Vamos morar aqui!
— declarou Igor, largado no meu sofá.

Anastásia folheava as páginas de uma loja online na tela do notebook, examinando as especificações de berços e cômodas com trocador.
Os últimos três anos se dissolveram numa rotina rápida e habitual, e agora essa questão — a de um bebê — se colocava diante deles de forma clara e inequívoca.
Dima também queria ser pai; eles falavam disso por muito tempo, deitados no escuro, fazendo planos.
O apartamento, o seu de dois quartos num bairro residencial, comprado ainda antes do casamento com o dinheiro da venda da “khruschovka” da avó e com as próprias economias, parecia um ninho perfeito.
Claro, com reforma nova, com vista para o jardim.
A porta da cozinha rangeu.
Dmitri entrou, espreguiçou-se e espiou o monitor por cima do ombro da esposa.
— Já a todo vapor?
— Estou vendo opções, — Nastya virou-se para ele.
— Este conjunto não é ruim, tudo no mesmo estilo.
— Bonito, — Dmitri serviu-se de água do filtro e sentou-se na cadeira em frente.
— Mas a gente devia conversar tudo com o médico antes, fazer um check-up.
— Já marquei para quarta-feira.
O marido estendeu a mão por cima da mesa, coberta por uma toalha plástica imitando madeira, e cobriu a mão dela com a sua.
Nesses instantes, Nastya sentia que a vida estava organizada do jeito certo, firme.
A única coisa que destoava desse quadro era a sogra.
Liudmila Petrovna desde o começo enxergou a nora como um incômodo, e cada visita dela deixava um resíduo pesado e desagradável.
No sábado passado, Liudmila Petrovna apareceu de surpresa com guloseimas.
Nastya a deixou entrar, cumprimentou sem sorrir e a conduziu até a cozinha.
A sogra, sem tirar o casaco, passou lentamente o olhar pelo cômodo e estalou a língua.
— De novo manchas no parapeito da janela, Nastenka.
Janelas novas, e mesmo assim parece desleixado.
— É da condensação, — respondeu Nastya, com voz calma, ligando a chaleira elétrica.
— Eu limpo todos os dias.
— Dá pra ver que é pouco.
— Liudmila Petrovna tirou da sacola uma vasilha com assados caseiros.
— Patê de carne em massa, o Dimóčka adora.
E você, pelo visto, ainda não aprendeu a cozinhar direito, embora eu tenha te orientado.
Nastya cerrou os dentes.
Que orientações?
Só um resmungo contínuo e desprezível.
A sogra não dividia segredos nem receitas: só criticava.
Discutir era inútil — só atiçava ainda mais.
Dmitri saiu do quarto, abraçou a mãe pelos ombros, sentou-se e, com evidente prazer, pegou um salgado.
— Mãe, como sempre, perfeito!
— Isso é que é trabalho manual, — a sogra lançou um olhar significativo para Nastya.
— Não essas coisas prontas do supermercado.
Nastya serviu chá nas canecas e sentou-se à mesa.
O principal era não reagir.
Deixar passar.
Liudmila Petrovna mastigava sem tirar o olhar avaliador da nora.
— Dimóčka, você lembra da Lena Semiónova?
A filha dela, a Katyusha?
Então, casou no ano passado com aquele arquiteto.
Que casal!
E a moça é bonita, e a casa é uma ordem impecável.
Era com ela que você devia ter se casado, e não…
— Mãe, chega, — Dmitri fez uma careta.
— “Chega” o quê?
Eu falo como é.
Nastenka, não leve a mal, mas você mesma entende: você e o Dima têm experiências de vida diferentes.
Ele podia ter encontrado uma moça melhor.
Nastya apertou a caneca até os dedos ficarem brancos.
Experiências diferentes?
Liudmila Petrovna trabalhou trinta anos num jardim de infância e agora está aposentada.
Dmitri é um projetista comum num escritório de engenharia.
Nastya é testadora de software, ganha o dobro do marido, trabalha de casa.
Que “experiências diferentes”, que nada?
