O resultado envergonhou não a mim, mas a juventude agitada dela.
O meu marido quis envergonhar-me com um teste de DNA diante dos convidados.

Mas quem ficou envergonhado foi ele e acabou por perder a família.
As bodas de prata não são brincadeira.
Um quarto de século passou num instante.
A mesa estava farta, Nadejda caprichou: aspic transparente como uma lágrima, uma bacia de salada russa, arenque sob casaco de pele, lombo de porco caseiro, tudo como deve ser.
Havia uns vinte convidados: família, vizinhos, colegas de trabalho.
Vítor, o marido de Nadejda, estava sentado à cabeceira da mesa, com um fato novo.
— Então — levantou-se o compadre Tolik. — Aos noivos!
— Que vivam mais vinte e cinco anos em perfeita harmonia!
— Beijo!
— Beijo! — repetiram os convidados, mastigando canapés com caviar.
Nadejda inclinou-se para o marido para o beijar, mas Vítor afastou-se de repente, de forma brusca.
— Espera, Nad’ka, não te apresses.
Ele levantou-se a cambalear, atirou o garfo com estrondo para o prato.
Na sala fez-se silêncio; até a tia Macha, que estava a trincar o aspic ruidosamente, ficou imóvel.
— Quero fazer um brinde — rouquejou Vítor. — O brinde final.
Zinaida Petrovna, a sogra, sentada à direita dele, anuiu satisfeita.
Esperava por aquele momento há vinte anos.
— Então, Nad’ka — Vítor percorreu os convidados com um olhar turvo. — Vinte e cinco anos eu te aturei, dei o litro para te sustentar e aos teus filhos… bastardos de cuco.
Nadejda empalideceu tanto que parecia fundir-se com a toalha branca.
— Vítia, que te deu?
— Bebeste demais?
— Foi isso mesmo! — Vítor bateu com o punho na mesa; os copinhos saltaram. — Cansei-me!
— Eu, rapaziada, vou pedir o divórcio, já amanhã, e nem vou dividir o apartamento.
— Como assim? — falou o filho Slava, sentado no fundo da mesa. — Pai, estás doente?
— Que apartamento?
— Cala-te, filho ilegítimo! — berrou Vítor, cuspindo saliva. — Tu não és meu filho!
— E a Lenka não é minha filha!
— Suspeito há muito tempo!
— Na nossa família, os Smirnov, os narizes são direitos, gregos!
— E vocês têm nariz de batata!
— A aldeia inteira ria-se, dizendo que eu criava cachorros alheios!
— O Vítia tem razão! — intrometeu-se a sogra, com os olhos a brilhar. — Eu sempre disse!
— O Slava tem orelhas de abano, e o Vítia tem orelhas direitinhas!
— Ela teve-os com outro enquanto tu andavas nas tuas jornadas de trabalho!
Nadejda levantou-se; as mãos tremiam-lhe, mas a voz era baixa e assustadora.
— Vítia, senta-te, não te envergonhes.
— Não, agora quem se vai envergonhar és tu! — Vítor meteu a mão no bolso interior do casaco. — Eu, Nad’ka, não sou parvo; preparei-me.
— Há um mês, enquanto vocês dormiam, apanhei amostras e levei ao laboratório.
— Paguei uma fortuna, mas pelo menos soube a verdade!
Tirou um envelope branco.
— Aqui está! Documento oficial, teste de DNA!
— Agora vamos saber de quem tu os trouxeste, sua vagabunda!
— Agora toda a gente vai saber!
Os convidados ficaram de boca aberta; a vizinha, a avó Valia, até se benzeu.
Slava e a filha Lena olhavam para o pai com horror e nojo.
— Abre! — guinchou Zinaida Petrovna. — Lê, meu filho!
— Que ela sinta vergonha!
— Vamos pô-la na rua, nua e crua!
O brinde do marido: “Os filhos não são meus, rua!”
Vítor, com um sorriso triunfante, rasgou o envelope.
As mãos tremiam-lhe de ansiedade: agora iria esmagá-la, destruí-la e ficar sozinho no T3, como vencedor.
Tirou a folha dobrada, abriu-a, pôs os óculos e começou a ler.
Na sala caiu um silêncio de cemitério; o rosto de Vítor começou a mudar: primeiro ficou vermelho, depois manchado; os olhos arregalaram-se e quase saltaram das órbitas.
— Então? — a sogra não aguentou. — O que diz, Vítia?
— Zero por cento? Eu sabia!
Vítor ficou mudo e foi-se sentando devagar na cadeira.
— Vítia? — perguntou o compadre Tolik, assustado. — Estás a sentir-te mal?
Nadejda aproximou-se da mesa.
Não chorava; por dentro tudo já tinha ardido cinco minutos antes, quando ele chamou aos filhos “bastardos de cuco”.
Pegou no papel.
