Riu do salário dele e fugiu para junto de um «homem de verdade», mas um ano depois desmaiou ao ver a nova esposa dele… na própria casa dela!

A última bolsa, atirada com tanta força que o fecho estalou, caiu na escuridão empoeirada da entrada do prédio.

A porta bateu, deixando para trás apenas o eco de palavras furiosas, suspensas no ar como uma névoa venenosa.

— Sumam para o seu buraco!

Mas lembra, sobre a desgraça dos outros você nunca vai construir a sua felicidade!

E, aliás, você não é mais minha irmã!

Lika ficou ali, com a testa encostada na superfície fria da porta, tentando recuperar o fôlego.

Parecia que, junto com Verônica, do apartamento tinha se dissipado o último calor, tinha ido embora a própria vida que ela, por pura tolice e leviandade, um dia deixara escapar voluntariamente de suas mãos.

A felicidade que ela mesma tinha perdido…

E tudo tinha começado de forma tão clara e alegre.

Naquele dia de março, quando o pingar dos gelos cantava uma canção de primavera e o sol brincava nos últimos restos de neve, Lika batia com força na porta de casa, rindo de felicidade.

— Mamãe, abre! A filha chegou!

Galina Sergueievna não esperava a filha mais nova.

Ela estava “roendo o granito da ciência” na distante São Petersburgo e aparecia na porta só nos intervalos entre as provas, quando conseguia juntar dinheiro para a passagem daqueles cinco mil quilômetros.

Visitar a casa com frequência era um luxo caro.

A porta se abriu e a mulher ficou imóvel no batente, sem acreditar no que via.

No patamar estava sua filha, radiante como o sol de março, segurando firme pela mão um rapaz de sorriso tímido, mas decidido.

— Lika, e quem é esse? — foi tudo o que Galina conseguiu dizer, enquanto o olhar corria do rosto iluminado da filha para o desconhecido.

— Mamãe, este é o Denis! Denis, esta é a minha mãe, Galina Sergueievna!

Anda, entra, não precisa ter vergonha, essa é a nossa casa!

Galina se afastou, deixando os jovens entrarem no apartamento que cheirava a torta de maçã e infância.

— Então… — a mulher ainda não conseguia se recompor, — e vocês…? Juntos, é isso?

— Mamãe, não se preocupa, está tudo simplesmente maravilhoso com a gente!

Eu e o Denis tomamos uma decisão muito séria: criar a nossa própria célula da sociedade!

Estudar já estava me cansando, ficou difícil, e eu decidi tirar uma licença acadêmica.

Vamos morar um tempo com você, para nos reorganizarmos.

— Licença acadêmica? — Galina Sergueievna levantou as mãos sem querer, e só então seu olhar caiu numa leve, mas já nítida saliência na barriga da filha.

— Como assim, minha filha?

Eu me esforço até o limite, pelo seu estudo, me acabo de trabalhar!

E você… vai tirar licença acadêmica?

As palavras sobre morarem juntos quase passaram despercebidas por ela.

Muito mais a preocupava o fato de que a filha de dezenove anos, mal começando a viver, já se preparava para ser mãe sem concluir a faculdade.

Foi então que Denis entrou na conversa, suave, mas com firmeza.

— Galina Sergueievna, por favor, não se preocupe.

Meus sentimentos pela Lika são muito sérios e sinceros.

Sinceramente, alugar um lugar em Petersburgo está fora do meu alcance, e pedir dinheiro para a senhora, não tenho coragem.

A Lika sugeriu que morássemos aqui por um tempo, e eu prometo que vou encontrar um trabalho imediatamente, vou me sustentar sozinho, pagar as contas e contribuir para a comida.

E depois, quando estivermos de pé, vamos para um cantinho só nosso.

Galina observava o rapaz com desconfiança.

Ele se vestia de forma simples, e as mãos denunciavam alguém que não tinha medo do trabalho.

Mas o que será que a sua Lika, tão brilhante e impulsiva, tinha visto nele?

— E de quem você é filho? — perguntou, tentando entender de onde vinha aquela confiabilidade.

Denis se embaraçou por um instante.

Sua história de vida não era exatamente feita de rosas.

Perdeu os pais cedo, e a casa da família, onde passara poucos anos felizes, queimou até os alicerces, deixando para trás apenas cinzas e lembranças.