Dmitri apressou-se em mudar o assunto para o tempo e a reforma no prédio, e Nastya suspirou aliviada por dentro.
A visita, como sempre, durou pouco mais de uma hora, e depois que a sogra foi embora ainda ficou no apartamento a sensação de uma mola comprimida.
Passaram uns dez dias.
Dmitri voltou do trabalho estranhamente quieto, parecia pensando em algo, mas não se decidia a começar.
Nastya percebeu na hora.
— Aconteceu alguma coisa?
O marido colocou a pasta no chão, tirou a jaqueta, foi até a cozinha e sentou.
— Minha mãe ligou.
Coisa do Igor.
— Que coisa?
— Vai se mudar pra cá, pra nossa casa.
Bom, pra cidade.
Você lembra que eu falei do meu irmão mais velho?
Nastya assentiu.
Igor, filho de Liudmila Petrovna do primeiro casamento, era dez anos mais velho que Dmitri.
Morava em algum lugar perto de Tula; eles se falavam pouco.
— Separou da esposa, — continuou Dmitri.
— Decidiu recomeçar aqui.
Trabalho, moradia.
— Bem, ele que sabe.
— É.
Só que a mãe pede pra ajudar um pouco.
Até ele se estabilizar.
Algo dentro de Nastya se alertou.
— “Ajudar” em que sentido?
— Bem… pra ele ficar com a gente por um tempo.
Uma semana, no máximo duas.
Até ele ver anúncios, escolher alguma coisa.
— Dima, não.
— Nast’, ele é meu irmão.
— Não.
Aqui eu tenho meu escritório, eu trabalho, preciso de silêncio.
Ele tem dinheiro pra alugar?
Ou então que fique com a Liudmila Petrovna.
Dmitri suspirou, passou a mão no rosto.
— A mãe tem um apartamento de um quarto, lá é apertado.
— O nosso é de dois, mas um quarto é nosso e o outro é meu canto de trabalho.
Onde ele vai ficar?
No corredor?
— Na sala, num colchão dobrável.
Nastyuša, fala sério, é só por duas semanas.
O cara está numa situação difícil, divórcio, mudança.
Família tem que ficar unida.
Nastya levantou, foi até a janela e voltou.
Tudo por dentro resistia.
Um sexto sentido insistia: disso não sairia nada bom.
Mas Dmitri olhava para ela com um olhar tão desamparado, quase infantil.
— Duas semanas, Dima.
Exatamente.
Nem um dia a mais.
E só ele, sem surpresas.
— Claro!
Obrigado, minha querida.
O marido a abraçou, apertou contra si.
Nastya encostou o rosto no ombro dele, mas a ansiedade não foi embora: apenas se recolheu em algum lugar fundo, debaixo das costelas.
Igor deveria chegar no sábado.
Nastya levantou cedo, passou o aspirador, arrumou o sofá da sala com roupa de cama limpa.
O dia de folga permitia receber o visitante sem pressa.
Dmitri estava nervoso, andava da janela à porta, acendia e apagava logo em seguida um cigarro na varanda.
— Acho que estão chegando!
Nastya foi até a janela.
Um táxi parou em frente ao prédio.
Da porta do passageiro saiu um homem grande, de uns trinta e cinco anos, e tirou do porta-malas um enorme saco de viagem.
Depois apareceu uma garota.
Jovem, com um corta-vento rosa-choque, duas bolsas volumosas e uma caixa de papelão.
Em seguida desceu Liudmila Petrovna, carregada de sacolas do “Magnit”.
Nastya congelou.
— Dima, quem é aquela?
Tem uma garota com o seu irmão.
Dmitri olhou melhor, franziu a testa.
— Não sei.
Talvez seja conhecida, deu carona.
— Com essa bagagem toda?
Um minuto depois, já estavam todos no apartamento.
Igor entrou primeiro — ombros largos, jaqueta de couro surrada, um sorriso torto de orelha a orelha.
— E aí, mano!
Nastya, né?
Prazer.
— Olá, — Nastya assentiu, sem tirar os olhos da pilha de bolsas.
Atrás dele veio a garota, arrastando mais uma mala com rodinhas.
