– Não vais deixar-me voltar a entrar?

Que absurdo! – não acreditou o ex-marido.

– Não digas asneiras!

Como é possível que não me deixes entrar?

A mim! – Vitalij estava à soleira do seu antigo apartamento com uma expressão de surpresa.

– A asneira estás a dizê-la tu agora.

E o que é que fazes aqui, hã?

Onde é que está escrito, em que leis, que certos cabrões morais, depois de se terem divertido à vontade noutro sítio, tenham sequer algum direito de voltar para as ex-mulheres? – admirou-se Liliana.

– Lil’ka, não sejas estúpida.

Vais deixar-me entrar, não tens escolha! – insistia Vitalij.

– Então, já te esqueceste de tudo?

– Não, não me esqueci de nada.

– Lembro-me perfeitamente de como correste atrás de uma miúda bonita, jovem e sem miolo, esquecendo-te de tudo no mundo – disse a ex-mulher com um sorriso de desprezo.

– E tu por que é que pões rótulos?

O que é que “sem miolo” quer dizer para ti, hã? – ofendeu-se Vitalij, esquecendo-se um pouco do motivo por que ali tinha aparecido.

– E o que é que haveria de ser então?

Uma tontinha menor de idade: encontrou mesmo com que se orgulhar.

– Ela ficou com um vagão de felicidade.

– Mas vejo que lhe custou pouco arrepender-se, já que tu estás aqui outra vez.

– Fala, mas pensa! – Vitalij endireitou-se, empinado.

– Eu sou teu marido legítimo…

– Eras! – gritou a mulher com alegria mal disfarçada.

– Bem, isso resolve-se depressa.

– Repito: sou teu marido, com quem viveste quase vinte anos.

– Temos dois filhos: isso não podes apagar da nossa vida de maneira nenhuma.

– Por isso não sejas estúpida e põe a mesa.

– Vamos celebrar o meu regresso.

Vitalij levou para dentro do apartamento uma mala grande e um saco de desporto, sem ligar aos protestos de Lili.

– Não faças uma cena, não faças uma cena!

Esqueceste-te de quem é esta casa? – perguntou Vitalij num tom severo, examinando-se criticamente ao espelho do hall de entrada.

– Não, por que haveria de me esquecer?

Esta é a nossa casa comum, que eu agora estou a tentar vender, para dividir o dinheiro entre nós.

– Foste tu quem quis isso quando foste embora – lembrou Liliana ao ex-marido.

– Exigias, gritavas, insistias que era preciso fazê-lo depressa.

– Bem, ainda não a vendeste.

– E graças a Deus!

Agora já não é preciso vendê-la.

– E esta casa é minha, percebes? – disse Vitalij com segurança.

– Nossa.

– Não, minha!

E tu sabes muito bem, querida, portanto não tens direito nenhum de não me deixar entrar.

– Comprámo-la durante o casamento – espantou-se Lilia, que já tinha conseguido esquecer a arrogância do ex-marido.

– Só faltava dizeres que também contribuíste para a compra – troçou ele cinicamente.

– Que entregavas todo o teu salário miserável.

– Não me faças rir!

– Se eu não tivesse estado ao teu lado, com o salário de uma contabilista qualquer não terias conseguido comprar nem uma casota de cão.

– E eu já nessa altura tinha um bom cargo na nossa fábrica.

– E trazia sempre dinheiro decente para casa.

– E assim decidimos, na altura, que era preciso sair do teu quartinho numa comunalka para um apartamento normal.

– E comprámos este apartamento.

– Esqueceste-te?

– Não, não me esqueci.

– A memória está óptima.

– Só que aqui foram investidos os rendimentos da renda e depois da venda do meu quarto.

– Portanto, não me venhas dar lições sobre a diferença entre os nossos salários.

– Eu também sei fazer contas; não sou mais estúpida do que tu, tão “sensato”.

– Ah, olha como falas!

Ficaste corajosa sem mim, soltaste-te – disse Vitalij num tom duro, franzindo as sobrancelhas com desaprovação.

– Olha, se não tens onde viver, aluga um quarto ou vai para um hotel, já que aqui te gabas tanto dos teus ganhos.

– Eu vou vender o apartamento e pronto: já não nos vai ligar mais nada.

– E viver juntos não vamos viver.

– Isso é uma estupidez completa! – explodiu Lilia, olhando para Vitalij com incredulidade e até com desprezo.

– Claro que vamos viver juntos!

E não discutas.

– E os nossos filhos depois ainda nos vão agradecer – disse Vitalij, satisfeito consigo mesmo e colocando Lilia perante o facto consumado.

