Como três vidas quebradas se colaram numa só família.
— Então, Redniova, vai nos deixar para sempre? — a voz da diretora da colônia feminina, baixa e um pouco cansada, soou no silêncio oficial do gabinete.

Ela pôs de lado a pasta com os pedidos de demissão, cruzou as mãos sobre o tampo da mesa, coberto por um pano verde gasto, e olhou para a mulher que estava à sua frente.
Esta assentiu sem dizer uma palavra.
Apenas um aceno seco, brusco e nítido como uma moeda recém-batida.
Ela sempre fora pouco faladora, contida até a rigidez, guardando as emoções em algum lugar bem fundo, sob camadas de indiferença forçada e sangue-frio profissional.
Agora, nesse último dia, respondia a uma pergunta há muito resolvida com a mesma secura gelada que se tornara sua segunda natureza.
Tudo tinha acabado.
Depois de trabalhar por longos e arrastados anos como carcereira, ela deixava aquelas paredes cinzentas, a cerca alta com arame farpado e a pesada atmosfera de tensão constante com uma leveza inesperada, quase assustadora.
Ao grupo de trabalho, ao próprio ar daquele lugar, impregnado de tristeza, raiva e desespero, ela nunca conseguiu se acostumar.
Durante o serviço, aprendera a calar quando era preciso; a falar de forma cortante, metálica, quando era necessário dar uma ordem; a agir sem hesitação, como um mecanismo bem ajustado.
E ela mesma, aos poucos, se transformara nesse mecanismo: confiável, infalível, desprovido de peças supérfluas como pena ou dúvidas.
Cumpria as instruções.
E só.
A história de sua solidão, quieta e sem saída, começara ainda na infância, numa província distante, onde as casas cheiravam a sopa de repolho e a umidade.
Desde o nascimento, o destino parecia não favorecê-la.
A mãe, uma mulher de rosto bonito, mas frio, nunca amou o pai dela.
O casamento se desfez rápido e sem arrependimentos.
Logo apareceu outro homem na casa, e nasceu a irmãzinha mais nova.
Esta, sim, era adorada: pela graciosidade, pelas covinhas nas bochechas, por ser a filha de um novo e verdadeiro amor.
A filha mais velha crescia como que no meio, uma sombra, um lembrete indesejado de um erro do passado.
Quando olhavam para ela, era apenas para notar mentalmente o quanto era simples, angulosa, desprovida daquele brilho e vivacidade que as outras meninas tinham.
Não se destacava nos estudos, não era eloquente, era um ratinho silencioso no canto da sala.
A solidão tornou-se seu ambiente habitual, o silêncio — a sua língua.
O primeiro marido, que parecera uma salvação da casa dos pais, confessou certa vez, durante uma briga, entre a rouquidão bêbada: tinha se casado com ela exclusivamente por causa do apartamento que o Estado, como jovem funcionária, lhe dera.
Sem reclamar, ela fez sozinha toda a reforma naquele apartamento, carregando baldes de cimento e cal até o quinto andar, sem elevador.
Acostumada ao trabalho duro desde criança, continuou a ralar, mas agora por ele, pelos infinitos “eu quero” dele.
Sua paciência durou exatamente um ano — pediu o divórcio ao descobrir a traição.
Ele foi embora sem olhar para trás.
Depois veio outro — casado, que aparecia na casa dela em silêncio, furtivo, lançando olhares desconfiados para o escuro do armário do corredor.
Saía do apartamento com o mesmo cuidado, prestando atenção para ver se alguma porta de vizinho não batia.
E, um dia, tão de repente quanto surgira, dissolveu-se na névoa cinzenta do cotidiano, sem deixar nem um bilhete.
Ela ficou de novo sozinha nas paredes do apartamento conquistado com esforço, onde cada canto conhecia o peso de seus passos.
O novo trabalho não se tornou salvação, mas continuação da mesma falta de saída, apenas com outro cenário.
— Então a senhora quer trabalhar aqui? — o diretor do abrigo-repartição para menores, um homem de olhos cansados, mas perspicazes, examinava atentamente a candidata.
