O apartamento pertence a mim, e todo o dinheiro também.
Chega, fim da conversa: caiam fora daqui.

Ludmila subia as escadas como se estivesse escalando uma borracha esticada até o céu.
Cada passo ecoava nos joelhos com um tremor de pressentimento desajeitado.
Nas mãos – um bolo de supermercado, comprado voltando do trabalho, com a desculpa de sempre: «Não tenho tempo para fazer um em casa».
No fundo do coração, ela sabia que Tamara Ivanovna com certeza iria pregá-la no pelourinho por esse fato.
– Valera, te imploro, hoje vamos ficar sem essas… sem cenas, – sussurrou, ajeitando nervosamente o cachecol.
– Mas quem é que faz circo aqui? – Valerij deu de ombros, mas o olhar dele já corria de um lado para o outro, como se esperasse que de algum canto pulasse um inimigo mascarado.
– Sua mãe, sua irmã, os seus… hã… admiradores do talento dela, – Ludmila não começou a enumerar todos, a lista já era infinita assim.
A porta se escancarou, atingindo Ludmila com uma lufada de ar acre que quase a fez perder o equilíbrio.
– Oh, chegaram, olha só que honra! – alongou as palavras Tamara Ivanovna, encarando o bolo como se fosse um kefir vencido.
– E claro, comprado… Não estou nada surpresa.
– Mãe, chega, – murmurou Valerij, como se recitasse uma oração decorada sabendo que o milagre não ia acontecer.
– O que tem de “chega”? – Tamara Ivanovna recuou de lado com graça, deixando-os entrar no apartamento.
– Só estou dizendo a verdade.
Uma mulher que se respeita sempre acha uma hora para criar uma obra-prima culinária.
«E uma sogra que se respeita sempre acha algum veneno para borrifar por aí», pensou Ludmila, e em voz alta disse:
– Mas esse bolo está fresquíssimo.
Acabou de sair do forno, ainda está fumegando.
– Aham, do forno em que no lugar de manteiga usam margarina, – interveio Oksana, a cunhada, como se tivesse surgido do nada com uma xícara de café fumegante na mão.
– Mãe, você tem razão, à Ludmila não faria mal se inscrever num curso de economia doméstica.
– Oksan, e você pelo menos tem marido para ficar no fogão pra ele? – Ludmila esticou um sorriso, mas nesse sorriso brilhou aço.
– Ou por enquanto está treinando nos gatos?
Valerij pigarreou de forma teatral, e Tamara Ivanovna bufou alto, como se tivesse soltado vapor.
– Pronto, o tom já começou… Tá bom, entrem, já que vieram.
O apartamento estava para explodir de tanta parentada.
O tio Serguei Nikolaevitch, a esposa dele, Elena Petrovna, alguns primos e primas, vizinhos que Ludmila via pela primeira vez na vida – todos estavam sentados em volta da mesa, lotada de saladas até a beirada.
O espaço quase tinha acabado e Ludmila teve que se espremer entre Oksana e Elena Petrovna.
– Então, Ludóchka, como é que vão as coisas lá no depósito? – ronronou Elena Petrovna com aquela mesma entonação enjoativa que fazia cada célula da pele de Ludmila começar a coçar.
– Ainda conferindo notas fiscais?
– Confiro, – respondeu Ludmila, tentando manter uma expressão imperturbável, – por quê, está procurando emprego?
– Ai, Deus me livre, – riu ela com falso susto.
– Mas imagino que com esse salário aí não dê pra juntar pra comprar apartamento, né?
– Mas agora na nossa família é tudo diferente, – interveio com peso Serguei Nikolaevitch, servindo para si uma generosa dose de conhaque.
– A nossa Luda agora é rica herdeira.
Um três-quartos no centro – não é pouca coisa, não.
Todos os olhares, como por comando, se voltaram para Ludmila.
Ela sentiu as orelhas queimarem como fogo.
– Herança não é prêmio de loteria, – cortou seco.
– E o apartamento é lembrança da minha avó.
– Bom, lembrança é lembrança, mas a gente precisa morar em algum lugar, – rangeu Tamara Ivanovna, lançando a Ludmila um olhar cheio de ganância escondida.