— Mamãe, o Denis não tem mais ninguém, mas ele sozinho é um mundo inteiro!

E logo vai ser um pai de verdade!

E o que estamos fazendo aqui no corredor? Vamos para a sala, está cheirando a coisa gostosa!

Eles tiraram os sapatos e foram para a aconchegante sala de estar, onde sobre o sofá e as poltronas conviviam pacificamente livros infantis com figuras coloridas e bloquinhos espalhados.

— Mãe, que bagunça criativa é essa aqui?

A Verônica passou com a Dasha e não arrumou?

— A Verônica agora está morando aqui comigo, fala mais baixo, por favor, elas ainda estão dormindo.

— Como assim, está morando? — as sobrancelhas de Lika se ergueram.

— Ah, é difícil para ela se virar sozinha, falta dinheiro o tempo todo.

E juntas é mais alegre, e eu vejo a neta com mais frequência.

E a Verônica trabalha no turno da noite, agora está descansando.

Lika despencou no sofá em silêncio, os lábios apertados numa linha ressentida.

— Então, para ela pode e para mim não?

Eu também vou ficar aqui!

O coração de Galina Sergueievna se apertou.

Passou a vida toda sozinha criando duas filhas, e a vida da mais velha, Verônica, não tinha sido das mais fáceis.

Não porque fosse leviana, mas porque tinha um coração bom demais e confiante demais.

E agora criava a filha sozinha.

«Que pelo menos a mais nova tenha uma família de verdade, firme», pensou a mãe com esperança e, suspirando, concordou com um aceno.

Na época dela, ninguém a ajudou, ela mesma teve que se virar.

E Lika sempre tinha sido de temperamento forte, com um certo “algo a mais”.

Quanto ao Denis… Simples, trabalhador, com os olhos brilhando.

«Vamos ver com o tempo», passou pela sua cabeça.

Logo Verônica acordou.

Ao entrar na sala, ficou um instante parada, olhando surpresa para a irmã e para o corpo mudado dela.

— Oi, maninha! — disse Lika alegremente, e na sua voz soou uma leve nota de superioridade.

Seguiram-se novas apresentações, um café da manhã tranquilo, a conversa sobre a futura rotina da casa.

E a partir daquele momento, a vida sossegada de Galina Sergueievna acabou de vez.

Morar lado a lado com a irmã mais velha não fazia parte dos planos de Lika.

Nos seus sonhos ela já tinha distribuído os quartos: o menor para o futuro bebê, o maior para ela e Denis, e a mãe poderia se ajeitar muito bem na sala.

Para ela, mulher de exigências modestas, não precisava de muito: uma cama, uma estante de livros.

E, de qualquer forma, nem teria tempo de pensar na vida pessoal, porque logo chegaria o neto e todo o tempo dela seria tomado pelos cuidados com ele.

O que ela própria faria, Lika não tinha a menor ideia.

Estudar, não queria mais; trabalhar, muito menos.

Ela desejava ardentemente aquela vida brilhante e extravagante que as amigas de Petersburgo levavam: baladas, cafés até de manhã, risadas despreocupadas que ficavam tão bonitas nas fotos das redes sociais.

Em casa, tudo foi feito conforme a vontade dela.

Os dias começaram a girar em um novo ritmo.

Galina Sergueievna fazia limpeza em uma mercearia local, Verônica passava o dia na fábrica, Denis conseguiu emprego lá mesmo como mecânico e, depois do turno e nos fins de semana, pegava qualquer bico.

Nem nas férias ficava parado, sempre achava um jeito de ganhar um extra em alguma obra por perto.

Como tinha prometido, assumiu completamente o pagamento do aluguel e dava generosamente dinheiro a Galina Sergueievna para a alimentação.

E Lika cada vez mais passava os dias na ociosidade.

Deitada no sofá, reclamava que Denis não lhe dava nenhuma atenção.

— Lika, meu amor, eu trabalho, querida, simplesmente não me sobra energia para mais nada, — justificava-se ele, que realmente chegava em casa exausto, como um limão espremido.

Então Lika começou a sair para passear sozinha.

No começo por pouco tempo, depois voltando cada vez mais tarde.

Os passeios diurnos não a atraíam; o que a encantava era a cidade à noite, as luzes dos cafés, as conversas animadas com novos conhecidos.

