– Eu já sabia! Chega! – gritou Oleg, ainda da soleira. – Não vai haver festa nenhuma!
– Por que esse escândalo todo? Você me assustou. O que aconteceu, para você gritar para o universo inteiro? – espantou-se Larisa, vindo ao encontro do marido desde a cozinha, onde naquele momento preparava o jantar.

– Acabou, Lara! Isso é um desastre, um fim do mundo, um fiasco! Não vamos conseguir passar o Ano-Novo! – dizendo isso, o marido sentou-se num banquinho e cobriu a cabeça com as mãos.
Larisa até achou que ele tinha chorado, tão abalado ele estava.
A mulher já estava acostumada ao fato de o marido ser muito impressionável.
Qualquer coisa que o tirasse das condições habituais de vida levava a uma reação explosiva.
Ainda bem que a esposa sabia distinguir o sério do insignificante e, na hora certa, oferecia ao marido o apoio emocional de que ele precisava.
– Então, fala: o que foi que aconteceu desta vez?
– O chefe disse pra gente que no fim do ano não vai ter prêmio nenhum.
Que a gente não espere e nem crie esperança.
Porque trabalhamos muito mal, cometemos muitos erros e não merecemos recompensa, – despejou o marido de forma confusa, afinando a voz com a enxurrada de emoções.
– Como assim, Lara?
– Ai, meu Deus! E é só isso? Pra que berrar para o universo inteiro? É a primeira vez, por acaso? – disse a esposa, sem compartilhar as emoções de Oleg.
– Ano passado também não teve prêmio.
E no retrasado, pelo que eu lembro, também não.
E nada, estamos vivos até hoje.
E das festas não abrimos mão.
– Mas a gente estava esperando, entende? Todo mundo, a equipe inteira.
Eu prometi comprar um notebook pra nossa filha e um casaco de plumas novo pra você.
E agora, como fica?
Até pra comprar as coisas da mesa de festa vamos ter que arrumar dinheiro.
O salário vai todo para os empréstimos, temos que pagar tudo em dia.
– Não tem nada de mais, Oleža.
Você compra numa próxima.
E pra Vika a gente explica que a família está com dificuldades financeiras.
Ela já é grande, vai entender.
Então se acalma, meu bem, e vamos jantar.
– Mas eu tenho vergonha, como você não entende!
Vergonha diante de vocês.
Que pai e marido eu sou, se nem pra presente de Ano-Novo pra minha família eu consegui ganhar?
– Eu não acho que esteja tudo tão terrível quanto você pinta.
Pelo menos para a mesa de festa a gente arruma um jeito, – tentou acalmar o marido Larisa.
– Não, minha querida, você ainda não sabe de tudo! – Oleg voltou a cobrir o rosto com as mãos, tomado pelas emoções.
– O que mais? O que eu não sei?
Vai, responde, não se esconda.
– Lara, me perdoa, mas eu não te contei…
Eu me meti numa dívida grande.
– O quê? – agora a esposa se espantou de verdade.
– Que dinheiro?
Você está com a cabeça boa?
– Estou, sim.
Entende, Larisočka… Não, eu não consigo!
– Então despeja logo: o que você aprontou! Vamos! – a esposa foi implacável.
– Eu fui enganado por golpistas de telefone.
Eu não queria, mas por algum motivo transferi pra eles todo o meu adiantamento!
Depois peguei dinheiro emprestado com o Ivanyč, pra você não brigar comigo.
Achei que ia cobrir tudo com o prêmio de Ano-Novo.
Mas descobriu-se que não vai ter prêmio nenhum! – Oleg tinha medo de olhar para a esposa, falava atropelando as palavras, no automático.
– E você não me disse nada depois de tudo o que fez? – a esposa ficou pasma.
– Você é criança?
Dá pra fazer isso, Oleg?
– Foi assim que aconteceu…
Mas eu não tenho culpa.
– Agora, sim, é hora de ficar chateada e até de entrar em pânico, porque nós dois estamos na maior… você entendeu!
Há poucos dias eu dei uma quantia grande pros meus pais.
Emprestado.
Porque eu tinha certeza de que, por um tempo, a gente aguentaria com o seu salário.
Mas agora eu entendo que não há de onde esperar dinheiro, – disse Larisa, cansada.
– A-a-a! – gritou Oleg e mordeu o punho para esconder a histeria que queria explodir.
– Como assim? Vai faltar comida?
Lara, por que você deu o dinheiro?
E a nossa filha? Você pensou nela?
– Para com esse chilique!
As mesmas perguntas eu posso fazer pra você.
Mas o meu dinheiro, ao contrário do seu, vai voltar pra família, ainda que não seja de imediato!
