mesma hora, e depois ela mandou uma carta dizendo que estava esperando um filho, e mais tarde — que ele já não estava mais vivo.
— Como você pôde, Vladik? Enquanto eu ficava aqui te esperando, rezando por você, você lá… Você estava nos braços de outra!
— Ninguém aqui é sem pecado. Parece até que você, andando pelos bosques com os partisans, guardou fidelidade para mim.
— Nem ouse! — gritou ela, e na voz dela tilintaram as lágrimas.
— Não joga a culpa de quem tá doente em quem tá saudável.
Eu te amava e me guardei só para você, mas você…
— Eu sou homem, tenho minhas necessidades.
Lídia saiu correndo de casa, batendo a porta com força atrás de si.
Ao virar a esquina, sentou-se na velha mureta de madeira e começou a chorar convulsivamente pela mágoa e pela amarga decepção que a invadiam.
Quando as lágrimas secaram e ela voltou para casa, Vladimir já não estava lá.
Ele apareceu no meio da noite, cheirando a cachaça caseira barata.
Sentando-se à sua frente à mesa, ela olhou firme nos olhos do marido e disse baixinho:
— Estou pronta para esquecer e perdoar tudo.
O que passou, passou, precisamos viver o presente e não ficar remexendo o passado.
— Eu nem tava pensando em pedir desculpa.
Se alguma coisa não te agrada, — arrastou as palavras Vladimir, bêbado, — pode ir embora para onde quiser.
A mulher o olhou, piscando rápido, a custo segurando o nó que subia à garganta.
Depois se levantou e foi para o quarto, deitou-se virada de rosto para a parede e chorou baixinho no travesseiro, com um choro queixoso, quase infantil.
E de manhã, quando a névoa da bebida se dissipou, ele pediu perdão à esposa, se desculpou e disse que tinha falado demais por causa da bebida.
Ela o perdoou, porque o amor ainda vivia em seu coração e, lá no fundo da alma, de certo modo, ela o compreendia.
No dia seguinte à reconciliação, ela foi para a fazenda coletiva, onde trabalhava como leiteira, mas lá já a esperava o presidente do kolkhoz.
— Lídia, vai com a Glafira até Elenovka, levaram por engano para lá os nossos remédios veterinários para as vacas.
— E o Stepanych não pode ir? Ele é o veterinário daqui.
— A Zorka tá parindo, ele não pode sair de lá.
Vocês vão com o vô Trofim, na carroça.
Anda, não enrola, é uma perna aqui e outra lá.
Elas saíram da fazenda, e de repente a companheira de viagem, piscando com malícia, sussurrou:
— Espera um pouco, vou correr em casa, pegar uma coisinha.
Quero passar na casa da vovó Evdokía.
— E quem é ela, é sua parente?
— Que é isso? — Glafira arregalou os olhos, surpresa.
— Até parece que você morou na floresta até agora.
Ela é a velha feiticeira, a benzedeira.
Quero que me dê umas ervas, que diga algo de bom.
Eu ainda tô encalhada, não se acha um homem livre nesse vilarejo.
E as mulheres comentam entre si que ela não só cura doenças, mas também vê o futuro.
— E o que ela cobra em pagamento?
— Ah, nada demais, vou levar uns agrados pra ela e pronto.
Ela não pede dinheiro, é tipo um dom de coração.
— Então me espera também.
Eu não acredito muito nessas coisas, mas se o povo fala, vai ver tem algo de verdade.
Lídia correu até em casa e trouxe um potinho de geleia de morango do mato, colhido e feito por suas próprias mãos, e ainda pegou uma garrafinha de licor de cereja.
— Hm, não tem dó de dar uma geleia dessas?
Ninguém faz uma delícia dessas melhor que você, fruta coladinha na outra, xarope transparente…
— Não tenho dó, não.
O Volodka nem gosta de doce mesmo.
Vamos depressa, senão o vô Trofim, olha só, já tá cansado de esperar.