Um tailleur severo, quase masculino — casaco e saia de tecido grosseiro, os cabelos ralos, como desbotados pelo sol, presos num coque apertado na nuca.
Nada de supérfluo.
Nada que pudesse atrair o olhar ou provocar um sorriso.
— Não posso ficar sem trabalho! — ela respondeu em tom marcial, esticando o corpo como se estivesse em formatura.
A voz soava surda, mas firme.
— Isso é compreensível, — concordou o diretor, esfregando a ponte do nariz.
— Nosso “contingente”, como a senhora sabe, é específico.
Temos crianças de rua, fugitivos de orfanatos e também infratores juvenis.
Embora, pensando bem, o que estou lhe explicando, na colônia a senhora já viu de tudo.
Nossa tarefa, Redniova, — fez uma pausa, escolhendo as palavras — é tentar educar neles futuros seres humanos.
Mesmo que fiquem aqui só temporariamente.
Alguns por duas semanas, e outros… acabam ficando mais.
Ela assentiu de novo, seca, formal.
Nenhum músculo se moveu em seu rosto, endurecido na máscara da severidade profissional.
“Com uma dessas eles não vão fazer gracinha, — pensou o diretor. — Vai pôr ordem.”
E, por algum motivo, quase desde os primeiros dias, começaram a chamá-la de “carcereira”.
Como é que as crianças, recém-chegadas ao abrigo, podiam saber de seu trabalho anterior, era um mistério.
Mas o apelido passava de boca em boca, dos veteranos aos novatos, como uma senha.
Flutuava no ar dos corredores, sussurrava nos dormitórios antes de apagar as luzes.
Antes de dormir, ela entrava no quarto, onde reinava a agitação costumeira de lugares assim: sussurros, farfalhar de embalagens de doces, passos leves de pés descalços sobre o linóleo frio.
Parava na porta e, devagar, sem pressa, percorria o cômodo com o olhar.
Não precisava gritar nem ameaçar.
Seu olhar — frio, pesado, quase de chumbo — bastava.
As meninas se calavam e se enfiavam debaixo das mantas, os meninos mais velhos, testando seus limites, retribuíam aquele olhar com desafio, mas não aguentavam por muito tempo.
Ninguém ousava enfrentá-la.
Ela nunca se permitia sorrir, tirar a máscara.
Era a sua armadura.
— E como é que a senhora se chama? — perguntou um dia um recém-chegado, um garoto de uns oito anos, já tosado à máquina, o que fazia sua cabeça parecer extraordinariamente pequena e frágil.
Ela baixou o olhar para o corpinho magro dele, envolto no pijama do abrigo, e encontrou seus olhos.
Grandes, cinzentos, sérios de um jeito nada infantil, nos quais se liam medo, curiosidade e uma espécie de sabedoria cansada.
Parecia que, naquele rosto pálido, não restara mais nada além daqueles olhos — enormes, profundos, como lagos na floresta.
Ela estremeceu, como se a tivessem cutucado de leve de lado.
Algo dentro dela tremeu, se quebrou.
— Faina Fiodorovna, — pronunciou, e a sua voz soou diferente.
Nem metálica, nem de comando.
Mais baixa.
Mais suave.
Com uma nota rachada.
— E você, parece que é o Petia, não é? — perguntou, surpreendendo-se com a própria pergunta.
O garoto assentiu, radiante, como se tivesse ganhado um presente.
Aos oito anos ele já sabia o que eram surras cruéis, desmaios de fome e noites passadas em porões úmidos.
Ele, um menino de rua que catava pontas de cigarro na estação, fora trazido ali por um policial.
Faina ficou parada, como atordoada.
Aquele pardalzinho orelhudo, arranhado pela vida, exercia sobre ela um efeito magnético, puxando das profundezas da alma algo antigo, quente e doloroso.
Ela sempre, em segredo de todos, sonhara com um filho.
Com uma filha.
Não perdera a esperança, embora os anos passassem.
Mas agora, olhando para os olhos de Petia, compreendeu com uma clareza súbita e cortante: nascera-lhe um filho.
Sim, nascera — não nas dores da carne, mas no silêncio do coração.
E logo depois veio um pensamento amargo: para aquele menino havia um único caminho — o orfanato.
