— E para onde, exatamente, foi parar a minha parafusadeira? — Vera ficou imóvel bem no meio do hall, segurando na mão o estojo vazio.
Os fechos de plástico estalaram de forma miserável ao se fecharem.

Egor nem se virou, continuando a calçar o tênis de cano alto.
Os cadarços dos seus tênis de inverno estavam puídos, mas ele teimava em não trocá-los, dando nó por cima de nó.
— Está com a minha mãe — resmungou ele, endireitando-se e puxando a jaqueta, que há muito tempo ficara apertada nos ombros.
— Ela precisava pendurar o trilho da cortina.
— O trilho? Aquele mesmo que você pendurou três meses atrás? — Vera semicerrrou os olhos.
— Egor, é uma “Makita”.
Ferramenta profissional.
Eu comprei quando contratei a equipe para fazer o contrapiso.
Por que a sua mãe não pede ajuda ao vizinho?
Ou a um profissional?
— Porque ela tem um filho — cortou Egor.
A voz dele soou naquela nota de justo ofendido que Vera detestava.
— E, aliás, Vera, não começa.
Ferramenta é para trabalhar, não para ficar parada.
— Justamente.
Eu preciso dela.
Amanhã vêm os montadores da cozinha, pediram para preparar o lugar, tirar as prateleiras velhas.
— Eu mesmo tiro.
À noite.
Ele saiu, batendo a porta com tanta força que caiu cal do batente.
Vera soltou o ar devagar.
Era a terceira vez no mês que coisas do apartamento dela iam parar no apartamento de Antonina Pavlovna, mãe de Egor.
Primeiro sumiu a boa frigideira de teflon (“A mamãe queria testar como ficavam as panquecas nela”), depois — o jogo novo de roupa de cama (“Ela está com visitas de Syzran, não vão dormir direto no colchão”), e agora a parafusadeira.
Vera olhou o próprio reflexo no espelho.
Trinta e dois anos.
Olhos cansados, um vinco duro junto aos lábios.
Aquele apartamento — um dois quartos num prédio stalinista com pé-direito alto — tinha ficado para ela do avô, professor de geologia.
Egor mudara para lá um ano antes.
No começo, tudo corria bem: ele era habilidoso, calmo, trabalhava como logística num depósito.
Não era rico, mas tinha estabilidade.
Parecia que daria para viver.
Mas, com o tempo, a aritmética do dia a dia deles ficava cada vez mais estranha.
À noite, Egor não apareceu para tirar as prateleiras.
Voltou já escuro, cheirando a cigarro barato e a algum tipo de óleo técnico.
— Estou cansado como um cão — jogou, passando direto para a cozinha.
— Estava ajudando a minha mãe a consertar a caixa de descarga.
— E a parafusadeira? — perguntou Vera, sem tirar os olhos do notebook.
Ela estava fechando relatórios, os números pulavam diante dos olhos.
— Deixei lá.
Ela é pesada, ficar carregando para lá e para cá… Amanhã eu pego.
— Egor, amanhã de manhã os montadores chegam!
Ele se virou bruscamente, e nos olhos dele brilhou algo de mau, de frio.
— Que fixação é essa com esses montadores!
Você não consegue girar um parafuso com uma simples chave de fenda?
Você vive inventando problema onde não tem.
Eu, para sua informação, estou me esforçando por nós.
A mamãe prometeu ajudar com o carro se a gente desmontar o galpão dela.
— Eu não tenho carro, Egor.
Quem tem é você.
— E nós não somos uma família?
O que é meu é seu.
Vera ficou calada.
A frase “o que é meu é seu” ela já tinha ouvido muitas vezes.
Só que, por algum motivo, ela funcionava em uma única direção.
Quando Egor precisava pagar o seguro, pegava dinheiro da gaveta “comum”, onde Vera colocava 80% do dinheiro.
Quando Vera precisava comprar botas de inverno, Egor dizia: “Agora está apertado, aguenta um pouco”.
Dois dias depois, veio a tempestade.
Vera voltou mais cedo do trabalho — a reunião tinha sido cancelada.
O apartamento estava silencioso, mas de um silêncio especial, inquietante.
No corredor havia um par de botas estranhas — deformadas, com pelo na borda.
