— Como assim você vendeu o seu apartamento de três quartos? Eu já tinha prometido há muito tempo à minha filha que ela ia morar lá! — berrava o marido.

— Como assim você vendeu o seu apartamento de três quartos? Eu já tinha prometido há muito tempo à minha filha que ela ia morar lá! — berrava o marido, atirando as chaves sobre a cômoda com tanta força que elas quicaram e caíram no chão.

— Para a sua filha? — Marina virou-se lentamente da janela.

— Oleg, aquele era o meu apartamento.

— Meu.

— Ficou para mim da minha avó.

— Que direito você tem, afinal, de decidir para quem eu vou deixar ele?

— Que direito? — Oleg levou as mãos à cabeça.

— Eu sou seu marido, aliás!

— Nós somos uma família!

— E a Lerka é minha filha, sua enteada, ela contava com isso!

— Contava, — repetiu Marina, com amargura.

— Sabe o que ela me disse da última vez?

— Que eu sou uma estranha, que nunca vou ser uma mãe de verdade e que eu não tenho nada a ver com a vida deles.

— Ela tinha quinze anos!

— Adolescente fala essas coisas! — Oleg andou de um lado para o outro, nervoso.

— Agora ela é diferente, amadureceu.

— Ah, é? — Marina sorriu de lado.

— E na semana passada, quando eu pedi para ela me ajudar a tirar as sacolas do carro, o que ela respondeu?

— “Peça para os seus parentes.”

— É isso, Oleg.

— E isso com vinte e três anos.

— Marin, ela só… — Oleg hesitou.

— Ela tem um temperamento difícil, você sabe.

— Sei.

— Sei muito bem. — Marina se aproximou do sofá e sentou.

— Sei como ela cochicha com você na minha frente.

— Como ela se cala quando eu entro no quarto.

— Como ela me olha como se eu fosse uma inquilina.

— Você está exagerando!

— Exagerando? — a voz de Marina ficou mais baixa, mas mais dura.

— Oleg, no seu aniversário no ano passado ela te deu um relógio caríssimo.

— E no meu aniversário ela me deu uma caixa de bombons do mercado.

— Isso é exagero?

Oleg virou-se para a janela.

— Tá, talvez ela não seja muito… delicada.

— Mas o que isso tem a ver com o apartamento?

— Isso é imóvel, é coisa séria!

— Justamente por isso eu vendi, — disse Marina, com firmeza.

— E com esse dinheiro ajudei o Artëm a abrir o próprio negócio.

— O Artëm?! — Oleg virou-se bruscamente.

— Seu sobrinho?

— Ele já tem trinta anos!

— Que ele se vire e ganhe o dele!

— Ele ganha.

— Mas precisava de capital inicial.

— E eu decidi ajudar.

— E a Lerka você não podia ajudar? — Oleg se aproximou; o rosto dele ficou vermelho.

— Ela também quer a própria casa!

— A Lerka mora de graça com a sua mãe num apartamento de dois quartos.

— Trabalha na sua empresa num cargo confortável.

— E você comprou um carro para ela no ano passado. — Marina contou nos dedos.

— O Artëm, depois da universidade, se virou sozinho, alugou quarto, se arranjou.

— E nunca me pediu nada.

— Ele é seu sobrinho, não é para você tanto faz!

— E a minha filha para você é uma estranha, é isso? — Oleg bateu com o punho no encosto do sofá.

— Estranha? — Marina levantou num pulo.

— Há oito anos eu tento virar alguém próximo para ela!

— Oito anos!

— Você lembra do bolo que eu fiz para a formatura dela?

— Fiquei três horas na cozinha!

— E ela, na frente dos convidados, disse: “Uma pena que a mamãe não viveu para ver; ela fazia melhor.”

Oleg apertou os lábios.

— Ela só sentia falta da mãe…

— Sentia, eu entendo.

— Mas dava para não me esmagar assim! — Marina sentiu as lágrimas subirem à garganta.

— Ou quando ela entrou na universidade.

— Eu passei três meses ajudando com matemática, toda noite sentava com ela, explicava.

— Ela passou e nem me agradeceu.

— Mas para todo mundo contava como o pai apoiava.

— Marina, para de se apegar a bobagens!

— Bobagens? — ela enxugou os olhos.

— Para você isso é bobagem?

— Oleg, toda vez que a Lera vem eu passo o dia cozinhando — os pratos favoritos dela.

— Compro as coisas, arrumo a casa.

— E ela senta à mesa e faz careta: “Tá sem sal”, “tem alguma coisa errada”.

— Ela só é exigente com comida!

— Não! — Marina elevou a voz.

— Ela só é assim comigo!

— Lembra quando fomos na casa da sua irmã?

— Lá a Lera comia tudo, elogiava!

— Aqui não; aqui sou eu que cozinho.

Oleg afundou, pesado, na poltrona.

— Tá, talvez ela não seja perfeita.

— Mas por que vender o apartamento?

— Você podia ter esperado, conversado…

— Conversado? — Marina sentou de frente para ele.