E o coração dela se apertou em protesto.
A tentativa de se tornar mãe transformou-se não numa simples batalha burocrática, mas numa verdadeira guerra, na qual ela, para surpresa de si mesma, se lançou com toda a paixão de que era capaz.
— Redniova, se tinha alguém de quem eu não esperava isso, era de você, — o diretor do abrigo, Ivan Averkianovitch, balançava a cabeça folheando o pedido dela.
— Você aqui sempre foi como ferro forjado, nada de sentimentalismos, tudo estrito e conforme o regulamento.
— Ivan Averkianovitch, meu querido, me ajude, — a voz de Faina perdera a habitual dureza, nela surgiram notas completamente diferentes, suaves, quase suplicantes.
Era como se tivesse tirado a máscara de insensibilidade acumulada em anos, e diante do diretor não estivesse mais a severa carcereira, mas uma mulher, quase uma mãe, pronta para tudo por seu filho, ainda que não nascido de seu ventre.
— Digamos que o mandem para o orfanato, isso já está decidido.
E depois? — perguntou ele, empurrando a pasta para o lado.
— Vou dar entrada nos documentos para adoção.
— Não sei, não sei… — suspirou pesadamente Ivan Averkianovitch.
— Me desculpe a franqueza, mas você já não é tão jovem, Faina Fiodorovna.
E sozinha… sem marido.
A comissão vai examinar tudo com muito rigor.
— Eu vou tentar mesmo assim.
E o senhor… o senhor vai me escrever uma boa caracterização.
A melhor.
— Ah, isso a gente faz, — ele acenou com a mão, rendendo-se à pressão daquela Faina inesperada e nova.
— Tente, se o seu coração está ardendo assim.
Embora você pudesse, veja bem, escolher alguém naquele mesmo orfanato… mais calmo.
A hereditariedade do garoto, você sabe, é duvidosa.
— A minha mãe também passou a vida toda dizendo que a minha hereditariedade, herdada do meu pai, é ruim.
Mas eu acho que uma criança é como argila mole enquanto é pequena.
O importante é em que mãos ela cai.
Não quero que façam dele qualquer coisa, de qualquer jeito.
Já vi o bastante, atrás das grades, de destinos quebrados e deformados.
Chega.
Ela começou a ir para o trabalho como se fosse a uma festa.
Desapareceu o coque apertado e incômodo, os cabelos, agora cortados com cuidado, emolduravam suavemente o rosto.
Nos cílios apareceu um rímel discreto, nos lábios — um leve tom de batom.
Pegava-se contendo o sorriso, observando Petia desenhar ou brincar com jogos de tabuleiro.
Era como se uma vela há muito apagada tivesse se acendido de novo a partir de uma pequena, mas viva, chama.
— Vão me mandar para um orfanato, — disse certa noite Petia, arrastando as palavras.
Ele estava sentado na cama, abraçando os joelhos.
— Você vai me visitar?
— Vou, Petenka.
Vou com certeza, — ela lhe afagou os cabelos que já tinham crescido num ouriçozinho, e o gesto foi desajeitado, mas infinitamente terno.
Ela sabia disso desde o primeiro encontro.
Iria vê-lo.
Levaria doces, meias de lã, livros com figuras.
E, se não o mandassem… arrumaria emprego lá, só para ficar perto.
Mas esse era o plano para o dia mais escuro.
Por enquanto, estava cheia de determinação para lutar.
Pelo menino que se instalara em seu coração e o enchera de luz.
Com um tremor misturado ao medo, observava como ia “engordando” a pasta com os documentos, na capa da qual estava escrito, em letra caprichada: «Fomin Petr Alexeievitch».
A cada plantão, arranjava um momento para vê-lo.
O cabelo crescera, transformando-se num ouriço loiro e macio.
Petia a olhava não como uma educadora severa, mas como um milagre.
Como um anjo da guarda que tivesse descido em seu mundo sombrio.
Em parte, era mesmo assim: por causa de Petia, quieto e fraquinho, ela já tinha tomado as dores dele mais de uma vez, defendendo-o dos colegas mais briguentos.
