— Se quiseres comer ou comprar um creme, vais implorar-me.
— berrava o meu marido.

Marina abriu o seu banco online e olhou, perdida, para o ecrã do telemóvel, onde piscava a vermelho “Cartão bloqueado”.
A mulher verificou o segundo cartão — o mesmo resultado.
E o terceiro também.
Dmitri estava à porta da cozinha, de braços cruzados ao peito, satisfeito consigo mesmo como um gato que apanhou um rato.
— Bloqueei todos os teus cartões.
— rosnou o marido, arrastando as palavras.
— Agora vais pedir-me cada rublo.
— Se quiseres comer ou comprar um creme, vais implorar-me.
— Percebeste.
— Não sabes portar-te a bem, vamos educar-te a mal.
A sogra, Valentina Petrovna, estava sentada à mesa da cozinha e mexia o chá.
Um sorrisinho maldoso não lhe saía do rosto.
O sorriso que a nora via há cinco anos, sempre que na família acontecia algo desagradável.
— O Dimazinho faz muito bem.
— ronronou a sogra, satisfeita.
— Uma mulher tem de saber o seu lugar.
— Isto agora está cheio de… emancipadas de todo o tipo.
— Ficou mesmo atrevida.
Marina pousou lentamente o telemóvel em cima da mesa.
No peito subia a conhecida onda de raiva, mas ela conteve-se.
Ao longo dos anos de casamento, aprendeu a controlar as emoções, embora antes fosse capaz de partir a casa por muito menos.
— E o que é que te irritou assim tanto, hein.
— Como é que explicas esse teu comportamento desumano.
— perguntou ela baixinho, quase num sussurro.
Dmitri soltou um fungar sarcástico.
— Como se tu não soubesses.
— Ou tens falhas de memória.
— Pois eu lembro-te.
— Ontem, à frente do Ígor, começaste a discutir comigo sobre as férias.
— À frente de gente.
— Na prática, humilhaste-me.
— Achas que eu vou permitir isso.
— Nunca.
Marina lembrava-se perfeitamente da noite anterior.
O Ígor, colega do Dmitri, tinha ido lá a casa, e eles estavam a falar dos planos para o verão.
O Dima disse que iam à dacha da mãe dele, e ela apenas disse que gostava de ir ao mar este ano.
Só isso.
— Isso chama-se “humilhar-te à frente das pessoas”.
— A esposa não deve contrariar o marido.
— rugiu Dmitri.
— Especialmente diante de estranhos.
— Eu sou o chefe da família.
— E vais aprender essa verdade básica para sempre.
Valentina Petrovna acenou aprovando.
— Isso mesmo.
— No meu tempo as mulheres sabiam como se comportar.
— Agora ficaram todas insolentes.
Marina olhou para os dois: para o marido que, cinco anos antes, jurava amor e prometia carregá-la ao colo, e para a sogra que, desde o primeiro dia, a detestava por ela ter “roubado o filhinho precioso”.
Eles tinham-se esquecido de quem ela era antes de casar.
Tinham-se esquecido completamente.
Porque, em tempos, Marina Krylova era uma das profissionais de marketing mais promissoras de uma grande agência de publicidade.
Criava campanhas de que a cidade inteira falava.
Ganhava mais do que muitos homens.
Conduzia um carro vermelho e usava fatos caros.
E, acima de tudo, sabia lidar com as pessoas.
Sabia negociar, convencer e, às vezes, obrigar alguém a fazer o que era preciso.
Depois apaixonou-se pelo Dima, casou e teve um filho.
Primeiro ficou em licença de maternidade, depois decidiu ficar em casa mais um ano, depois dois.
O marido ganhava bem e dizia: “Para que é que precisas de trabalhar.
Ocupa-te da casa e da criança.”
E ela acreditou e relaxou.
Tornou-se uma dona de casa comum.
Só que as competências não desapareceram.
Ficaram apenas escondidas algures no fundo, como ferramentas numa oficina abandonada.
— Está bem.
— disse Marina, e sorriu de forma enigmática.
— Como quiseres, querido.
Dmitri ficou desconfiado.
Ele esperava lágrimas, histeria, pedidos para desbloquear os cartões.
Não aquela calma.
— E nem penses em pegar nos meus cartões bancários.
— acrescentou ele, com desprezo.
— Mudei todos os PINs.
— Não vou.
— prometeu Marina.
— E agora, com licença, vou ter com o Liôcha e ajudá-lo com matemática.
— Deram-lhes um exercício para fazer nos cursos pré-escolares.