Elas chegaram perto do velho, que justamente terminava de atrelar a égua já envelhecida à carroça.
— Então, minhas pombinhas, agora eu levo vocês num instante!
Chegaram a Elenovka, pegaram os remédios para a fazenda e, na volta, Glafira implorou:
— Vô Trofim, para ali na casa da vovó Evdokía.
Você sabe onde ela mora, né?
— Sei, como não vou saber, a minha falecida Oksana vivia indo lá.
O que foi que te deu de ir atrás dela? Vai querer tirar sorte pro noivo, é?
— Justamente pra ele mesmo.
— E o que tem pra tirar sorte, — riu o vô Trofim.
— Casa comigo, ainda sou um homem e tanto, viu?
— Que “homem e tanto” que nada, vô, quantos anos o senhor tem?
Daqui a pouco se desmonta no meio do caminho.
Aliás, quantos anos o senhor tem mesmo?
— Ah, quem é que sabe…
Perdi a conta depois que minha Oksana morreu…
Lembro que nasci em dez de janeiro de mil oitocentos e sessenta e nove…
— Vô Trofim! — bufou Glafira.
— Já fez setenta e nove anos, que tipo de pretendente o senhor acha que é?
— É, setenta e nove mesmo…
Mas por fora posso até ser antigo, no coração ainda sou a mesma águia jovem.
Prreee! Chegamos.
— Espera a gente aqui, ó águia. — Glafira pulou da carroça, deu a mão para Lídia e as duas entraram no quintal da casa da vovó Evdokía.
Justo naquele momento, uma moça chorando saiu de lá.
Sem dar atenção a ela, as mulheres foram até a porta, bateram e a entreabriram.
— Vovó Evdokía, podemos entrar? — gritou Glafira.
— E como não podem, entrem, minhas queridas.
Vão tomar um chazinho com erva-doce e erva-cidreira?
— Com o maior prazer, — respondeu Lídia, olhando tudo ao redor com curiosidade.
Na sala pairava um aroma denso e acre de ervas secas e flores do campo, e também cheirava a pão recém-assado.
O estômago vazio dela se contraiu e roncou traidoramente.
— Sentem-se, pombinhas, vão se fortalecer da viagem, — apressou-se a dona da casa e acomodou as visitas à mesa.
— Fico até sem graça.
A senhora devia estar esperando alguém, e nós aqui, gastando suas reservas. — Lídia hesitou no vão da porta.
— Moro sozinha, não tenho ninguém.
E os bolinhos eu asso é pros visitantes, o povo vive trazendo coisa — farinha, creme de leite — e não vou deixar que estrague, né.
Lídia quebrou um pedaço de pastel de repolho e o engoliu com chá perfumado.
Glafira também não ficou atrás.
Quando terminaram o chá, ela pegou os presentes que haviam trazido e disse:
— Dizem que estão ou com mau-olhado ou com feitiço em cima de mim.
Não consigo casar de jeito nenhum.
As amigas estão todas de marido, criando seus filhos, e eu, com vinte e três anos, sigo sozinha da silva.
Quero uma família, uma de verdade…
— Pelo visto, ainda não chegou a sua hora.
Tenha paciência, e tudo vai se ajeitar.
Só precisa esperar, — a vovó Evdokía olhou atentamente dentro dos olhos dela.
— Só não faça o que tá planejando.
Ah, isso é coisa ruim, não vai dar em nada de bom.
Espera, a felicidade vai te achar sozinha.
— E até quando eu tenho que esperar? Até ficar de cabelo branco? — inflamou-se Glafira.
— A senhora podia me ensinar algum feitiço, alguma oração…
— Feitiço pra você é só um — espera.
Se me escutar, a felicidade vai bater na tua porta, e se não, se vira sozinha, e aqui não venha, que eu não te recebo.
