— Querida, eu me demiti!
Finalmente poderei me dedicar ao que realmente gosto, disse Iura com tanto alívio, como se grandes conquistas o esperassem pela frente.

Mas Janna sabia que o marido não tinha nenhum plano concreto.
— E do que você gosta?
Com o que vai se ocupar?
Vai mesmo abrir o próprio negócio?
perguntou ela, arqueando as sobrancelhas.
— O quê?
Que negócio?
riu Iura.
— Hoje em dia, nos negócios, só há prejuízos, e eu também não tenho experiência.
Eu simplesmente vou procurar um trabalho que me dê prazer.
Algo criativo, livre…
Janna assentiu, mas permaneceu em silêncio.
À pergunta sobre o que exatamente o marido gostava, ele nunca respondeu.
Na verdade, Iura não sabia com quem queria trabalhar nem para onde seguir depois.
A esposa entendia isso, mas não quis pressioná-lo.
O trabalho já irritava o marido havia muito tempo.
Todos os dias, ao chegar em casa, Iuri resmungava:
— Isso não está no meu nível, lá não há perspectivas.
Tenho vergonha de trabalhar por um salário desses!
O homem realmente ganhava pouco dinheiro, mas Janna ficava feliz até com isso.
Ela ainda se lembrava dos tempos em que Iura podia passar meses procurando emprego.
Naquela época, eles viviam com o salário dela, economizavam cada centavo e contavam os dias até o adiantamento.
Agora, porém, tudo era diferente.
Iura trabalhara de forma estável nos últimos cinco anos.
Ele até conseguira guardar uma pequena quantia.
Não era riqueza, claro, mas havia uma reserva para dias difíceis.
Janna calculou mentalmente o dinheiro na conta e decidiu que ele seria suficiente para meio ano de vida modesta.
Sabendo disso, ela concordou em dar tempo ao marido.
Talvez Iura realmente encontrasse algo que valesse a pena, que o fizesse feliz e trouxesse estabilidade para a família.
Janna nem queria pensar que o marido voltaria a cair naquele abismo de incerteza do qual eles haviam saído com tanta dificuldade.
Iuri tinha certeza de que agora encontraria, sem falta, algo melhor.
Ele preparou um currículo, enviou-o para dezenas de empresas e ia às entrevistas com entusiasmo.
O homem sonhava em conseguir emprego numa empresa onde finalmente fosse valorizado como merecia.
Mas passou um mês, depois o segundo, depois meio ano…
Iura nunca conseguiu encontrar o emprego ideal.
As recusas chegavam uma após a outra.
Certa noite, quando o homem estava sentado ao computador, rolando vídeos engraçados, Janna, cansada, não aguentou mais.
Ela parou à porta, apoiou-se no batente e, franzindo a testa, disse:
— Talvez fosse melhor você procurar trabalho em vez de simplesmente perder tempo?
Será que não há nada adequado?
Por que você ainda está sentado em casa?
— Eu procuro o dia inteiro.
Deixe-me descansar pelo menos um pouco…
Não é minha culpa que agora haja cortes em todos os lugares.
Não se preocupe, em breve alguma coisa com certeza vai aparecer, respondeu Iura, sem sequer olhar para a esposa.
Essas palavras fizeram Janna estremecer.
Ela já as ouvira antes, mais de cinco anos atrás.
Naquela época, Iura também começou cheio de entusiasmo, ia a entrevistas e ligava para conhecidos, mas depois da quinta recusa passou a ligar o computador cada vez mais raramente, a descansar depois de cada busca, e um mês depois quase deixou de fazer qualquer coisa.
Ele ficava o dia inteiro sentado no sofá, assistia a filmes e repetia:
“Tudo vai se ajeitar, você vai ver.”
Não querendo repetir essa história, Janna aproximou-se do marido e virou a cadeira dele para si.
— Iura, nós já passamos por isso, disse ela com firmeza.
— Se você se esqueceu daquela vida, eu não esqueci.
Amanhã de manhã, você vai se sentar e fazer um plano:
para onde enviou o currículo, quais vagas analisou, o que precisa melhorar.
Se quiser, eu ajudo.
Reviso o texto e digo onde procurar.
Precisamos seguir em frente, e não esperar por um milagre, Iura.
O homem ficou vermelho e baixou os olhos.
— Está bem, amanhã vou cuidar disso sem falta.
Mas no dia seguinte tudo se repetiu.
Iura “procurava” trabalho, e Janna “acreditava” em suas buscas.
Os dois desempenhavam seus papéis, e o frágil equilíbrio familiar deles se sustentava nesse acordo silencioso.
A cada semana, a ansiedade de Janna aumentava mais.
Certa noite, Iuri aproximou-se dela e fez uma proposta incomum:
— Querida, meu aniversário está chegando.
Talvez chamemos convidados para casa?
Arrumamos a mesa, descansamos dos problemas e preocupações…
Janna ficou perplexa.
