«Transfere para o jubileu da minha mãe 50 mil, estou apertado de dinheiro», ordenou o marido na mensagem.

«Não me interessa.

A família é tua — você é o filho, você que pague.»

Maria estava de pé na cozinha, lendo a mensagem.

Pela segunda vez.

Pela terceira.

«Transfere para o jubileu da minha mãe 50 mil.

Estou com dificuldades de dinheiro.»

De Andrei.

Do ex-marido dela.

O mesmo que um ano atrás dizia:

«Nós somos adultos, Masha.

Pra que precisamos de tribunais, pensão, todo esse circo?

Eu vou ajudar.

Prometo.»

E ela acreditou.

Doze anos de casamento…

Será que tinham significado tão pouco?

Um ano atrás.

Um divórcio civilizado.

O divórcio aconteceu em silêncio.

Sem escândalos, sem divisão de bens.

Como entre pessoas instruídas.

Andrei arrumava as coisas com método.

Dobravava as camisas na mala, tirava os diplomas da parede, colocava os livros em caixas.

«O apartamento é seu», disse ele na época, sem levantar os olhos.

«Eu vou morar com a minha mãe.

Por enquanto, depois compro um apartamentinho ou alugo um.»

Esse “por enquanto” já durava um ano.

Maria estava sentada no sofá, observando a própria vida desmoronar.

As crianças estavam na escola.

O Maksim, de sete anos, e a Anya, de dez, ainda não sabiam que o pai ia embora.

«E como a gente vai explicar isso pras crianças?» perguntou ela.

«Vamos dizer que, por enquanto, eu vou morar um pouco com a vovó — ela precisa da minha ajuda, mas eu vou vir vê-los sempre.»

«E a pensão?»

Maria pronunciou essa palavra com dificuldade.

Andrei parou.

Virou-se para ela.

«Mas que é isso?

Pra que oficializar?

Nós não somos inimigos.

Eu vou transferir o que for preciso.

Mais ou menos trinta mil por mês — como eu já gastava com a família.»

Parecia razoável.

«Mas se você entrar na justiça…» ele deu de ombros.

«Aí acabou.

Só o que estiver no papel.

Nada de viagens pro mar, nada de cursos extras além do mínimo.

Entende?»

Maria assentiu.

Claro que entendia.

Por que estragar a relação?

As crianças amavam o pai.

Foi a ela que ele machucou e traiu, as crianças não tinham culpa.

Anya estudava em escola de música — quinhentos rublos por aula.

Maksim fazia caratê — oitocentos.

Mais o inglês para os dois.

«Está bem», disse ela.

«Vamos tentar.»

«Você vai ver, vai dar tudo certo.

Vai ser até melhor do que antes.»

Melhor…

Naquela época Maria não tinha entendido para quem seria melhor.

Os primeiros meses de euforia.

No começo tudo realmente correu bem.

Andrei mandava dinheiro regularmente.

Todo dia primeiro do mês — e, se fosse preciso a mais, bastava.

Maria só repassava a mensagem do treinador ou do professor e Andrei, sem perguntar nada, fazia a transferência.

Sem atraso, sem lembretes.

Pegava as crianças todo fim de semana.

Levava ao cinema, ao parque, comprava sorvete e brinquedos.

Trazia-os de volta felizes e cansados.

«Mamãe, o papai disse que no verão a gente vai pro mar!» contava Anya.

«Pra Turquia!

Com aquaparks!»

«E eu vou também, né?» perguntava Maksim.

«Claro!

A família inteira!»

A família inteira…

Maria não perguntava se ela mesma estava incluída nessa família.

Mas provavelmente não…

«Tá vendo?» dizia Andrei, pegando as crianças em mais um sábado.

«E você aí preocupada.»

Maria trabalhava numa agência de publicidade como gerente.

Antes o tamanho do salário não a preocupava muito — ela gostava do trabalho, era boa no que fazia, e isso era o principal.

Mas as despesas aumentaram.

As contas de casa antes eram pagas por Andrei.

Agora eram problema dela.

Quatro mil por mês, no mínimo.

A comida.

Roupas para as crianças — crescem rápido.

Coisas da escola, transporte, dinheiro de bolso.

Maria começou a pegar bicos.