Bonita, com cabelos negros e grossos num penteado elaborado, maquiagem chamativa.
— Oi, gente!
Meu nome é Vika.
Liudmila Petrovna entrou por último, ofegante com o peso das sacolas.
— Pronto, crianças, chegamos!
Igorëk, Vikusya, fiquem à vontade, como se estivessem em casa.
Nastya estava no corredor apertado, sentindo por dentro subir uma onda de raiva fria e clara.
Vika já tinha passado para a sala, colocou a bolsa dela bem em cima do sofá recém-arrumado e lançou um olhar avaliador.
— Aconchegante.
Mas é pouco espaço.
Igor trouxe o resto da bagagem, largou num canto e esfregou a lombar.
— Dima, onde fica a geladeira aqui?
Minha garganta secou.
— Espera, — Nastya deu um passo à frente, bloqueando a passagem.
— Peraí.
Expliquem o que está acontecendo.
Liudmila Petrovna virou-se para a nora com uma expressão exageradamente indignada.
— Nastenka, que tom é esse?
— Liudmila Petrovna, a gente combinou: só o Igor, por duas semanas, com uma mala só.
E isso aqui é o quê?
— Nastya apontou para a bagagem.
— E ela, quem é?
— fez um gesto para Vika.
— É a companheira do Igor, — explicou a sogra com tranquilidade.
— Naturalmente eles vêm juntos.
— Naturalmente?
— Nastya sentiu as bochechas queimarem.
— Eu concordei com uma pessoa só!
Igor bufou, tirou do bolso do jeans uma pequena cantil, deu um gole.
— Ah, Nastya, não exagera, a gente fica pouco.
Um mês no máximo.
A Vika é quietinha, não fica zanzando por aí.
— Um mês?
O Dima falou em duas semanas!
— Duas semanas, um mês… qual é a diferença, no fim?
— Igor acenou com a mão.
— O importante é que é temporário.
Enquanto isso, Vika abriu uma das bolsas e começou a colocar as coisas em cima da mesinha de centro.
Necessaire, spray de cabelo, cremes, desodorantes.
Arrumava tudo como se fosse se instalar por anos.
— Pare!
— Nastya se aproximou dela.
— O que você está fazendo?
Vika levantou para ela os olhos surpresos, delineados com setas.
— Estou arrumando minhas coisas.
E daí?
— Você não vai arrumar nada aqui.
Guarde tudo e vá para a casa da Liudmila Petrovna.
— Do que você está falando?
— Igor bateu a cantil no aparador com força.
— A gente veio pra cá.
— Eu concordei em dar abrigo ao irmão do meu marido.
A ele, sozinho.
Não à namorada dele, não a uma caravana de malas.
Fora.
Liudmila Petrovna abriu os braços.
— Nastya!
Como você se atreve!
É sangue do Dimóčka!
— E um ótimo motivo para morar com a senhora.
— Eu tenho um apartamento pequeno!
Lá fica apertado pra eles!
— Não é meu problema, — Nastya cruzou os braços.
— Eu não assinei esse roteiro.
A sogra se virou para Dmitri, que até então estava de lado, confuso, mudando o peso de uma perna para a outra.
— Dimóčka, fala com ela!
Explica pra essa alma dura que com os próximos não se faz isso!
Dmitri olhou para a mãe, para o irmão, para Nastya.
— Nastyuš, vamos sem escândalo, tá?
O Igor está mesmo numa encrenca.
Tá difícil pra ele agora.
— Dima, a gente tinha um acordo.
— Eu sei, mas… a Vika está com ele.
Eles estão juntos.
Fica meio… complicado.
— Complicado por quê?
Que aluguem um lugar juntos.
— Precisa de dinheiro, precisa de tempo.
Nastya, seja humana.
Nastya olhou para o marido por um longo instante, um olhar de prova.
Então era isso.
A mãe pressionou — e ele cedeu.
Como sempre.
— Não, — disse ela, firme e alto.
— Eu não aceito.
— Mas quem você pensa que é!
— guinchou Liudmila Petrovna.
— Pão-dura!