A mulher saiu da cozinha, sentindo os olhares confusos deles.
No quarto, o filho de quatro anos estava mesmo debruçado sobre o livro de matemática, tentando sem sucesso resolver um problema sobre maçãs.
— Mãe, não consigo.
— queixou-se ele.
— Já vamos perceber.
— disse Marina, sentando-se ao lado dele.
E pensou: “Sim, agora vamos perceber muita coisa.”
—
Depois de pôr o Liôcha a dormir, Marina ficou muito tempo sentada junto à janela do quarto dele, a olhar para as luzes da cidade ao anoitecer.
Algures lá longe, num bairro prestigiado no alto da colina, estava a casa dos pais dela.
Grande, luminosa, com jardim e piscina.
A casa que ela tinha deixado há cinco anos, batendo com a porta e gritando à mãe:
“Tu não percebes nada de amor.”
Naquela altura, parecia-lhe que os pais eram apenas esnobes.
O pai, dono da maior cadeia de materiais de construção da cidade, e a mãe, de uma família abastada, habituada a que tudo na vida fosse “como deve ser”.
O Dima trabalhava como um gestor comum, vivia num T0 alugado e andava com um carro usado.
Para eles, ele não era ninguém.
— Marininha.
— dizia o pai, naquela altura.
— Eu não sou contra a tua escolha.
— Mas, pelo menos, vive com ele primeiro.
— Conhece-o melhor.
— Ele quer casar contigo porque tu és uma herdeira rica.
— cortou a mãe.
— É óbvio.
— Não vês as verdadeiras intenções desse pobretanas.
Marina não via.
Ou não queria ver.
O Dima era tão carinhoso, tão atento, dizia as palavras certas.
Ela estava realmente apaixonada e não reparava em mais nada.
Não houve casamento em grande.
Os pais disseram que não reconheciam aquela união e que não dariam um tostão à jovem família.
— Escolheste sozinha, agora desembrulha-te sozinha.
— disse a mãe, fria.
Só o pai, ao despedir-se da filha, sussurrou:
— Quando te fartares desse amor e voltares a ter juízo, vem.
— Eu vou esperar.
No primeiro ano, o casal viveu mesmo em amor e harmonia.
O Dima esforçava-se, trabalhava em dois empregos.
Eles alugavam casa e poupavam em tudo.
Marina estava grávida e feliz.
Esperava que os pais vissem que eles se aguentavam sem o dinheiro deles e percebessem que estavam muito enganados.
Depois nasceu o Liôcha e tudo começou a mudar.
O Dima foi promovido e o salário aumentou.
Mas, com o rendimento, mudou também ele próprio.
O marido começou a levantar a voz, a exigir que ela “estivesse à altura do estatuto de esposa”.
A sogra veio morar com eles, supostamente para ajudar com o neto, mas, na verdade, para tomar conta da casa.
A cada ano, a situação piorava.
Marina percebeu que os pais tinham razão.
Mas o orgulho não a deixava admiti-lo.
E depois começou a parecer-lhe tarde demais para voltar para casa.
Tantos anos passaram, tanta água correu.
E agora o Dima tinha bloqueado os cartões.
E ela estava sem meios, como a última tola.
O telemóvel estava no parapeito da janela.
Marina pegou nele várias vezes e voltou a pousá-lo.
Por fim, marcou um número conhecido.
— Pai.
— a voz tremeu-lhe, traidora.
— Sou eu…
— Marina.
— Aleksandr Nikolaevitch falou com cautela, mas ela percebeu a alegria na voz dele.
— Filha…
— Como estás.
— E o meu neto.
— Pai, eu…
— ela engoliu o nó na garganta.
— Eu queria encontrar-me contigo.
— Falar.
Do outro lado, caiu um silêncio tenso.
— A tua mãe…
— Eu sei.
— Mas preciso de tentar.
— Pai, tu disseste, quando eu voltasse a ter juízo…
— Disse.
— E não mudei de ideias.
— Amanhã no escritório às seis.
— A tua mãe foi para Sochi, para casa da irmã, por uma semana.
— Eu vou.
Depois de desligar, a mulher sentiu um alívio estranho.
O primeiro passo estava dado.
O mais difícil.
Do quarto veio o som de vozes satisfeitas.
O Dima e a mãe estavam a discutir em quanto tempo ela “ia ceder” e começar a pedir dinheiro para a comida.
Valentina Petrovna dava no máximo três dias.
O Dima apostava numa semana.