Fazia freelance à noite, quando as crianças dormiam.

Preparava apresentações, desenhava logotipos, escrevia textos para sites.

Pensou em chamar dois garotos para trabalharem com ela e distribuir os pedidos entre eles.

Dormia quatro horas por noite.

Mas dava conta.

«Você é uma heroína», dizia a amiga Lena.

«Eu não conseguiria.»

«Conseguiria sim.

Quando precisa, a gente consegue.»

Os primeiros sinais de alerta.

A sogra — Lídia Stepanovna — ligava uma vez por semana:

«Maria, como é que você está aí?

Não está pesado demais sozinha?»

A voz cuidadosa, atenciosa.

Mas Maria ouvia o subtexto.

«Obrigada, Lídia Stepanovna.

A gente está se virando.»

«E o trabalho?

Não está trabalhando demais?»

«Está tudo bem.

Tudo bem mesmo.»

«Tá bom, tá bom.

Cuida de você.

As crianças precisam de uma mãe saudável.»

Depois dessas conversas Maria se sentia desconfortável.

Ela perguntava, mas não oferecia ajuda.

Um dia Maksim ouviu uma conversa de Lídia Stepanovna com Andrei e contou quase palavra por palavra para a mãe.

As crianças estavam visitando os avós, Maria tinha ido buscá-las.

Maria tossiu alto e entrou na cozinha.

«Vim buscar as crianças.»

«Claro», sorriu Lídia Stepanovna.

«Como vão as coisas?

E o trabalho?»

«Bem, obrigada.»

«Você não anda cansada demais?

Porque a sua cara está… meio abatida.»

Cara abatida.

Só faltava isso.

Quatro horas de sono e cansaço crônico não favorecem ninguém.

«Está tudo bem», repetiu Maria.

No caminho de volta para casa, Maksim falou:

«Mãe, quando a gente estava na vovó, eu ouvi ela dizendo pro papai: “Foi erro seu deixar o apartamento pra ela.

Agora vai começar a levar homens pra casa.

E o que as crianças vão ver?”»

Maria ficou imóvel.

«E o que o papai respondeu?»

«Ele disse: “Mãe, não começa”.

E a vovó continuou: “Eu só estou falando a verdade.

Mulher jovem, apartamento, liberdade.

Você acha mesmo que vai ficar sozinha por muito tempo?”»

«Entendi», disse Maria, baixinho.

«Maksim, esquece essa conversa.»

Mas por dentro ela pensou: que homens?

Quando?

Entre o trabalho e as tarefas da casa?

Ela trabalhava de manhã à noite.

Chegava em casa exausta.

Jantava com as crianças, conferia os deveres, colocava-os para dormir.

Depois sentava no computador — os bicos não se faziam sozinhos.

Nos fins de semana — roupa, limpeza, compras.

Se as crianças estavam com o pai — ela podia dormir.

Um luxo.

De que homens estavam falando mesmo?

Mudanças no outono.

Em setembro, algo mudou.

Andrei começou a pegar as crianças com menos frequência.

Não todo fim de semana, mas semana sim, semana não.

«Papai, quando a gente vai ao zoológico?» perguntava Maksim ao telefone.

«Logo, filho.

O papai está com muito trabalho agora.»

«E ao teatro?

Você prometeu “O Quebra-Nozes”.»

«Prometi.

A gente vai com certeza.»

Mas as promessas não eram cumpridas.

Maria via como as crianças esperavam.

Como Anya, nas sextas, arrumava a mochila com o pijama, esperando que o pai a levasse para a casa da avó.

«O papai vem hoje?» perguntava Maksim.

«Não sei, meu amor.

Liga pra ele você mesmo.»

«Ele não atende.»

«Então vamos esperar.»

Esperavam até de noite.

Depois Maria escrevia para Andrei:

«As crianças ficaram te esperando.

Você podia ter avisado.»

«Desculpa.

Estou atolado de trabalho.

No próximo fim de semana, com certeza.»

No fim de semana seguinte, acontecia outra coisa.

O dinheiro, porém, ele mandava certinho.

Trinta mil no primeiro dia de cada mês.

«Len, quero conversar sério com ele», desabafou com a amiga Lena.