O apartamento é grande e você maltrata os parentes!
— O apartamento é meu.
Eu o comprei antes do casamento, com o meu dinheiro.
E sou eu quem decide quem fica aqui.
— Aí está a sua verdadeira natureza!
— A sogra apontou para ela com o dedo ossudo.
— Aí está o seu íntimo!
Egoísta!
— Mãe, se acalma, — Dmitri tentou segurá-la pelo ombro, mas ela se esquivou.
— Não, Dimóčka, olha pra ela!
Ela está jogando seu próprio irmão na rua!
O seu sangue!
Igor terminou o que restava na cantil e a enfiou no bolso.
— Escuta, Nastya, isso não é muito “de família”, não.
A gente não vai ficar pra sempre.
Aguenta um pouquinho.
— Eu não vou aguentar nada, — Nastya virou-se para o marido.
— Dima, ou eles vão embora agora, ou você vai com eles.
Dmitri empalideceu, como se tivesse levado um golpe.
— Você está falando sério?
— Estou.
— Nastya, isso é um ultimato?
— É.
Um ultimato.
Liudmila Petrovna agarrou a manga do filho.
— Dimóčka, não deixe ela te tratar assim!
Põe ela no lugar!
O marido ficou entre as duas mulheres, o rosto retorcido de tensão, a mandíbula cerrada.
Ficou calado.
Nastya esperou.
Os segundos se arrastavam, densos e pegajosos.
— Sabe de uma coisa, Nastya, — Dmitri enfim soltou o ar, e a voz dele saiu rouca e abafada.
— Eu tenho vergonha.
De você.
O Igor é minha família.
Ele precisa de uma mão.
E você recusa essa mão.
— Eu recuso aquilo com que nunca concordei.
— Família tem que estar sempre por perto.
Sem “se” e sem “mas”.
— Então fique por perto na casa da Liudmila Petrovna.
Dmitri fez um movimento brusco com a bochecha e se virou de repente para o irmão.
— Igor, arruma as coisas.
Vamos embora.
— Dima, tá maluco?
— Igor franziu a testa, sem entender.
— Arruma, eu disse.
Liudmila Petrovna começou a lamentar.
— Dimóčka, mas pra onde vocês vão?
— Pra sua casa, mãe.
A gente dá um jeito.
O marido foi ao quarto e começou a jogar as próprias coisas numa bolsa esportiva.
Nastya ficou na porta, observando com uma calma estranha, quase clínica.
Ele estava mesmo indo embora?
Estava escolhendo eles?
— Dima, volta a si, — disse ela baixinho.
— É você que tem que voltar a si.
Eu não quero viver com alguém para quem os meus parentes não valem nada.
— Para mim eles não são “nada”.
Para mim eles são os que quebraram a palavra.
— Chama como quiser.
Dmitri fechou o zíper da bolsa, vestiu a jaqueta.
Passou por Nastya sem olhar.
No corredor, Igor e Vika já esperavam, cercados pelo trambolho.
Liudmila Petrovna enxugava os olhos com a ponta do lenço.
— Vamos, mãe, — Dmitri abriu a porta.
Eles foram embora.
Os quatro.
A porta se fechou com um estalo pesado e definitivo.
Nastya ficou sozinha no silêncio que de repente ensurdeceu.
Sentou-se no sofá e encarou a parede branca.
Vazio.
Por dentro e por fora.
Nem raiva havia — só um espanto gelado, penetrante.
Passou um dia.
Nastya tentou se obrigar a trabalhar, mas os pensamentos não se prendiam ao código; se espalhavam.
Dmitri não ligava.
Não escrevia.
Ela também se calava.
O que dizer?
Pedir desculpas?
Pra quem e por quê?
Ela estava certa.
Sentia isso em cada célula.
Passou uma semana.
O silêncio ficou palpável.
Nastya se pegava verificando o telefone a cada meia hora.
A tela continuava escura e muda.
A amiga Katya ligava, perguntava como ela estava.
Nastya respondia de forma seca: tudo bem.
Explicar era pesado demais, humilhante demais.
Passou a segunda semana.
