Mas, quando os pais dele vieram almoçar, encontraram um filho com fome e uma cozinha vazia.
— Cansei de te sustentar.

A partir de segunda-feira, orçamento separado.
Stas atirou o telemóvel para o sofá e olhou para mim como se, nos últimos dez anos, eu o tivesse deixado na miséria.
Eu estava ao fogão, mexendo o molho para a lasanha de amanhã — a mesma que a mãe dele, Tamara Stepanovna, o irmão Denis, a exausta Polina e três crianças barulhentas vão comer.
Como em todos os sábados dos últimos cinco anos.
— Eu te sustento?
— Sim.
Eu pago o apartamento, eu sou o homem da casa.
Virei-me devagar.
Olhei para ele por um bom tempo.
Depois sorri.
— Ótimo.
Vamos fazer assim.
Ele ficou perdido.
Esperava uma briga, lágrimas, louça quebrada.
Mas eu desliguei o fogão, tirei o avental e fui para o quarto.
Sentei-me ao portátil, abri a planilha de despesas — mantenho-a há cinco anos, por hábito de contabilidade.
Alimentos, contas, produtos de limpeza, móveis.
E uma coluna separada — os almoços de sábado.
Os números não sabem ficar calados.
Na segunda-feira eu me levantei às seis.
Preparei o meu pequeno-almoço — torradas com salmão, abacate e um bom café de grãos.
Sentei-me junto à janela com o prato.
Stas saiu despenteado e encarou o fogão vazio.
— E para mim?
— Orçamento separado.
Faz tu.
— O quê, estás a falar sério?
— Completamente.
Ele escancarou o frigorífico.
Lá dentro era tudo meu — marcado com adesivos bem chamativos com o meu nome.
Queijo, enchidos, fruta, iogurtes.
Tudo.
— Foste pôr etiquetas?
— Para não comeres sem querer às minhas custas.
À noite, eu instalei num armário da cozinha um pequeno cadeado dourado.
Discreto, bonito.
Lá dentro estava tudo o que era caro: manteiga boa, especiarias, bolachas, chocolate.
Stas ficou a olhar para o cadeado como se fosse uma ofensa.
— Estás maluca?
— Não, estou a poupar.
Orçamento separado é coisa séria.
Na primeira semana ele aguentou-se com pelmeni e enchido barato.
Comia em silêncio, e eu sentava-me em frente com peixe assado.
Sem gozar.
Apenas comia.
Depois do jantar, cada um lavava a sua louça — nada de montanhas de pratos depois dos lanches dele.
Na quarta-feira ele tentou pegar numa maçã da fruteira.
Eu agarrei-lhe a mão.
— Isso é meu.
— Uma maçã!
— Orçamento separado, lembras-te?
Ou queres que seja eu a sustentar-te?
Ele puxou a mão e saiu.
Bateu a porta.
Eu terminei a minha maçã.
Crocante, agridoce, do mercado.
Na sexta-feira Stas andava cinzento, abatido.
Olhava com raiva.
Eu estava a assar um pato com laranjas, o cheiro era insuportável de tão bom.
Ele estava com uma taça de massa instantânea.
— Natacha, chega.
— Chega do quê?
— Deste circo.
— Que circo, Stas?
Foste tu que quiseste orçamento separado.
Eu estou a cumprir o teu desejo.
Ele atirou a forquilha, a massa espirrou.
— Não era isto que eu queria dizer!
— Então o quê?
Que eu cozinho, limpo, gasto dinheiro, e tu ficas a achar que me sustentas?
Silêncio.
Ele corou e cerrou os punhos.
— Amanhã é sábado.
Vêm os teus pais, o Denis com a família.
— E então?
— O almoço é a minha categoria de despesas.
E eu só gasto comigo.
Ele arregalou os olhos.
— Estás a brincar.
— Nem um pouco.
— Mas eles estão habituados!
A mãe está à espera!
— Então faz tu.