Ela cruzou a porta do orfanato no mesmo dia em que o menino foi para lá.
A diretora, uma mulher de rosto cansado, porém inteligente, lançou um olhar desconfiado à requerente.
E embora as referências de Faina fossem impecáveis, examinou cada papel por muito tempo e com minúcia.
— A senhora vai ter de se esforçar muito, Redniova.
Vai precisar provar que é capaz não só de alimentar e vestir, mas também de educar, dar instrução, ser um apoio.
Também terá de comprovar a estabilidade financeira.
— Saúde eu tenho de sobra, trarei o atestado.
Sou capaz de entortar uma barra de ferro em forma de rosca, se for preciso.
Dinheiro eu tenho — trabalho, o apartamento é meu, conquistado com o meu suor.
— Veja, — a diretora balançou a cabeça, — aqui as habilidades pedagógicas também são importantes.
Educar um menino é uma tarefa delicada.
— Sou capaz! — disparou Faina.
— E, se for preciso, eu me inscrevo em qualquer curso, é só dizer onde.
E, de qualquer forma… — a voz dela de repente se suavizou, ficou mais baixa, mais íntima, — acho que o mais importante é amar a criança.
Sinceramente, com todo o coração.
Eu entendi isso ainda na infância… na própria pele.
Cresci sem receber amor suficiente.
Talvez essas palavras inesperadamente francas tenham comovido a diretora.
Ou talvez a tenha impressionado aquela determinação inflexível e sacrificada que brilhava nos olhos daquela mulher nem jovem, nem bonita.
Ela se suavizou e assentiu.
— Reúna todo o conjunto de documentos.
Seu pedido será analisado.
Faina saiu de lá como se tivesse ganhado asas, com a sensação de ter conquistado a primeira, pequena vitória.
Ela parou junto à grade, fitando as figuras infantis que apareciam e desapareciam nas janelas do prédio — não apareceria ali aquele ouriço loirinho e conhecido?
Mas Petya não estava à vista.
Com uma leve decepção, mas com esperança no coração, apressou-se a voltar para casa, para começar a nova e mais importante caminhada da sua vida pelos órgãos e repartições.
Um encontro inesperado no portão do orfanato virou tudo de cabeça para baixo.
— É você mesmo que quer levar o meu filho? — uma voz áspera, rouca, soou às suas costas, quando ela já se preparava para ir embora depois de mais uma visita.
Faina se virou.
A dois passos dela estava uma mulher jovem, mas muito envelhecida.
Magra, com um casaco velho aberto, claramente do tamanho errado.
Em seu olhar franzido e hostil lia-se um ódio imediato, quase animal.
— De quem está falando?
— Do Petka! Do meu filho, dele! Fomin é o sobrenome.
Pyotr Fomin!
— Aah… — murmurou Faina, entendendo tudo.
— Então, quer dizer que você é a mãe dele.
— Não é “sou assim mais ou menos”!
Eu sou a mãe verdadeira dele!
Eu é que o pari, é o meu Petka! — a mulher deu um passo à frente, e veio dela o cheiro de álcool velho e corpo sem lavar.
— Tá bom, não grite, — cortou Faina friamente.
— Onde é que você estava quando ele vagava pelas estações, comendo do lixo?
Onde estava quando enchiam ele de hematomas?
Não foi você, junto com o seu amásio, que bateu nele?
— Eu?!
Eu nunca encostei um dedo nele!
Se o Lenka deu nele um tapa de vez em quando, foi só pra ele aprender a obedecer!
Menino precisa da mão de um homem!
E eles… — ela apontou furiosa com o dedo na direção do orfanato, — eles é que tiraram ele de mim!
Levaram o meu filho! — e, de repente, começou a chorar, mas as lágrimas eram de raiva, impotentes.
— Chega de chorar, a culpa é sua.
Você trocou o filho por algum vagabundo.
Quem te impedia, antes, de cuidar da criança?
— A vida me impedia!
Fui condenada injustamente! — gritou a mulher entre soluços.
E, de repente, fitou com atenção o rosto de Faina.
Seus olhos se arregalaram de espanto.