A solidão começou a ganhar contornos habituais.
O apartamento sem Dmitri parecia enorme, ecoando como uma lata vazia.
À noite, Nastya sentava na cozinha, tomava chá na mesma caneca e olhava para o quadrado escuro da janela.
Pensava.
Revirava na cabeça as mesmas perguntas: e se ela tivesse reagido duro demais?
E se tivesse sido melhor ser mais flexível, mais generosa?
Não.
Ela não tinha sido dura.
Tinha sido clara.
Dmitri quebrou o acordo, cedeu à pressão, fez uma escolha contra ela.
Essa era a essência de tudo.
No décimo oitavo dia chegou uma mensagem.
De Dmitri.
Nastya abriu com a sensação de que o coração ia saltar pela garganta.
«Nastya, precisamos nos encontrar.
No nosso cartório.
Amanhã às quatro.
Eu dei entrada no pedido de dissolução do casamento».
Ela releu as linhas várias vezes.
As letras dançavam diante dos olhos.
Dissolução.
Ele tinha pedido o divórcio.
Por causa dessa história?
Porque ela não deixou entrar moradores indesejados?
Respondeu com uma palavra: «Irei».
O encontro aconteceu numa sala triste e desbotada.
Dmitri sentou-se em frente, olhando para uma mancha no linóleo.
Mais magro, sem fazer a barba, com olheiras.
Nastya o observava, tentando encontrar naquele homem aquele a quem amara.
Não encontrava.
— Dima, por quê?
— perguntou ela, quando a funcionária saiu para buscar formulários.
O marido finalmente ergueu os olhos para ela.
— Porque você pôs pra fora os meus parentes.
Mostrou quem você é de verdade.
— Eu não deixei entrar na minha casa duas pessoas com malas quando eu tinha concordado com uma só pessoa.
Isso é fraude.
— Fraude?
O Igor precisava de ajuda.
De ajuda de verdade, humana.
E você fez um escândalo.
— Este apartamento é meu, Dima.
Eu o comprei antes do casamento.
Tenho pleno direito moral e jurídico de decidir quem fica nele.
— Exatamente.
Seu.
Sempre foi e sempre será seu.
Você nunca o viu como nosso, comum.
Nastya recostou-se na cadeira, fria e desconfortável.
— Você está falando sério?
Eu até propus colocar seu nome na propriedade.
Você mesmo recusou, disse que não precisava, que era constrangedor.
— Porque eu não queria me sentir um encostado.
— E agora nos divorciamos.
Brilhante.
Dmitri apertou os lábios numa linha branca.
— Mãe tinha razão.
Ela sempre disse que você não é a pessoa certa pra mim.
Que você só pensa em você.
Eu não acreditava.
Agora eu vejo: ela tinha razão.
Nastya riu.
Curto, sem som, só com os lábios.
— Claro.
Mãe sempre tem razão.
A mamãezinha sabe melhor.
A mamãezinha sempre desenha onde está a sua felicidade.
— Chega de gritar com a minha mãe!
— Eu não estou gritando.
Estou constatando um fato.
Liudmila Petrovna controla suas decisões desde que você era bebê.
Você não consegue escolher sozinho de que lado está.
Dmitri se levantou de supetão; a cadeira recuou com estrondo.
— Chega.
Eu não vou ouvir isso.
Vamos assinar e cada um segue seu caminho.
Nastya assinou os papéis em silêncio.
Dmitri também.
O procedimento levou menos de vinte minutos.
O apartamento ficou com ela — propriedade anterior ao casamento, sem disputa.
Quase não havia bens comuns — móveis, eletrodomésticos, pequenas coisas.
Dmitri levou seus livros, roupas, guitarra; o resto deixou.
Eles saíram para a escadaria.
Lá fora caía uma chuva fina de novembro, transformando tudo numa pasta cinzenta e úmida.
Dmitri acendeu um cigarro — ele tinha parado de fumar dois anos antes, a pedido dela.
— Então, é isso, — disse Nastya.
— É.
É isso.
— E você sinceramente acha que a culpa é toda minha?
O marido puxou a fumaça e soltou um fio no ar molhado.