Antonina Pavlovna.
Vera foi até a cozinha.
A sogra (embora oficialmente eles não fossem casados) estava sentada à mesa como um monumento e tomava chá da xícara preferida de Vera — porcelana fina de osso, que ela só tirava do armário em datas festivas.
Na frente dela estava Egor, curvado, cutucando com o garfo um prato de pilaf de ontem.
— Oh, até que enfim apareceu — disse Antonina Pavlovna em vez de um cumprimento.
Ela era uma mulher grande, com o rosto como se fosse moldado de massa crua, mas com olhos pequenos e afiados.
— Boa noite — disse Vera, contida.
— Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu sim — assentiu Antonina Pavlovna.
— Nós aqui com o Egor estamos discutindo justiça.
— Que justiça?
— Justiça patrimonial.
Egor levantou a cabeça.
Ele tinha um ar resoluto, mas também de alguém acuado, como se tivessem enchido sua cabeça de argumentos por um bom tempo e agora ele tivesse medo de deixá-los escapar.
— Vera, a gente fez umas contas… — começou ele.
— Você lembra que no verão eu troquei o azulejo do banheiro?
E que coloquei o laminado no corredor?
— Lembro.
Você mesmo se ofereceu.
Eu paguei os materiais, você fez o trabalho.
Combinamos que esse seria o seu aporte para a casa, já que você não paga as contas de luz e afins.
— Não interrompe! — latiu Antonina Pavlovna.
— Aporte para a casa é levar o lixo para fora.
Reforma é investimento de capital!
Meu filho ficou quebrando as costas, respirando poeira.
E o apartamento em nome de quem está?
Em nome de você.
Logo, ele melhorou o seu patrimônio às próprias custas.
— Às próprias custas? — Vera riu, embora não achasse graça nenhuma.
— A nota fiscal dos azulejos — quarenta mil.
Argamassa, rejunte — mais dez mil.
Tudo no meu cartão.
— E as mãos dele? — Antonina Pavlovna bateu com a palma na mesa.
— Quanto valem mãos de ouro?
Você sabe quanto cobram os azulejistas?
Nós pesquisamos.
Para assentar um metro quadrado de azulejo — mil e quinhentos no mínimo.
E ele fez tudo para você com perfeição.
— E aonde essa conversa quer chegar?
Vocês querem que eu pague ao Egor como se fosse um trabalhador contratado?
Muito bem.
Vamos descontar desse valor o custo de ele morar aqui por um ano, a comida, a internet…
— Não seja irônica! — cortou Egor.
Ele se levantou, e Vera viu que ele estava mesmo decidido.
— A mamãe diz que, já que eu fiz a reforma no seu apartamento, tenho direito a uma parte.
O silêncio caiu sobre a cozinha.
Dava para ouvir o zumbido da geladeira e o tique-taque do relógio antigo na sala.
— O quê? — repetiu Vera, esperando ter ouvido errado.
— Uma parte — repetiu Egor firmemente.
— Pequena.
Um quarto.
Ou pelo menos registro permanente com direito de moradia.
Para eu ter garantias.
Porque hoje a gente mora junto, e amanhã você me põe para fora e eu fico sem nada.
E eu investi aqui!
Eu coloquei a alma nessa reforma!
Vera olhou para Antonina Pavlovna.
Ela estava sentada com expressão vitoriosa, os braços cruzados no peito.
— É justo, Verochka — cantou ela, melosa.
— O homem precisa se sentir dono.
E que dono ele é, se aqui está de favor?
Você faz a escritura de uma parte para ele e vão viver em paz.
E nós também ficamos mais tranquilos.
Vera sentiu um frio por dentro.
De repente, ela viu a situação de fora: dois predadores, um grande e um menor, encurralaram a presa num canto e exigiam um pedaço de carne.
E não apenas exigiam, tinham montado toda uma base ideológica em cima disso.
— Não — disse ela em voz baixa.
— “Não” o quê? — não entendeu Egor.
— Não vai haver parte nenhuma.
Nem registro.
— Ah, é assim então! — exclamou Antonina Pavlovna, abrindo os braços.
— Eu te disse, meu filho!
Ela está te usando!
Para ela você é apenas mão de obra gratuita!