— Ah, esse teu rosto me é conhecido…
Eu estava pensando de onde…
Não é você a Faia, porca de ferro? — deu mais um passo, examinando-a.
Nos anos de serviço, centenas, milhares de rostos passaram diante dos olhos de Faina.
Não dá pra lembrar de todos.
Mas também essa mulher, Natasha, como se apresentou, despertou na memória uma imagem vaga.
Sim, do passado.
Da colônia penal.
Ela era uma entre muitas que cumpriam pena lá.
— Eu sou a Natasha!
Fomina Natalya!
Que foi, não reconheceu?
Faina não lembrava de sobrenomes nem dos detalhes dos processos — isso não era da sua alçada.
Mas o rosto…
Sim, o rosto lhe era familiar.
Do mesmo mundo cinza e sem alegria que ela havia deixado para trás.
— Faz meio ano que saí, — murmurou Natalia.
— Reduziram minha pena por bom comportamento.
E agora estou aqui…
— Então o Petya é seu filho.
— E de quem mais seria?!
Meu, de sangue!
E você… você quer tirá-lo de mim!
E eu que achava que, de todos lá dentro… pelo menos você era justa.
Não como os outros.
Mas você… é quem tira de mim o que tenho de mais precioso! — Natalia cambaleou, e o cheiro de álcool ficou ainda mais forte.
— Aguenta firme, não caia, — Faina a segurou automaticamente, por puro reflexo do antigo trabalho.
— Por enquanto ninguém está tirando nada de ninguém.
Mas por ele eu vou lutar.
Diga, com quem ele ficou enquanto você… estava lá dentro?
Do relato desconexo e confuso, entrecortado por lágrimas e pragas, começou a surgir um quadro.
Enquanto Natalia cumpria pena, Petya vivia com o pai e a avó.
A avó morreu, o pai se casou de novo e, na nova família, não sobrou lugar para o menino.
Foi justamente nessa época que Natalia saiu em liberdade e recebeu de volta o filho, mas já com um fardo de problemas, um companheiro alcoólatra e sua própria incapacidade.
— Vou te dizer uma coisa, — a voz de Faina voltou a ganhar firmeza, aquela mesma “de carcereira”.
— Enquanto o Petya estiver no orfanato, eu vou defendê-lo.
Ele se tornou como um filho pra mim, ouviu?
E você só tem um caminho: largar aquele que bateu no seu filho.
E parar de beber.
E arranjar um emprego.
Só então você vai poder voltar a ser uma pessoa.
Essa é a sua chance de não perder o filho de vez.
Mas saiba: eu também não vou recuar.
Vamos lutar, e aí o destino decide.
— Você é uma desgraçada!
Vocês são todos iguais!
Talvez me deem moradia como mãe solteira, eu moro no alojamento com ele!
E você vem tirar ele de mim!
Te odeio!
Você voltou à tona, como um afogado, do meu passado!
Faina não se abalou.
Palavras magoadas não podiam feri-la — já tinha ouvido demais atrás das grades.
Ela olhou para as janelas iluminadas do orfanato, atrás das quais estava Petya, e disse, de modo calmo, sem rancor:
— Eu já disse o que tinha que dizer.
Vire gente.
Largue esse seu monstro.
— Ah é!
Vou contar pro Lenka!
Ele vai acertar as contas com você!
Você vai ver o que é roubar filho dos outros!
— Você é tola, Natasha, — Faina balançou a cabeça.
— Olho pra você: bêbada, veio ver o filho…
E trouxe pelo menos um presentinho pra ele?
Nem que fosse uma maçã?
— Que presentinho o quê…
Não tenho dinheiro.
Situação financeira difícil, pra sua informação.
Faina se virou em silêncio e foi na direção do prédio, levando na bolsa justamente os mimos para Petya — biscoitos, maçãs, uma camiseta nova.
Ela vinha quase todos os dias, nos seus dias de folga.
Nunca mais viu Natalia.
“O mundo é pequeno, — pensava, caminhando pela estrada já conhecida.
— Pequeníssimo.
Como se uma mão invisível tivesse juntado num ponto só: eu, o Petya e ela… a mãe dele.”
