— Você está falando sério agora? — Irina estava à janela, com o telefone na mão, e olhava para o pátio cinzento de dezembro, onde o zelador, sem entusiasmo, empurrava a neve suja para um monte.
— Sete pessoas, Liócha.

Sete.
No nosso dois-quartos.
Uma semana antes do Ano-Novo.
— E daí? Qual é o problema? — Alexei, sem levantar os olhos da tela do notebook, continuava a digitar alguma coisa.
— É família.
A mãe com a Valentina e os outros.
Eles ficam um pouco, dão os parabéns, comem e vão embora.
— “Comem” soa como uma ameaça, pra ser sincera — Irina sorriu de lado.
— Você lembra quanto a gente gastou com comida da última vez?
Depois ficamos terminando macarrão sem molho, como estudantes do terceiro ano.
Alexei finalmente levantou os olhos:
— Você vai começar de novo?
— Não, eu estou continuando.
Eu nem tinha terminado — Irina se virou bruscamente.
— Você não percebeu como esse “dar uma passadinha” da sua mãe aqui em casa vira um banquete em grande escala, com pretensão de buffet chique de capital?
Ele deu de ombros:
— Ah, ela é só… peculiar.
— Peculiar? — Irina riu com amargura.
— Liócha, da última vez ela criticou as minhas saladas, a minha mesa, até a chaleira!
Você ouviu, né, quando ela disse: “Devia ter escolhido melhor a esposa, não pegar a primeira que apareceu”?
Ele desviou o olhar.
— Ela fala assim… mas não é por mal.
— Aham. Claro.
É só o estilo dela — bater de chinelo no amor-próprio alheio.
Na cozinha, o relógio chinês com ideogramas, que Alexei tinha comprado “de brincadeira”, marcava o tempo.
Os ponteiros se aproximavam lentamente das nove da noite.
Do lado de fora começavam a se acender pisca-pisca nas janelas dos vizinhos — os sentimentais do prédio se preparavam para o Ano-Novo.
Só Irina não tinha cabeça para aquele brilho todo.
Ela sentia que algo pesado se aproximava, pegajoso, como uma bola de neve suja debaixo do pé.
— Me escuta, por favor — disse ela mais devagar e mais baixo.
— Eu não vou mais fazer banquete aqui pra metade do bairro só porque a sua mãe quer “em família”.
Eu trabalho, eu me canso.
E eu não fui contratada para ser cozinheira gratuita da sua parentada.
— Ir… é só uma vez antes das festas.
— Você fala isso toda vez — ela se sentou na cadeira, cansada.
— “Uma vez”.
Depois mais “uma”.
Depois: “Ah, não vamos expulsar os parentes, né”.
E no fim eu com o pano na mão, e eles cheios de exigências.
Ele fechou o notebook com um estalo.
— Talvez você esteja exagerando?
— Vamos aos fatos — Irina olhou direto nos olhos do marido.
— No último ano, quantas vezes os seus parentes comeram neste apartamento?
Alexei pensou um pouco.
— Bom… umas seis.
Talvez sete.
— Onze, Liócha.
Eu contei.
Porque toda vez depois disso a gente ficava vivendo de trigo-mourisco e de promessas de que “no mês que vem vai ser mais fácil”.
Ele franziu a testa.
— Você contou mesmo?
— Claro que contei.
Porque depois sou eu que tenho que me virar e inventar como chegar até o salário.
Ele suspirou e passou a mão no rosto.
— Tá bom.
Eu vou falar com a mamãe.
— Não é “vou falar”, é você vai explicar — disse Irina secamente.
— Por enquanto com calma, no jeito.
Porque se ela não entender — depois eu explico.
E aí ela vai ficar bem magoada.
A conversa acabou ali.
Pelo menos era o que Irina esperava.
Os dias seguintes passaram em silêncio.
Silêncio até suspeito.
Irina ia trabalhar na clínica, atendia telefonemas, fazia cadastro de pacientes, e se pegava pensando que, pela primeira vez em muito tempo, não esperava a noite com ansiedade.
Chegou até a comprar uma arvorezinha de Natal artificial, colocou no parapeito da janela e de manhã ligava as luzinhas — para criar clima.
E então, na quinta-feira, a três dias do Ano-Novo, o telefone tocou.
Na tela — “Ludmila P.”
Irina revirou os olhos de um jeito que, se isso fosse esporte olímpico, ela levaria ouro.
— Alô? — respondeu seca.
— Irochka, meu solzinho — a voz da sogra estava suspeitosamente doce, quase grudenta.
— Eu soube que você ficou chateada com a gente?
— Eu não fiquei chateada, senhora Ludmila.
Eu só parei de ser conveniente.
— Não fala assim… grosseiro.
