A resposta do pai tirou da sogra e do filho o apartamento naquela mesma noite.
— Levanta, ela já está na plataforma.

Varvara abriu os olhos.
Evguêni estava de pé sobre a cama com o telefone, já vestido.
Lá fora, pela janela, era escuridão.
— Que horas são?
— Seis.
Veste-te mais depressa, vais buscar a mãe.
— Jênia, posso ir depois do almoço, hoje é o meu primeiro dia de folga desde…
— Eu disse agora.
Ou queres que a mãe espere no frio?
Ele saiu, batendo a porta.
Varvara sentou-se, sentindo o frio do chão rastejar até aos calcanhares.
Três semanas.
Svetlana Igorevna vinha por três semanas.
Até ao fim de janeiro.
Na plataforma, a sogra apareceu com um casaco austero e o queixo erguido, como uma inspetora em vistoria.
Varvara deu um passo ao seu encontro.
— Bom dia, Svetlana Igorevna.
A sogra acenou com a cabeça sem olhar nos olhos e estendeu duas malas enormes.
— Toma.
Mantimentos.
Aí nas lojas deve estar tudo vazio, como sempre.
Varvara pegou nas malas, mal conseguindo manter o equilíbrio.
Svetlana Igorevna foi à frente, para a saída, deixando a nora com a carga para trás.
No apartamento de quatro quartos que o pai tinha dado a Varvara no casamento.
A sogra percorreu as divisões, examinando cada canto com ar avaliador.
— As cortinas precisam de ser trocadas.
Estas desbotaram.
E tira o vaso da prateleira, ele sobrecarrega o espaço.
Varvara ficou calada.
O vaso tinha sido um presente do pai no ano anterior.
Ao fim da tarde, Svetlana Igorevna tomou conta da cozinha como de um posto de comando.
Tirou das malas frascos de compota, cereais, carne.
— No Ano Novo vamos cozinhar a sério.
Geleia de carne caseira, três tipos de pirojki: com carne, com ovo, com cogumelos.
Arenque “sob casaco de pele”, vinagrete, olivier — o normal, com língua, não essa tua versão simplificada.
Anota.
Varvara pegou num guardanapo e começou a anotar.
— Svetlana Igorevna, talvez simplifiquemos um pouco?
Eu estou sozinha…
— Sozinha? — A sogra virou-se com uma expressão como se tivesse ouvido um insulto.
— Uma nora deve cozinhar para a família.
Ou o teu trabalho de professora dá-te o direito de preguiçar?
Varvara saiu para a sala.
Evguêni estava sentado no sofá, de olhos no telefone.
Ela sentou-se ao lado.
— Jênia, fala com a tua mãe.
Ela riscou todo o nosso menu, eu fisicamente não vou conseguir fazer tanta coisa…
— A mãe sabe melhor.
Ele nem levantou a cabeça.
— Não faças cenas, não estragues tudo por uma ninharia.
O dia trinta e um de dezembro começou no escuro.
Às cinco da manhã, Varvara foi acordada pelo estrondo das panelas.
Foi à cozinha.
Svetlana Igorevna estava junto ao fogão, a dispor a carne.
— Ah, acordaste.
Começa pela geleia, demora muito a cozer.
Varvara, em silêncio, apertou o avental e pegou na faca.
As mãos tremiam de sono.
A sogra ficou ao lado, controlando cada movimento.
— Por que cortas assim?
Está grande demais.
Faz de novo.
Ao almoço, Varvara já não sentia as pernas.
A sogra não se calava nem por um minuto.
— A nora da Liudmila Viktorovna despacha uma mesa destas em três horas.
E tu olha como te arrastas.
Talvez devesses fazer algum curso?
— Svetlana Igorevna, eu estou a tentar…
— Tentar é pouco.
É preciso saber.
O Jênia, claro, não se queixa, mas eu vejo: ele emagreceu desde que casou.
Às quatro da tarde, a mesa estava posta.
Doze pratos.
Varvara aguentava-se por um fio.
Svetlana Igorevna pegou num garfo, provou a salada e fez uma careta.
— Está meio sem graça.
— Eu fiz pela receita do meu pai.
— Que receita? — A sogra provou o arenque “sob casaco de pele” e o rosto dela contorceu-se.
— O arenque está estragado!
Vou vomitar!
Jênia, o meu coração está a falhar!
Ela levou a mão ao peito e deixou-se cair na cadeira, fechando os olhos.
Evguêni entrou a correr na cozinha.
— Mãe!
O que aconteceu?!
— A tua mulher está a envenenar-me!
O arenque está estragado, eu sinto!
Foi de propósito, eu vi como ela me olhou de manhã!
Evguêni virou-se para Varvara.
O rosto dele estava estranho, duro.
— Pede desculpa à mãe.
Agora.
— Porquê?
O arenque está fresco, eu comprei ontem…
— Eu disse: pede desculpa!
— Não.