Arrumou um gigolô ao contrário!
— Vera, você não entende — Egor deu um passo em direção a ela.
— Isso é uma garantia para a nossa relação.
Se você me ama, não vai lhe custar nada.
— Amor e metros quadrados num prédio stalinista são coisas diferentes, Egor.
— Então quer dizer que você não me ama?
Então a mamãe tinha razão?
— Razão em quê? — Vera sentiu a fúria gelada começar a ferver por dentro.
— Em ter decidido arrancar um pedaço do meu apartamento usando o próprio filho?
— Não ouse falar assim da minha mãe! — guinchou Egor.
— Arruma suas coisas — disse Vera.
— A parafusadeira você pode ficar.
Como pagamento pelos azulejos.
— Você está me expulsando?
Por causa de metros quadrados?
— Estou te expulsando por causa da sua cara de pau.
E por causa da sua burrice.
Antonina Pavlovna se levantou.
Estava vermelha como uma beterraba.
— Vamos embora, meu filho.
Eu te avisei.
Não tem problema, vamos entrar na justiça.
Temos testemunhas de que você fez a reforma.
A tia Liuba viu você carregando os sacos de cimento.
Vamos provar o fato de melhoria das condições de moradia e exigir uma indenização!
Ou uma parte!
Eles foram embora fazendo barulho, em meio a xingamentos.
Egor jogava as coisas nas bolsas, Antonina Pavlovna ficava em cima, comentando cada gesto de Vera.
Quando a porta se fechou atrás deles, Vera escorregou pela parede até o chão.
Mas aquilo era só o começo.
Uma semana depois, chegou para Vera uma intimação.
Não do tribunal, não.
Convocação do delegado de bairro.
Queixa do cidadão E. V. Sokolov afirmando que a cidadã V. A. Tumanova retém ilegalmente os seus bens (ferramentas, pneus de inverno, televisão).
Vera foi ao posto policial.
O policial do bairro, um rapaz jovem de rosto cansado, olhou para ela com compaixão.
— Vera Andreevna?
Redija uma declaração de esclarecimento.
Tem uma lista inteira aqui.
Televisor “Samsung”, 55 polegadas…
— Essa televisão eu comprei há três anos, tenho a nota — disse Vera calmamente.
— Os pneus dele não estão no meu apartamento, estão na garagem dele.
E as ferramentas… ele levou tudo quando saiu.
Pegou até meu alicate.
— Eu entendo — suspirou o policial.
— Mas sou obrigado a registrar.
Escreva, anexe cópias das notas, se tiver.
Era uma guerra de desgaste.
Antonina Pavlovna se revelou estrategista em nível de generalíssimo.
Começaram os telefonemas.
Ligavam para Vera no trabalho, se passando por funcionários de bancos que procuravam o devedor Sokolov, que supostamente tinha indicado o número dela como contato.
Ligavam para os vizinhos de Vera, contando que ela era uma golpista que havia enganado um rapaz, o fizera fazer uma “reforma de alto padrão” e o colocara na rua.
Certa manhã, Vera descobriu que o miolo da fechadura da porta tinha sido entupido com cola.
Teve de chamar o resgate, arrombar a porta, trocar o cilindro.
Isso custou dinheiro e nervos.
Vera entendeu: só na defensiva não se ganha guerra.
Era preciso atacar.
Ela sabia que Egor trabalhava informalmente.
A tal “logística” era apenas a ponta do iceberg.
Na verdade, ele revendia certas peças vindas de depósitos “cinza”.
Já Antonina Pavlovna, embora aposentada, alugava ativamente um quarto do seu apartamento para duas estudantes, claro, sem contrato e sem pagar impostos.
Vera não queria ser mesquinha, mas a vida a obrigou.
Ela procurou um velho conhecido do avô, advogado aposentado, Arkadij Samoilovich.
Depois de ouvir a história, ele resmungou, limpando os óculos com um pano de camurça.
— Bem, Verochka.
Situação clássica.
Ganância somada à sensação de impunidade.
Contra um pé-de-cabra só funciona outro pé-de-cabra.
Mas nós vamos agir com mais elegância.
O plano era complexo, cheio de etapas.