Ou encomenda.
Com o teu dinheiro.
Fui para o quarto com o meu prato.
Nem fechei a porta.
Que ele ouvisse eu a comer.
De manhã levantei-me cedo, vesti um vestido cinzento novo, maquilhei-me.
Como para uma reunião de trabalho.
Desci à cozinha e comecei a cozinhar.
Para mim.
Uma pequena batata gratinada com cogumelos — para uma pessoa.
Stas saiu sonolento, de t-shirt amarrotada.
Viu-me ao fogão e suspirou de alívio.
— Ainda bem…
— Isto é para mim, para a semana.
Os teus parentes chegam em três horas.
Trata do almoço.
Ele congelou.
— Natacha, a sério?
— A sério.
Vais aprender a cozinhar.
Ou explicas à tua mãe sobre o orçamento separado.
Tirei o pato e comecei a mariná-lo.
Pequeno, caro, de quinta.
Stas andava de um lado para o outro ao meu lado, respirando pesado.
— Eles vão chegar com fome.
Com crianças.
O que é que eu digo?
— A verdade.
Que te cansaste de me sustentar.
Meti o pato no forno.
Tirei do armário com cadeado azeitonas, tomates secos, parmesão.
Arrumei num pratinho.
Só para mim.
Stas abriu o frigorífico, as gavetas.
Não havia nada.
Só o pacote de pelmeni dele e três pacotes de sopa seca instantânea.
Ele pegou no telemóvel e abriu as apps de entrega.
A cara dele caiu.
— Aqui é tudo caro…
— Cozinha tu.
— Com o quê?!
Não há ingredientes!
— Eu tenho.
Mas são meus.
Se quiseres, compra.
Ao preço de mercado.
Ele olhou para mim como se eu fosse louca.
— Estás a gozar comigo.
— Estou a cumprir os acordos.
À uma da tarde o carro do Denis estacionou.
Eu vi da janela a família a sair.
Tamara Stepanovna com uma mala enorme — lá dentro, como sempre, recipientes vazios.
Denis, Polina, três crianças barulhentas.
Stas estava sentado na cozinha, pálido.
À frente dele — três pacotes de sopa e pelmeni colados.
Só isso.
Tocaram à campainha.
Eu abri e sorri.
— Entrem.
Tamara Stepanovna deu-me um beijo na bochecha e foi para a sala.
Olhou em volta.
A mesa estava vazia.
Da cozinha vinha o cheiro de pato assado, mas não havia comida em lado nenhum.
— Natacha, não é uma má hora?
Ainda não puseste a mesa?
— Eu pus.
Para mim.
Apontei para um pequeno prato branco no canto da mesa da cozinha.
Com pato e legumes cortados com cuidado.
Um único prato.
Silêncio.
Tamara Stepanovna virou a cabeça lentamente.
— Como assim… para ti?
— Eu e o Stas estamos com orçamento separado.
Eu cozinho só com o meu dinheiro.
Para mim.
Denis e Polina trocaram um olhar.
As crianças ficaram quietas, a encarar a mesa vazia.
Tamara Stepanovna correu para a cozinha, onde Stas estava sentado.
Agarrou-o pelos ombros.
— O que é que ela está a dizer?!
Stas, explica!
— Mãe… nós decidimos…
— Decidiram o quê?!
— Orçamento separado, — apareci à porta.
O Stas disse que se cansou de me sustentar.
Agora cada um gasta consigo.
Lógico, não é?
Tamara Stepanovna apoiou-se na mesa.
Polina sentou-se.
As crianças amontoaram-se perto do sofá.
Denis calou-se, mas nos olhos dele passou um brilho de compreensão.
— Mas nós viemos… nós sempre…
— Antes eu cozinhava.
Com o meu dinheiro.
Há cinco anos.
Todos os sábados.
E o Stas achava que me sustentava.
Tirei de uma gaveta uma pasta simples.