Muito rápido, ela arranjou o seu próprio grupo de amigos, onde ninguém prestava atenção à gravidez dela, onde tudo era leve, divertido e inconsequente.

Certa vez, ela voltou bem depois da meia-noite, e entre os dois jovens estourou uma tempestade.

Em meio a acusações e broncas furiosas, Denis ouviu a coisa mais terrível:

— Você aqui não é ninguém, não é nada!

Um zero à esquerda!

Eu que te recolhi, te dei abrigo, e você vem me dizer o que fazer?

Quem você pensa que é?

— Eu sou o pai do nosso filho! — gritou ele, sentindo o chão sumir sob seus pés.

— Esse filho não é seu! — disparou Lika, e no silêncio que se seguiu essas palavras soaram como uma sentença.

O ar faltou a Denis.

— Como assim, não é meu?

Mas nós… nós nos amávamos!

É o nosso bebê!

— Eu é que não quero que você seja o pai dele!

Eu encontrei outro!

Com dinheiro, com contatos, com posição!

Todo aquele furacão também era ouvido por Galina Sergueievna, de pé atrás da porta, sem saber o que fazer.

Intervir ou esperar passar?

A decisão veio sozinha — um estrondo da porta de entrada se fechando.

A mulher correu para a sala e viu Denis sentado no sofá.

Ele cobria o rosto com as mãos e os ombros lhe tremiam, sem forças.

Conseguiu falar com a filha só depois de várias tentativas.

— Lika, querida, o que deu em você?

Que história é essa de novo pai? Do que você está falando? Onde você está?

— Não precisa, mãe!

Eu entendi tudo, me enganei, não preciso mais do Denis!

Mas o Boris é outra coisa!

Ele tem carro novo, o apartamento com reforma de luxo está vazio e ele me valoriza de verdade, diferente de vocês!

Acabou! Eu vou morar com o Bóris!

— Mas o Bóris está de acordo? — mal conseguiu sussurrar Galina.

— Claro que está de acordo! — respondeu Lika, num tom alegre, e desligou.

Galina conhecia Boris — rapaz de família rica, uns dez anos mais velho.

No dia seguinte ela foi até a casa dos pais dele.

Receberam-na com simpatia, conversaram sobre tudo.

Eles estavam contentes porque o filho tinha encontrado o seu amor, e a gravidez de Lika não os incomodava nem um pouco.

«Se nosso filho disse que ama, então é assim», diziam.

E Boris tinha fama de ser um homem correto.

A Galina não restou outra saída senão ir embora com o coração pesado.

Pelo menos estava tranquila quanto ao bem-estar material da filha.

Ao voltar para casa, contou tudo a Denis.

O rapaz parecia vazio por dentro.

Galina entendia que agora ele estava completamente sozinho: tiraram-lhe até o filho que ainda nem nascera, e em breve teria que sair também daquele lugar onde já se sentia em casa.

— Fica aqui o tempo que precisar.

Junta algum dinheiro para alugar um quarto e aí você se muda.

— Eu me sinto sem jeito, Galina Sergueievna.

Continuo sendo uma pessoa de fora.

— Que de fora nada!

Você é meu genro, de verdade!

A gente te recebeu como se fosse da família!

E a Dasha é sua primeira fã!

Denis, para ser sincero, já tinha virado parte daquela família.

O trabalho era ali perto, o chefe, que logo ia se aposentar, já o via como substituto, e com isso o salário ficaria bem melhor.

Os bicos também traziam um bom dinheiro, e o maço de notas “para o futuro” crescia a olhos vistos.

«Se eles estão contentes, eu fico», decidiu ele consigo mesmo.

Da Lika agora vinham apenas notícias raras, na maior parte em forma de fotos de resorts e restaurantes.

Ninguém ia visitá-la, e ela mesma não queria ver nem Denis nem a mãe dentro da sua nova casa luxuosa.

Outono e inverno passaram.

Numa manhã de primavera, Denis foi até a cozinha guiado por um doce aroma de baunilha.

Verônica estava junto ao fogão, se virando com habilidade com a frigideira, na qual escorria a massa dourada das panquecas.

Um raio de sol brincava nos cabelos dela, e deu nele uma vontade imensa de se aproximar, abraçá-la e guardar para sempre aquele momento de aconchego e paz, de modo que ele precisou fazer um esforço, sair e lavar o rosto com água fria.