«Sobre o quê?»

«Sobre as crianças.

Ele não vê elas faz um mês.»

«Mas ele manda dinheiro?»

«Manda.»

«Então qual o problema?»

«O problema é que as crianças precisam de um pai, não de um patrocinador.»

«Masha, ele não é obrigado.

Vocês se divorciaram.»

Não é obrigado…

Interessante essa lógica.

Outubro.

Os primeiros atritos.

A paciência de Maria se esgotou em outubro.

Anya ficou doente.

Febre, tosse.

Ela teve que pegar atestado.

Maria estava em casa com a filha, quando Andrei ligou:

«Como estão as coisas?»

«Anya está doente.»

«É grave?»

«Uma virose.

Mas a febre está alta.»

«Entendi.

Melhoras pra ela.»

«Andrei, você pode vir?

Ela está perguntando por você.»

Silêncio.

«Agora não dá.

Estou trabalhando.»

«E de noite?»

«À noite tenho reunião.»

«E no fim de semana?»

«No fim de semana vou para o sítio do Kostya.

A gente já planeja isso faz tempo.»

Maria ficou em silêncio.

«Masha, você está aí?»

«Estou.»

«Aconteceu alguma coisa?»

«Quando foi a última vez que você viu as crianças?»

«Não lembro.

Por quê?»

«Um mês atrás, Andrei.

Um mês.»

«E daí?

Não desapareci.

Eu pago direitinho.»

«Não se trata de dinheiro.»

«Então do quê?

Eu trabalho.

Estou cansado.

Não posso ficar entretendo eles todo fim de semana.»

Entretendo…

Como se fossem sobrinhos, não os próprios filhos.

«Você é o pai deles.»

«Eu sei.

E ajudo.

Mais do que muita gente.»

«Mais do que quem?»

«Mais do que aqueles que pagam só a pensão.

Eu pago mais.

E ainda falo com as crianças.»

«Quando você fala com elas?

Pelo telefone, uma vez por semana?»

«Masha, não começa.

Eu já tenho problema demais.»

«E eu não?»

«Você tem trabalho, tem o dinheiro que eu mando, tem um apartamento.

Do que é que você está reclamando?»

Do que reclamar…

Maria desligou a ligação.

Anya estava deitada na cama, pálida, com os olhos brilhando de febre:

«Mamãe, o papai vai vir?»

«Não sei, meu amor.

Ele está ocupado.»

«Sempre ocupado», sussurrou Anya e virou-se para a parede.

Novembro.

O conflito aumenta.

Em novembro, Andrei sumiu de vez.

O dinheiro ele ainda mandava.

Mas não atendia às ligações, respondia às mensagens com uma palavra.

Maksim trouxe da escola um dois em matemática.

«Por que você não fez o dever de casa?» perguntou Maria.

«Eu não entendi a matéria.

E não tinha ninguém pra perguntar.»

«Como não tinha?

Podia ter perguntado pra mim.»

«Você não sabe explicar matemática.»

Era verdade.

Maria era de humanas.

Sempre teve problemas com matemática.

«O papai sabe explicar», acrescentou Maksim.

«Mas ele não vem.»

Maria ligou para Andrei.

Ele atendeu só depois de um tempo.

«Oi?»

«O Maksim precisa de ajuda em matemática.»

«E?»

«Você pode explicar a matéria pra ele?»

«Pelo telefone?»

«Você pode vir aqui?»

«Masha, agora não tenho tempo de dar aula.»

«Ele é seu filho.»

«Eu sei.

Mas não sou professor.

Arrumem um reforço escolar.»

Reforço…

Com que dinheiro?

«Andrei, o que está acontecendo com você?»

«Nada.

Só estou cansado de carregar vocês todos nas costas.»

«Carregar quem?»

«Vocês.

Os três.

Dinheiro, problemas, preocupações.

Eu também quero viver um pouco pra mim.»

Pra ele…

«E as crianças?»

«As crianças estão bem.

Têm mãe, têm dinheiro, têm um teto.

Todo o resto é problema seu.»

Problema seu.

Não nosso.

Seu.

Dezembro.

A última gota.

O Ano-Novo se aproximava rápido.

Maria planejava uma viagem para a casa da mãe, no campo.