— Iura, que convidados?
Que mesa?
Nós já não temos dinheiro suficiente para nada.
Suas economias acabaram, e meu salário vai só para comida e contas de serviços.
— É exatamente disso que estou falando!
animou-se Iura.
— Vamos preparar uma mesa modesta.
Precisa de muita coisa?
Algumas saladas, pão, chá…
Mas os parentes vão dar dinheiro de presente.
Prometo que não vou pegar nem um centavo.
Vou entregar tudo a você para cobrir as despesas, e ainda vai sobrar.
Pense você mesma:
vamos descansar um pouco e ainda teremos algum acréscimo.
Afinal, faço trinta e cinco anos, quero comemorar de forma decente…
Janna resistiu primeiro, mas depois cedeu.
Não tanto por causa dos argumentos do marido, mas por causa do próprio cansaço.
Ela também queria se distrair, esquecer os problemas e a eterna falta de dinheiro pelo menos por uma noite.
Pegou um bloco de notas e, suspirando, esboçou o cardápio:
salada César com frango em vez de camarões, fatias de embutidos baratos, charutos de repolho com carne moída e arroz.
A soma saía modesta, quase simbólica, mas logo Iura deu uma olhada no bloco e acrescentou mais alguns itens à lista.
— Eu acrescentei algumas coisas ali.
Compra caviar e iguarias para o meu aniversário, exigiu o marido desempregado à esposa.
Janna mordeu o lábio, calculando os valores.
Caviar…
Peixe…
Isso já não cabia no orçamento.
Mas ela ficou calada, decidindo que tudo bem, que haveria também esse aperitivo.
Afinal, era o aniversário dele.
Alguns dias depois, Iura voltou ao assunto:
— E se fizermos dois pratos quentes?
Charutos de repolho são bons, mas eu também gostaria de pato assado com maçãs.
E algumas garrafas de bom vinho não fariam mal.
Afinal, é um aniversário importante.
E podemos encomendar um bolo na confeitaria local.
Aquele de chocolate, com cerejas.
Ele dizia isso sorrindo, como se não notasse como o rosto da esposa mudava.
— Você está falando sério?!
soltou ela finalmente.
— Sabe quanto isso vai me custar?
Se Janna ainda podia aceitar o caviar vermelho, o peixe e o pato, o álcool e o bolo caríssimo já lhe pareciam um luxo descarado.
— Mas é o meu aniversário, um jubileu.
Eu só quero que tudo seja…
normal.
Que a gente se sente, relaxe.
Eles vão me dar dinheiro de qualquer forma.
Depois você pega, isso vai cobrir tudo, disse o marido em tom suplicante.
Janna hesitou, ficou com raiva, mas no fim comprou tudo o que Iura queria.
Era o aniversário dele.
Ele estava sem trabalho havia sete meses.
A mulher queria apoiar o marido, não destruí-lo ainda mais.
A festa acabou sendo inesperadamente divertida.
Os parentes mais próximos vieram visitar Iura.
A mesa não parecia especialmente luxuosa, mas também não era pobre.
Janna até se arrependeu de ter brigado com o marido quando ele acrescentava produtos caros à lista.
Sem eles, a mesa teria ficado totalmente escassa.
Quando os convidados começaram a dar presentes a Iura, Janna relaxou um pouco.
Ela esvaziou algumas taças de vinho e começou a pensar:
“Talvez nem tudo esteja tão ruim.
Talvez seja apenas uma fase, e logo ela passe.”
Mal esses pensamentos passaram pela cabeça da mulher, os convidados começaram, um após o outro, a felicitar Iura pelo aniversário e a lhe estender caixas e sacolas.
Ele olhava dentro delas uma por uma, e a cada vez seu rosto se iluminava com um sorriso feliz.
— Obrigado, tia Liuda, tio Jenia!
É exatamente o que eu sonhava!
exclamava o homem com alegria.
Janna não conseguia entender o que estava acontecendo.
Nenhum dos parentes entregou ao aniversariante um simples envelope.
Todos lhe estendiam caixas, grandes e pequenas, embrulhadas em papel colorido e amarradas com fitas.
Só depois, quando Iura começou a desembrulhá-las, a mulher percebeu que não haveria dinheiro algum.
— Ah, é um videogame!
Muito obrigado!
O homem aproximou-se dos pais, abraçou-os com força e depois continuou a abrir os presentes com entusiasmo infantil.
Vinte minutos depois, Iura estava sentado no sofá, cercado por um controle, fones de ouvido e até um mouse gamer.
Ao lado dele não havia um único envelope com dinheiro vivo.
Ao notar isso, Janna sentiu a irritação ferver dentro de si.
Por que deram brinquedos a Iura?
Por que simplesmente não deram dinheiro a um homem adulto?
Quando os convidados foram embora, ela finalmente deu vazão às emoções:
— Iura, você prometeu que os presentes cobririam as despesas.