A gente está querendo tudo no bem.
Ano-Novo, família, aconchego, tradições.
Nós queremos nos reunir todos juntos… aí na sua casa.
— Não.
O silêncio do outro lado caiu pesado, como uma cortina grossa.
— Como assim “não”?
— Literalmente.
Eu não planejo organizar ceia.
Eu e o Alexei queremos passar essa noite só nós dois.
— E o Alexei sabe que você decidiu isso?
— Essa é a NOSSA decisão em conjunto.
E se ele disser o contrário — que ele mesmo cozinhe e limpe.
— Você está se esquecendo de quem é, menina… — a voz ficou fria.
— Esse apartamento é do meu filho.
— Essa é a minha casa.
E eu não moro mais aqui como convidada.
No ar ficou só a respiração pesada.
— Vamos ver como você vai cantar quando o Alexei descobrir quem você é de verdade.
— Que descubra.
Eu cansei de fingir ser boazinha.
A ligação caiu.
Irina continuou sentada com o telefone na mão, o coração disparado, mas por dentro de repente ficou… calma.
Assustada — sim.
Mas calma.
Ela sentia que aquilo era só o começo.
E, para piorar, naquela mesma noite Alexei voltou mais tarde do que de costume.
Estava tenso, pensativo.
— Você ligou pra mamãe? — perguntou ele da porta.
— Não.
Ela ligou pra mim.
— E?
— E eu disse “não”.
Ele olhou para ela de um jeito totalmente diferente:
— Por que você foi tão dura?
— Porque quando eu falo suave, ninguém me escuta.
— Você entende que agora vai ter escândalo?
— Eu entendo que, se eu não disser “chega”, vão continuar me usando.
Ele ficou em silêncio.
E então disse algo que a gelou até os ossos:
— Ela disse que não é a primeira vez que você age assim.
Que você mente pra mim, me manipula e me afasta da família…
Irina levantou devagar o olhar para ele.
— O quê?.. — os olhos dela se estreitaram.
— Eu minto?
Eu manipulo?
— Ela disse que você humilha ela de propósito e que quer me colocar contra todo mundo…
E foi exatamente nesse momento que Irina entendeu: o pior ainda estava por vir.
Porque já não se tratava de comida nem de festa.
Tratava-se de mentira.
De uma grande, pegajosa, muito bem planejada mentira.
Ela deu um passo à frente:
— Alexei.
Olha bem pra mim e responde com sinceridade.
Você acredita em mim?
Na sala caiu um silêncio que parecia tilintar.
E essa pergunta ele não respondeu de imediato.
E do lado de fora as luzes de Ano-Novo iam se acendendo devagar… como se alguém estivesse zombando deles.
Alexei continuou parado no corredor, como se alguém tivesse desligado e esquecido de ligar de novo.
— Ir… — disse ele finalmente.
— Me deixa pensar.
— Claro, pensa — respondeu ela calmamente.
— Só imagina que eu não sou tua esposa, mas uma pessoa qualquer.
E essa pessoa qualquer ouve a tua mãe jogando lama em cima dela.
De que lado você ficaria?
Ele tirou devagar o casaco, jogou nas costas da cadeira, como se esse gesto pudesse mudar alguma coisa no ar entre eles.
— Ela disse que você esconde gastos de mim…
Que transfere dinheiro pra alguém…
— PRA QUEM? — Irina riu nervosa.
— Pro banco da hipoteca em Bali?
Pro amante secreto do setor de contabilidade?
Ou talvez pros maçons?
— Não faz ironia.
Eu não estou achando graça.
— E eu estou.
Porque isso já não é só uma mentira descarada.
É tipo novela barata com roteiro mal escrito.
Ela te falou números, Alexei?
Coisa concreta?
— Não… só… que viu extratos.
Que você supostamente transfere quinze, vinte mil.
— Me mostra esses “extratos” — Irina cruzou os braços.
— Porque no aplicativo do banco eu só vejo pagamento de aluguel, comida e, às vezes, umas coisinhas pra viver.
No máximo — a manicure que, aliás, a gente não faz desde novembro.
Ele pegou o telefone, mexeu na tela, ficou parado.
— Mãe, manda aqueles prints que você tinha me mostrado…
Pausa.
— Não, agora.
O rosto dele ficou um pouco mais pálido.
— Ela… diz que depois… que apagaram.
Irina semicerrrou os olhos e deu um passo lento em direção a ele.
— Você pelo menos percebe o quanto isso fede a manipulação barata?
— Ir, ela não faria isso à toa…
— FARIA — cortou Irina.
— E está fazendo.
Porque ela não gosta que eu não dance na frente dela como adestrada.
Pra ela é cômodo quando eu fico quieta e balanço a cabeça.