A mãe morava sozinha numa casa antiga, onde Maria tinha crescido.

Ela tinha setenta e dois anos, a saúde não estava grande coisa.

A casa precisava de cuidados.

Naquele ano tinha caído muita neve — até o joelho.

Era preciso limpar os caminhos, conferir o telhado, consertar o portão.

E, principalmente — levar a mãe ao médico.

No hospital do distrito o atendimento era muito ruim.

Precisavam de exames numa clínica decente.

Maria vinha juntando dinheiro para essa viagem havia uns dois meses.

Separava três ou quatro mil dos bicos.

E então Andrei ligou.

«Masha, tenho uma novidade.»

A voz alegre, satisfeita.

«Que novidade?»

«Vou pras Maldivas!

Com o Kostya.

Você acredita?

Pegamos um pacote baratíssimo — achamos uma super promoção.»

Maria ficou em silêncio.

«Masha, você está aí?»

«Sim.

Estou ouvindo.»

«É demais!

Eu sonhava com os trópicos fazia anos.

E agora, uma oportunidade dessas!»

«Parabéns.»

«Obrigado!

A gente embarca dia vinte e oito de dezembro.

Duas semanas debaixo das palmeiras!»

Vinte e oito de dezembro.

Bem antes do Ano-Novo.

«E as crianças?» perguntou Maria.

«O que têm as crianças?»

«Ano-Novo.

Férias escolares.»

«Ah… é.

Olha, no Ano-Novo não vou poder ficar com elas.

Mas depois a gente inventa alguma coisa.

Talvez em janeiro a gente vá a algum lugar.

Para o sítio do Kostya, por exemplo.»

«E agora?»

«Agora não dá.

Mas vou transferir dinheiro pros presentes deles!

Cinco mil.

Nada mal, né?»

Cinco mil.

Para duas crianças.

Maria fez as contas rapidamente.

As festinhas na escola — iam precisar de fantasias, presentes pros colegas.

As férias de Ano-Novo — duas semanas.

Shoppings, cinema, diversão.

As crianças esperavam essa festa o ano inteiro.

Cinco mil para os dois — não dava pra nada.

«Andrei, mas cinco mil… é muito pouco.

Para duas crianças.»

«Pouco?»

A voz ficou mais fria.

«Desculpa, eu não sou milionário, Masha.

Você também trabalha.

E ganha bem, pelo que sei.»

«Eu ganho, mas preciso pegar bicos.»

«Pois então.

E com os meus trinta mil — fica uma soma boa.»

«Mas é férias.

As crianças vão ficar em casa por duas semanas.

É preciso fazer algo com elas.»

«E daí?

Arruma alguma coisa.

Livros, desenhos animados, brincadeiras em casa.

Antes a gente vivia bem sem ir o tempo todo pra shopping.»

Maria sentiu a irritação crescer.

«Não se trata de shopping.

Você é o pai deles.

Eles estão te esperando.»

«Eu sei que sou pai deles.

E faço mais do que devo.

Muito mais.»

«O que quer dizer “mais do que deve”?»

«Quer dizer isso mesmo.

A gente se divorciou, Masha.

Eu poderia simplesmente não ajudar.

Por lei eu devo pagar um terço do salário — isso dá uns quinze mil.

E eu pago trinta.

O dobro!»

«Como assim “não ajudar”?»

«Assim.

Esqueço de vocês e vivo a minha vida.

Muitos fazem isso.»

«Mas você não é “muitos”.

Você é o pai deles.»

«Um pai que paga em dia e fala com os filhos.

Mesmo podendo não falar.»

Maria apertou o telefone com mais força.

«Então falar com seus filhos, pra você, é um favor?»

«Não exagera.

Só quero dizer que estou tentando ser um bom pai.

E você… você está é mal acostumada.»

Mal acostumada.

A palavra acertou em cheio.

«Entendi», disse Maria, baixinho.

«Boas férias.»

E desligou.

Os planos desmoronam.

A viagem para ver a mãe estava cancelada.

Maria sentou-se à mesa e recalculou o orçamento da família.

Se Andrei desse só cinco mil, e as férias durassem duas semanas…

Ia sobrar trocado para diversão.

E a mãe, lá no campo, esperava.