— Vamos ler — disse ela em voz alta, clara, como numa assembleia. — “Conclusão da perícia genética: a probabilidade de paternidade do cidadão Smirnov Viktor Petrovitch relativamente ao filho Smirnov Viacheslav Viktorovitch é de 99,9 por cento.
A probabilidade de paternidade relativamente à filha Smirnova Elena Viktorovna é de 99,9 por cento.”
Resultado do DNA.
Choque para o “corno”.
A sogra abriu a boca, fechou, abriu de novo; parecia um peixe atirado para a areia.
— Como assim? — sussurrou. — Noventa e nove?
— Isso… isso é um erro!
— Erro do laboratório!
— Trocaram as provetas!
— Não, mãe — disse Nadejda num tom gelado. — Não é erro; é paranoia tua e do Vítia.
Vítor estava sentado com a cara tapada pelas mãos; os ombros tremiam.
Percebia o que tinha acontecido: ali mesmo, diante de toda a família, dos amigos e dos vizinhos, tinha humilhado a mulher, a quem acusava há vinte e cinco anos.
Tinha humilhado os filhos, a quem chamava “de outro”.
E o pior: estava errado.
Achava que aquele envelope era o seu ás na manga, o passe para uma vida nova e livre sem “aproveitadores”.
E afinal era uma sentença para ele próprio.
— Pai — a voz de Slava tremia de raiva. — Tu fizeste mesmo o teste?
— Roubaste a nossa saliva?
— Slava, eu… — Vítor levantou a cabeça, com um ar miserável. — Eu pensei…
— É que tu não pareces!
— Não pareço com quem? — perguntou Lena, levantando-se. — Contigo?
— Ainda bem que não pareço!
— Tu és um monstro moral!
— Lena, não te atrevas a falar assim com o teu pai! — guinchou Zinaida Petrovna. — Foi tudo combinado pela Nad’ka!
— Ela subornou os médicos!
Nadejda riu-se.
— Zinaida Petrovna, nunca lhe ocorreu por que razão eles não se parecem com o Vítia?
— Porque não são dele! — rosnou a sogra. — Nós temos raça!
— Nariz grego, com a curvinha!
— E eles… batatas de Riazan!
Nadejda suspirou, foi até ao aparador e tirou um álbum de fotografias antigo, de veludo.
— Estes dias andei a arrumar — disse, abrindo o álbum. — E encontrei fotos suas, Zinaida Petrovna, da juventude.
Tirou uma fotografia a preto e branco: a jovem Zinaida Petrovna estava abraçada a um homem.
— Este é o meu marido! — disse a sogra, orgulhosa. — O pai do Vítia!
— Sim, este é o Piotr Ivanovitch, que descanse em paz.
— E este aqui quem é? — perguntou Nadja, tirando outra foto de grupo, os vizinhos num piquenique.
— Este… bem, vizinhos.
— O tio Kolia.
— O tio Kolia — assentiu Nadja. — Aquele mesmo que ia lá “tomar chá” quando o Piotr Ivanovitch estava em viagens de trabalho.
— A aldeia inteira cochichava, Zinaida Petrovna.
— Que estás tu a dizer, sua miserável?! — a sogra ficou vermelha como um lagostim.
— Olhe bem — Nadja enfiou a foto debaixo do nariz dela. — Olhe para o tio Kolia e para o Vítia.
— Olha… pois é — disse o compadre, fixando. — O Kolia tinha o nariz com a curvinha, assim bem “grego”, e o queixo com covinha, como o Vítia.
— Certíssimo! — pegou a avó Valia. — O Kolia era um mulherengo conhecido!
— Ele andava atrás da Zinka, eu lembro-me!
A sala explodiu; alguém deu uma risadinha, alguém assobiou; a peça encaixou.
Vítor olhou para a mãe.
— Mãe? — perguntou baixinho. — É verdade?
— Vítia, não a ouças!
— Ela mente!
— E que há para ouvir? — Nadja fechou o álbum com força. — Os meus filhos saíram à minha linhagem, de Riazan: narizinhos arrebitados, cabelos claros.
— E tu, Vítia, saíste ao tio Kolia.
— Por isso não faças testes aos filhos; faz a ti e à tua mãe.
— Talvez descubras por que tens esse nariz tão “nobre”.
“O teu pai é o tio Kolia!”: o segredo da sogra.
Slava levantou-se da mesa.
— Então, “pai”, querias divórcio?
— Vais tê-lo.
— Filho… — balbuciou Vítor.
— Eu não sou teu filho.
— Tu chamaste-me filho ilegítimo durante vinte anos.
— Eu aguentei porque a mãe pedia.
— Mas agora chega.
Saiu do quarto, batendo a porta, e Lena levantou-se logo a seguir.
— Chamavas-nos bastardos de cuco?
— Então nós não somos ninguém para ti.
— Adeus.
Foi atrás do irmão.