“Estão enganados, meus queridos.”
pensou Marina.
“Muito enganados.”
Abriu o armário e tirou da prateleira do fundo um velho fato de trabalho.
Azul-escuro, severo, caro.
O mesmo fato com que, cinco anos antes, tinha feito a sua última apresentação.
O fato da mulher de sucesso que ela tinha sido.
Porque, no dia seguinte, teria a conversa mais importante da sua vida.
—
O escritório do pai não tinha mudado nada: interior austero em madeira escura, cadeiras de couro, cheiro a café caro.
Aleksandr Nikolaevitch recebeu a filha à porta e abraçou-a com força.
Marina sentiu a tensão dos últimos dias aliviar um pouco.
— Senta-te.
— disse ele, apontando para a cadeira em frente da secretária.
— Queres café.
— Quero.
Enquanto o pai mexia na máquina de café, Marina observava as fotografias familiares na parede.
Retratos de família, quando ela ainda era pequena, retratos dela já adulta.
E não havia fotos com o Dima, nem imagens com o neto.
— O Liôcha é muito parecido contigo quando eras criança.
— disse Aleksandr Nikolaevitch, pousando uma chávena à frente dela.
— Vi fotos nas redes sociais.
Ou seja, acompanhava.
Acompanhava tudo, este tempo todo, mas não se metia.
— Pai, eu tenho vergonha.
— disparou Marina.
— Vocês tinham razão.
— A mãe tinha razão.
— Eu fui uma idiota.
— Não foste idiota.
— Eras jovem.
— Apaixonada.
— o pai sentou-se em frente dela, a estudar-lhe o rosto.
— O que aconteceu.
Marina contou tudo.
As mudanças graduais no Dima, a sogra, o escândalo de ontem e os cartões bloqueados.
O pai ouviu em silêncio, só acenando de vez em quando.
— E o que é que tu queres.
— perguntou ele, quando ela acabou.
— Uma oportunidade.
— disse Marina, firme.
— Dá-me uma oportunidade de provar que ainda sou capaz de trabalhar.
— Que ainda me lembro de como se faz.
— Que sou uma mulher digna e não uma fraca inútil.
O homem ergueu as sobrancelhas, surpreendido.
— Queres voltar aos negócios.
— Sim.
— Mas não assim, ao acaso.
— Lembras-te que o Dima trabalha na “Alfa-Stroi”, no departamento de desenvolvimento.
— Lembro.
— Os atuais donos estão a vender a empresa.
O pai assentiu devagar.
— E então.
— Compra-a.
— E põe-me a chefiar o departamento onde o Dima trabalha.
— Marininha…
— Mas de forma que ninguém saiba que sou eu.
— Oficialmente, será um tal Petrov ou Sidorov.
— Mas, na prática, mando eu.
— Um “cardeal cinzento”.
Aleksandr Nikolaevitch recostou-se na cadeira.
— Filha, percebes o que estás a dizer.
— Há cinco anos que não trabalhas.
— O mercado mudou, a tecnologia, as abordagens de gestão…
— Eu apanho o ritmo depressa.
— E a tua mãe.
— Ela destrói-me se souber que te estou a ajudar.
— Ainda por cima com dinheiro da empresa.
— A mãe não vai saber.
— E se souber, dizes que é uma decisão puramente comercial.
— A compra de uma empresa promissora.
O pai abanou a cabeça.
— Marina, isto é loucura.
— Eu não posso arriscar uma quantia grande só porque tu queres vingar-te do teu marido.
— Isto não é só vingança, pai.
— Tu sabes como eu era.
— Eu não ganhei reputação por acaso.
— Lembras-te da campanha para o “Banco Siberiano”.
— Ou do projeto para a cadeia de móveis.
— Lembro.
— Mas isso foi há muito tempo.
— As competências não desapareceram.
— Só… enferrujaram um pouco.
— a filha olhou-o com ar suplicante.
— Dá-me um mês.
— Um mês para estudar a situação, para me preparar.
— Se eu não conseguir, despedes-me.
— Mas se eu conseguir…
— Se conseguires, e depois.
— O Dima vai perceber que a mulher virou a chefe dele, vai divorciar-se de ti e levar o filho.
— Não vai levar.
— Marina sorriu de lado.
— E, além disso, ele não vai perceber.
— Nos documentos, eu vou constar como uma consultora comum.
— Salário baixo, mas legal.
— E as decisões reais eu tomo através de um testa-de-ferro.
Aleksandr Nikolaevitch ficou muito tempo calado, rodando uma caneta entre os dedos.