– Não vão agradecer.

– Eles estão do meu lado.

– E contigo nem sequer querem falar – constatou Liliana com prazer evidente.

– Percebo…

Tu puseste-os contra mim, contra o pai deles!

– Sem mim vocês realmente soltaram-se, esqueceram a ordem.

– Eu trato de a repor já – ameaçou o ex.

– Dificilmente – garantiu-lhe a mulher.

– Começaste isto tudo para nada, Vitalij.

– Se a Mashka te pôs na rua, aqui também não te vai correr nada bem.

– Não tenho intenção nenhuma de te perdoar, não vou voltar a viver contigo, e isso é um absurdo total.

– Nós divorciámo-nos, e eu agora tenho outra vida.

– O quê?

Tens outra vida?

Não me faças rir com os meus cabelos brancos!

– Lilëk, mas tu olhaste-te ao espelho ultimamente?

– Mesmo em nova não brilhavas propriamente pela beleza, e estou a dizer isto com delicadeza.

– E agora, aos quarenta, imagina!

– Devias agradecer-me por ires enfrentar a velhice ao lado de um homem digno – Vitalij impressionava pelo cinismo.

– Ainda assim, insisto: eu tenho vida privada, e isso já não te diz respeito – retorquiu Lilia com calma.

– Mas que vida privada?

O que é que estás a dizer?

– Há vinte anos casei contigo por pena.

– Tive pena de uma tontinha.

– Pensei: mas quem é que vai querer uma feiinha assim?

Fiz-te feliz, pode dizer-se.

– E tu, ingrata, nunca me disseste sequer uma vez obrigado.

– Terias ficado solteirona – continuou Vitalij a humilhar a ex-mulher.

– Ah, claro!

Estás de novo no teu papel: benfeitor universal, protector e filantropo!

– Voltaste ao teu tema preferido.

– E eu já tinha conseguido esquecer como sabes elogiar-te a ti próprio, adorando-te.

– Lili, chega, está bem?

– Respira e começa a alegrar-te por o marido ter voltado para ti.

– Quer dizer que não és assim tão má.

– És uma boa esposa: é isso que significa! – Vitalij sorriu-lhe amplamente, ajeitando o seu cabelo encaracolado e farto.

Liliana desatou até a rir, olhando para ele naquele momento.

– As tuas magias não funcionam comigo, mestre da sedução!

– Chega, podes relaxar e não desperdiçar forças e tempo inutilmente.

– Decidiste mesmo passar o resto da vida sozinha?

– Mas nós ainda somos tão jovens e podíamos viver bem a segunda metade da nossa vida.

– Viajar, por exemplo.

– Hã?

– Ir ao mar, apetece-te?

– Ou ainda mais longe, uma vez, ou até duas vezes por ano.

– Os nossos filhos já são adultos, eu ganho bem, portanto podemos permitir-nos isso.

– As tuas amigas ainda te vão invejar.

– Ou então compramos uma casa fora da cidade.

– Vendemos este apartamento e compramos uma.

– Lilëk, o que achas da ideia?

– Filhos, netos, quando nascerem, virão todos ter connosco.

– Vá, pensa no que estás a recusar.

– Uma ideia assim-assim.

– Embora tudo isso possas fazê-lo também sem mim, com qualquer outra mulher.

– Não preciso de mais nenhuma.

– Eu já tenho uma esposa, legítima – insistia Vitalij.

– Eu não sou tua esposa!

– Deixa-me em paz, pelo amor de Deus!

– Tu agarraste-te mesmo a isso.

– Tenho fome – o homem entrou na cozinha sem grandes cerimónias.

– Vá, deixa-me comer e pára de te fazeres de difícil.

– Já avaliei o quanto estás ofendida, mas tudo tem um limite, sabes!

– Chega!

Vitalij ainda teve tempo de ver o que havia nas panelas de Liliana.

Mas nesse momento tocou o telemóvel.

– Sim – respondeu a mulher e sorriu.

– E eu também estou feliz por te ouvir.

– Vem, claro!

– Só que tenho de te avisar: apareceu aqui uma circunstância imprevista.

– Sim, ele.

– Como tinhas previsto.

– E quem é que ainda te telefona? – perguntou o ex-marido, ciumento.

– É o homem que eu amo – respondeu Liliana com calma.

– Ah, deixa-te disso!

Não me faças rir!

– Para quem é que tu serves, mulher velha e feia!

– A menos que seja algum vigarista que só te quer por causa do apartamento.

