— Aqui está o menu, prepare tudo para as cinco, não vou ficar eu na cozinha no dia do meu aniversário, — ordenou a sogra, mas arrependeu-se amargamente.

Anna Petrovna acordou naquela manhã de sábado com uma sensação de festa.

Sessenta anos — uma data redonda, digna de celebração.

Havia muito que planeava aquele dia, fazia listas de convidados, pensava no traje.

No espelho refletia-se o rosto satisfeito de uma mulher habituada a que tudo corresse segundo o seu plano.

— Mãe, feliz aniversário! — Andrei foi o primeiro a aparecer na cozinha, trazendo nas mãos uma caixinha.

— É da nossa parte, minha e da Lena.

Lena limitou-se a acenar, de pé junto ao fogão com uma chávena de café na mão.

De manhã, ela era sempre pouco faladora, sobretudo quando se tratava das festas de família da sogra.

— Ah, Andreiuša, obrigada! — Anna Petrovna recebeu o presente com uma alegria ostensiva.

— Já tomaram o pequeno-almoço?

— Sim, mãe, está tudo bem, — respondeu Andrei, lançando um olhar à esposa.

Lena pousou a chávena no lava-loiça, preparando-se mentalmente para o que a esperava.

Nos últimos dias, a sogra andava animada e, estranhamente, isso só reforçava a sua tendência para mandar.

Era como se achasse que o espírito festivo lhe dava o direito de comandar toda a gente e tudo ainda mais do que o habitual.

— Lena, querida, — dirigiu-se-lhe Anna Petrovna com aquela entoação particular que anunciava sempre um pedido-ordem.

— Tenho para ti uma pequena tarefa.

Lena virou-se, tentando manter uma expressão neutra.

Ao fim de três anos a viver naquele apartamento, aprendera a ler as entoações da sogra como um livro aberto.

— Aqui está o menu, prepara tudo para as cinco, não vou ficar eu na cozinha no dia do meu aniversário, — Anna Petrovna estendeu-lhe uma folha dobrada ao meio, coberta pela sua letra cuidada.

Lena pegou no papel, passou os olhos pelas linhas e sentiu tudo encolher por dentro.

Doze pratos.

Doze.

Desde simples tábuas de frios até saladas complexas e entradas quentes.

— Anna Petrovna, — começou ela com cuidado, — mas isto é trabalho para um dia inteiro…

— Pois claro! — a sogra riu, como se Lena tivesse dito algo óbvio.

— E que mais se faz num dia tão grande?

Claro que se cozinha para a aniversariante.

Tu compreendes que virá muita gente: todas as minhas amigas, os vizinhos…

Não podemos fazer má figura.

Andrei alternava o olhar entre a mãe e a mulher, claramente sentindo a tensão a aumentar.

— Mãe, talvez encomendemos alguma coisa pronta? — sugeriu ele, inseguro.

— O que estás a dizer! — indignou-se Anna Petrovna.

— No meu aniversário alimentar os convidados com comida comprada?

O que é que pensariam de mim?

Não, tudo tem de ser caseiro, feito com alma.

Lena cerrou os punhos.

Com alma.

Claro: com a alma dos outros — com a dela, que teria de passar o dia inteiro na cozinha.

— Está bem, — disse ela, seca, e dirigiu-se para a saída.

— Lena! — chamou-a Andrei.

— Espera.

Ela parou no corredor, respirando com dificuldade.

Andrei aproximou-se, baixando os olhos com culpa.

— Olha, eu ajudava, a sério, mas tu sabes: na cozinha eu só atrapalho…

Eu não tenho jeito nenhum.

— Claro, — Lena sorriu, tensa.

— E o facto de a tua mãe me usar como criada, isso é normal?

— Vá lá… — Andrei encolheu os ombros, sem jeito.

— Pensa bem: cozinhar para a mãe no dia dela não é assim tão difícil.

Ela faz tanto por nós, dá-nos casa, nunca nos cobra as despesas…

Lena olhou para o marido por um longo momento.

Podia lembrá-lo de como a mãe lhe atirava sempre à cara aquela casa, de como implicava com a ordem da casa, de como criticava a comida dela quando Lena cozinhava para a família.

Podia contar-lhe como Anna Petrovna, a cada oportunidade, repetia que “acolheu na família uma rapariga do interior”, como se tivesse feito uma caridade enorme.

Mas para quê?

Andrei não iria entender.