Ligava todos os dias:

«Marinochka, você vem mesmo, né?

Já arrumei os quartos, já fiz tortas.»

«Não sei, mãe.

Talvez a gente deixe pra primavera.»

«O que aconteceu?

É o trabalho?»

O que dizer?

Que o ex-marido preferiu as Maldivas aos próprios filhos?

«É, o trabalho apertou.

Não posso viajar.»

«Que pena.

Eu estava tão ansiosa…»

Na voz da mãe dava para perceber a decepção.

Ela via a filha raramente.

A última vez tinha sido no verão.

«Na primavera a gente vem com certeza, todos juntos», prometeu Maria.

«Tá certo.

Primavera, então.»

A mãe não fez perguntas.

Era uma mulher delicada.

Nunca se meteu na vida da filha.

Mas Maria sabia — a mãe esperava.

Comprava doces, preparava os quartos.

E tudo à toa.

A mensagem.

Três dias se passaram depois da conversa com Andrei.

Maria estava no computador, trabalhando numa apresentação para um cliente.

Mais um bico — três mil rublos por dois dias de trabalho.

As crianças assistiam a um desenho na sala ao lado.

O barulho do desenho atrapalhava a concentração, mas não havia alternativa.

O telefone vibrou.

Mensagem de Andrei.

Maria abriu automaticamente — e congelou.

«Masha, transfere para o jubileu da minha mãe 50 mil.

Estou sem dinheiro.»

Ela releu.

Mais uma vez.

Cinquenta mil.

Para o jubileu da sogra.

De um homem que está prestes a ir às Maldivas e não consegue dar mais de cinco mil para dois filhos.

Maria se levantou.

Andou pela cozinha de um lado para o outro.

Cinquenta mil…

Era uma vez e meia o salário dela.

Ou a viagem para visitar a mãe, com tratamento numa clínica particular.

Ou a reforma do quarto das crianças, adiada há dois anos.

O telefone vibrou de novo.

«Você recebeu a mensagem?

É urgente.

O jubileu é depois de amanhã.

Chamei toda a família.»

A família…

A mesma que nunca considerou Maria uma pessoa de verdade.

Lídia Stepanovna, que cochichava: «Vai começar a levar homens pra casa».

As irmãs dele, que quando a encontravam sorriam de maneira forçada e diziam:

«Olha só, o Andrei emagreceu.

A vida de solteiro claramente está fazendo bem pra ele.»

Maria digitou uma resposta.

Apagou.

Digitou de novo.

As mãos tremiam de indignação.

«Mamãe, o que aconteceu?»

Anya estava parada na porta, assustada.

«Nada, meu amor.

Está tudo bem.

Vai terminar de ver o desenho.»

«Por que você está tão brava e andando em círculos?»

«Não estou brava.

Está tudo certo.»

Mas não estava nada certo.

E não era só cansaço.

Maria sentou-se à mesa.

Colocou o telefone na frente dela.

O que ela tinha se tornado para aquele homem?

Um caixa eletrônico?

Um ano atrás ele falava de como eles eram adultos.

Que iriam resolver tudo de modo civilizado.

E agora exigia dinheiro para a própria mãe.

Como se fosse obrigação dela.

Como se fosse algo dado.

Para a mesma Lídia Stepanovna que agora receberia o presente às custas da ex-nora.

Maria digitou a resposta:

«Não me interessa.

A família é tua — você é o filho, você que pague.»

Mandou.

Um segundo depois, acrescentou:

«Eu não sou mais sua esposa.

E não sou mais nora dela.

Nós estamos divorciados, lembra?»

E mais uma mensagem:

«Amanhã vou entrar com pedido de pensão na justiça.»

Mandou e desligou o telefone.

A ligação.

Andrei começou a ligar meia hora depois.

Maria não atendeu.

Ele ligou por uma hora.

Duas.

Mandava mensagens:

«Masha, atende.

A gente precisa conversar.»

«O que você está fazendo?

Nós tínhamos um acordo!»

«Pensão é bobagem.

Você sabe disso.»

À noite Maria ligou o telefone.

Dezessete chamadas perdidas.

Ele ligou na hora.

«Finalmente!»

A voz tremia de raiva.