Entreguei-a a Tamara Stepanovna.
— Tome.
Despesas dos almoços de sábado.
Cinco anos.
Com recibos.
Eu sou contabilista-chefe, eu registo tudo.
Tamara Stepanovna pegou na pasta com as mãos a tremer.
Abriu.
Ficou pálida.
Folheava, os olhos correndo pelos números.
Denis espreitou por cima do ombro e assobiou baixinho.
— Mãe, aqui…
— Cala-te! — ela fechou a pasta de um golpe e atirou-a para a mesa.
Stas, isto é verdade?
Stas ficou calado.
Olhava para o chão.
— É verdade, — respondi eu.
Cada produto, cada especiaria.
Eu comprava, eu cozinhava, eu limpava.
E vocês comiam, criticavam e levavam os restos.
Cinco anos.
Todas as semanas.
Tamara Stepanovna virou-se para Stas.
— Tu és homem ou quê?!
Ela está a envergonhar-te!
— Mãe, eu pensei…
— Pensaste o quê?!
— Que eu pago o apartamento, então…
— O Stas paga as contas, — interrompi.
Metade.
A outra metade pago eu.
O resto — comida, limpeza, reparos, móveis, roupa de cama — eu.
Cinco anos.
E os almoços de sábado também — eu.
Tudo.
— Mas tu és a esposa!
Tu tens de fazer! — gritou Tamara Stepanovna.
É a tua obrigação!
— Obrigação?
Alimentar-vos às minhas custas, ouvir que a farinha não presta, e depois ver-vos a empacotar comida em recipientes?
Isso é obrigação?
— Nós somos família!
— Uma família que, durante cinco anos, comeu às minhas custas e achou que o Stas sustentava toda a gente.
Tamara Stepanovna pegou na mala com os recipientes e apertou-a contra o peito.
— Vamos embora, — disse ao Denis.
Aqui não somos bem-vindos.
— Mãe, espera, — Denis levantou a mão.
Talvez nós, de facto…
— Cala-te!
Vamos embora!
As crianças foram para a saída.
Polina levantou-se e olhou para mim por um longo momento.
Havia respeito no olhar dela.
Talvez inveja.
Ela assentiu em silêncio e foi atrás.
Tamara Stepanovna parou à porta e virou-se para Stas.
— Vais permitir que ela faça isso?!
Stas levantou a cabeça.
Olhou para a mãe.
Para mim.
Para os pacotes de sopa.
Ficou calado.
— Mãe, vão.
Nós resolvemos.
A porta bateu.
Ficámos a sós.
Tirei o pato do forno e passei para o prato.
Sentei-me à mesa.
Stas ficou junto à janela, a ver o carro ir embora.
— Fizeste isto de propósito.
— Eu aceitei a tua proposta.
Orçamento separado.
Ele virou-se.
O rosto estava cinzento.
— Eu não pensei que fosse tudo tão…
— Que eu fazia tanto?
Ou que tu fazias tão pouco?
Ele aproximou-se e caiu na cadeira.
— E agora?
— Decide.
Voltamos ao orçamento comum — dividimos tudo ao meio.
Gastos, responsabilidades, decisões.
Ou vivemos separados.
De verdade.
— E os almoços de sábado?
— Estão cancelados.
Para sempre.
Ou cozinhas tu, com o teu dinheiro.
Eu não gasto mais um cêntimo para a tua mãe criticar a carne e levar os restos.
Ele olhou para o meu prato.
Para o pato dourado, os legumes, as ervas.
Depois para os pacotes de sopa dele.
— Eu achava mesmo que te sustentava.
— Eu sei.
— Sou um idiota.
— Eu sei.
Ele levantou a cabeça.
Perdido, mas já sem arrogância.
— Dá para voltar atrás?
— Dá.
Mas de outro jeito.
Honesto.
Sem ilusões.
Nós dois trabalhamos, nós dois ganhamos, nós dois gastamos.
Juntos.
