No Ano-Novo, senta-se à mesa!
— ria a minha sogra com os parentes.

Mas uma ligação mudou tudo.
Svetlana estava na cozinha, arrumando os frios fatiados num prato grande.
O relógio marcava oito e meia da noite do dia trinta e um de dezembro.
A mesa já estava posta — saladas em tigelas de cristal, o prato quente no forno, as taças alinhadas numa fila perfeita.
Tudo estava pronto para a festa.
Só que, por algum motivo, não havia alegria.
Ela tentava não olhar para o relógio com muita frequência, mas o olhar voltava sozinho para o mostrador na parede.
Faltavam três horas e meia para a meia-noite.
Três horas e meia na companhia de pessoas que ela não tinha convidado, não queria ver e só tolerava porque o marido insistira.
O apartamento era de Svetlana.
Ela o comprou oito anos antes, quando trabalhava como encarregada sênior de mercadorias numa rede de varejo.
Economizou por três anos, privando-se de tudo — não viajava nas férias, não comprava roupa nova, ia a pé em vez de pegar táxi.
Contava cada rublo, guardava, planejava.
A entrada ela juntou sozinha.
Quitou a hipoteca antes do prazo, em cinco anos em vez de dez.
A reforma também fez sozinha — colou o papel de parede, lavou os pisos, montou os móveis a partir das caixas com manual.
Aquele apartamento era a fortaleza dela, a conquista dela, o orgulho dela.
Quarenta e dois metros quadrados no sexto andar de um prédio de painéis.
Dois quartos, cozinha, banheiro conjugado.
Janelas voltadas para o sul, claro e quente.
Tudo ajustado, pensado, sofrido.
E ela lembrava disso a cada minuto — especialmente quando pessoas estranhas se comportavam ali como se fosse território delas.
Dmitri, o marido dela, mudou-se para lá depois do casamento, quatro anos antes.
Ele não tinha moradia própria — morava com a mãe num apartamento de três quartos na periferia.
Quando se casaram, Svetlana sugeriu morarem com ela.
Dmitri aceitou com gosto.
Prometeu se adaptar, não atrapalhar, ajudar com as despesas.
No começo foi assim.
Depois, como que naturalmente, tudo acabou virando: ela pagava, ela limpava, ela cozinhava.
E ele trabalhava, chegava em casa, jantava, via televisão.
Os parentes do marido chegaram ainda às sete da noite.
Vieram em grupo — a sogra Nina Petrovna, a irmã dela Valentina com o marido, o primo de Dmitri Oleg com a esposa Ira e os dois filhos deles.
Oito pessoas, sem contar Svetlana e Dmitri.
Dez à mesa.
Entraram barulhentos, falando alto, como se não tivessem vindo visitar, e sim inspecionar território alheio.
Nina Petrovna foi logo passando pelos cômodos, espiando armários, tocando nas coisas, comentando.
— Até que vocês se arrumaram bem, — disse ela, olhando a sala.
— Mas o sofá é meio antiquado.
— E o papel de parede já desbotou.
— Precisava renovar.
Svetlana ficou calada.
Ela escolheu aquele sofá por seis meses, rodou todas as lojas de móveis da cidade.
O papel de parede ela mesma colou, dois anos antes.
Mas não discutiu.
Afinal, era festa.
Quando todos se sentaram à mesa, Nina Petrovna ocupou com segurança o lugar na cabeceira.
Svetlana ia sentar ali, mas a sogra a empurrou com o cotovelo, sem nem olhar.
— Você, Svetochka, sente-se ali, na ponta, — ordenou.
— Assim fica mais fácil levantar e correr para a cozinha.
Svetlana sentou.
Dmitri se acomodou ao lado da mãe, pegou o telefone e enterrou o rosto na tela.
Os outros convidados se espalharam como deu, serviram bebida e começaram a beliscar.
A primeira hora passou relativamente tranquila.
Conversas sobre trabalho, preços, tempo.
Svetlana levantava, trazia o prato quente, tirava pratos vazios, enchia os copos dos convidados.
Ninguém se oferecia para ajudar.
Nina Petrovna ficava sentada como uma rainha, distribuindo ordens:
— Svetlana, traga mais pão.
— Svetlana, a salada acabou.
— Svetlana, por que não tem mostarda na mesa?
Dmitri não dizia nada, rolava a tela do telefone e, às vezes, ria de algum meme.
Não olhava para a esposa.
Por volta das nove, o grupo se animou.
Beberam mais, falaram mais alto, riram.
As piadas ficaram mais grosseiras, as vozes mais cortantes.
Oleg contava anedotas sobre sogras e esposas, e todos gargalhavam.