Qual é o sentido de ficar se acusando?
Agora vamos decidir o que fazer.
Embora… de você não dá pra esperar nada.
Você só sabe desperdiçar dinheiro.
Larisa fez um gesto resignado com a mão, embora naquele momento quisesse uma coisa só: dar um belo tapa no marido.
Faltavam poucos dias para o Ano-Novo, e as contas do casal continuavam vazias.
Não havia de onde esperar dinheiro.
E se os adultos ainda podiam, de algum modo, encarar a ausência de uma mesa festiva, para uma filha de dez anos era difícil explicar isso.
Era preciso decidir urgentemente como celebrar o Ano-Novo este ano.
– Lara, sabe, de manhã me veio de repente uma ideia maravilhosa, – surpreendeu-a Oleg.
– É mesmo? Hoje é um dia especial? Ou Vênus se juntou a Marte?
De onde iam surgir pensamentos normais na sua cabeça? – perguntou a esposa, com sarcasmo.
– Vai, não me cutuca.
Só escuta, – disse o marido, encantado com a própria ideia.
– Manda ver, meu bem, me surpreenda.
Ultimamente você só faz isso.
– Você lembra da minha tia Uljana, que mora em Lipovka?
A gente ia visitar eles antes, quando a Vika era pequena.
– Lembro.
E daí? – Larisa olhou sem entender.
– Então: a gente pode ir pra lá no Ano-Novo.
Dizer que faz tempo que não se vê, que estamos com saudade da família.
Lembra que mesas a tia Ulya sempre preparava, – continuou Oleg, animado.
– A gente foi convidado? – Larisa tentou trazer o marido de volta à realidade.
– Não, não fomos.
Mas somos parentes!
Temos direito! – insistiu Oleg.
– A gente aparece lá e passa o Ano-Novo com eles, com a tia e o tio.
Vai ser farto e divertido!
– Oleža, vou te explicar bem simples.
Antes a gente ia porque a sua tia e o marido dela convidavam a gente.
Naquela época seus pais estavam vivos, e a Vikuša era pequena, engraçadinha, e todo mundo gostava de apertar ela.
E a gente dormia na casa dos seus, lembra?
E na casa da tia a gente só ia visitar.
Por umas duas horas.
Você percebe a diferença?
Mas agora tudo mudou.
Por que você acha que ainda vão ficar felizes com a nossa chegada?
– Lara, mas você mesma pediu pra eu pensar em alguma coisa, e eu pensei.
Vamos considerar a minha proposta.
Não tem nada de terrível em não terem convidado.
É costume que no Ano-Novo todo mundo visite todo mundo.
E nós três, eu, você e a Vika, vamos!
– Não sei, Oleg.
Talvez, na nossa situação, isso seja mesmo a saída.
Meus pais foram para um sanatório, e eu emprestei o dinheiro justamente para as passagens/pacotes deles.
Não vamos poder ir até eles.
Os amigos não nos chamaram.
Vamos ter que escolher o seu plano.
Ir à parentela.
O principal é que nos recebam com dignidade, e não nos expulsem.
—
No dia trinta e um de dezembro, na casa de Uljana já estava quente desde cedo.
Numa panela grande cozinhava-se a gelatina de carne, perto do fogão a lenha o fermento das tortas crescia, e a dona da casa cortava legumes para as saladas e marinava o ganso, para mais tarde servir a todos que viessem naquele dia celebrar o Ano-Novo.
Como o filho e a filha, com as suas famílias, já moravam havia muito tempo numa cidade grande, longe dos pais, e vinham raramente, desta vez também Uljana não os esperava.
Por isso, naquela noite, convidou todas as suas amigas do vilarejo, com quem cantava no coro da aldeia.
– Venham aqui em casa.
O meu Tolya vai ficar feliz, – sugeriu às amigas.
– E por que vocês vão passar o Ano-Novo sozinhas em casa?
Os filhos de vocês também não vão vir, isso é claro.
Agora eles se entediam de festejar com a gente, velhos.
– Vamos, Uljana, claro que vamos!
Muito obrigada por ter decidido juntar todo mundo!
Depois das nove da noite as convidadas começaram a chegar.
No vilarejo não se costuma ir a uma casa de mãos vazias, então na mesa, além dos pratos preparados pela anfitriã, apareceram banha salgada com camadas de carne, linguiça caseira, cogumelos em conserva com alho e endro, chucrute com cranberry e até melancias salgadas.
A mesa de festa estava abarrotada de comida.
Mas mal os convidados e os anfitriões tiveram tempo de se acomodar direito à mesa, quando de repente a porta se escancarou e alguém entrou na casa junto com redemoinhos de ar gelado.
