— Você só precisa descansar um pouco, querida, — a voz do meu marido, Stas, escorria uma falsa preocupação.
— Só algumas semaninhas no melhor sanatório. Vai recuperar os nervos.

Eu olhava para ele, me esforçando para focalizar o olhar.
A cabeça estava pesada, pastosa, como se estivesse cheia de areia molhada.
— Eu não quero ir para sanatório, — sussurrei.
Tamara Igorevna, minha sogra, sentada no banco da frente, soltou uma risadinha curta.
— Querendo ou não, é preciso, filhinha. Você se acabou toda. Parte pra cima das pessoas, não dorme à noite.
Ela não olhava para mim, seu olhar estava fixo na estrada.
As últimas semanas tinham se transformado em um inferno.
Os dois insistiam que eu estava perdendo a razão.
As minhas coisas sumiam e depois apareciam nos lugares mais absurdos.
Eles juravam que eu tinha dito coisas das quais eu não me lembrava.
O carro saiu da rodovia e, em vez dos pinheiros prometidos e de um hotel com spa, surgiu à nossa frente um prédio cinza, monumental, com grades nas janelas.
“Centro de Correção Psicoemocional ‘Harmonia’”.
Meu coração falhou uma batida.
— Isso não é um sanatório.
— É melhor, — cortou Tamara Igorevna, enquanto Stas estacionava o carro. — Aqui eles com certeza vão te ajudar.
Stas me tirou do carro.
Ele não olhava nos meus olhos, sua mão, que me segurava pelo cotovelo, estava úmida e fraca.
Dois enfermeiros de jaleco branco já nos esperavam na entrada.
— Estamos deixando ela aos seus cuidados, — disse a sogra, com um sorriso largo, entregando alguns papéis para eles. — Tratamento completo. Já está pago.
Nos olhos dela brilhava um triunfo gelado.
Nesse momento, o véu caiu de vez dos meus olhos.
Toda aquela encenação não tinha sido feita por causa da minha “saúde”.
Levaram-me por corredores ecoantes, cheirando a remédio e cloro.
Levaram minha bolsa, meu telefone.
Eu não resisti.
Qual era o sentido?
Tudo já tinha sido decidido por mim.
— Agora o médico-chefe vai te receber, — atirou a enfermeira com indiferença, parando diante de uma porta maciça.
Entrei no consultório.
Perto da janela, de costas para mim, estava um homem alto, em um jaleco impecavelmente passado.
— Boa tarde, — disse eu, e a minha voz soou surpreendentemente firme.
O homem se virou devagar.
E o mundo balançou.
Na minha frente estava Arseniy.
Meu Ars, com quem eu não me via havia quase dez anos.
O mesmo cuja carreira eu salvara um dia, assumindo a culpa pelo erro médico dele.
Ele me olhava, e no rosto dele se refletia tudo: do choque até um vago sentimento de culpa.
Ele me reconheceu.
Claro que ele me reconheceu.
Meus queridos marido e sogra me internaram em um manicômio para ficar com o meu dinheiro, mas eles não sabiam que o médico-chefe era meu ex, que me deve um favor.
Um sorriso surgiu sozinho nos meus lábios.
Parece que o jogo está apenas começando.
— Arseniy? — perguntei baixinho. — Que encontro inesperado. Agora é você que manda aqui?
Ele engoliu em seco, incapaz de tirar os olhos de mim.
— Alina… O que você está fazendo aqui?
— Vim me tratar, — dei um passo à frente, sentindo a força voltar para mim. — Meu marido diz que eu estou fora de mim.
— E você, o que acha? Eu pareço louca?
Arseniy contornou a mesa e pegou a pasta com o meu nome, que, pelo visto, tinham trazido Stas e a mãezinha dele.
Os dedos dele passaram nervosos pela capa.
Ele estava tentando recolocar a máscara de médico imparcial.