Lídia não entendia muito bem do que a velha falava; ela olhou para a amiga contrariada e, voltando-se para a dona da casa, pediu:
— A senhora não teria alguma erva para ajudar a engravidar?
Não tô conseguindo ter filho com meu marido.
— Tenho sim, como não teria, espera um pouquinho que eu pego.
Ela entregou a Lídia um saquinho de pano com um preparado de ervas, explicou em detalhes como devia ser preparado e, quando as duas já iam sair, segurou de leve o braço dela.
— Você vai na frente, querida, — assentiu na direção de Glafira, — eu preciso dizer duas palavrinhas no ouvido da sua amiga.
Assim que a outra se afastou, a vovó Evdokía sussurrou:
— Aconteça o que acontecer, seja lá o que for, seja humilde.
Aceite tudo, não reclame do destino.
E se te parecer que não dá mais, venha até mim.
Você é uma moça boa, de coração bom, e eu posso te ajudar.
Só lembra — humildade, humildade e mais uma vez humildade…
E filhos você vai ter, três deles, em duas gravidezes.
Quando se sentaram de novo na carroça, o vô Trofim deu uma risadinha.
— E então, Glasha, quem é teu prometido?
Por que essa cara amarrada, parecendo rato em cima do trigo?
Será que a velha disse que eu é que sou o noivo?
— Sua língua corre mais que vassoura, vô.
É tudo bobagem, perdi meu tempo indo lá.
Não falou nada de útil…
— Já eu não fui à toa, ela me deu umas ervas pra eu conseguir levar um filho no ventre, — sorriu Lídia.
— Hm… Vamos ver, vamos ver…
Assim que voltou pra casa, Lídia tirou do saquinho as ervas cheirosas e as preparou do jeito que lhe haviam mandado.
A vovó Evdokía tinha recomendado beber a infusão de manhã e à noite.
Depois de tomar a porção da noite, ela esquentou água, se lavou na tina de madeira e, vestindo uma camisola limpa, soltou os cabelos e sentou-se na beira da cama.
Vladimir não aparecia…
Sem esperar a chegada do marido, ela adormeceu.
Ela não sabia a que horas ele tinha voltado e, de manhã, encontrou-o dormindo no duro banco encostado à parede.
— Onde você andou? — perguntou com uma leve censura.
— Me desculpa, Lídotchka.
Ontem fiquei até tarde com os homens, acabei bebendo demais.
Que horas são?
— Já tá na hora de ir pro trabalho.
— Vai indo, eu de qualquer jeito entro mais tarde, vou dormir mais um pouco.
— Volódia, você vive dizendo que não temos filhos…
Mas de onde eles vão aparecer, se você chega tarde em casa ou bêbado…
— E você acha que vai adiantar alguma coisa eu ir pra cama com você toda noite?
— Vai sim, meu bem, vai.
A vovó Evdokía de Elenovka me deu um preparado de ervas, disse que ajuda.
— Tá bom, tá bom.
E você acredita nessas histórias de velha?
— E o que mais me resta?
Ao longo dos seis meses seguintes, Lídia visitou regularmente a curandeira para buscar uma nova mistura de ervas, mas a esperança se desfazia a cada dia, como neve de abril.
Ela já quase não acreditava no poder milagroso das ervas para a concepção, mas percebia que o chá lhe dava ânimo, a pele tinha ficado mais limpa e os dias críticos passavam sem os antigos tormentos.
Só por isso já valia a pena continuar a tomá-lo.
Passaram-se seis meses.
Voltando mais uma vez de Elenovka, a mulher não encontrou o marido em casa, embora fosse o seu dia de folga.
Ela foi até o campo onde ele costumava trabalhar, mas também ali não encontrou Vladimir.
— Zinochka, você não viu o meu marido? — perguntou ela à conterrânea.
— Mas hoje não é o dia de folga dele, pelo que sei.
— Eu sei onde ele está — aproximou-se outra vizinha, Catarina.