— A “Alfa-Stroi” está mesmo à venda.
— disse ele, devagar.
— O dono faliu e procura comprador.
— O preço é razoável.
— Então há uma hipótese.
— Há o risco de perder dinheiro.
— Dinheiro a sério.
— Pai, por favor.
— Marina sentou-se na beira da secretária, como fazia em criança quando queria pedir algo importante ao pai.
— Eu sou tua filha.
— Dá-me uma oportunidade de provar isso, não só a mim, mas também a toda a gente.
— À mãe.
— Ao Dima.
— Àquela sogra nojenta.
O pai olhou-a com atenção.
— E se não resultar.
— Se não aguentares o ritmo atual, as novas exigências.
— Então eu admito honestamente a derrota e nunca mais te peço nada.
— Está bem.
— concordou, de forma inesperada, Aleksandr Nikolaevitch.
— Vamos tentar.
— Mas com condições.
O coração de Marina deu um salto.
— Quais.
— Primeiro.
— Oficialmente, tu és uma simples consultora de marketing.
— Salário: quarenta mil.
— O resto recebes em prémios, se o departamento mostrar bons resultados.
— Segundo.
— Se ao fim de três meses as coisas correrem pior, acabamos.
— Terceiro.
— A tua mãe não sabe de nada até eu decidir que está na hora de ela saber.
— Concordo.
— a filha saltou da secretária e abraçou o pai.
— Obrigada, pai.
— Não te vais arrepender.
— Veremos.
— resmungou ele, mas ela percebeu que estava satisfeito com a determinação dela.
— Amanhã começas a estudar os documentos da “Alfa-Stroi”.
— E, entretanto… em casa como explicas que arranjaste trabalho.
Marina sorriu.
— Por agora não vou explicar.
— Que achem que ando à procura de alguém que me empreste dinheiro.
—
Nas duas semanas seguintes, Marina viveu num ritmo alucinante.
De manhã levava o Liôcha ao jardim de infância, depois ia ao escritório do pai estudar os documentos da “Alfa-Stroi”.
À noite voltava para casa, encontrando as caras contrariadas do marido e da sogra, que esperavam que ela finalmente se quebrasse e começasse a pedir dinheiro.
— Onde andas metida.
— perguntava o Dima todas as noites.
— Vou às amigas, a ver quem me ajuda.
— respondia Marina com ironia, e era parcialmente verdade.
Ela encontrava-se mesmo com conhecidos antigos, reconstruía contactos, estudava como o mercado tinha mudado.
Valentina Petrovna soltava um muxoxo.
— Aposto que tens vergonha de pedir dinheiro ao marido.
— Preferes humilhar-te diante de estranhos.
— Ainda vais rastejar de volta.
No fim da segunda semana, Marina já tinha uma estratégia pronta para reformar o departamento de desenvolvimento da “Alfa-Stroi”.
Estudou todos os funcionários, os projetos deles, os problemas da empresa.
E percebeu que o Dima trabalhava muito menos brilhantemente do que contava em casa.
Na segunda-feira, Aleksandr Nikolaevitch anunciou a compra da empresa.
Na terça, toda a “Alfa-Stroi” fervilhava com notícias sobre as mudanças que vinham aí.
E, na quarta-feira à noite, o Dima voltou para casa de um humor extraordinariamente bom.
— Nem imaginas.
— contava o marido ao jantar.
— O nosso departamento vai ter um novo chefe.
— Dizem que é um grande especialista.
— Vão haver grandes mudanças, pode haver saltos na carreira.
— Que interessante.
— respondeu a esposa, mexendo a sopa.
— E como se chama.
— Alexei Mikhailovitch Petrov.
— Amanhã deve começar.
— Parece que o novo dono decidiu investir a sério no desenvolvimento.
Marina acenou com a cabeça.
Alexei Mikhailovitch era filho de um velho amigo do pai; tinha regressado há pouco da América.
Aceitou ser o chefe “de fachada” por um dinheiro muito bom.
Inteligente, instruído e, sobretudo, pronto a seguir as orientações de Marina em tudo.
— E se não gostares do novo chefe.
— perguntou ela.
O Dima bufou.
— E o que é que ele me faz.
— Eu sou quem mais trabalha naquele departamento, sou quem melhor conhece os projetos.
— Sem mim ele não se orienta.
— Claro, querido.
— Claro.
No dia seguinte, Marina vestiu pela primeira vez em cinco anos um fato de trabalho e foi ao escritório da “Alfa-Stroi”.