— Nos documentos consta que, ultimamente, você tem tido surtos de agressividade, falhas de memória, episódios depressivos…
— Nos documentos se pode escrever qualquer coisa, — interrompi. — Especialmente quando se quer muito ter acesso ao dinheiro da esposa.
Meu pai morreu há seis meses.
Ele deixou tudo para mim.
Eles dois, Stas e a mãe dele, não conseguem aceitar isso.
Aproximei-me quase totalmente da mesa, olhando diretamente nos olhos dele.
Eu via ali dentro o dever profissional lutando contra as lembranças.
— Você me deve, Ars.
Ou você esqueceu como eu assumi a culpa pelo seu diagnóstico errado e saí da residência para que você pudesse continuar a carreira?
Para que você pudesse se tornar… isso aqui.
Médico-chefe.
Ele estremeceu, como se eu tivesse dado um tapa nele.
— Eu não esqueci de nada, Alina.
— Então prove.
Ele ficou imóvel por alguns segundos, olhando para um ponto além de mim.
Depois apertou o botão do interfone sobre a mesa.
— Valentina, entre, por favor.
No consultório entrou uma mulher corpulenta, de jaleco branco, com um olhar desagradável, avaliador.
Ela me olhou como se eu fosse um inseto debaixo de um vidro.
— Coloquem a paciente Alina Vorontsova no quarto sete.
Ala VIP.
Prescrevam um curso de vitaminas e sedativos leves à base de ervas.
Nada de medicamentos de ação forte sem a minha autorização pessoal.
Eu mesma vou acompanhá-la.
A enfermeira ergueu as sobrancelhas, surpresa, mas não ousou discutir.
— Às ordens, Arseniy Igorevitch.
Quando ela me levou para fora do consultório, consegui ainda captar o olhar de Arseniy.
Havia nele um recado claro: “Jogue pelas minhas regras. Eu estou do seu lado”.
O quarto parecia mais um quarto de bom hotel: cama confortável, banheiro privativo e até uma janela sem grades, voltada para um jardim interno silencioso.
À noite, Valentina voltou ao meu quarto.
Ela trazia nas mãos uma bandeja com o jantar e um copinho de papel com comprimidos.
— Aqui, tome, — a voz dela era melosamente doce. — O doutor receitou. Para dormir bem.
Olhei para os comprimidos, depois para ela.
— Eu durmo muito bem. Obrigada.
— Foi o doutor Arseniy Igorevitch que insistiu, — ela não recuava, o sorriso ficando tenso.
Percebi que ela era uma das “deles”.
Stas e Tamara, com certeza, tinham lhe pago bem por um “cuidado especial”.
— Está bem, — peguei o copinho e o copo d’água. — Obrigada pela atenção, Valentina.
Ela esperou até que eu levasse os comprimidos à boca, assentiu e saiu, fechando bem a porta atrás de si.
Eu imediatamente os cuspi na palma da mão.
Dois brancos e um amarelo.
Não faço ideia do que era aquilo, mas certamente não eram “sedativos leves de ervas”.
Guardei-os no bolso do meu roupão.
Era a primeira prova.
Era preciso agir.
Arseniy tinha me dado uma trégua, mas ele não é onipotente.
Podem inspecioná-lo, podem pressioná-lo.
Eu não posso simplesmente ficar sentada esperando que ele encontre um jeito de me tirar daqui.
Eu mesma tenho que provar que fui trancada aqui à força e por engano.
E para isso eu precisava de um aliado.
Ou pelo menos de acesso à informação.
Por exemplo, a um telefone.
Aproximei-me da porta e escutei.
No corredor, só se ouvia o zumbido constante das lâmpadas.
Um plano começou a tomar forma na minha cabeça.
Ousado, arriscado, mas o único possível.
E eu tinha que começar justamente por essa Valentina.
Ela é o elo fraco.
Ela gosta de dinheiro.
E eu, felizmente, ainda tenho dinheiro suficiente.