— Foi até a sua amiguinha Glashka, ela chamou ele para consertar o degrau da varanda.
Lida, não é da minha conta, mas era bom você ficar de olho, ele anda indo lá com frequência demais.
— O que é que você está dizendo? — inflamou-se Lídia.
— Do que é que você está insinuando?
— Não estou insinuando nada, falo direto.
Sou vizinha da sua Glafira e tenho olhos e ouvidos no lugar.
— Cruzes, vá cuidar da sua vida — Lídia cuspiu de aborrecimento e foi em direção à casa da amiga.
O quintal estava vazio, ela não bateu na porta, acostumada como estava a entrar na casa de Glafira sem cerimônias.
Ao cruzar a soleira, viu uma cena que não deixava espaço para dúvidas — sua amiga era amante de Vladimir.
— Então é assim que vocês “consertam” o degrau — disse ela baixinho, apoiando-se no batente da porta.
— Sua cobra traiçoeira!
E faz tempo que esses… “trabalhos de reforma” estão acontecendo?
— Lida, me perdoa — Glafira saltou da cama e depressa se cobriu com o lençol.
— Eu achei que você não fosse voltar tão cedo.
— E você, por que está calado, meu amado marido?
— O que é que eu posso te dizer?
Se eu tentar me justificar, só vou me desmoralizar.
Você mesma está vendo tudo.
Lida, vamos não fazer cena.
— E o que é que você propõe então?
Hein?
O que é que eu faço daqui pra frente?
Esquecer tudo como se nada tivesse acontecido?
Mesmo que você termine com ela, eu vou lembrar disso o resto da vida.
— Comigo ela não vai poder terminar… — murmurou Glafira em voz baixa.
— Eu estou grávida, já faz três meses.
— Pois bem, Vladik, parabéns, seu sonho mais querido se realizou.
Lídia saiu correndo da casa da amiga e disparou a correr para que ninguém visse sua fraqueza nem ouvisse os soluços que lhe escapavam do peito.
Vladimir só voltou para casa ao entardecer.
— Lida, me perdoa.
Você é boa, carinhosa, meiga e cuida muito bem da casa.
Mas eu preciso de um filho, entende?
E você não pode me dar um.
— Entendo, como não entender…
— Então me deixa ir — disse Vladimir em voz baixa.
— Me deixa ir, vamos nos divorciar e eu caso com a Glasha, assim o meu filho nasce dentro de um casamento legítimo.
— Então você mesmo paga o divórcio.
E suma daqui, vá para a sua Glafira.
— Mas esta é a minha casa! — ele deu um sorriso de canto de boca.
— Muito bem, então quem vai embora sou eu.
Lídia juntou seus poucos pertences num trouxinha.
Ela não tinha para onde ir.
Ficou sentada à beira do rio até o anoitecer, chorando a própria dor.
E quando começou a escurecer, abrigou-se numa velha gruta de terra, que ainda restava dos tempos de quarenta e dois.
Na manhã seguinte, foi até o presidente do conselho e tirou alguns dias de licença, depois seguiu para Elenovka, para a casa da vó Evdóquia.
— Então você veio mesmo… Entra, eu sentia que você ia aparecer.
— Pois é… Saindo ontem da sua casa eu nem podia imaginar que voltaria tão cedo.
Vovó Evdóquia, me deixe ficar aqui alguns dias, assim que eu achar um lugar para ficar, eu vou embora.
— Mas o que é isso, minha querida, que conversa é essa, entra.
Mora aqui o quanto quiser, pelo menos você vai alegrar um pouco as minhas noites de velha solitária.
Logo depois, enquanto despejava nas canecas o chá perfumado de chá-de-ivan e tomilho, a vó Evdóquia perguntou:
— E como é que você ficou sem casa?
E seus pais, não deixaram nada?
— Os alemães, ao recuar, queimaram a casa deles até o chão.
Meus pais já nem estavam mais vivos naquela época.