O coração de mãe de Galina Sergueievna, que via tudo, um dia falou com ele sem rodeios:

— Você, Denis, é um rapaz como poucos.

Vejo que gosta da Verônica.

Por que não chega mais perto?

— Como eu poderia, Galina Sergueievna?

Quem sou eu?

Ela é… irmã da Lika.

— E daí?

A Lika já achou a felicidade dela, e por que você tem que ser pior?

— A senhora aprova uma coisa dessas?

— E qual o problema?

Cada um tem direito ao seu raio de sol.

E você, mais que qualquer um!

A própria Verônica, quando você demora, sente sua falta, e quando chega mais cedo, ela se ilumina toda.

Denis ficou calado.

Sim, Verônica já ocupava há muito tempo todos os seus pensamentos.

Tranquila, bondosa, com olhos cheios de ternura suave, ela era o oposto dele e, ao mesmo tempo, sua parte que faltava.

Mas o senso de decência, que ele tinha cultivado em si desde pequeno, não o deixava dar o primeiro passo.

Só que agora algo dentro dele se quebrou.

«Ou agora ou nunca», passou pela sua cabeça.

E, à noite, preparou uma surpresa: um enorme buquê de margaridas cheirosas de verão — as flores preferidas dela.

A partir daquele dia, Denis e Verônica começaram a morar no mesmo quarto.

A caminha de Dasha foi colocada no menor, e Galina Sergueievna ficou na sala.

Um mês depois, os jovens alegraram a todos com a notícia maravilhosa: Verônica estava grávida.

Denis flutuava de felicidade.

Trabalhava com ainda mais empenho, mostrava cada salário à esposa com orgulho, fazia planos para comprar um carro e, ao mesmo tempo, devorava os livros de direção.

Logo, na frente do prédio, já estava estacionado um carro importado usado, mas bem cuidado.

A vida corria calma e tranquila.

O ultrassom tinha mostrado um menino, e ele e Verônica escolheram o nome: Nikita.

Certa noite, reunindo todos à mesa, Denis anunciou que tinha encontrado um ótimo apartamento e que eles não iriam alugá-lo, mas comprá-lo por meio de um financiamento.

Esse jantar de família foi interrompido por batidas insistentes, quase furiosas, na porta.

Galina foi abrir.

No batente, apoiada no marco, estava Lika.

Com uma mão ela segurava um menininho que olhava assustado para a claridade, e com a outra apoiava a própria barriga grande e pesada.

— Então, como vocês estão por aqui?

Mãe, por que você travou aí na porta? Deixa a gente entrar!

E, sem esperar convite, Lika deslizou para dentro do apartamento, olhando para todos com um olhar frio e avaliador.

— E que festa é essa? — o olhar dela caiu sobre Denis.

— E o que ele está fazendo aqui?

— O Denis está com a Verônica, estão esperando um filho, — respondeu a mãe, baixa, mas firmemente.

— Hm! E o que é que você viu nele?

Um filho você fez sabe lá com quem, e agora vai ter outro de um marido que não é seu? — lançou Lika, venenosa.

— Ele não é nada “não meu”, vocês dois nem chegaram a se casar.

E, aliás, o que é que te importa? Você mesma o largou! — interveio Galina, enquanto Verônica apertava as mãos em silêncio, tentando manter a calma.

— Ela não tem direito nenhum de ter filho do meu marido!

Eu tenho um filho em comum com ele!

E, além disso, nem ele nem você! Vocês nunca vieram ver o Valerchik!

— Foi você que disse para a gente não chegar perto da sua casa! — Galina abriu os braços.

— Se vocês quisessem de verdade, teriam dado um jeito de ver o seu neto! — Lika se contradizia.

— Enfim, eu voltei!

Entendi tudo, caí em mim!

Quero que a gente volte a ser uma família!

— Querida, não é assim que as coisas funcionam.

Não dá para simplesmente pegar e voltar tudo ao que era antes, — tentou encontrar palavras suaves Galina.

Mas Lika já gritava, se dirigindo à irmã:

— Faz um aborto!

O Denis é meu marido e pai do Valerchik!

— E quem era mesmo que gritava que eu não era pai dele?

Foi você que disse que ia arrumar um pai “de verdade” para ele!

E onde ele está agora?