Ele agarrou-a pelo ombro e empurrou-a para o corredor.
— Então vai para o quarto e não saias.
Até perceberes como te deves comportar.
Vamos passar o Ano Novo sem ti.
A porta bateu.
Varvara ficou no corredor, a ouvir como na cozinha a sogra já com voz animada falava de “juventude sem educação”.
Evguêni ria em resposta.
Varvara entrou no quarto.
Sentou-se junto à janela.
Não chorou.
Apenas olhava os foguetes a rebentar nos pátios.
A mesa que ela preparara desde as cinco da manhã estava posta sem ela.
O marido festejaria com a mãe.
E ela estava trancada, como se tivesse feito algo errado.
Às onze da noite, tocaram à campainha.
Varvara ouviu a voz do pai.
— A Varja está em casa?
— Piotr Semiónovitch, entre! — Evguêni falava alto, acolhedor.
— Nós estávamos mesmo a…
— Onde está a minha filha?
Varvara abriu a porta do quarto.
O pai estava no hall com um saco de presentes, grisalho, num casaco velho.
Ele olhou para ela — roupa de casa, olhos vermelhos, cabelo despenteado — e o rosto dele ficou de pedra.
— O que se passa aqui?
Evguêni endireitou os ombros.
Na voz dele soou orgulho.
— Eu a expulsei!
Ela não agradou à minha mãe!
Silêncio.
Piotr Semiónovitch pousou lentamente o saco no chão.
Tirou o telefone.
Svetlana Igorevna saiu da cozinha, a limpar as mãos.
— Aleksei Viktorovich?
Ouve, o meu T4 na Sadóvaia vai ficar livre no fim de janeiro.
Procura inquilinos, de confiança, com contrato.
Os documentos estão contigo, lembras-te: o proprietário sou eu.
Evguêni empalideceu.
Svetlana Igorevna deu um passo à frente.
— Espere!
Que arrendamento é esse?!
O senhor deu-nos o apartamento no casamento!
Piotr Semiónovitch baixou o telefone.
— Eu?
Dei?
Mostre-me a escritura de doação.
— Mas o senhor disse…
— Eu disse que a minha filha viveria aqui enquanto estivesse casada.
Virou-se para Varvara.
— Faz as malas.
O essencial.
Evguêni ligava todos os dias.
No início, gritava ao telefone sobre traição e tribunal.
Depois pedia para ela voltar, prometia que tudo mudaria.
Varvara não respondia.
No sexto dia, o pai foi ter com ela com um ar sombrio.
— O Evguêni entrou no apartamento de noite.
Destruiu tudo o que pôde.
Nas paredes escreveu ameaças com marcador.
— Como é que ele entrou?
— Pelos vistos não devolveu as chaves.
Eu fotografei tudo e apresentei queixa.
Uma semana depois chegou a notificação do tribunal.
Svetlana Igorevna contratou um advogado que defendia que o apartamento era um “presente de casamento verbal”.
O advogado do pai colocou em silêncio sobre a mesa os documentos: título de propriedade, recibos das despesas, declarações fiscais.
Tudo em nome de Piotr Semiónovitch.
O tribunal negou o pedido de Evguêni e obrigou-o a pagar uma indemnização pelos danos.
O divórcio foi concluído três meses depois.
Varvara alugou um pequeno apartamento na periferia.
O pai arrendava o T4 a uma jovem família e transferia o dinheiro para a filha.
— Pai, chega.
Eu trabalho, dá-me.
— Isso é teu.
Sempre foi teu.
Uma noite, tocaram à porta.
Na soleira estava Svetlana Igorevna — abatida, envelhecida, sem a antiga arrogância.
Varvara deixou-a entrar em silêncio.
A sogra foi para a cozinha, sentou-se à mesa e tirou um envelope.
— Aqui está dinheiro.
Suficiente para a entrada.
Fala com o teu pai, que venda o apartamento a nós.
Ou pelo menos que nos deixe voltar.
O Jênia caiu mesmo.
Estamos a alugar um quarto os dois, na periferia.
Eu não aguento mais assim.
Varvara não tocou no envelope.
— A senhora quer que eu convença o meu pai?
— Isso é justo!
Vocês simplesmente puseram-nos na rua no inverno!
Varvara levantou-se e pegou no telefone.
— Esta conversa está a ser gravada.
Tal como todas as chamadas anteriores que fizeram de números alheios.
A denúncia por assédio já está escrita.
Ainda não a apresentei, mas posso.
A sogra ficou imóvel.
— Tu… o que estás a fazer?
— O que eu devia ter feito há muito tempo.
Varvara abriu a porta.
— O seu filho ainda vai ter de pagar a indemnização pela destruição.
Por decisão do tribunal.
Vá ter com ele com esse dinheiro.
Svetlana Igorevna agarrou no envelope e saiu disparada para as escadas.
Virou-se, abriu a boca, mas Varvara já fechava a porta.
Passaram oito meses.