Primeiro, Vera apresentou uma contradenúncia à polícia por calúnia e dano ao patrimônio (a fechadura).
Anexou as gravações da câmera de vigilância do prédio, que ela, com previdência, tinha instalado logo depois que Egor saiu.
Nas imagens se via claramente Antonina Pavlovna, olhando para os lados, aproximar-se da porta e fazer algo com a fechadura.
Depois Arkadij Samoilovich redigiu uma notificação formal exigindo ressarcimento pelos danos de serviços de reforma mal executados.
— Como assim? — Vera se espantou.
— Ele colocou os azulejos direitinho.
— Tem documentos?
Termo de entrega?
Contrato de prestação de serviços?
Não.
Então é iniciativa informal.
E já que eles afirmam que foi um trabalho em troca de futura parte, nós viramos o tabuleiro.
Vamos alegar que ele estragou materiais caros, violou a técnica (e qualquer perito consegue achar defeito), e agora é preciso demolir tudo.
A carta foi enviada com aviso de recebimento.
O valor dos danos ali indicado triplicava o custo dos serviços.
Paralelamente, por meio de conhecidos, Vera descobriu exatamente onde Egor guardava a sua mercadoria “cinza”.
No conjunto de garagens “Sever”.
E justamente nessa época estava planejada ali uma operação para identificar atividades comerciais ilegais.
Uma denúncia anônima — e a fiscalização caiu direto no box dele.
O golpe foi cirúrgico e doloroso.
Egor ligou dois dias depois.
— O que você pensa que está fazendo? — berrava no telefone.
— A minha mercadoria foi apreendida!
Estão chamando a minha mãe para depor por causa da sua fechadura!
Você perdeu a noção?
— Eu? — a voz de Vera era gelada.
— Egor, eu só estou defendendo o meu patrimônio.
A mamãe diz que, já que você está estragando a minha vida, eu tenho direito a uma indenização.
— Que indenização?!
A gente queria resolver tudo na boa!
— “Na boa” é exigir parte de um apartamento alheio porque colocou laminado?
— Retira a queixa!
A mamãe está passando mal, a pressão dela subiu!
— Que ela tome os remédios.
E que pare de incomodar os meus vizinhos.
— Vera, estou falando sério.
Volta tudo atrás que a gente te deixa em paz.
— Não, Egor.
Assim não vai ser.
Vocês quiseram guerra — tiveram guerra.
Agora quem dita as condições sou eu.
As condições eram simples: sumirem completamente da vida dela.
Renúncia por escrito a qualquer pretensão (embora juridicamente elas já fossem nulas, mas Vera queria o papel para ficar tranquila).
Ressarcimento do custo da fechadura e do serviço de arrombamento.
Egor desligou.
Passou uma semana.
Silêncio.
Vera continuou vivendo, mas olhava para os lados na rua.
Ela entendia que ratos acuados podem atacar.
O desfecho veio de repente.
À noite, tocaram a campainha.
Vera olhou para o monitor do interfone.
Na porta estava um homem de cerca de cinquenta anos, desconhecido, de sobretudo caro e pasta de couro na mão.
Vera abriu a porta só com a corrente colocada.
— Quem é o senhor?
— Vera Andreevna?
Meu nome é Viktor Petrovitch.
Eu… digamos assim, tenho relação com o apartamento onde mora Antonina Pavlovna.
— O senhor é da polícia?
— Não.
Sou o proprietário do outro quarto daquele apartamento.
Aquele que Antonina Pavlovna considera dela.
Vera tirou a corrente.
A intriga estava se adensando de um jeito de tirar o fôlego.
Ficou claro que o apartamento de Antonina Pavlovna era um antigo apartamento comunitário que nunca fora totalmente desmembrado.
O segundo quarto pertencia a Viktor Petrovitch, que morara muitos anos no Norte e simplesmente mantinha o quarto fechado.
Antonina Pavlovna, aproveitando a ausência dele, arrombara o quarto, fizera um “reforminha” lá dentro e o alugava junto com a própria área, achando que o dono nunca mais voltaria ou já teria morrido.
— Vim vender o quarto — contava calmamente Viktor Petrovitch, sentado na cozinha de Vera.
— Chego lá e… um alojamento estudantil.
Os seus, digamos, “parentes” fizeram um escândalo.