– Ainda por cima vocês dois, você e o Valerka, estão espremidos naquele conjugado.
Talvez eu e o Serioja, por enquanto, passemos pra lá?
De qualquer forma o apartamento está vazio.
– Mãe! – Valerij ergueu os olhos do prato e olhou para a mãe com muda reprovação.
– O que tem de “mãe”? – retrucou em tom provocador Tamara Ivanovna.
– É tão difícil assim pra Luda ajudar os parentes?
Ludmila tentou conter a raiva, engolindo a mágoa e respirando fundo.
– O que é difícil é aguentar quando dispõem de mim como de um guarda-roupa velho, – sussurrou entre os dentes.
– O apartamento é meu.
E eu mesma vou morar lá assim que tiver condições.
– Que pão-dura… – suspirou Oksana, revirando os olhos teatralmente para o teto.
– Não quer ajudar nem a família.
– Ah é?
E família é o quê, licença pra entrar na casa dos outros sem pedir e sair mandando? – perguntou Ludmila com uma falsa ingenuidade mortal.
– Interessante a lógica de vocês.
– Luda, para, – sibilou Valerij, apertando o joelho dela por baixo da mesa.
– Não começa.
Não estraga a festa.
– Não sou eu que estou estragando, – ela afastou a mão dele.
– É a sua mãe e a sua familhinha.
O silêncio caiu sobre a mesa, pesado e pegajoso como tapete velho depois de lavagem mal feita.
Alguém fez uma piada desajeitada sobre o tempo, tentaram trazer a conversa de volta para o trilho habitual, mas na cabeça de Ludmila já martelava uma única frase: «Chega. Hoje é a última vez que escuto tudo isso».
Tinha passado uma semana desde aquele maldito aniversário que deixara um gosto amargo.
Ludmila, mergulhada num monte de notas fiscais, estava sentada na cozinha quando o telefone foi sacudido por uma vibração insistente.
— Ludóchka, oi! — na voz de Tamara Ivanovna transparecia uma doçura melosa daquelas que anunciam coisa ruim.
— Aqui eu, o Serioja e a Lenotchka resolvemos… te ajudar, meu docinho.
Entendemos que o seu trabalho é uma correria, você não tem tempo nenhum para ficar rodando atrás de apartamento.
Então fomos dar uma olhadinha nós mesmos – um lugar divino!
Tranquilidade total, paz, vizinhos de ouro.
— Com licença, vocês estiveram no meu apartamento? — Ludmila apertou a caneta com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Mas o que é isso, menina! Somos família! — gargalhou falsamente a sogra.
— O Valerchik deu as chavinhas pra gente, pra podermos dar uma arrumada, fazer um ninho aconchegante.
E sabe, enquanto você pensa, nós aqui refletimos…
Por que é que a gente não se mudaria pra lá?
Aqui no nosso cubículo simplesmente não tem mais espaço.
— Tamara Ivanovna, – a voz de Ludmila parecia coberta de gelo, – a senhora entrou ilegalmente na minha propriedade.
— Ah, para com esses filmes de terror! – bufou ela.
– Nós somos parentes, não uma quadrilha de salteadores.
E o Valerka disse que você não era contra.
O Valerka disse… Aí está, o ninho de cobras.
Ludmila desligou a chamada e, sem cumprimentar, discou o número do marido:
— Valera, você deu a chave do meu apartamento pra sua mãe?
— Luda, mas por que esse drama todo? – ele falava num tom condescendente, como com uma criança meio tapada.
– Eles não são inimigos.
Querem ajudar.
Fazer uns reparos, limpar…
Você mesma disse que por enquanto não pensa em se mudar.
— Isso não quer dizer que dá pra mandar pra lá hordas de tártaros! – Ludmila saltou de pé, quase derrubando a cadeira.
– Você tem noção de que eles já estão levando as coisas deles pra lá?!
— E daí? – Valerij suspirou pesadamente.
– É temporário.
Somos uma família…
— Não, Valera, nós éramos uma família, – cortou ela e desligou.