— Com quem?

— Com você?

— Você ia me dar um sermão sobre dever de família.

— Com a sua mãe?

— Ela ia passar uma hora explicando que a neta é mais importante do que qualquer sobrinho.

— O que a minha mãe tem a ver?

— Tem a ver porque desde o começo ela me insinuava: já que você não deu filhos ao marido, pelo menos tem que favorecer a enteada.

— Você inventou isso! — Oleg levantou.

— Minha mãe te respeita!

— Respeita, — Marina sorriu amargo.

— Da última vez que estivemos lá, na frente da Lera, ela disse: “Ainda bem que a Marina tem um apartamento, senão ficava totalmente sem dote.”

— Eu fiquei calada, mas você, Oleg, também ficou.

— Eu só não queria escândalo…

— Exatamente.

— Você nunca quer escândalo.

— Por isso fica calado quando sua filha me maltrata.

— Fica calado quando sua mãe me humilha.

— E eu tenho que aguentar tudo e ainda entregar um apartamento?

— Não é “entregar”! — Oleg gesticulou.

— Você podia ter deixado em testamento, seria justo!

— Justo? — Marina levantou e foi até a janela.

— Eu acho justo ajudar quem me trata com humanidade.

— O Artëm, quando eu fiquei no hospital há dois anos, vinha todos os dias.

— Trazia flores, frutas, livros.

— E a Lera nem ligou.

— Depois você arrumou desculpa: que era época de provas, e tal.

— Era época de provas!

— Oleg, época de provas não dura um mês, — disse Marina, exausta.

— E o telefone está sempre por perto.

— Uma ligação, cinco minutos.

— Mas nada.

Caiu um silêncio pesado.

Oleg andava de um canto a outro; Marina olhava pela janela para o pátio ao entardecer.

— Sabe o que o Artëm me disse ontem? — falou Marina, baixinho.

— Que para ele eu sou como uma segunda mãe.

— Que ele me agradece infinitamente.

— E isso, Oleg, vale mais do que qualquer apartamento.

— Para ele é fácil agradecer, — resmungou Oleg.

— Você deu dinheiro para ele.

— E para a Lera você deu quanto dinheiro? — Marina virou-se de repente.

— E carro, e viagens, e roupas!

— Ela te agradece?

— Ou acha que é obrigação?

Oleg ficou em silêncio, e aquela resposta era mais eloquente do que qualquer palavra.

— Tá vendo, — Marina voltou ao sofá.

— Você entende.

— Só não quer admitir.

— Ela é minha filha, — repetiu Oleg, teimoso.

— Minha única filha.

— E é por isso que você a mimou, — disse Marina, mais suave.

— Oleg, eu não discuto que você a ama.

— Mas amor não pode ser cego.

— Você só está com raiva dela, por isso vendeu o apartamento, para provocar!

— Provocar? — Marina balançou a cabeça.

— Não.

— Eu só cansei de me sentir uma estranha na minha própria família.

— Cansei de não ser valorizada aqui.

— E decidi ajudar alguém que me valoriza.

— Então você simplesmente deu as costas para nós? — Oleg sentou na beirada da poltrona.

— Para mim, para a Lerka?

— Eu não dei as costas para ninguém.

— Eu apenas dispus do que é meu do jeito que acho certo.

— Isso é egoísmo! — explodiu Oleg.

— Família tem que se ajudar!

— Família, — repetiu Marina.

— Palavra bonita.

— Pena que, para sua filha, eu não faço parte dela.

— Faz, sim!

— Você é que se ofende por tudo!

— Ofende… — Marina passou a mão no rosto, cansada.

— Oleg, quando teve o aniversário da sua mãe, lembra quem ela colocou à mesa?

— Bom… parentes, amigos…

— Os parentes.

— A Lerka no centro, ao lado dela.

— Você, sua irmã.

— E eu?

— Eu fui colocada no fim da mesa, ao lado de uma prima distante da sua mãe com quem ela não falava havia uns vinte anos.

— Marina olhou o marido nos olhos.

— Isso foi por acaso?

Oleg desviou o olhar.

— Talvez tenha sido sem querer…

— Nada acontece “sem querer”.

— E quando foram fazer os parabéns, lembra?

— A Lera disse: “Vovó, você é a melhor, a gente te ama — eu, o papai, a tia Sveta.”

— Enumerou todo mundo.

— Menos eu.

— Como se eu nem estivesse lá.

— Marina, ela só esqueceu!

— Esqueceu, — Marina sorriu triste.

— Aos vinte e três anos.

— Da madrasta.

— Com quem vive sob o mesmo teto há oito anos — quando vem.

— Sim, parece muito acaso.

— O que você quer que eu diga? — Oleg esfregou o rosto com as mãos, cansado.

— Que minha filha não é um anjo?

— Tá bem, não é um anjo.

— Mas é minha filha!

— Exato.

— Ela é sua filha, e você vai amá-la faça o que fizer.

— Eu entendo. — Marina levantou.