Gritavam que, por uso prolongado, aquilo já era tudo deles por usucapião.
Chamei a polícia.
Muita coisa interessante veio à tona.
E o seu caso o policial me contou enquanto a gente preenchia o boletim.
Disse que você também é parte prejudicada.
Vera ouvia e não acreditava.
O carma existe.
— E agora? — perguntou.
— Agora eu despejei as inquilinas.
Para Antonina Pavlovna, apresentei um cálculo de enriquecimento ilícito e uso indevido da minha propriedade.
A soma acumulada em cinco anos é bem respeitável.
Ou ela paga, ou me vende o quarto dela por uma mixaria e se muda.
— E o Egor?
— O Egor tentou vir para cima de mim no braço.
Agora ainda tem um processo por “desordem e agressão”.
O rapaz, ao que parece, não é muito inteligente.
Vera sorriu.
“Não muito inteligente” era dizer pouco.
— Por que o senhor está me contando tudo isso?
— O policial disse que você tem uma gravação em vídeo dela estragando a sua fechadura.
Seria um excelente complemento ao perfil da ré no tribunal.
Você poderia me ceder?
Vera pegou silenciosamente um pendrive.
— Pode levar.
É um presente.
Um mês depois, Egor e Antonina Pavlovna se mudaram.
Eles tiveram que vender o quarto para Viktor Petrovitch para pagar as dívidas e evitar um processo criminal por fraude na locação.
O dinheiro só deu para um minúsculo estúdio num prédio em construção em algum lugar no fim do mundo, lá para os lados dos campos além do anel viário.
Vera soube disso por acaso, ao encontrar uma antiga vizinha de Antonina.
A vida entrou nos eixos.
Vera trocou o papel de parede do corredor — aquele mesmo que Egor tinha escolhido.
Comprou uma parafusadeira nova.
Um dia, seis meses depois, o telefone tocou.
O número era desconhecido.
— Alô?
— Vera… sou eu.
A voz de Egor estava apagada, como se viesse através de algodão.
— O que você quer?
— Olha, é o seguinte…
A gente está fazendo reforma no estúdio.
A mãe falou que você sabe onde dá para comprar laminado bom e barato.
Naquela época você comprou com desconto…
Vera congelou.
Por um instante, pareceu-lhe que aquilo era um delírio, um sonho ruim.
— Egor — disse ela devagar.
— Você está falando sério agora?
— E por que não?
Nós não somos estranhos.
Você podia ajudar com um conselho.
A situação aqui está difícil, aperto, sem dinheiro…
Mamãe chora o tempo todo, lembra como a gente vivia bem.
— Como “a gente”? — repetiu Vera.
— Ué, naquele apartamento.
No centro.
Vera, talvez a gente se encontre?
Eu estive pensando… Eu, na verdade, exagerei aquele dia.
E a mamãe… ela é idosa, tem que dar um desconto.
Mas eu sou jovem.
Eu posso trabalhar.
Eu poderia isolar o seu balcão.
De graça.
Houve uma pausa do outro lado da linha.
Uma espera pegajosa, patética, de uma pessoa que não entendeu nada.
Ele realmente achava que bastava virar a página, oferecer “isolar o balcão” e voltar para o confortável apartamento stalinista, fugindo dos seus campos de concreto.
— Egor — Vera sorriu, olhando o corredor limpo e tranquilo do seu apartamento, inundado de sol.
— Lembra de uma coisa.
— O quê?
— A mamãe diz que, se você é burro, é para sempre.
E apertou em “desligar”.
Depois bloqueou o número.
Ela foi até a janela.
Embaixo, a cidade fervilhava, as pessoas apressadas.
Em algum lugar ali, entre milhões de destinos, sumiram duas pessoas que quiseram construir a própria felicidade em cima do alicerce de outra pessoa.
Mas o alicerce se mostrou mais sólido do que eles imaginavam.
Vera serviu café justamente naquela xícara fina de porcelana.
O café estava amargo e quente.
Como a própria vida.
Mas agora, nessa vida, não havia lugar nem para gente supérflua, nem para pretensões alheias.
Só para ela, sua casa e suas regras.
E essa era a melhor sensação do mundo.