Ira comentava cada prato na mesa:
— A salada está salgada demais.
— A carne está um pouco seca.
— E essa salada aqui é estranha, eu nunca comi uma assim.
Svetlana ficou em silêncio, olhando para o prato.
Não tinha vontade de comer.
Por dentro, crescia uma irritação abafada, mas ela a expulsava.
Era preciso aguentar.
Logo seria Ano-Novo, depois eles iriam embora.
Mais perto das dez, Valentina puxou um assunto sobre como é importante respeitar os mais velhos.
O tema foi passando suavemente para o fato de que os jovens de hoje se soltaram demais e não valorizam as tradições de família.
— Antigamente, — discursava ela, balançando o garfo, — a nora chegava à casa e sabia o seu lugar.
— Respeitava a sogra, obedecia, ajudava.
— E agora?
— Agora cada uma se acha uma rainha!
Os olhares se voltaram para Svetlana.
Ela levantou os olhos, encontrou os deles e voltou a abaixar.
Ficou calada.
— Ah, para, Val’, — interferiu Oleg, piscando.
— Nem todas são assim.
— Tem esposas normais, que respeitam o marido e a família dele.
— Bem, depende da esposa, — reforçou Ira, rindo baixinho.
Nina Petrovna deu um gole na taça, limpou os lábios com o guardanapo e percorreu a mesa com os olhos.
Depois olhou para Svetlana com um olhar longo, avaliador.
— E algumas, — disse ela alto, claramente saboreando a atenção dos parentes, — até acham que, porque o apartamento está no nome delas, então elas mandam aqui.
— Esquecem que o marido é o chefe da família.
— E, portanto, a mãe dele também tem voz.
Todos riram.
Oleg, mais alto do que todos.
— Isso mesmo! — ele pegou embalo.
— Tem que ser muito mão de vaca para nem conseguir receber direito os parentes do marido!
Svetlana ficou imóvel.
Nas mãos, ela segurava um prato com restos de salada.
Ela o colocou devagar, muito devagar, sobre a mesa, sem soltar um som, sem dizer uma palavra.
— E, no geral, — continuou Nina Petrovna, pegando gosto, — uma boa esposa deveria ser grata por terem aceitado ela na família.
— E não ficar de nariz empinado.
— Mãe, — chamou Dmitri baixinho, sem tirar os olhos do telefone, — talvez já chega.
— Ah, filho, — a sogra fez pouco caso.
— A gente só está conversando.
— Não é, Svetochka?
Um silêncio estranho e tenso caiu na sala.
Alguém esperava lágrimas.
Alguém esperava um grito de resposta e um escândalo.
Oleg e Ira se olharam, claramente esperando a continuação.
Svetlana se levantou da mesa.
Devagar, sem movimentos bruscos.
O rosto dela estava calmo, quase distante.
Ela saiu para o corredor, fechando a porta atrás de si.
Cortou o excesso de barulho, as vozes, as risadas.
Tirou o telefone do bolso.
Achou o contato certo.
Apertou chamar.
— Pai, — disse ela baixinho quando atenderam do outro lado.
— Sou eu.
— Está tudo bem.
— Só queria ouvir a sua voz.
— Como você e a mãe estão?
— Vão passar em casa?
A voz do pai soava tranquila, caseira.
Ele contou que ele e a mãe tinham arrumado uma mesa pequena, iam ver televisão e esperar as badaladas.
Perguntou como Svetlana estava.
— Bem, — respondeu ela.
— Eu também estou bem.
— Daqui a pouco vai ficar ainda melhor.
— Obrigada, pai.
— Feliz Ano-Novo para vocês.
— Depois eu ligo de novo.
Ela desligou, ficou parada um segundo e endireitou os ombros.
Voltou para a sala.
Todos se calaram quando ela entrou.
Nina Petrovna olhava para ela com um triunfo mal disfarçado.
Dmitri se enterrou ainda mais no telefone.
Svetlana ficou de pé ao lado da mesa.
Ombros abertos.
Olhar firme, focado.
Movimentos precisos.
— A festa nesta casa acabou, — disse ela de forma reta e clara.
— Peço que todos saiam do meu apartamento.
As risadas cessaram na hora.
Todos a encararam.
Nina Petrovna nem conseguiu pousar a taça — ficou congelada com ela na mão.
— O quê? — perguntou.
— Eu pedi que todos saíssem, — repetiu Svetlana.
— Agora.
— Você enlouqueceu de vez?! — explodiu a sogra.
— Nós somos convidados!
— O Ano-Novo está chegando!
— Vocês não são convidados, — retrucou Svetlana com calma.
— Convidados respeitam os donos da casa.
— Vocês estão sentados no meu apartamento, comendo a minha comida e me insultando.