Uma hora depois Ludmila estava diante da porta do próprio apartamento, escancarada como um convite.
No hall se amontoavam caixas, no cabideiro pendiam casacos alheios como troféus de conquistadores.
Na cozinha reinava Elena Petrovna, limpando os armários com um pano com ares de dona legítima, enquanto Serguei Nikolaevitch, acomodado à mesa, tomava chá tranquilamente.
— Olha só, a dona finalmente se dignou a aparecer! – zombou ele, lançando-lhe um olhar atrevido.
– E aí, contente com as visitas?
— Caiam fora, – disse Ludmila calma, mas firme, sentindo a ponta dos dedos tremer.
– Agora.
— Ludóchka, pra que esse exagero? – Elena Petrovna abriu os braços, toda teatral.
– A gente tá fazendo tudo por você!
Eu até comprei cortinas… quer dizer, cortininhas novas!
De repente deu vontade de rir em Ludmila, da situação absurda, de toda aquela encenação farsesca.
— Comprem pra vocês.
Pra outra casa.
Com o dinheiro de vocês.
E repito: fora daqui.
No corredor surgiu Tamara Ivanovna com um vidro de três litros de pepinos em conserva nas mãos, como se fosse uma bandeira de guerra.
— Ludmila, não entendo a sua teimosia, – disse no tom de professora explicando o óbvio a uma aluna obtusa.
– É só temporário.
Vamos arrumar tudo, você mesma vai se mudar pra cá e ainda vai agradecer.
— Eu vou agradecer ao advogado quando ele preparar a queixa por invasão de domicílio, – rebateu Ludmila sem ceder um passo.
— Mas que tipo de mulher é você! – a sogra ergueu as mãos ao peito, como se estivesse mortalmente ofendida.
– Mesquinha como uma solteirona velha.
— E vocês – descarados como… – Ludmila mordeu a língua para não explodir.
– Enfim, vocês têm dez minutos.
Tamara Ivanovna resmungou com desprezo e entrou no quarto como se fosse num desfile.
Cinco minutos depois, no apartamento irrompeu um Valerij furioso.
O rosto dele ardia de justa indignação.
— Luda, que diabos você está fazendo?! – gritou da porta.
– Esses são os meus parentes!
Minha mãe!
Como você tem coragem de pôr todo mundo pra fora?!
— Este é o MEU apartamento, – respondeu ela, recusando-se a se esconder na sombra da raiva dele.
– Não da minha avó, não seu, não deles.
Meu.
E sou eu quem decide quem mora aqui.
— E eu achava que a gente era uma família… – murmurou ele baixinho, magoado, como se fosse ela quem tivesse traído.
— Família é quando te apoiam, não quando tiram de você, pelas costas, a última coisa que tem, – respondeu Ludmila, tentando manter a calma.
– De que lado você está, Valera?
Ele se calou.
E o silêncio dele foi mais alto do que qualquer confissão.
Ludmila foi despertada pelo barulho da furadeira, agudo e insistente, como se lhe furasse o cérebro.
No começo pensou que estivesse ouvindo em sonho, mas o ronco aumentava, a vibração entrava-lhe na alma.
Eram oito horas da manhã.
Ela saltou para o corredor e quase tropeçou em sacos de cimento empilhados sem cuidado.
Na sala, Serguei Nikolaevitch, de regata e bermuda, brandia um martelo destruindo a parede com fúria.
No chão, pedaços de papel de parede arrancado salpicavam o piso como retalhos coloridos de loucura.
— O que vocês estão fazendo aqui?! – gritou Ludmila, irrompendo no cômodo como um furacão de raiva.
— Reforma, – respondeu ele imperturbável, sem sequer lhe dirigir um olhar.
– O Valera disse que você concordou.
— Ah, que eu… – Ludmila se segurou para não soltar um palavrão.
– Onde está o Valera?
— Lá na cozinha com a mãe, – ele fez um gesto com a mão, sem interromper a destruição.
A cena que se abriu na cozinha era ainda mais surreal.