Para ele, a mãe seria sempre uma santa, e as queixas dela seriam apenas caprichos de uma esposa mimada.

— Está bem, — disse Lena, e voltou para a cozinha.

As horas seguintes passaram num ritmo louco.

Lena cortava, cozinhava, fritava, misturava.

As mãos trabalhavam automaticamente, e na cabeça rodopiavam pensamentos, um mais insistente do que o outro.

E, de repente, enquanto estava ao fogão a mexer mais um molho, ocorreu-lhe uma ideia.

A ideia era tão simples e ao mesmo tempo tão elegante que Lena sorriu sem querer.

Ela tirou do armário uma pequena caixa que comprara na farmácia um mês antes para uso próprio, mas que nunca chegara a usar.

Era um laxante de ação suave.

Na embalagem dizia que o efeito surgia dentro de uma hora após a toma.

Lena estudou com atenção a lista de pratos.

Saladas, entradas elaboradas — em tudo isso dava para acrescentar discretamente algumas gotas.

Mas o prato quente — carne com batatas — deixaria intacto.

Afinal, ela e o marido também tinham de comer alguma coisa.

Às cinco, a mesa estava repleta de iguarias.

Anna Petrovna, com um vestido novo e exibindo um verdadeiro arsenal de joias, inspecionava a cozinha com o ar de um comandante antes da batalha.

— Nada mal, — assentiu com condescendência.

— Embora a salada “Stolichny” pudesse ter ficado um pouco mais salgada.

Lena ficou em silêncio, dispondo os pratos na mesa.

Por dentro, tudo nela cantava de expectativa.

Os convidados começaram a chegar exatamente às cinco.

Anna Petrovna recebia cada um de braços abertos, aceitava presentes e elogios.

As amigas — senhoras da mesma idade, vestidas com igual solenidade — elogiavam entusiasmadas a mesa posta.

— Anechka, não te poupaste! — exclamava Valentina Ivanovna, a vizinha do terceiro andar.

— Que maravilha!

— Ora, não exagerem, — fazia-se modesta a aniversariante.

— Eu e a Lenochka esforçámo-nos.

Na verdade, a maior parte do trabalho fui eu que fiz, e ela só me ajudou.

Lena, que naquele momento estava a colocar pratos, quase se riu em voz alta.

Ajudou.

Claro.

— Andrei, — disse ela baixinho ao marido, — não comas as saladas por enquanto.

Espera pelo prato quente.

— Porquê? — admirou-se ele.

— Espera só, está bem?

Ele encolheu os ombros, mas obedeceu.

Lena sentou-se um pouco de lado, observando os convidados atacarem as entradas com entusiasmo.

Anna Petrovna contava como pensara durante muito tempo no menu, como escolhera os produtos, como tentara agradar a todos os gostos.

— E esta salada é a minha especialidade, — gabava-se ela, apontando para a “Stolichny”.

— A receita vem da minha avó.

— Divina! — concordou Tamara Sergeevna.

— Tens mãos de ouro, Anja!

Passou uma hora.

Lena olhava para o relógio, contando o tempo.

E então, finalmente, começou.

A primeira a levar a mão ao ventre foi Valentina Ivanovna.

— Ai… — gemeu ela.

— Senti-me mal de repente…

— Eu também! — seguiu-lhe a deixa a vizinha ao lado.

— Anechka, tens a certeza de que os produtos estavam frescos?

Anna Petrovna empalideceu.

— Claro!

Comprei tudo ontem mesmo!

Mas então também ela teve um aperto repentino.

Apresentou desculpas à pressa e foi na direção da casa de banho.

Atrás dela formou-se uma fila de convidados.

— Lena, — sussurrou Andrei, — o que se passa?

— Não sei, — respondeu a esposa, imperturbável.

— Talvez tenham comido alguma coisa que lhes fez mal.

Ainda bem que nós não tocámos nas saladas.

No apartamento instalou-se a confusão.

Os convidados, um a um, desapareciam na casa de banho e depois apressavam-se a juntar as coisas e ir embora, murmurando desculpas e queixando-se de indisposição.

Anna Petrovna andava de um lado para o outro entre os convidados e a casa de banho, tentando salvar a situação, mas já era tarde demais.

Às sete da tarde, no apartamento restavam apenas os três.

Anna Petrovna estava sentada no sofá, pálida e atordoada.

— Vá deitar-se um pouco, — disse Lena com aparente solicitude, — e nós arrumamos tudo.