— Por isso, peço que se vistam e vão embora.
— Dima! — gritou Nina Petrovna, virando-se para o filho.
— Você está ouvindo o que ela está dizendo?!
Dmitri finalmente tirou os olhos do telefone.
Olhou para a mãe, para a esposa, e de novo para a mãe.
— Sveta, mas… — murmurou ele, inseguro.
— Mãe, você também…
— Vamos sem escândalo, tá?
— Não vai haver escândalo, — disse Svetlana.
— Se agora todos se vestirem com calma e forem embora.
— Mas quem você pensa que é para nos mandar?! — Ira se levantou num salto.
— Nós somos a família do Dima!
— Temos o direito de estar aqui!
— Não, — Svetlana balançou a cabeça.
— Não têm.
— Este apartamento é meu.
— Comprado com o meu dinheiro, registrado no meu nome.
— E eu decido quem fica aqui.
— Repito mais uma vez: peço que todos vão embora.
Nina Petrovna tentou se levantar, mas Oleg segurou o braço dela.
— Ah, vai, Svetka, — começou ele, conciliador.
— Por que você está assim?
— Foi só brincadeira…
— Eu não acho graça, — cortou Svetlana.
— E meu nome é Svetlana, não Svetka.
— Vocês têm dez minutos para se arrumar.
— Se em dez minutos alguém ainda estiver aqui, eu chamo a polícia.
— O quê?! — guinchou Nina Petrovna.
— Você vai chamar a polícia pra nós?!
— Dima, você está ouvindo?!
Dmitri ficou calado.
Sentado, encarando o prato, e calado.
Svetlana tirou o telefone, abriu a tela e encontrou o número da polícia.
Mostrou para todos.
— Nove minutos, — disse ela com calma.
Valentina foi a primeira a ceder.
Levantou-se e pegou o marido pela mão.
— Deixa pra lá, Nina.
— Vamos.
— A gente não precisa deste apartamento.
— Vamos passar o Ano-Novo em casa, num ambiente normal.
Oleg e Ira se olharam e também se levantaram.
As crianças, que até então brincavam em silêncio no quarto ao lado, correram ao ouvir o barulho.
— Vão se arrumar, — disse Ira, seca, às crianças.
Começou a confusão.
Os convidados pegaram depressa casacos, bolsas, sacolas.
Já sem a arrogância de antes, sem piadas e risadas.
Trocaram olhares culpados e se apressaram.
Nina Petrovna ficou sentada à mesa, vermelha de raiva e ofensa.
Depois se levantou de supetão.
— Dmitri, — chamou ela o filho.
— Vamos.
— Se arrume.
Dmitri levantou a cabeça.
Olhou para a mãe, para a esposa.
— Mãe, eu…
— Eu disse: vamos! — Nina Petrovna elevou a voz.
— Ou você vai ficar com essa… com ela?!
Dmitri se levantou devagar.
Pegou o casaco no cabideiro.
Svetlana o observava em silêncio, esperando.
Ele chegou até a porta e parou.
Virou-se para a esposa.
— Sveta… — começou ele.
— Vá embora, Dima, — disse ela baixinho.
— Apenas vá embora.
Ele não encontrou palavras que pudessem consertar alguma coisa.
Assentiu e saiu pela porta, seguindo a mãe.
Svetlana fechou a porta atrás do último convidado.
Girou a chave.
Encostou as costas na porta e fechou os olhos por um segundo.
Depois sorriu.
Pela primeira vez em toda aquela noite longa, sorriu de verdade.
Foi para a cozinha e começou a recolher a mesa.
Colocou os restos de comida em potes e guardou na geladeira.
Lavou a louça, limpou a mesa.
Deixou tudo em ordem.
Quando o relógio bateu onze e meia, ela serviu para si uma taça de champanhe.
Sentou-se no sofá e ligou a televisão.
Na tela passava um show especial de fim de ano.
Svetlana olhou para o relógio.
Faltava meia hora para o Ano-Novo.
Meia hora de silêncio, paz, liberdade.
Ela pegou o telefone e ligou para os pais.
— Mãe, pai, — disse ela quando atenderam.
— Feliz Ano-Novo adiantado.
— Eu estou em casa, sozinha.
— Está tudo bem.
— Até muito bem.
A mãe perguntou algo, preocupada, mas Svetlana a tranquilizou:
— De verdade, está tudo ótimo.
— Melhor, impossível.
— Depois eu conto.
— Um beijo para vocês.
Quando as badaladas começaram a marcar a meia-noite, Svetlana ergueu a taça.
— Feliz Ano-Novo, Svetlana, — disse ela para si mesma.
— Uma vida nova.