Mas agora — acabou.
Ele sentou na beirada do sofá, olhando para um ponto fixo.
— Então pra quê isso?
Pra que mentir?
— Controle, Alexei.
Ela precisa ter tudo na mão.
Pra que você obedeça ao estalar de dedos, e eu seja um apêndice da cozinha… sem direito à palavra.
O silêncio voltou a se estender entre eles, mas agora não era vazio — era espesso, inquieto.
Irina foi devagar até a mesa da cozinha, pegou o próprio telefone.
— Toma.
Vê tudo.
Até o último centavo.
Ele começou a rolar o histórico de operações.
Por muito tempo.
Atençõesamente.
— Aqui… é tudo realmente pra casa… comida… contas… — murmurou ele.
— Claro — ela assentiu calmamente.
— E sabe o que mais tem aqui?
A ausência de transferências pra sua mãe, pra ajudar nem que fosse uma vez.
A ausência de dinheiro vindo dos seus convidados.
A ausência de agradecimento.
Mas muita comida deles na nossa geladeira, que depois ia pro lixo.
Os dedos dele se fecharam em volta do telefone.
— Então… ela simplesmente…
— Simplesmente mentiu na sua cara — completou Irina.
— Pra te virar contra mim.
No Ano-Novo.
Bonito, né?
— Por quê? — perguntou ele, com a voz rouca.
— Porque eu parei de obedecer a ela.
Irina virou-se para a janela.
No pátio, crianças montavam um boneco de neve torto, alguém estourava estalinhos, as luzes piscavam.
A vida continuava como se nada tivesse acontecido.
Dentro dela, porém, já estava tudo no limite.
— Amanhã é dia trinta e um — acrescentou.
— E eu só tenho uma pergunta pra você, Liócha.
Neste Ano-Novo, você fica com quem?
Ele levantou a cabeça.
— O que você quer dizer?
— É bem simples.
Ou você vai pra casa da sua mãe comer o que ela preparar lá e cumprimentar aqueles convidados falsos dela, — ou você fica aqui.
Comigo.
Sem hipocrisia.
Sem mentiras.
Ele se levantou.
Se aproximou.
— Eu quero passar com você.
— Não porque “é o certo”.
Mas porque você acredita em mim — disse ela firme.
Ele assentiu.
— Porque eu acredito.
Na noite de 31 de dezembro, o apartamento estava silencioso.
Sem barulho a mais, sem “convescotes em família” obrigatórios.
Na mesa — petiscos leves, tangerinas, uma garrafa de espumante.
A arvorezinha piscava com as luzinhas.
O telefone de Alexei não parava de tocar.
— Você vai lá? — perguntou Irina, sem se virar.
— Não.
Eu coloquei no silencioso.
— Mesmo se ela vier aqui?
— Eu não vou abrir.
Ela sorriu de lado.
— Vai ser o “não vou abrir” mais barulhento da vida dela.
E como se tivessem combinado, a campainha tocou aguda na porta.
Depois de novo.
E de novo.
Em seguida, um punho bateu na porta.
— Liócha! Abre! Eu sei que vocês estão aí! Você não tem o direito de me ignorar!
Ele chegou perto da porta, mas não abriu.
— Mãe, vai pra casa.
Do outro lado, instalou-se um silêncio atônito.
— Você escolheu ela… em vez de mim?
— Não — respondeu Alexei, calmo.
— Eu escolhi a verdade.
— Ela te enfeitiçou! — gritou Ludmila Pavlovna, perdendo o controle.
— E você mentiu pra mim.
Irina se aproximou da porta e disse baixinho, através da madeira fechada:
— Feliz Ano-Novo, senhora Ludmila.
Neste ano eu desejo que a senhora aprenda a respeitar os outros.
— Você ainda vai se arrepender — sibilou a sogra.
— Pode ser — respondeu Irina.
— Mas com certeza não hoje.
Os passos na escada começaram a se afastar.
Silêncio.
Depois o relógio na televisão marcou a primeira badalada.
Uma.
Duas.
Três.
Alexei se virou para Irina.
— Me perdoa… por tudo.
— O importante é não repetir.
Ele a abraçou com cuidado.
Na rua alguém gritou “Feliz Ano-Novo!”, fogos de artifício subiram ao céu e a luz explodiu nas janelas.
E pela primeira vez em muito tempo Irina sentiu que o Ano-Novo tinha chegado de verdade.
Sem mentiras, sem humilhações, sem o comando de ninguém de fora.
Só silêncio, verdade — e a casa dela.
— Então… — sorriu ela, erguendo a taça.
— A um ano honesto, sem circo?
— O melhor brinde de todos os tempos — Alexei assentiu.
Fim.