Tamara Ivanovna, armada de bloco de notas, estava como um general preparando estratégia de ataque, e ditava a Elena Petrovna a lista das «compras necessárias para a casa».
Valerij servia chá, criando a ilusão de um idílico chá em família.
— Ah, acordou, – constatou friamente a sogra.
– A gente decidiu deixar tudo ajeitadinho, pra você ter prazer em morar aqui.
Vamos refazer a cozinha, trocar o piso…
— Primeiro vocês vão refazer essa avareza em consciência, – interrompeu Ludmila, incapaz de se conter mais.
– Ontem eu deixei claro: vocês não são bem-vindos aqui!
— Luda, não começa tudo de novo, – Valerij revirou os olhos, como se estivesse farto de ouvir sempre o mesmo disco riscado.
– A mamãe só quer o melhor.
— Ela quer o melhor pra ela! – Ludmila apontou o dedo para a sogra, como se a acusasse de pecados mortais.
– E você sabe muito bem disso.
— Ai, para com essas bobagens, – Tamara Ivanovna abanou a mão como se afastasse uma mosca insistente.
– Você por acaso tem casa sobrando, que não dá nem um pedacinho pra ninguém?
— Eu tenho uma casa pra onde não convidei ninguém, – respondeu friamente Ludmila.
– E na qual não preciso de visitas indesejadas.
TODO MUNDO PRA FORA!
Agora mesmo!
— Mas que pessoa é você, Luda? – suspirou Elena Petrovna, representando dor e ofensa em cada gesto.
– A gente aqui se esforçando por você, e você…
— Não, vocês se esforçam por vocês, – interrompeu Ludmila, cansada de discursos hipócritas.
– E às minhas custas.
Valerij se levantou e deu um passo em direção a ela, mas Ludmila recuou como diante do fogo.
— Ludmila, você está passando dos limites.
Essa é a minha família!
— E eu sou o quê pra você? – Ela o encarava diretamente nos olhos, tentando encontrar ao menos uma centelha de compreensão.
— Bom… minha esposa… – ele gaguejou, como se até isso lhe custasse.
— Era.
O silêncio caiu na mesma hora, como por ordem.
Até a furadeira se calou, como se tivesse sentido a gravidade do momento.
— Como assim “era”? – disse lentamente Valerij, como se não acreditasse no que ouvira.
— Quer dizer que vou pedir o divórcio.
E que vocês todos – agora mesmo – vão sair daqui.
— Ah, é assim então? – bufou Tamara Ivanovna, lançando a Ludmila um olhar fulminante.
– Acha que sem o Valera você…
— Acho que finalmente vou parar de sustentar quem fica sentado no meu pescoço, – cortou Ludmila, não permitindo que ela terminasse.
– Valerij, leva embora os teus parentes.
Valerij deu um passo à frente, mas Ludmila recuou.
— Não ouse encostar em mim, – disse num tom que não admitia réplicas.
– Você me traiu quando entregou a chave pra eles.
Serguei Nikolaevitch resmungou algo entre dentes, mas, ao cruzar o olhar gelado de Ludmila, se calou na hora.
Elena Petrovna, suspirando, se levantou e começou a juntar as coisas dela.
— Vamos, Serioja, aqui a gente não é bem-vindo.
Tamara Ivanovna foi a última a se levantar, lançando a Ludmila um olhar cheio de ódio e rancor.
— Você ainda vai se arrepender disso, – sibilou entre os dentes, como se estivesse jogando uma maldição.
— Não, – respondeu Ludmila, – quem vai se arrepender são vocês por terem confundido o meu silêncio com consentimento.
A boquinha do caixa fechou.
Eles foram embora, deixando atrás de si um rastro de mágoa e decepção.
Ludmila fechou a porta, encostou as costas nela e, pela primeira vez em muito tempo, inspirou com o peito cheio.
No apartamento reinou um silêncio estridente e estranho.
Ela foi até a sala, parou no meio do caos, entre os pedaços de papel de parede espalhados e os sacos de cimento.
Era bagunça, mas agora era a bagunça dela.
E, caramba, ela estava pronta para pôr essa bagunça na linha.
Fim.