— Sem humilhações.
— Sem gente desnecessária.
Ela bebeu e pousou a taça na mesa.
Recostou-se no encosto do sofá e fechou os olhos.
Lá fora, estouravam fogos de artifício, e a cidade comemorava.
E naquele apartamento, comprado com dinheiro honestamente ganho, reinavam o silêncio e a ordem.
Svetlana passou o Ano-Novo sozinha.
E foi a melhor decisão da vida dela.
Na manhã do dia primeiro de janeiro, Dmitri ligou.
Svetlana ficou olhando para a tela por um bom tempo, depois recusou a chamada.
Ele ligou de novo.
Ela não atendeu novamente.
Uma hora depois, chegou uma mensagem: «Sveta, me perdoa.
Eu estou com vergonha.
Posso ir aí?
A gente conversa?»
Ela respondeu de forma curta: «Não.
Não venha.
Eu preciso de tempo para pensar.»
Dmitri ligou mais algumas vezes ao longo do dia.
Mandou mensagens.
Pediu desculpas, pediu uma chance de se explicar.
Svetlana não respondeu.
À noite, Nina Petrovna ligou.
Svetlana viu o nome na tela, deu um sorriso de lado e bloqueou o número.
Por três dias, ela ficou sozinha.
Leu livros, viu filmes, caminhou pela cidade de inverno quase vazia.
Pensou.
Pesou.
Decidiu.
No dia quatro de janeiro, ela escreveu para Dmitri: «Venha amanhã às seis da tarde.
Vamos conversar.»
Ele chegou exatamente às seis.
Ficou na porta, sem jeito, sem saber como começar.
— Entre, — Svetlana fez um gesto com a cabeça.
— Sente-se.
Eles se sentaram na cozinha, um de frente para o outro.
Dmitri olhava para a mesa.
— Sveta, eu… — começou.
— Fique quieto, — interrompeu Svetlana.
— Primeiro me escute.
— Depois você fala.
Ele assentiu.
— Eu pensei muito nesses dias, — começou ela, calma.
— E entendi uma coisa.
— Eu não quero mais viver com alguém que não consegue me proteger.
— Não de inimigos, não de ladrões.
— Da própria mãe.
Dmitri estremeceu, mas ficou calado.
— A sua mãe me insultou na minha casa, — continuou Svetlana.
— E você ficou sentado e calado.
— Você escolheu ela, não eu.
— E essa é a sua escolha, Dima.
— Eu respeito.
— Eu não escolhi! — escapou dele.
— Eu só… não sabia o que dizer…
— Exatamente, — Svetlana concordou com a cabeça.
— Não sabia.
— Não conseguiu.
— Não quis.
— Não importa.
— O resultado é um só: você não me protegeu.
— Me perdoa… — sussurrou Dmitri.
— Eu não quero perdão, — respondeu ela.
— Eu quero o divórcio.
Ele levantou a cabeça de repente e encarou ela.
— O quê?
— O divórcio, — repetiu Svetlana.
— Não há nada para dividir.
— O apartamento é meu, comprado antes do casamento.
— A gente dá entrada no pedido no cartório, e em um mês estaremos livres de novo.
— É simples.
— Sveta, espera…
— Talvez não precise ser assim, de uma vez…
— Vamos tentar mais uma vez…
— Não, — Svetlana balançou a cabeça.
— Eu já decidi.
— Você pode concordar e a gente se divorcia em paz.
— Ou pode não concordar — então eu entro na justiça.
— Mas o resultado vai ser o mesmo.
Dmitri ficou em silêncio por um longo tempo.
Depois suspirou, pesado.
— Tá bem.
— Eu concordo.
Svetlana assentiu.
— Obrigada por não discutir.
Um mês depois, eles deram entrada no divórcio.
Mais um mês depois, receberam os documentos.
Tudo passou rápido, sem escândalos, sem divisão de bens.
Svetlana continuou morando no próprio apartamento.
Sozinha.
Trabalhava, encontrava amigos, ia ao teatro, lia livros.
Aprendeu a gostar do silêncio e da solidão.
Passaram-se seis meses.
Ela conheceu outra pessoa.
Calma, respeitosa, que entendia o significado da palavra «limite».
Que não se calava quando era preciso falar.
E aquela noite de Ano-Novo, às vezes, ela lembrava e sorria.
Não por mágoa, não por raiva.
Apenas porque entendia que, naquele trinta e um de dezembro, tinha feito a escolha mais certa da vida dela.
Protegeu a si mesma.
Protegeu a própria casa.
E começou uma vida nova — sem humilhações, sem gente estranha, sem a necessidade de tolerar aquilo que não se deve tolerar.