E o Valerchik eu nunca vi nem de longe!

E com a Verônica a gente tem uma alma só para dois!

Isso é algo que você não consegue entender! — Denis falava, quase sufocado pela onda de sentimentos.

Lika baixou os olhos.

A verdade era amarga.

Boris cansou dela rápido, na verdade se decepcionou assim que começaram a morar juntos.

O dinheiro escorria pelos dedos nas diversões, a casa era estranha, cuidar do lar não a interessava, e ao filho ela dedicava o mínimo.

E quando ele soube que o bebê na barriga dela não era seu, simplesmente a pôs para fora de casa.

Quando toda essa história amarga veio à tona, o coração de Galina Sergueievna se contraiu de dor.

Ainda assim era sua filha, seu próprio sangue.

«Tudo bem, agora vamos viver com a Lika e os dois netos, graças a Deus a Verônica e o Denis vão morar separados, de algum jeito a gente dá conta…», pensava ela com esperança.

Enquanto isso, os preparativos para a mudança iam a todo vapor.

Verônica e a mãe escolhiam móveis, eletrodomésticos, iam ver como Denis, com as próprias mãos, fazia a reforma do futuro ninho deles.

Lika não conseguia aceitar a felicidade da irmã.

Procurava qualquer motivo para brigar, fazia Verônica chorar quase todos os dias, mas Galina conseguia sempre restabelecer uma paz frágil.

Chegou o dia da mudança.

Denis, Verônica e Dasha colocavam as últimas caixas no carro estacionado em frente ao prédio.

Verônica voltou para pegar mais uma bolsa e se encontrou com Lika no vão da porta.

— Você roubou o meu marido! — recomeçou ela, como um disco arranhado.

— Foi você que o largou, — respondeu Verônica, sem maldade, mas cansada.

— Hoje eu larguei, amanhã eu ia pegar de volta!

Que que tem um pequeno desentendimento na família!

E você, como um urubu, caiu em cima da felicidade alheia!

— Belo “pequeno desentendimento” esse, que dura dois anos!

— Não é da sua conta!

Você se aproveitou do momento, pegou o meu marido!

— Esse “momento” morou com a gente e sustentou a família!

Esse “momento” virou chefe de setor e ganha muito bem!

E quem é você para ele agora, é outra história!

— Eu?!

Fui eu que o trouxe para cá!

Faminto e sem ninguém!

Foi graças a mim que ele conseguiu tudo isso!

Se não fosse por mim, ainda estaria se virando em bicos!

Verônica não disse mais nada.

Pegou a bolsa em silêncio e desceu, em direção ao carro, ao seu marido, à sua nova vida.

— Sumam para o seu buraco!

Mas lembra, sobre a desgraça dos outros você nunca vai construir a sua felicidade!

E, aliás, você não é mais minha irmã!

Com essas palavras, Lika atirou com força para a escuridão da entrada mais um objeto esquecido.

A raiva, amarga e impotente, escapava do peito com força ainda maior, porque junto com Verônica ia embora para sempre aquela verdadeira felicidade.

A felicidade que, um dia, ela mesma tinha deixado ir, sem conseguir enxergar o valor dela atrás das luzes falsas e das promessas vazias.

E da janela do novo apartamento para onde Denis e Verônica tinham se mudado, a noite ia caindo devagar, colorindo o céu em tons suaves de lilás.

No quarto das crianças o pequeno Nikita ressonava tranquilo, e Dasha, embalada pela canção de ninar da mãe, já sonhava sonhos doces.

Denis abraçou a esposa, e ficaram ali, olhando as luzes que se acendiam na cidade — em cada janelinha, uma luz, cada família com a sua história.

Eles sabiam que o caminho deles não tinha sido coberto de rosas, tinha sido espinhoso e difícil.

Mas foram justamente esses espinhos que lhes ensinaram a valorizar cada instante de tranquila felicidade compartilhada, cada raio de confiança e compreensão nos olhos um do outro.

O amor deles era como aquele broto teimoso que rompe o asfalto grosso — frágil, mas incrivelmente persistente, capaz de resistir a qualquer tempestade, porque suas raízes iam fundo — na paciência, no cuidado e na fidelidade.

E naquela noite serena, no calor do lar que tinham construído juntos, estava contida a verdadeira, eterna beleza da vida.