Na sala ficaram apenas os convidados e Vítor, esmagado, com a mãe.
Nadejda encheu um copo de champanhe e bebeu-o de um gole.
— Vítia — disse ela. — Durante vinte e cinco anos andaste-me a roer a cabeça; eu aguentei pelos filhos.
— Eu pensava: pronto, é tolo, é ciumento, mas é nosso, é pai afinal.
— Mas tu não és tolo.
— És um canalha.
— Nadja, perdoa-me! — Vítor tentou agarrar-lhe a mão. — Eu estava bêbedo!
— O diabo tentou-me!
— A mãe meteu-me coisas na cabeça!
— Eu amo-te!
— Tira as mãos — Nadja puxou a mão de volta. — Amor, Vítia, é confiança.
— E tu entregaste-a ao laboratório, dentro de um envelope.
Olhou para os convidados.
— Desculpem, gente boa, não vai haver festa.
Depois voltou-se para o marido.
— Faz as malas, Vítia.
— E leva a tua mãe contigo.
— Vocês têm muito para conversar: narizes gregos e o tio Kolia.
— Para onde vou eu? — uivou Vítor. — O apartamento é dos dois!
— Dos dois? — Nadja sorriu com desprezo. — Parece que, de tanta ganância, perdeste a memória.
— Este apartamento foi doado pelos meus pais e ficou em meu nome antes do casamento.
— Tu aqui só estás registado como residente.
— E com esse comportamento eu tiro-te daqui pelo tribunal num instante, como ex-membro da família.
Foi um golpe certeiro; Vítor realmente tinha-se esquecido.
Estava tão habituado a considerar tudo seu que esqueceu: chegou ali só com a roupa do corpo.
Divórcio e nome de solteira: “Aqui só estás registado.”
Meia hora depois, o apartamento ficou vazio.
Vítor e Zinaida Petrovna saíam como cães espancados.
Vítor arrastava uma mala com cuecas e meias; a sogra ia atrás, resmungando: “Humilharam-nos!
Na velhice!
Monstros!”
Os convidados foram-se embora em silêncio, tentando não olhar Nadja nos olhos.
Tinham vergonha de ter estado sentados àquela mesa a ouvir aquela loucura.
Só as amigas de Nadja, Lenka e Svetka, ficaram para ajudar a arrumar.
— Eh pá, Nad’ka, és terrível — disse Lenka, despejando a salada russa no lixo. — Essa do tio Kolia foi forte.
— É mesmo verdade?
— Quem sabe — Nadja encolheu os ombros, ensaboando um prato. — Mas que ele se parece, parece: cuspido e escarrado, e com o mesmo feitio nojento.
Secou as mãos no pano, serviu mais um copo de champanhe.
— Então, mulheres, à liberdade.
— À liberdade! — brindaram as amigas.
Eu perdoo tudo.
Lágrimas à porta.
Passou um mês.
Vítor vive com a mãe num T2, apertado e amargurado.
Zinaida Petrovna mói-o de manhã à noite: “Envergonhaste a tua mãe!
Deixaste escapar o apartamento!
Como vamos viver agora com a minha pensão?”
Sobre o tio Kolia ela não fala, mas Vítor vê como ela esconde os álbuns antigos.
Slava e Lena não falam com o pai; bloquearam-no em todo o lado.
Vítor tentou ligar, ameaçar, chorar, mas foi inútil.
Ontem foi a casa de Nadja; ficou à porta, sujo, por barbear, a cheirar a álcool.
— Nad’… abre.
— Eu amo-te.
— Vá, eu errei, acontece.
— Eu perdoo tudo!
— Tu perdoas? — Nadja riu-se atrás da porta. — Vítia, tens vergonha na cara?
— Ou também isso o tio Kolia não te deu?
Abriu a porta e trouxe-lhe um saco.
— Toma, as tuas canas de pesca velhas.
— Esqueceste-as no arrumo.
— Nadja, deixa-me entrar… eu vou mudar!
— Amor, Vítia, é quando não se procuram traços чужios no rosto dos próprios filhos.
— E tu procuraste durante vinte e cinco anos.
— Agora vai procurar sentido para a vida noutro lugar.
Fechou a porta com força e encostou as costas a ela.
No apartamento reinava o silêncio: ninguém resmungava, ninguém arrastava os pés, ninguém reclamava que a sopa estava salgada demais.
Ninguém olhava para os filhos com desconfiança.
Estava limpo, claro e tranquilo.
Nadja foi à cozinha, fez um chá e olhou pela janela.
Lá em baixo, Vítor seguia cabisbaixo até à paragem, arrastando as canas.
Tinha pena dele?
Não.
Tolos não se lastimam; ensinam-se.
Essa lição custou-lhe um apartamento e uma família: caro para um teste de DNA, mas pelo menos o resultado foi cem por cento.