Com esses pensamentos, voltava para casa, onde, na entrada, a esperava, como sempre, a zeladora eternamente atarefada, dona Dusya.
— Faina!
Você sai sozinha, volta sozinha.
Deixa que eu arrumo um noivo pra você! — gritava ela, apoiada na vassoura.
— Eu tenho um sobrinho viúvo, homem direito!
Quem sabe vocês se acertam!
Faina apenas assentia em silêncio e passava adiante, pensando consigo mesma: “Fácil ficar fazendo gracinha.
Já tive o suficiente desses ‘homens direitos’.
Primeiro vou criar o Petya…
Ele, sim, vai ser um homem de verdade.
Honesto e bondoso.”
Mas a preocupação com Natalia não a largava.
E Faina, decidindo verificar tudo com os próprios olhos, foi ao endereço que tinha conseguido descobrir — um alojamento na periferia da cidade.
Ela caminhava com cuidado, lembrando-se das ameaças.
A leve batida na porta do quarto de Natalia ficou sem resposta.
A porta não estava trancada.
Faina entrou.
Na penumbra do pequeno quarto abarrotado de tralhas, sobre o chão nu e sujo, jazia Natalia.
Inconsciente.
O rosto estava distorcido, coberto de hematomas e escoriações.
Faina, sem perder a calma, rapidamente apalpou o pulso fraco, fino como um fio.
Correu para fora e, da portaria, chamou a ambulância e a polícia.
Foi interrogada por muito tempo, colheram seu depoimento e a avisaram para não deixar a cidade.
E em casa, no silêncio do seu apartamento aconchegante, mas tão vazio, Faina se perguntava por que tinha se metido naquela história sombria, estranha.
O objetivo dela era o Petya.
A adoção dele.
O menino nem sequer lembrava da mãe.
Talvez fosse melhor não mexer no passado?
Mas no dia seguinte algo escondido, materno e simplesmente humano a puxou para o hospital.
O estado de Natalia era crítico.
O companheiro a havia espancado com tanta brutalidade que havia complicações graves.
A mulher foi operada, mas continuava inconsciente.
E ali Faina descobriu em si mesma algo surpreendente.
Ela se desdobrava entre o trabalho, o orfanato, onde Petya a esperava, e o hospital, onde a mãe dele se apagava.
Apesar do ódio que tinha havido entre elas no portão, ela, como ser humano, desejava que Natalia sobrevivesse.
Sentia dor e pena por aquela mulher infeliz, de vida destruída, que, mal havia conseguido a liberdade, caira de novo numa armadilha.
— Natasha, você me ouve? — sussurrou pela primeira vez, quando permitiram que entrasse no quarto da ferida.
Ela jazia imóvel, magra como uma sombra, com olheiras arroxeadas sob os olhos fechados.
E, naquele momento, Faina foi atravessada por uma compaixão aguda, quase física.
Pela mãe justamente daquele menino que ela queria levar para si.
Natalia abriu os olhos.
O olhar era turvo, perdido.
— Natasha, sou eu.
Faina.
Você está no hospital.
Vai ficar tudo bem.
Os lábios da mulher tremeram.
Ela tentou dizer algo.
— Calma, calma… não precisa falar.
Mexa um dedo, se estiver me ouvindo.
Foi ele?
O Lenka?
Um leve movimento de dedo.
Um sussurro quase inaudível: “Foi ele…”
E lágrimas.
Silenciosas, impotentes.
— Não chore.
Vão encontrá-lo.
Com certeza.
Você só precisa viver.
Se recuperar.
Eu vou continuar vindo.
Diga, o que quer que eu traga?
Um leve piscar de cílios, em negação.
Faina tornou-se frequentadora assídua do hospital.
A equipe, vendo seus cuidados diários e incansáveis, passou a tomá-la por parente.
E não perguntava nada.
Só alguém muito próximo cuida de outro daquela maneira.
— Natasha, então, como você está hoje?
Fiz um caldo, bem caseiro.
E ralei uma maçã pra você.
— Por que você vem? — sussurrou certa vez Natalia, olhando para ela com mais lucidez.
— E quem mais viria?
Quero que você melhore.
Que fique de pé de novo.