Ele assentiu devagar.
— E a mãe não vem todos os sábados.
Ele estremeceu.
— Não todos.
Uma vez por mês.
No máximo.
Sem recipientes.
Sem críticas.
Senão eu vou-me embora.
E tu vais mesmo comer pelmeni até ao fim da vida.
Ele engoliu em seco.
Assentiu de novo.
— Combinado.
Eu levantei-me, tirei o prato.
Abri o armário com cadeado e tirei esparguete, tomates, azeite.
Coloquei diante dele.
— Cozinha.
Vou-te ensinar a fazer uma massa decente.
Pelo menos o básico tens de saber.
Ele olhou para os ingredientes.
Depois para mim.
Grato.
Culpado.
Uma semana depois, Tamara Stepanovna ligou para o Stas.
Eu ouvi a conversa — ele nem foi para outra divisão.
— Então, como vocês estão?
A Natacha caiu em si? — a voz dela soava arrogante mesmo pelo altifalante.
— Mãe, nós acertámos.
Vivemos bem.
— Então ela cozinha?
— Eu é que cozinho.
Estou a aprender.
A Natacha ajuda-me.
Pausa.
Longa.
— Estás a falar sério?
Tu és homem e estás a servi-la?
— Mãe, eu não estou a servi-la.
Eu vivo com a minha esposa.
Que nos últimos dez anos investiu nesta casa mais do que eu.
E eu nem percebia.
— Ela lavou-te o cérebro!
Stas, acorda!
Vem cá no sábado, eu faço uma panela de borsch…
— Não vou, mãe.
Eu e a Natacha vamos ao cinema.
— E o almoço de família?!
— Que almoço?
Aquele em que durante cinco anos eu não gastei nem um rublo?
Ela ficou sem ar do outro lado.
— Como te atreves?!
— Mãe, eu cresci.
Finalmente.
Vamos aí daqui a um mês.
Mas por pouco tempo.
E sem recipientes.
Ele desligou.
Olhou para mim.
Eu estava no sofá com um livro e não escondia o sorriso.
— Estás orgulhosa de ti? — perguntou ele.
— Estou orgulhosa de ti.
Ele aproximou-se e sentou-se ao meu lado.
— Sabes, o Denis escreveu-me ontem.
Disse que a Polina, depois daquele sábado, se revoltou.
Agora eles também estão a rever o orçamento.
Ela está cansada de carregar tudo sozinha.
— E o Denis?
— Espantado.
Diz que não sabia quanto a mulher gastava para a casa.
Achava que eram ninharias.
— Ninharias, — eu sorri com ironia.
Sempre ninharias.
Até fazeres as contas.
Stas pegou na minha mão.
— Perdoa-me.
Por tudo.
Pela burrice, pela cegueira, pela minha mãe.
— Pela tua mãe não.
Ela responde por si.
— Ela ligou ao Denis.
Queixou-se de ti.
Ele mandou-a passear.
Disse que a Polina tem razão, que tu tens razão.
Que chega de fazer ninho à custa dos outros.
Eu imaginei a cara de Tamara Stepanovna e desatei a rir.
Stas também riu.
Pela primeira vez em duas semanas.
— Sabes o que é mais assustador? — disse ele, baixo.
Eu acreditava mesmo que te alimentava.
Que eu era o chefe da família, o provedor.
E afinal eras tu, nos últimos dez anos, que carregavas esta casa às costas.
E eu nem uma vez te agradeci.
— Agora sabes.
— Agora sei.
Ele abraçou-me.
Com força.
Eu encostei a cabeça ao ombro dele e pensei: quantas mulheres, agora, estão sentadas nas cozinhas, a cozinhar, a limpar, a gastar o próprio dinheiro — e a ouvir que são “sustentadas”?
Talvez alguma delas também compre um cadeado.
Pequeno, dourado, arrumado.
E mostre quanto vale o trabalho delas.