Onde está o dinheiro?
Por que eles lhe deram equipamentos de jogos?
Nós não podemos vender essas coisas agora mesmo, e as contas não vão esperar.
O homem apenas deu de ombros em resposta:
— Bem…
foi assim que aconteceu.
Se pensar bem, eles cobriram os gastos.
Tudo isso custa muito dinheiro.
Iura disse isso com tanta calma que a esposa percebeu:
havia algo errado ali.
Alguns dias depois, quando as emoções se acalmaram, Janna decidiu passar na casa da cunhada.
Ela queria, como quem não quer nada, arrancar alguma informação dela:
os convidados sabiam dos planos dela, discutiram algo com o aniversariante antecipadamente?
— Iurka está tão feliz, passa o dia inteiro jogando no videogame dele.
Igual a uma criança.
E como vocês adivinharam o desejo dele?
Ele sonhou com esse tipo de equipamento a vida inteira!
tagarelou a cunhada.
A cunhada primeiro se mexeu desconfortável na cadeira, mas, ao ver o sorriso sincero de Janna, confessou:
— Escuta, só não diga ao Iura que fui eu que contei, está bem?
Ele mesmo pediu que déssemos tudo isso a ele.
Ligou para todo mundo e depois mandou links dos produtos.
Disse que o dinheiro iria desaparecer de qualquer jeito, enquanto assim pelo menos os equipamentos ficariam.
Janna mal conseguiu se conter para não despejar sua raiva sobre a irmã do marido.
Mas, ao voltar para casa, ela já não estava tão controlada.
— Então é isso que você é!
Decidiu que era o mais esperto?
Quer dizer que eu devia gastar meu salário na sua festa esperando recuperar pelo menos um pouco do dinheiro, enquanto você decidiu me enganar?
Como você não tem vergonha, Iura?
Você entende que agora não temos com que pagar o apartamento?
Ao perceber que a mentira tinha sido descoberta, Iura afastou-se do jogo e se virou assustado.
— Ah, pare com isso, é só dinheiro.
Em compensação, agora eu tenho um videogame.
Lembra como eu sonhava com ele?
— Se é só dinheiro, por que você simplesmente não arranja um emprego?!
— Eu vou arranjar, prometo!
Só preciso de tempo!
— Você está sentado em casa há oito meses!
E isso era sem videogame!
Agora, jogando, você não vai pensar em trabalho de jeito nenhum!
— Vou sim, vou sim!
Você vai ver!
Janna já não acreditava mais no marido.
Ela olhava para ele e via não o homem com quem se casara, mas um homem irresponsável, preguiçoso e calculista.
Iura não considerava seu engano algo sério.
Ele simplesmente pensava em si mesmo, como sempre.
Percebendo que o marido não mudaria, Janna começou a arrumar suas coisas.
Naquele momento, Iura estava jogando e nem entendeu de imediato o que estava acontecendo.
— Aonde você vai?
perguntou ele, sem tirar os olhos da tela.
— Vou embora, respondeu ela.
O homem levantou os olhos e suspirou.
Ele não queria nada ter que se afastar dos jogos por causa de escândalos.
— Vai embora agora mesmo?
— Sim.
Agora mesmo.
— Bem, está bem, disse Iura, assentindo, como se fosse algo temporário.
O homem ficou realmente preocupado quando a comida na geladeira começou a acabar, e depois começaram a chegar as contas do apartamento.
Ele estava completamente sozinho — sem dinheiro, sem trabalho e sem alguém que o lembrasse da realidade.
Duas semanas depois, começou a ligar para Janna e pedir que ela voltasse.
Para pagar as contas, Iura teve que publicar um anúncio vendendo o videogame, mas isso seria apenas uma medida temporária.
Era preciso trazer a esposa de volta.
— Perdoe-me, eu não queria te magoar.
Volte, este é o nosso apartamento, a nossa família.
Não vamos destruí-la.
— O apartamento é nosso, mas eu não quero viver numa família assim.
Eu pedi o divórcio, Iura.
E a divisão dos bens.
Em breve você será chamado ao tribunal.
Espero que você vá, e que nos separemos em paz.
Iura resistiu por muito tempo.
Não queria se divorciar, prometia corrigir tudo e dizia que havia entendido seu erro.
Mas Janna permaneceu inflexível.
Aquele aniversário não apenas abriu seus olhos.
Ele lhe mostrou toda a verdade:
por quanto tempo ela havia ignorado a irresponsabilidade do marido e quanta energia gastara esperando que ele mudasse.
Ela não lamentava aquele dinheiro.
Lamentava a si mesma e o tempo que entregara a uma pessoa que não valorizava nem ela nem a família deles.
Mas até dessa situação Janna tirou uma lição:
daquele momento em diante, ela não ouviria palavras, mas observaria ações e escolheria aqueles que estivessem prontos para agir, e não para se esconder atrás de sonhos infantis e desculpas.