E também vou dar um jeito no seu quarto lá no alojamento, quando você tiver alta.
— O Petka… o meu… como ele está?
— Bem.
Eu vou visitá-lo.
Ele estuda, brinca.
Não pense em coisa ruim.
Se recupere.
E depois… vamos lutar juntas por ele.
Pra que devolvam ele pra você.
Vou a todos os lugares, dou a minha palavra por você.
Eu sinto, Natasha, que você pode ser uma boa mãe.
É que a vida te… entortou demais.
Natalia voltou a chorar.
E, nesse momento, o coração de Faina chorava junto.
Ela estava fazendo uma promessa — e sabia que iria cumpri-la.
Se Natalia conseguisse se salvar, Faina faria de tudo para que Petya voltasse para a mãe verdadeira.
— Petenka… — soluçou Natalia.
— Deram esse nome pra ele por causa do meu pai…
Meu pai era um bom homem.
E minha mãe também.
Ele puxou o avô.
Tem… bons genes.
Não é como aquele outro pai…
— Que bom então, Natasha!
Se recupere, você vai até o seu filho, e eu vou ajudar.
— Não precisa… Você já fez tanto…
Acho que não vou escapar…
Dói tudo por dentro…
— Que isso!
Os médicos estão te tratando, vai dar certo.
E o Lenka já pegaram!
Está na cadeia agora.
Por muito tempo.
Natalia ficou olhando para ela por um longo tempo, e no seu olhar, tão cinza e profundo quanto o de Petya, não havia mais ódio, e sim uma tristeza serena, infinita, e gratidão.
— Faia…
Você… você adota ele.
O Petka.
Que ele cresça com você.
Você vai dar tudo pra ele.
Eu sei disso.
Quando te vi aquele dia… primeiro o ódio ferveu dentro de mim.
Mas agora entendi…
Melhor mãe do que você ele não vai encontrar.
— Deixa disso!
Quando você melhorar — vamos juntas até ele, no orfanato.
Mas o destino decidiu de outro jeito.
Dois dias depois, o estado de Natalia piorou bruscamente.
O organismo jovem, mas minado por anos de desgraças, alcoolismo e espancamentos, não resistiu.
Ela não conseguiu se salvar.
Quando recebeu a notícia no corredor do hospital, Faina sentou-se num banco de madeira duro e cobriu o rosto com as mãos.
Lágrimas quentes e amargas escorriam pelos dedos.
Ela chorava por uma mulher estranha, que praticamente não conhecia.
Por uma maternidade que nunca se realizou.
Pela crueldade do mundo.
— A senhora está passando mal? — aproximou-se uma enfermeira.
— Já… já passa.
— A senhora precisa cuidar dos documentos.
Da sua parente.
— Minhas condolências, — disse o médico que se aproximou, um homem mais velho, cansado.
— Não podíamos mais fazer nada pela sua irmã.
No consultório, Faina, com dificuldade, contendo o tremor na voz, contou toda a história.
Sobre a colônia.
Sobre o orfanato.
Sobre o encontro no portão.
Sobre como encontrou Natalia espancada.
Sobre suas visitas diárias.
O médico, grisalho e calejado, escutava, abalado.
Nunca lhe passaria pela cabeça que aquela mulher abnegada e cuidadosa fosse completamente estranha à falecida.
O filho, ela acabou adotando mesmo assim.
Passando por montanhas de papéis, comissões intermináveis, vistorias e entrevistas.
Voltaram para casa, para o que agora era o apartamento dos dois, passando por um parque de outono.
Ela o segurava pela mão, e ele pulava enquanto andava, tentando pisar em cada folha que estalava no chão.
Na bolsa dela estava o presente prometido — um grande conjunto de peças de montar.
— E a mamãe nunca me comprava nada, — disse de repente Petya, sem olhar para ela.
Faina parou.
Abaixou-se para ficar na altura dele e abraçou seus ombros finos.
— Petenka, a mamãe… naquela época não podia.
Ela não tinha condições.
Mas ela te amava.
Lembre-se disso.
Ela era uma boa mãe.
— E onde ela está agora?
— Ela foi embora.
Pra bem longe.
Foi assim que aconteceu.