«O que você pensa que está fazendo?»

«O quê, exatamente?»

«A pensão!

Nós tínhamos combinado de resolver tudo como pessoas civilizadas!»

«A gente tinha combinado muitas coisas.

Você não cumpriu nenhuma.»

«Isso não é verdade!

Eu pago!

Regularmente!

Trinta mil todo mês!»

«Quando te convém.

O quanto te convém.

Do jeito que você quer.»

«Que jeito é esse?»

«As crianças não te veem.

Pedem ajuda — você está ocupado.

Mas quando a sua mãe precisa de dinheiro — você lembra de mim.»

«É a minha mãe!»

«Sua.

Não minha.

Então paga você.»

«Masha, não estraga tudo.

Eu estou me esforçando.

Queria fazer do melhor jeito!»

«Melhor pra quem?

Pros filhos?

Que ficam te esperando todo fim de semana?

Ou pra você?»

«Eu estou ocupado…»

«Nas Maldivas?»

Silêncio.

«O que é que as Maldivas têm a ver com isso?»

«Têm a ver que você tem dinheiro pra férias.

Mas não pros seus filhos.

Para as férias de Ano-Novo — cinco mil pros dois.

Pro jubileu da sua mãe — cinquenta mil.»

«São coisas diferentes!»

«Dinheiro não é diferente, Andrei.

Ou ele existe, ou não.»

«Você vai arruinar tudo!

As crianças vão perder o pai!»

«As crianças perderam o pai um ano atrás.

Quando você decidiu que estar com elas era um favor.»

Andrei ficou quieto.

«Eu não sou o seu caixa», disse Maria calmamente.

«Sou a mãe dos seus filhos.

Mas isso não quer dizer que eu tenha que bancar a sua vida.»

«Cinquenta mil não são a minha vida.

É o jubileu da minha mãe.»

«Da sua mãe.

Que nunca me considerou família.»

«Ela te respeita…»

«Ela me tolerava.

É bem diferente.»

«Você é muito sensível.»

«Sou realista.»

Uma longa pausa.

«Masha, vamos deixar isso de pensão pra lá.

Eu aumento o valor das transferências.

Pra quarenta mil.»

«Não.»

«Pra cinquenta mil!»

«Não, Andrei.

Chega de pechinchar.»

«Por quê?»

«Porque amanhã você vai arrumar motivo pra reduzir esses cinquenta mil.

Ou pra não pagar nada.

E depois de amanhã vai me pedir dinheiro pro jubileu do seu tio.»

«Eu não vou pedir…»

«Vai, sim.

Porque já se acostumou.

Você acha isso normal.»

Ele ficou em silêncio.

«Tchau, Andrei.»

Um mês depois.

O pedido foi feito em janeiro.

Depois das férias de Ano-Novo.

Quando saiu a decisão do tribunal, Maria não acreditou nos próprios olhos.

A pensão foi fixada em oitenta mil rublos por mês.

Oitenta mil!

E não quinze mil, como ela calculava.

Significava que o salário do Andrei não era quarenta e cinco mil, como ele dizia, mas mais de duzentos e quarenta mil.

Ele tinha mentido.

O ano inteiro tinha mentido sobre a renda.

Sobre o apartamento também a verdade veio à tona.

Andrei não tinha “deixado” o apartamento para Maria por generosidade.

Por lei, no divórcio, o imóvel fica com quem mora com os filhos.

Ele simplesmente não tinha escolha.

Os oitenta mil chegavam automaticamente.

Os oficiais de justiça controlavam.

Nada de ligações pedindo coisas.

Nada de barganha.

Nenhuma condição.

Maria juntou dinheiro e levou a mãe ao médico numa boa clínica particular.

Os exames mostraram que a saúde não estava tão ruim quanto temiam.

Só era preciso ajustar o tratamento.

«Obrigada, minha filha», disse a mãe.

«Eu já achava que a situação estava bem grave.»

«Vai ficar tudo bem, mãe.»

E de fato — melhorou.

As crianças se acostumaram à nova vida mais rápido do que Maria imaginava.

Andrei agora as pegava rigorosamente conforme o calendário — a cada dois fins de semana.

Nem mais, nem menos.

Por determinação do tribunal.