Meu irmão mora com a esposa no fim do povoado, lá já são seis dormindo no banco, não tenho onde me enfiar.
— Fica aqui, mora o quanto quiser, juntas a gente dá conta de tudo.
Você se lembra do que eu te falei sobre aceitação?
— Lembro.
Mas para mim está sendo muito difícil.
— Então aguenta firme, minha pombinha, aguenta…
Eles se divorciaram três meses depois.
Lídia não contou ao marido, na hora do divórcio, que tinha engravidado justamente nas últimas noites da vida conjugal deles.
Ela não acreditava totalmente nisso, mas o exame médico confirmou suas suspeitas.
A tentação de revelar a verdade ao marido e interromper o processo de divórcio foi enorme, mas ela não o fez.
Pra quê?
Ele ficaria com ela por causa da criança, e depois?
Ficaria se dividindo entre duas famílias?
O primogênito a Glafira iria dar a ele…
Ela não queria que o marido vivesse em duas casas, e não queria manter a aparência de um casamento só por causa do filho, pois no relacionamento deles já não havia amor.
Que ele seja feliz, mesmo que com outra.
Nessa altura, ela já tinha se mudado de vez para Elenovka.
— Você fez tudo certo. —
A vó Evdóquia, com quem Lídia agora tinha encontrado abrigo, consolava-a.
— Sem o Vladimir você ainda vai achar sua felicidade, com ele seria só problema…
Ele puxa todo mundo pra baixo, como areia movediça…
— Estão prestes a nomear ele presidente, e a Glashka agora olha todo mundo de cima.
Ela agora é “a senhora presidente”.
— Deixa ela olhar, você não ligue.
Vai nascer uma filhinha pra você, ocupe-se dela.
— Uma filhinha? — Lídia sorriu por entre as lágrimas.
— Uma filhinha, sim, uma filhinha.
Eu vejo essas coisas logo de cara.
Quando Lídia estava no sexto mês, Glafira deu à luz um menino, chamado Zakhár.
Vladimir carregava a esposa no colo, radiante com o nascimento do primogênito.
Do fato de que sua ex-esposa também carregava no ventre um filho seu, ele não fazia ideia.
Lídia não aparecia mais em sua aldeia natal e, se algum dos antigos conterrâneos ia até Elenovka, ela se retirava para outro cômodo.
— Lida, eu vou morrer logo — disse certa vez a vó Evdóquia.
A xícara escorregou das mãos de Lídia, que levantou os olhos para aquela que já chamava de avó e balançou a cabeça em tom de reprovação.
— O que é isso que a senhora está dizendo?
A senhora ainda está bem forte, disposta, cheia de energia.
— Eu digo como é.
Mas ainda vou ter tempo de te ensinar tudo o que eu sei.
Durante alguns meses você andou comigo pelos campos, recolhendo ervas, anotou as receitas no caderno, e vai ser você que vai levar ajuda pras pessoas no meu lugar.
— Eu não vou conseguir…
— Vai sim, e muito bem.
Só não se esqueça de cuidar para que esta mistura aqui, — ela tirou do baú o saquinho precioso e mostrou a folha escrita do caderno, — esteja sempre com você.
O nosso diretor da escola do povoado, o Serguei Nikolaevitch, vem buscar essa mistura de três em três meses.
Você já o viu, é um homem alto e imponente, mas com um destino amargo…
— O que foi que aconteceu com ele?
— Ele tem uma filha.
Com as minhas misturas ele mantém a saúde dos rins dela.
Toma por dois meses, descansa um mês.
— Quantos anos a menina tem?
— Já está entrando no quinto ano.
— A senhora chamou ele de infeliz por causa da doença da filha? — perguntou Lídia.
— Não, não é por isso.
Daqui a alguns anos a menina vai se curar completamente.
Ele não tem esposa, ela morreu no parto, e ele está criando a criança sozinho.
— Dá dó desse homem — suspirou Lídia.