Mas não foi culpa dela.
Nunca se esqueça: você teve uma boa mãe.
— E você também é boa! — gritou o menino, feliz, e se abraçou a ela, envolvendo o pescoço dela com os bracinhos finos.
Eles seguiram pelo alameda coberta de ouro.
E Faina fez, dentro de si, um juramento: “Vou te contar tudo, Petenka.
Quando você crescer.
Vou te contar tudo sobre a sua mãe.
Mas só o que houver de mais luminoso.
Pra que você se lembre dela como boa.
Pra que não guarde mágoa.”
Ela não pretendia enganar.
Queria dar a ele uma lembrança da mãe limpa de sujeira e dor.
As crianças devem se lembrar do que há de bom nos pais.
Foi algo que ela aprendeu com muito sofrimento, passando anos a fio tentando encontrar, na memória da própria mãe, pelo menos uma gota de calor.
E um dia, já quando Petya ia à escola e a vida dos dois tinha ganhado um ritmo tranquilo e acolhedor, o destino deu mais uma volta, suave.
Voltavam para casa, comentando uma prova de matemática, quando foram chamadas pela zeladora conhecida.
— Faia!
Espera!
Você não queria mudar um guarda-roupa de lugar?
Vai dar conta sozinha?
— Dou conta, dona Dusya.
Já estou acostumada.
— Acostumada com o quê!
Olha, o Vasili te ajuda.
Meu sobrinho, chegou agora do turno, está descansando.
Faina viu, perto dos contêineres de lixo, um homem atarracado, de ombros largos, que manuseava com habilidade uma enorme caixa de papelão.
— Vasia!
Vai ajudar a moça com a criança! — ordenou a tia.
— Ajudo sim, sem problema! — o homem se virou.
Tinha um rosto aberto, simples, com olhos bondosos e leves rugas nos cantos.
Faina cruzou o olhar com o dele.
E não viu nada ali além de uma calma e amistosa prontidão em ajudar.
— Ele faz isso de graça, — sussurrou dona Dusya no ouvido de Faina.
— E você retribui com um chá, no máximo.
O destino dele… é amargo.
Perdeu a família.
A esposa e o filhinho.
Ficou sozinho no mundo.
Em casa, enquanto Faina se ocupava na cozinha, Vasili, que se revelou um faz-tudo, não só mudou o guarda-roupa de lugar, como consertou a porta que vivia emperrando, e depois envolveu Petya na montagem de um modelo complicado justamente com aquele conjunto de peças.
Faina, ao passar diante do quarto, parou na porta.
À sua frente havia uma cena que enchia seu coração de uma alegria calma e luminosa: no chão, entre peças espalhadas, estavam sentados um homem e um menino, absorvidos por um trabalho em comum.
Um raio de sol do fim da tarde dourava as cabeças inclinadas deles.
Ao passar pelo espelho do corredor, Faina lançou um olhar involuntário para o reflexo — e ficou imóvel.
Ela não viu mais a mulher dura e fechada, de cabelos presos num coque rígido, mas outra.
O rosto estava suavizado, no canto dos lábios havia uma sombra de sorriso, e os olhos, tão cinzentos quanto os de Petya, brilhavam com um calor que ela não percebia em si havia muitos, muitos anos.
Talvez porque tivesse se tornado mãe.
Ou talvez porque, enfim, no porto tranquilo deles, tivesse entrado um navio bom e confiável.
E, por algum motivo, ela acreditou de repente, com firmeza e sem a menor dúvida, que o seu Petenka teria não só uma mãe que o amava infinitamente, mas também um pai que o ensinaria a ser forte e bondoso.
E que o próprio coração dela, que por tanto tempo vegetara no gelo da solidão, finalmente, no fim de uma vida nada fácil, tinha derretido sob os raios desse duplo sol de primavera — tão frágil e ao mesmo tempo tão sólido: o amor do filho e o novo sentimento maduro que nascia.
E, naquela noite calma, caseira, cheia do tilintar das peças de montar e do murmúrio tranquilo de uma voz masculina, estava contida toda a sua nova vida, verdadeira, sofrida e dada de presente pelo destino.