— Mas por que eu tenho que aguentar desrespeito e ainda entregar um apartamento?

— Porque nós somos uma família!

— Quantas vezes eu tenho que repetir isso!

— E família é só quando tudo é do seu jeito? — Marina levantou a voz.

— Quando eu tenho que suportar qualquer coisa, perdoar qualquer palavra e ainda agradecer?

— Você está exagerando!

— A Lera te trata normalmente!

— Normalmente? — Marina pegou o telefone.

— Aqui, leia.

— É a conversa entre eu e ela dos últimos seis meses.

Oleg pegou o telefone, rolou a tela.

O rosto dele foi mudando aos poucos.

— Bem… ela é um pouco seca…

— Seca? — Marina tomou o telefone de volta.

— Oleg, aqui não existe conversa nenhuma!

— Eu escrevo: “Como você está, como vai a faculdade”, e ela: “Normal”.

— Pergunto se vem no fim de semana, ela: “Não sei”.

— Pergunto se precisa de alguma coisa, ela: “Não”.

— É só isso!

— Talvez ela não goste de mensagens…

— Mas com você ela escreve todos os dias textos enormes! — Marina mostrou a tela de novo.

— Olha a conversa de vocês.

— “Paizinho, como você está?”, “Paizinho, vi um sapato novo”, “Paizinho, pode me transferir dinheiro?”.

— E emojis, e corações.

— Para mim, duas palavras e pronto.

Oleg ficou em silêncio, olhando a tela.

— Entende agora? — perguntou Marina, baixo.

— Não sou eu que invento.

— São fatos.

— Tá, — Oleg devolveu o telefone.

— Vamos supor que a Lera não seja muito… calorosa com você.

— Mas dava para resolver, conversar com ela!

— Conversar, — Marina sentou de novo.

— Oleg, eu tentei.

— Lembra três meses atrás, quando ela dormiu aqui?

— Eu fui ao quarto dela e disse: vamos conversar sobre tudo o que está errado entre nós.

— E aí?

— Ela disse: “Não tenho nada para conversar com você. Você é a esposa do meu pai, só isso.”

— Assim, na lata. — Marina engoliu em seco.

— Eu perguntei: “E eu não posso ser, pelo menos, sua amiga?”.

— Ela me olhou e respondeu: “Eu já tenho amigas.”

— Meu Deus, — Oleg cobriu o rosto com as mãos.

— Por que você não me contou isso?

— Se eu tivesse contado, você teria encontrado uma desculpa.

— “Ela estava de mau humor”, “estava cansada”, “você chegou errado”.

— Sempre tem um motivo.

— Eu só não quero que vocês briguem!

— Exatamente! — Marina elevou a voz.

— Você não quer conflito!

— E que eu esteja doendo não importa.

— O importante é sua filha ficar satisfeita, e tudo parecer bonito por fora!

— Isso é injusto!

— Eu te amo!

— Ama, — Marina assentiu.

— Mas quando tem que escolher entre mim e sua filha, você escolhe sua filha.

— Sempre.

— Ela é minha filha! — gritou Oleg.

— O que você quer de mim?

— Que eu brigue com ela por sua causa?

— Não, — respondeu Marina, cansada.

— Eu quero que você reconheça a verdade.

— Que sua filha não me aceita.

— E que eu tenho o direito de reagir a isso.

— E você reage vendendo o apartamento!

— Isso é… isso é uma vingança!

— Não é vingança.

— É a minha vida.

— A minha decisão.

— O meu dinheiro. — Marina levantou e foi até a porta.

— E se para você ajudar meu sobrinho é um crime e eu sou egoísta, então… então eu não sei do que mais dá para falar.

— Marina, espera! — Oleg levantou num salto.

— Para onde você vai?

— Para o meu quarto.

— Eu preciso ficar sozinha.

— A gente não terminou de conversar!

— Terminou, — ela se virou.

— Porque você não me escuta.

— Não me escuta de jeito nenhum.

— Para você só importa uma coisa: que a Lera ficou sem apartamento.

— E que eu fiquei oito anos sem família não te importa.

— Não é isso!

— Você tem família!

— Eu sou sua família!

— Você, — Marina sorriu amargo.

— E sua filha?

— E sua mãe?

— Elas também são minha família?

— Ou para elas eu continuo sendo uma estranha que casou com o Oleg?

Oleg ficou em silêncio.

E naquele silêncio havia uma resposta.

— Está vendo, — Marina abriu a porta.

— Você mesmo não sabe o que dizer.

— Porque você sabe a verdade.

— Só tem medo de admiti-la.

Ela saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.

Oleg ficou no meio da sala, olhando para o vazio.

Do quarto veio um som — Marina chorava, tentando fazer isso em silêncio.

Oleg deu um passo em direção à porta, depois parou.

Pegou o telefone, quis escrever para a Lerka, mas ficou parado com o telefone na mão.

E então se sentou devagar na poltrona e ficou muito tempo no escuro, entendendo que a esposa tinha razão.

Entendendo, mas sem saber o que fazer com aquilo.