A vó Evdóquia realmente previu a própria morte.
Duas semanas antes do parto de Lídia, ela foi para a cama e não se levantou mais.
Certa noite, a velhinha a chamou.
— Lida, Lidinha, senta aqui comigo um pouco.
A mulher sentou na beirada da cama.
Ela rangeu, e no silêncio da noite aquele som ecoou de forma sinistra.
— Me dá a mão. —
Apertando a palma de Lídia na sua mão ressequida, ela disse devagar, pausadamente:
— Ajude as pessoas, não guarde rancor de ninguém.
Seja humilde diante do seu destino, a felicidade vai em breve te esperar, ela já está na porta.
Mas não abandone a tarefa que eu te ensinei, e depois passa tudo para a sua filha.
Eu não tive filhos, você se tornou para mim como uma neta de sangue.
— Vovó…
— Não me interrompa.
No baú está a roupa em que você vai me enterrar, me leve para o cemitério ao lado do meu marido, quero descansar perto dele.
Na caixinha tem brincos e um broche, são dos tempos do czar, pode usar, é o meu presente por você ter tornado os meus últimos dias mais leves.
Lídia desatou a chorar e encostou a testa na mão enrugada dela.
E Evdóquia soltou o último e suave suspiro…
Todo o povo acompanhou Evdóquia no seu último caminho, falando dela apenas coisas boas e ajudando a “herdeira” grávida com o funeral e a refeição de despedida.
Logo depois o trabalho de parto começou.
Ele correu de forma surpreendentemente fácil, ajudado também pelas infusões de ervas que Lídia vinha tomando.
Ela deu à filha o nome de Evdóquia, em homenagem àquela que se tornara sua verdadeira família na hora mais difícil.
Os dias iam passando, Lídia cuidava do bebê, as pessoas, sabendo que a velha tinha ensinado todos os segredos à moradora da casa, vinham buscar misturas de ervas com ela, e Lídia compartilhava generosamente, recebendo em troca quitutes para si e para a recém-nascida.
O presidente do conselho da aldeia contratou Lídia, e ela se tornou sua mão direita e secretária.
Moradores de sua aldeia natal de vez em quando apareciam, mas ela não os deixava entrar em casa, para que a notícia da filha não chegasse até Vladimir.
Felizmente, essas visitas eram poucas.
Dois meses se passaram, até que um dia ela viu entrar no quintal um homem vistoso de uns trinta e cinco anos.
Ele bateu no vidro da janela, e ela saiu.
— Boa tarde. A senhora é a Lídia?
— Sou, sim.
— Diga-me, a vó Evdóquia não deixou uma mistura de ervas separada para mim?
Sou o diretor da escola local, Serguei Nikolaevitch.
— Deixou, sim, pode entrar, por favor.
Quando ela lhe entregou o saquinho precioso, ele agradeceu e, com tristeza na voz, disse:
— E o que vai ser de mim agora?
A vó Evdóquia se foi, e minha filha só se aguenta graças aos remédios dela…
— Ela me ensinou tudo, não se preocupe, eu sei de cor a receita da sua mistura.
— Mesmo? — ele se animou visivelmente.
— E eu já estava desanimado, achando que teria que procurar outra curandeira.
— Vai dar tudo certo, eu aprendi até os encantos de cura.
A vó Evdóquia disse que a sua filha em alguns anos ia se curar completamente, acredite, tudo vai se ajeitar.
— Agora eu fico mais tranquilo.
Saindo para a varanda, Serguei Nikolaevitch lançou um olhar atento ao quintal.
— No meu dia de folga, eu passo aqui, dou um jeito na cerca e vamos cortar aquele freixo seco, senão um dia ele pode cair de repente.
— Não precisa, não se incomode.
— Não recuse.
Eu soube que você vive sozinha com a bebê, uma ajuda masculina nunca é demais.
Não seja modesta.
Ele sorriu, e esse sorriso fez o coração dela bater mais rápido.