— Sim, Nastya.
Acho.
Você destruiu nosso casamento porque não conseguiu abrir mão do seu conforto pela família.
— Entendi.
Nastya se virou e foi embora sem olhar para trás.
Andava rápido, quase corria pelas pedras escorregadias da calçada.
Chegou ao metrô, desceu para o subterrâneo barulhento, com cheiro de umidade e de gente.
E só no vagão, na multidão onde ninguém olha para ninguém, ela se permitiu fechar os olhos e apertar as pálpebras para conter as lágrimas que subiam.
Um mês depois, todas as formalidades estavam resolvidas.
Dmitri veio buscar as coisas restantes num sábado, bem cedo.
Nastya o deixou entrar, em silêncio apontou para as caixas empilhadas junto à parede com livros e revistas velhas.
Ele — já ex-marido — também em silêncio começou a levá-las para o patamar.
— Como está o Igor?
— Nastya não conseguiu se conter.
— Nada demais.
Está procurando.
— E a Vika?
— Com ele.
— Vocês ainda moram com a Liudmila Petrovna?
— Sim.
Curto, seco, sem detalhes.
Dmitri colocou a última caixa no elevador e se virou na porta.
— Acho que é tudo.
— Acho.
Então, fica bem.
— Adeus.
A porta se fechou.
Nastya encostou a testa no batente, fechou os olhos.
Tudo.
Fim.
Três anos de vida em comum viraram pó por ela não querer transformar a própria casa num lugar de entra-e-sai.
Absurdo completo.
Mas, aos poucos, dia após dia, ela começou a entender.
Não era sobre o Igor nem sobre a Vika.
Era sobre o Dmitri.
Sobre ele nunca ter sido um homem adulto e independente.
Ele tinha ficado para sempre aquele menino que alguém precisa repreender, guiar, por quem alguém precisa decidir.
O filho de Liudmila Petrovna, que não conseguiu e não quis virar marido de Nastya.
Passaram-se uns cinco meses.
Nastya morava sozinha, trabalhava muito, às vezes ia ao cinema com Katya.
Um dia, com uma taça de vinho, a amiga contou a novidade com cuidado.
— Você sabe, o Igor e aquela Vika deram no pé.
Ainda em janeiro, acho.
— Pra onde?
— espantou-se Nastya.
— Sei lá.
Dizem que ou pra São Petersburgo ou até pra Sochi.
Mas o fato é que eles não estão mais aqui.
E o seu Dima continua morando com a mãe naquele apê de um quarto.
Consegue imaginar?
Trinta e três anos, e ele…
Nastya imaginou.
Corredor estreito, cozinha minúscula cheia de potes, e a onipresente Liudmila Petrovna, controlando tudo.
A vida dele, o futuro dele — tudo ali, dentro daquelas paredes.
— Dá pena dele, — suspirou Katya.
— Você pegou pesado, Nast’.
Quebrou o cara.
— Não dá pena, — respondeu Nastya, baixo, mas com muita clareza.
— Ele fez a escolha dele.
E era a pura verdade.
Cada um escolhe por si.
Dmitri escolheu ficar na sombra da mãe, numa escravidão confortável e familiar.
Nastya escolheu proteger seu espaço, sua paz, seu direito de dizer “não”.
Mesmo que esse direito custe caro.
Mais tarde, à noite, ela estava na cozinha, terminando um chá frio, olhando pela janela, onde se acendiam as luzes dos prédios.
Doía?
E como.
Havia ressentimento?
Sim, surdo e insistente.
Mas não havia arrependimento.
Ela aprendeu o mais importante — não ter medo de ficar sozinha.
Não se agarrar com todas as forças ao que te corrói por dentro, ao que te faz duvidar do próprio juízo.
À frente havia vida.
Uma página não planejada, ainda vazia.
E agora só Nastya decidia com que tinta e com que caligrafia iria preenchê-la.
Sem ultimatos, sem pressão, sem olhares aprovadores ou condenatórios de ninguém.
Apenas as decisões dela.
A paz dela, conquistada com sofrimento.