No dia seguinte, quando Valentina veio fazer a ronda da manhã, eu a esperava.
Eu estava sentada na cama, calma e composta.
— Valentina, sente-se um minuto.
Tenho uma proposta de negócios para você.
Ela ficou desconcertada, mas a curiosidade falou mais alto.
— Que proposta?
— Eu sei que meu marido e minha sogra pagaram para você me dar remédios diferentes dos que o doutor receitou, — falei em voz baixa, mas firme. — Não adianta negar.
Não tenho intenção de denunciá-la.
Pelo contrário.
Quero pagar mais.
O rosto dela se alongou, os olhos começaram a fugir.
— Não entendo do que a senhora está falando…
— Entende sim.
Entende muito bem, — sorri. — Quanto eles te deram? Cem mil? Duzentos mil?
Eu te dou um milhão.
Agora mesmo posso escrever uma declaração de dívida.
Por um pequeno favor.
A palavra “milhão” teve um efeito mágico nela.
Ela parou de fingir que não entendia e engoliu em seco.
— Que favor?
— Eu preciso de um telefone.
Por uma hora.
E que você confirme, se for preciso, que eu estive perfeitamente lúcida desde a minha internação.
Ela hesitou pouco.
Meia hora depois, eu tinha o smartphone dela nas mãos.
Primeiro, liguei para o meu advogado, Igor.
Expliquei rapidamente a situação.
Ele ficou chocado, mas entendeu na hora o que precisava fazer.
A segunda ligação foi para Stas.
— Amor, — cantei ao telefone, ativando a gravação da conversa. — Aqui está tão ruim, eu entendi tudo.
Vocês tinham razão.
Eu vou assinar todos os papéis que forem necessários, só venham me tirar daqui.
Stas mordeu a isca na hora.
— Isso mesmo, Alinka!
Eu e mamãe estávamos justamente pensando em ir te visitar amanhã.
Vamos levar os documentos para você assinar, assim eu posso cuidar dos seus assuntos enquanto você se trata.
No dia seguinte, eles apareceram.
Radiantes, saboreando a vitória antecipada.
Arseniy os levou para o consultório dele, onde eu já os esperava.
Não com o roupão do hospital, mas com as minhas roupas, que, a pedido de Arseniy, tinham sido devolvidas para mim.
— Alina? — Stas se atrapalhou ao me ver daquele jeito. — Mas onde está…
— Onde está a esposa incapaz, pronta para entregar tudo para vocês? — completei por ele. — Ela nunca existiu.
Tamara Igorevna ficou roxa.
— O que significa tudo isso?
Arseniy Igorevitch, por que a paciente não está no quarto?
— Porque ela não é paciente, — respondeu calmamente Arseniy, ficando ao meu lado. — Mas vocês, pelo visto, em breve terão sérios problemas com a lei.
Estelionato, sequestro…
A porta do consultório se abriu e meu advogado Igor entrou.
— Bom dia, — ele colocou um gravador sobre a mesa. — Acho que todos aqui temos algo a discutir.
Por exemplo, esta gravação.
E o depoimento de uma testemunha, a enfermeira Valentina.
E também o laudo de uma perícia independente sobre os medicamentos que vocês tentaram dar à minha cliente.
O rosto de Stas ficou branco como um jaleco de hospital.
Tamara Igorevna abria e fechava a boca como um peixe jogado na areia.
O plano perfeito deles desabou em um instante.
Eu os olhava sem ódio.
Apenas com um desprezo gelado.
Minha vingança não era colocá-los na cadeia, mas tirar deles tudo aquilo que desejavam tão ardentemente.
E eu consegui.
Quando eles foram embora, esmagados e destruídos, eu me aproximei de Arseniy.
— Obrigada, — disse simplesmente.
— Só quitei uma dívida, — ele sorriu. — O que você vai fazer agora?
— Viver, — respondi, olhando pela janela para o mundo enorme e livre. — Simplesmente viver.