Durante toda aquela noite, a imagem de Serguei Nikolaevitch não saiu da cabeça dela…
Ele passou a ser um visitante frequente em sua casa.
E Lídia se alegrava com as visitas daquele homem sério e respeitável.
Ele a apresentou à filha, Mashenka, e as duas logo se entenderam.
Certo dia, quando a pequena Evdóquia completou um ano, vários carros oficiais entraram na aldeia.
Homens de uniforme severo vieram verificar a documentação e os relatórios, fazendo uma auditoria geral.
— O que aconteceu? — espantou-se Lídia, entregando ao auditor a grossa pasta com as planilhas.
— Na semana passada já tivemos uma inspeção.
— Aquele auditor que estava percorrendo o distrito foi preso.
Em Krasnogvardeyski descobriram casos de grandes desvios, o presidente local andou vivendo muito bem às custas do Estado, e o seu auditor, Piotr Ilitch, fechava os olhos em troca de um certo suborno…
— Mas o nosso Ivan Sergueevitch é um homem honesto, ele não põe no bolso um único kopek do Estado, não pega uma única espiga que não seja dele.
— Todos vocês dizem isso.
O dia inteiro reinou confusão no conselho da aldeia, revisaram celeiros, todas as construções, interrogaram as pessoas.
Mas os fiscais não encontraram nada de condenável.
— Por que a senhora está tão nervosa, Lídia Mikhailovna? — perguntou um dos agentes da ordem.
— Será que há alguma coisa que escapou à nossa atenção?
A senhora confessa sozinha ou prefere ir para a cidade esclarecer as coisas?
— Não há necessidade de ir a lugar nenhum… É só que…
O presidente de Krasnogvardeyski é o meu ex-marido.
— Ainda bem que é ex.
Se não fosse, a senhora agora estaria indo para lugares distantes junto com a atual esposa dele.
— Como assim?
— A esposa dele, a Glafira, também foi presa.
Mal eles foram embora, Lídia correu até a casa de Serguei Nikolaevitch.
— Posso lhe pedir uma ajuda?
— O que aconteceu?
— Eu preciso ir até Krasnogvardeyski.
Não pergunte por quê.
O senhor pode me levar?
— Está bem — ele deu de ombros.
— Mas vamos agora, daqui a pouco começa a escurecer.
Eles seguiram em silêncio, e na cabeça de Lídia ecoavam as palavras da vó Evdóquia: “Ele arrasta todo mundo, como areia movediça…”
Será que ela tinha previsto isso?
A mulher estremeceu ao se imaginar no lugar de Glafira, e seu coração se apertou de medo.
De que desgraça o destino a tinha protegido.
Mas Vladimir e Glafira têm um filho!
Onde estará agora o pequeno Zakhár?
Parando em frente à casa dos pais do ex-marido, ela entrou no quintal.
Serguei Nikolaevitch a seguiu, ignorando os fracos protestos dela.
— Tíkhon Petrovitch, bom dia — cumprimentou ela o ex-sogro.
— Bom dia, Lidinha.
Você já está sabendo?
— Ouvi dizer.
É verdade mesmo?
— Por mais amargo que seja, é.
Não sei o que vai acontecer com ele, muito provavelmente vão declará-lo inimigo do povo e, se descobrirem que roubou muito, podem até condenar à pena máxima — o homem, de repente envelhecido e curvado, cobriu os olhos com a mão e chorou baixinho.
— E a Glafira?..
— Ela trabalhava lado a lado com ele.
É claro que também não vai escapar.
Eu bem que falei, tentei fazer ele entender.
Mas ele por acaso me escutava?
— E o que vai ser do pequeno Zakhár agora?
— Ele fica com a gente, o Genádi e a esposa vão ajudar, é o meu filho mais velho…
Mas vamos ter que sair da aldeia, o povo olha torto pra gente, dá vontade é de nem sair de casa.