– Boa noite, tia Ulya e tio Tolya! – disse em voz alta um homem desconhecido, usando um gorro de pele desgrenhado.
– E quem será que veio nos visitar? Não reconheço… – a dona da casa semicerrava os olhos, meio cegueta, aproximando-se dos recém-chegados.
– Somos nós, tia: Oleg e Larisa.
E a nossa filha está com a gente, Viktoria.
Viemos… – começou o homem, inseguro, atrapalhando-se e baixando os olhos.
– Ah! Que alegria!
Como é que vocês decidiram isso? – espantou-se tia Uljana.
– Tolya, vem cá, olha quem chegou!
Recebe os nossos queridos hóspedes.
Oležka, Laročka, Vikuša!
Os donos da casa começaram a abraçar os convidados, repetindo contentes.
– Que maravilha! Que alegria! Que bom!
– A gente pensou: por que não ir visitar a família, – respondeu Larisa, relaxando.
– Vocês fizeram muito bem em vir!
Até surpreende que tenham lembrado dos velhos!
Entrem, apresentem-se, aqui estão todas as minhas amigas, – disse Uljana.
Os convidados, depois de se despirem e se recuperarem um pouco do primeiro constrangimento, foram até a mesa ricamente posta.
Oleg tinha razão quando disse à esposa que na casa da tia as mesas sempre ficavam cheias de comida.
Agora isso vinha bem a calhar, porque eles estavam famintos.
Levaram mais de duas horas para chegar de carro pela estrada coberta de neve.
– Nos perdoem.
É que aconteceu uma coisa… – Larisa hesitou.
– Nós estávamos com tanta pressa que, na correria, esquecemos os presentes de Ano-Novo.
A gente preparou, escolheu… e esqueceu.
– Ah, isso não tem problema!
A gente fica feliz mesmo sem presentes, – respondeu a tia, sorrindo de modo esperto.
– Sentem-se depressa à mesa: agora vamos nos despedir do ano velho e cantar músicas alegres.
Por fim todos puderam começar a ceia festiva.
– Tá vendo, Uljana, e você vive reclamando que os filhos te esqueceram, que ninguém vem visitar vocês.
E olha só: veio até o sobrinho com a família.
Você não tem do que reclamar, hein? – alegravam-se as amigas pela anfitriã hospitaleira.
Quando todos já estavam satisfeitos e bastante alegres, a anfitriã sentou-se ao lado de Larisa.
– E me diga a verdade, Laročka, – perguntou baixinho, com um olhar malandro.
– O que fez vocês virem pra esse fim de mundo justamente no feriado?
– A gente estava com saudade.
Fazia tempo que não vínhamos, então resolvemos visitar, – disse Larisa, desviando o olhar.
Mas depois, pensando melhor, acrescentou:
– Não, claro que não!
Não é bem assim, tia.
É só que eu e o Oleg estamos quebrados.
Aconteceu que, às vésperas do Ano-Novo, ficamos completamente sem dinheiro.
E ainda por cima cheios de dívidas.
Então lembramos que aqui a mesa é sempre cheia de comida.
A senhora é muito generosa, tia Ulya!
E acolhedora.
Como provavelmente todo mundo por aqui.
– Então que bom que vieram!
Que diferença faz o que levou vocês a vir.
Eu e meu marido ficamos contentes do mesmo jeito! – disse a anfitriã, abraçando Larisa.
– E da próxima vez vamos convidar vocês pra nossa casa.
Mas, sabe, aqui é tão bom: eu garanto que nunca tive um Ano-Novo tão divertido!
E as suas amigas são sensacionais, apesar da idade.
Que energia!
Cantam, dançam e recitam poemas!
– Sim, elas são assim mesmo: umas artistas!
Os convidados só foram embora dois dias depois.
No dia primeiro de janeiro os anfitriões não deixaram que voltassem para casa.
Ainda havia muitas coisas divertidas planejadas.
Passear de trenó descendo a ribanceira do rio direto para o gelo e ir até a grande árvore de Natal do vilarejo.
Ela crescia bem no centro, e todos os moradores se reuniam lá à noite e se divertiam de coração.
Oleg e Larisa voltaram para casa descansados e felizes.
– Da próxima vez não esperem ficar no aperto: venham simplesmente, – disseram os anfitriões, sorrindo, ao se despedirem.
– Viremos com certeza!
E vocês também venham nos visitar! – gritavam os convidados do carro, com as janelas abertas.
Eles levaram para a cidade várias sacolas enormes com produtos e quitutes do vilarejo.
Gente boa, a parentela do marido!