Oficialmente, ela era a consultora de marketing que Petrov trouxera consigo.
Às dez da manhã houve uma reunião geral do departamento.
A mulher sentou-se na última fila com um bloco de notas, como convém a uma consultora júnior.
O Dima estava na primeira fila, todo importante e confiante.
Alexei Mikhailovitch revelou-se um ator excelente.
Dizia as coisas certas, tinha um ar sólido, fazia as perguntas necessárias.
E, quando chegou a hora de apresentar a equipa, o Dima levantou-se primeiro.
— Dmitri Volkov, especialista sénior de desenvolvimento.
— reportou ele, como se estivesse a fazer uma apresentação formal.
— Quatro anos na empresa, lidero três grandes projetos…
— Entendido.
— acenou Alexei Mikhailovitch.
— Mostre-me os resultados do projeto “Bairro do Norte”.
O Dima engoliu em seco.
— Bem… aí há algumas pequenas dificuldades…
— Quais, exatamente.
— A parte da documentação atrasou-se um pouco…
Marina sabia a verdade.
O Dima andava há meio ano sem conseguir aprovar os documentos-chave, porque tinha calculado mal os orçamentos desde o início.
O projeto estava parado como um peso morto, e o Dima, todos os meses, relatava “pequenas dificuldades”.
— Percebo.
— disse Alexei Mikhailovitch.
— Amanhã vamos analisar detalhadamente todos os seus projetos.
— Individualmente.
Depois da reunião, Marina apanhou Alexei no corredor.
— Impressões.
— O teu marido ou é um completo incompetente, ou mente muito bem.
— disse ele, em voz baixa.
— Metade do que ele contou não bate certo com os documentos.
— Eu sei.
— Agora percebes porque é que ele tinha tanto medo de perder o emprego.
— Percebo.
— E agora.
— Agora começamos a mostrar como se trabalha a sério.
À noite, o marido voltou para casa desconcertado.
— Esse novo chefe é estranho.
— queixou-se ele.
— Faz perguntas demais.
— E percebe das coisas ao pormenor.
— Talvez ele só queira perceber o assunto a fundo.
— A fundo, o quê…
— o marido fez um gesto com a mão.
— Amanhã explico-lhe tudo, ele vai perceber.
Marina sorriu.
— Claro, querido.
— Tu és o mais experiente de todos.
E pensou: “Amanhã vai ser um dia interessante.”
Ela já tinha preparado para o Alexei uma análise completa de todos os erros do Dima e um plano para corrigir a situação.
Um plano depois do qual o Dima ia perceber que os tempos mudaram.
E a mulher dele também.
—
Ao fim de um mês de trabalho sob a direção do “Alexei Mikhailovitch”, o departamento ficou irreconhecível.
Três projetos congelados voltaram a andar, dois novos contratos foram assinados, e o lucro cresceu trinta por cento.
Só que o Dima quase não participou nesse sucesso.
Todas as noites o marido chegava a casa cada vez mais sombrio.
— Esse Petrov está completamente abusado.
— queixava-se ele ao jantar.
— Imagina, obriga-me a refazer relatórios.
— Diz que os cálculos estão imprecisos.
— Talvez ele tenha as exigências dele.
— respondia Marina, com cuidado.
— Exigências, quais exigências.
— explodia ele.
— Eu trabalho assim há quatro anos e sempre serviu a toda a gente.
Valentina Petrovna estalava a língua, solidária.
— Dimazinho, não te preocupes.
— Mostra a esse atrevido quem é o especialista principal aqui.
E Marina ria-se por dentro.
O Dima não só não estava à altura das novas exigências.
Ele sabotava o trabalho, na esperança de que Alexei Mikhailovitch o deixasse em paz.
Não percebia que estava a cavar a própria cova.
Na sexta-feira, a situação chegou ao ponto de ebulição.
O Dima arruinou uma reunião importante com clientes, aparecendo despreparado e com dados desatualizados.
Um contrato de cinco milhões ficou por um fio.
— Chega.
— disse Alexei Mikhailovitch nessa noite, chamando Marina ao gabinete.
— Já não dá para tolerar.
— Ele está a desacreditar o departamento.
— Despedimos.
— E tu.
— Ele vai perceber…
— Não vai perceber.
— sorriu Marina.
— Eu tenho um plano.
Na segunda-feira de manhã, o Dima recebeu a notificação de rescisão do contrato de trabalho.
Motivo: inadequação ao cargo.
— Isto é impossível.