E você, como está, Liduška?
— Eu estou bem…
Tíkhon Petrovitch, o senhor se segure, se precisar de ajuda eu estou em Elenovka, ali todo mundo me conhece.
— Ah, já ouvimos falar de você.
E parece que você também tem uma criança, não é?
— Tenho, sim.
— E quem é o pai? — Tíkhon Petrovitch semicerrrou os olhos.
— Eu mal conheço ele — Lídia deu de ombros e corou.
O sangue sempre lhe subia ao rosto quando ela mentia.
— É estranho ouvir isso de você.
Não esperava…
Tá bom, Liduška, vá com Deus.
Você tem um bom coração, mas não se preocupe com a gente, vamos dar um jeito.
E para sua filha é até melhor quando o pai é alguém… pouco conhecido… Fica mais fácil de entender…
Beijando o ex-sogro na face em despedida, Lídia e Serguei Nikolaevitch tomaram o caminho de volta.
— Você não contou para eles que têm mais uma netinha?
— Não.
E me pareceu que ele entendeu tudo mesmo assim, mas vai ficar calado.
A menina está registrada só no meu nome, e o Vladimir provavelmente vai ser declarado inimigo do povo, então pense bem se vale a pena divulgar que ele tem uma filha também.
— Você tem razão.
Mas… Lida, uma criança precisa de um pai — disse Serguei, sem tirar os olhos da estrada.
— Precisa, não vou negar.
Mas não de um pai como o Vladimir.
— E eu?
Eu sirvo para o papel de pai da sua menininha?
— Só se eu servir para o papel de mãe da sua filha.
Eles riram ao mesmo tempo.
Naquela noite, Lídia adormeceu com um sorriso suave nos lábios e, no dia seguinte, correu pela aldeia a notícia: Lídia, a “erva-mateira”, tinha se casado com o diretor da escola rural.
Ao acordar na manhã seguinte à primeira noite de núpcias, Lídia se sentia realmente feliz.
Era isso, aquela felicidade na porta de que a vó Evdóquia falara…
E a Glafira merecia até um “obrigada” — sem querer, ela tinha assumido a parte mais difícil do destino de Lídia.
Epílogo
Vladimir foi condenado à pena máxima, e Glafira foi mandada para os campos por quinze anos.
Tíkhon Petrovitch, com toda a família, deixou a terra natal levando o neto pequeno.
Logo em seguida, Genádi adotou o sobrinho, para que ele não carregasse a marca de filho de inimigo do povo.
E de Serguei e Lídia, cinco anos depois, nasceu um filho em comum.
Eles não tiveram mais filhos.
E Lídia sabia que não teria, porque a vó Evdóquia lhe tinha predito dois partos e três filhos.
Na época, ela pensou que teria gêmeos, mas agora entendia: dois ela tinha dado à luz, a Evdóquia e o filho caçula, Vítor.
E o terceiro filho era a filha de Serguei, Maria, que, aliás, logo se recuperou completamente.
Lídia continuou levando ajuda e consolo às pessoas, transmitindo depois seus conhecimentos à filha Evdóquia…
E, no silêncio da casa acolhedora, cheia de risos de crianças e do aroma de ervas secas, ela se lembrava muitas vezes das palavras da velhinha sobre a aceitação.
E compreendia que sua aceitação não tinha sido fraqueza, mas uma grande força, que lhe permitira não se quebrar, aceitar o próprio destino e deixar entrar nele aquela felicidade verdadeira e pura que chegara até ela não como uma paixão tempestuosa, mas como um sussurro tranquilo do destino, no perfume das ervas do campo e no brilho dos olhos bons e compreensivos do homem que a encontrou bem no meio de suas provações.
E aquela vida, calma e límpida como as águas de um lago na floresta, revelou-se exatamente a recompensa por todas as dificuldades suportadas, aquela mesma luz que sempre encontrava caminho mesmo pela mais densa escuridão.