Varvara dava aula ao seu segundo ano quando a subdiretora espreitou à porta.
— Um encarregado de educação veio vê-la.
Na sala dos professores.
Na sala dos professores, junto à janela, estava um homem alto, de óculos, com uma pasta de documentos.
— Bom dia.
Sou o Mikhail, pai do Kirill Sokolov.
Queria falar sobre o desempenho do meu filho.
Falaram cerca de vinte minutos sobre trabalhos de casa e comportamento.
Mikhail ouvia com atenção e anotava.
Quando a conversa terminou, ele hesitou.
— Desculpe a pergunta indiscreta.
É casada?
Varvara olhou para ele.
Calma, sem constrangimento.
— Divorciada.
Ele assentiu.
— Entendo.
Eu também há pouco.
Também sou professor, de Física, na escola ao lado.
Ele hesitou.
— Se não se importar, talvez um dia tomemos um café?
Conversamos não sobre as crianças.
Varvara ficou em silêncio.
Depois sorriu.
— Talvez.
Ele foi-se embora, deixando um cartão de visita sobre a mesa.
A subdiretora, sentada num canto, levantou a cabeça.
— Simpático.
— Sim.
E educado.
— Há muito tempo que não apareciam assim?
Varvara sorriu de lado.
— Há muito tempo que eu não prestava atenção a isso.
À noite, ela ia para casa pelo parque.
Estava ameno, o sol de setembro atravessava as folhas.
O telefone vibrou — mensagem do pai.
«Os inquilinos renovaram o contrato por mais um ano.
Transfiro o dinheiro amanhã.»
Varvara respondeu.
«Pai, chega.
Eu trabalho, dá-me.»
Um minuto depois veio a resposta.
«Isso é teu.
Sempre foi.
Não discutas com o teu pai.»
Ela sorriu e guardou o telefone na bolsa.
Em casa, tirou os sapatos, foi para a cozinha.
Pegou no cartão do Mikhail e pô-lo sobre a mesa.
Abriu o frigorífico e começou a cortar legumes para uma salada — devagar, sem pressa.
Só para ela.
Só porque queria.
Lá fora acenderam-se os candeeiros.
Varvara serviu-se de água e sentou-se à janela.
Pegou no cartão, olhou para o número.
Pousou-o de novo.
Não hoje.
Talvez amanhã.
Ou daqui a uma semana.
Não há pressa.
Pela primeira vez em muitos anos ninguém exige, ninguém controla, ninguém expulsa.
Ela expirou e sentiu — respirar ficou leve.
O telefone vibrou de novo.
Número desconhecido.
Varvara abriu a mensagem.
«Varvara, aqui é o Evguêni.
Perdoa-me, por favor.
Eu entendi tudo.
A mãe voltou para Volgogrado, nós brigámos.
Vamos encontrar-nos, conversar.
Eu mudei.»
Varvara leu, apagou a mensagem.
Bloqueou o número.
Pousou o telefone com o ecrã para baixo.
Levantou-se e foi até à janela.
No pátio, crianças jogavam à bola, um casal jovem passeava com um carrinho de bebé.
Uma noite comum de setembro.
Uma vida comum, na qual ela finalmente era dona de si.
Varvara voltou à mesa, pegou no cartão do Mikhail e marcou o número.
— Estou?
— Bom dia.
Daqui fala a Varvara Petrovna, professora do Kirill.
O senhor falou em café.
A proposta ainda está de pé?
Pausa.
Depois, do outro lado, ouviu-se um sorriso.
— Sim.
Claro.
Quando lhe dá jeito?
— Amanhã, depois das aulas.
Às quatro.
— Ótimo.
Anotado.
Até amanhã.
Varvara desligou e olhou pela janela.
O sol punha-se por trás dos telhados, pintando o céu de laranja.
Ela acabou a água, pegou no prato com a salada e sentou-se à mesa.
Comeu devagar, apreciando o sabor.
Ninguém dirá que “está sem graça”.
Ninguém acusará de estragar os produtos.
Ninguém a expulsará por ter ousado contradizer.
Lá fora escureceu.
Varvara lavou a louça e acendeu o candeeiro de pé.
Sentou-se no sofá com um livro que há muito queria terminar.
Abriu na marca.
Começou a ler.
O silêncio no apartamento era completo, acolhedor, seu.
Uma hora depois, o telefone vibrou outra vez.
O pai.
«Boa noite, minha filha.»
Varvara sorriu e respondeu.
«Boa noite, pai.
Obrigada por tudo.»
Pousou o telefone, fechou o livro.
Foi para o quarto, trocou de roupa, deitou-se.
Fechou os olhos.
Amanhã será um novo dia.
Amanhã há o encontro.
Amanhã, de novo, aulas, crianças, vida normal.
E ninguém mais lhe dirá como viver, o que cozinhar, quando calar.
Ela inspirou fundo no escuro e adormeceu.