— gritava ele no gabinete do Alexei Mikhailovitch.
— Vou apresentar queixa.
— Isto é ilegal.
— Apresente.
— respondeu o homem, calmo.
— Aqui estão os documentos dos seus projetos do último mês.
— Aqui estão as conclusões dos peritos.
— Acho que a inspeção do trabalho vai avaliar.
O Dima agarrou nos papéis, passou os olhos e empalideceu.
Estava ali toda a verdade sobre o trabalho dele.
Todos os erros, todas as aldrabices, toda a incompetência.
— Mas eu… eu posso corrigir-me…
— Tarde demais.
— A decisão está tomada.
Marina estava sentada no seu gabinete pequeno e ouvia o Dima a bater os pés no corredor, a discutir com a segurança, a exigir justiça.
Depois tudo ficou silencioso.
Ele foi-se embora.
A mulher chegou a casa mais cedo.
O Dima estava sentado na cozinha com uma cara sombria, e Valentina Petrovna consolava-o.
— Aconteceu alguma coisa.
— perguntou Marina, com ar inocente.
— Despediram-me.
— disse o marido, sombrio.
— Aquele Petrov… armou-me.
— Fabricou documentos.
— Ai, que horror.
— E agora o que vamos fazer.
— Arranjar um novo emprego.
— Ainda bem que o cartão do salário não está bloqueado, temos com que viver no início.
— Aqui é que te enganas.
— disse Marina, tirando o telemóvel.
— O cartão está bloqueado.
O Dima ficou a olhar para ela.
— O quê.
— O teu cartão do salário está bloqueado por decisão do empregador.
— O contrato tem uma cláusula de compensação de danos.
— Marina falava com calma, até com um sorriso leve.
— Até ressarcires a empresa pelos prejuízos causados pelos teus erros, não vês dinheiro nenhum.
— Mas isso… isso é impossível.
— Tu não podes…
— Eu.
— Marina riu-se.
— E eu tenho a ver com isso, querido.
— É uma decisão do teu ex-chefe.
O Dima levantou-se de repente, pegou no telemóvel e começou a verificar os cartões.
Todos bloqueados.
— Marina.
— O que é que se passa.
— Passa-se aquilo de que te esqueceste.
— Durante cinco anos transformaste-me numa dona de casa.
— Achaste que eu tinha ficado fraca, dependente.
— Bloqueaste os meus cartões para eu rastejar de joelhos à tua frente.
— Tu… foste tu que me despediste.
— Fui.
— E sabes o que é mais engraçado.
— Há um mês que tu trabalhavas para a minha família e nem desconfiavas.
— O meu pai comprou a vossa “Alfa-Stroi”.
— E eu dirijo o teu departamento através de um testa-de-ferro.
O Dima deixou-se cair na cadeira.
Valentina Petrovna olhava para a nora de boca aberta.
— Isso não pode ser…
— Pode.
— E isto é só o começo, Dima.
— Agora cada rublo vais pedir-me a mim.
— Se quiseres comer ou comprar uma camisa nova, vais implorar-me.
— Percebeste.
— Mas o Liôcha… o nosso filho…
— O filho fica comigo.
— Eu tenho trabalho, rendimentos e casa.
— a mulher acenou em direção a Valentina Petrovna.
— E tu podes viver com a mamãzinha da pensão dela e procurar outro emprego.
— Se encontrares, claro.
— As referências do teu último trabalho não são grande coisa.
— Marininha.
— o Dima tentou levantar-se, mas as pernas não obedeciam.
— O que é que estás a fazer.
— Nós somos família…
— Éramos família.
— Até decidires virar tirano.
— Marina pegou na mala.
— Vou levar o Liôcha para os meus pais.
— E vocês, tu e a tua mamãzinha, pensem no que vão fazer agora.
— Mas o apartamento…
— É alugado.
— O contrato está em meu nome, e sou eu que decido se renovo ou não.
Marina foi em direção à saída, mas, à porta, virou-se.
— Ah, já agora.
— Amanhã tenho uma reunião com novos investidores.
— Talvez eu seja promovida.
— Por isso, não se aborreçam.
Marina saiu, deixando o marido e a sogra completamente atónitos.
Na rua, Marina tirou o telemóvel e ligou ao pai.
— Pai.
— Está tudo pronto.
— Podes ligar à mãe e dizer que a tua filha voltou aos negócios.
— E que, ao que parece, finalmente se fartou do amor.
A justiça venceu.
Mas, acima de tudo, Marina voltou a ser ela própria.