— O que é que puseste na comida? — perguntou a sogra com raiva, quando recuperou um pouco.

Lena cortava calmamente a carne servida com batatas.

— Laxante.

Mas só nas saladas e nas entradas.

No prato quente não toquei, por isso pode comer sem receio.

Anna Petrovna quis dizer alguma coisa, mas voltou a ter um aperto e correu para a casa de banho.

— Lena! — Andrei olhou para a mulher com reprovação.

— Para quê isso?

— E como é que devia ser, então? — Lena virou-se para o marido.

— Tu nem imaginas como a tua mãe me trata quando tu não estás em casa.

Metade das vezes nem te conto, porque sei que, de qualquer maneira, vais defendê-la.

“A mãe esforça-se, a mãe ajuda, a mãe acolheu-nos”.

E o facto de ela me tratar como criada, isso não te importa.

Andrei ficou calado, mastigando lentamente a carne.

— Talvez seja cruel, — continuou Lena, — mas eu estou cansada.

Cansada de, nesta casa, eu não ser ninguém.

De me usarem e depois ainda me acusarem de ingratidão.

Hoje ela recebeu uma lição.

Talvez agora pense duas vezes antes de me pôr todo o trabalho em cima e depois atribuir a si própria o mérito.

— Mas mesmo assim é demais… — começou Andrei.

— Demais o quê?

Ninguém se magoou.

Só passaram algumas horas fechados na casa de banho.

E a lição vai ficar na memória por muito tempo.

E ficou mesmo.

Depois daquele aniversário desastroso, Anna Petrovna mudou visivelmente a forma como falava com a nora.

Continuava pouco afável, mas as arestas foram-se limando.

Já não se ouviam ordens arrogantes, nem tentativas de despejar sobre Lena todo o trabalho doméstico.

E, meio ano depois, Andrei anunciou inesperadamente que se iam mudar para um apartamento próprio.

— Juntámos dinheiro para a entrada, — disse ele ao jantar.

— Acho que está na hora de vivermos por nossa conta.

A mãe olhou para o filho, surpresa.

Não esperava uma decisão daquelas.

Mas Anna Petrovna ficou em silêncio e apenas assentiu.

— Talvez sim, é mesmo hora, — concordou ela.

— Os jovens precisam do seu próprio ninho.

No dia da mudança, quando levavam as últimas caixas, Anna Petrovna aproximou-se de repente de Lena.

— Sabes, — disse ela baixinho, — talvez eu realmente tenha sido contigo… pouco justa.

Lena parou, com uma caixa de loiça nas mãos.

— Talvez, — respondeu.

— Mas agora não importa.

O importante é que encontrámos uma forma de nos entendermos.

— Sim, — assentiu Anna Petrovna.

— E, ainda assim… aquele aniversário… foi muito… eficaz.

Olharam uma para a outra e, inesperadamente, as duas desataram a rir.

Pela primeira vez em todos os anos em que se conheciam — com sinceridade e sem segundas intenções.

No novo apartamento, Lena lembrava-se muitas vezes daquele dia.

Não com remorso, mas antes com satisfação.

Às vezes, para encontrar uma linguagem comum com as pessoas, é preciso falar na língua que elas entendem.

E Anna Petrovna, ao que parece, só entendia a linguagem da força.

Mas o mais importante é que a lição serviu não só para a sogra, como também para Andrei.

Ele finalmente percebeu que a esposa não estava apenas a fazer birra, mas sofria de verdade com a injustiça.

E, embora ainda achasse os métodos dela demasiado radicais, nunca mais ignorou as queixas dela sobre o comportamento da mãe.

E Anna Petrovna, de tempos a tempos, visitava-os no novo apartamento.

Aparecia com um bolo, interessava-se pelas coisas deles, às vezes até oferecia ajuda.

E nunca mais se permitiu mandar na nora.

— Sabes, — disse uma vez Lena a Andrei, quando estavam sentados na sua própria cozinha, — acho que até comecei a gostar um bocadinho dela.

Quando deixou de se comportar como um general.

— E eu continuo a achar que naquele dia tu exageraste, — sorriu o marido.

— Talvez, — concordou Lena.

— Mas o resultado valeu a pena.

Às vezes, os métodos mais radicais são os mais eficazes.

E ela tinha razão.

Na família, finalmente, instalou-se a paz — baseada no respeito mútuo e na compreensão dos limites.

E não é isto, afinal, o mais importante nas relações entre as pessoas?