– Mas que ele saiba: este apartamento é meu! – gritou Vitalij.

– Meu Deus, como és ridículo!

Um ricaço com meia quota de um T2.

– E para quem eu sirvo, vais descobrir em breve.

– Ele está a vir agora, aqui, a minha casa.

– Pára com este circo, Lil’ka.

– Já me cansaste, juro!

– De certeza que te ligou uma amiga tua, e tu mentes descaradamente falando de um homem.

– Não serves para nada! – Vitalij olhou com arrogância para a mulher sorridente.

– Sim, sim…

Consola-te com ilusões.

– Peru presunçoso.

– Eu vou-te…

Uh!

Respeita o teu marido – ameaçou Vitalij, abanando o dedo.

Passados vinte minutos, tocaram à campainha.

– Vou eu!

Abro eu, esta casa é minha! – gritou Vitalij e precipitou-se para o hall.

Foi grande a sua surpresa quando, à soleira, viu o seu superior directo, o subdirector da fábrica onde Vitalij trabalhava há muitos anos como engenheiro-chefe.

– Oh, Dmitrij Ivanovič!

Que encontro inesperado, mas agradável!

Entre, entre!

– Feliz por o ver.

– Mas como é que decidiu passar por minha casa?

– Não me diga que quer propor-me um novo cargo, hã? – perguntou o homem com um sorriso largo.

– Essas coisas também se podem falar no escritório.

– Aqui, Lilia, vês como a direcção me aprecia!

– Vem até aqui a casa para falar de trabalho.

– Eu não vim ter contigo.

– E, tanto quanto sei, tu, Vitalij, já não vives aqui há um ano.

– Portanto, afasta-te e deixa-me passar.

– Não veio ter comigo? – Vitalij mudou de expressão.

– Está a brincar agora, Dmitrij Ivanovič?

– Então veio ter com quem, se não comigo, o engenheiro-chefe?

– Certamente não com ela, uma simples funcionária, um rato cinzento da contabilidade?

Vitalij olhou, atónito, para a ex-mulher.

– Sim, vim ter com a mulher que eu amo.

– Olá, Lilen’ka – com estas palavras, Dmitrij Ivanovič abraçou a ex-mulher de Vitalij e chegou até a beijá-la na bochecha.

– Com ela? – balbuciou o homem, vendo como o seu chefe fazia festinhas à sua ex-mulher.

– Sim, com ela.

– Pedi-a em casamento, e Liliana disse-me que sim, e eu estou-lhe infinitamente grato.

Dmitrij Ivanovič e Liliana olhavam-se com olhos apaixonados.

– Mas o que é que estão a dizer?

Estão a gozar comigo aqui? – Vitalij não conseguia acreditar no que estava a acontecer.

– Não, porquê.

– Eu sou viúvo há três anos.

– E a Lilia é divorciada.

– Eu, Vit’ka, há muito tempo reparava na tua mulher, sempre a admirei.

– E quando soube que tu, idiota, a tinhas deixado, não esperei.

– E agora estamos juntos.

– Não pode ser! – Vitalij não acreditava, em choque.

– Pode, sim.

– E comporta-te com respeito.

– Não te esqueças de que estás na presença do teu superior directo e da sua futura esposa.

– Vá, pega nas tuas malas e põe-te daqui para fora.

– Mas… – tentou dizer qualquer coisa Vitalij.

– E se começares a protestar e a reivindicar os teus “direitos”, despeço-te.

– Sim, exactamente assim.

– Arranjo um motivo, acredita.

– Mas como…

E o apartamento?

Meu… nosso?

– O apartamento a Lilia vai vendê-lo; a nós não nos faz falta.

– Vamos viver em minha casa.

– Ela vai dar-te o dinheiro da venda, como tinham acordado no divórcio.

– Mas agora, Vitalij, aqui não tens absolutamente nada para fazer.

– Portanto, não faças cenas: compreende bem que assim só te prejudicas.

– Ah, e esquece a nova posição.

– Não a mereces.

– Podes fazer asneira a qualquer momento.

Vitalij saiu do antigo prédio com o saco e a mala e pôs-se à procura de um sítio onde se abrigar.

Ainda não sabia para onde ir.

Tinha tudo confuso na cabeça, não conseguia acreditar no que tinha acontecido.

Na sua mente havia agora um único pensamento: que o subdirector tinha encontrado, na sua Lil’ka, uma mulher feia e velha, que devia ter ficado sentada à espera do regresso dele a casa, o regresso de Vitalij.

Eis a pergunta.