Zinaida batia com o punho no portãozinho até o cão do vizinho começar a ladrar por toda a viela.
Viktor estava ao lado do camião, abarrotado de caixas, sacos e engradados com mudas, e encarava, abobalhado, a fechadura.

Nova.
Cromada.
Nada a ver com aquela enferrujada que se abria com um pontapé.
— Por que estás aí feito um poste?
Liga para ela imediatamente! — Zinaida virou-se para o irmão, o rosto vermelho, o cabelo saindo debaixo do lenço.
Viktor meteu a mão no bolso, discou.
Chamadas.
Depois: “o assinante está indisponível”.
Tentou outra vez, mas o telefone ficou mudo.
— Não atende.
— Como assim não atende?! — Zinaida virou-se de novo para o portãozinho.
— Marinka!
Abre, eu sei que estás aí!
Chega de te esconderes!
Tirou da bolsa uma chave velha e tentou enfiá-la na fechadura.
Não entrou.
Zinaida ficou imóvel, olhando para a chave e depois para a fechadura.
O rosto foi mudando lentamente de cor.
— Ela trocou a fechadura, — soltou ela, sem ar.
— Sem pedir.
Trocou a fechadura da minha casa.
— Da casa dela, — disse Viktor baixinho, mas Zinaida não ouviu.
Ela já voltava a bater no ferro.
Zinaida entrou nessa casa dez anos atrás “por duas semanas”.
Separou-se do marido e ficou sem teto.
Marina não se opôs — a casa era grande, a casa dos pais, havia espaço para todos.
Só que Zinaida não ficou como hóspede.
Ela se instalou.
Primeiro, arrastou os móveis da cozinha.
Depois, trouxe as próprias panelas e começou a cozinhar com as suas receitas.
Depois, passou a convidar parentes — sobrinhos, primas de segundo grau, vizinhos da antiga casa.
Marina calava.
Ela até desaprendeu a não calar.
Zinaida falava por todos.
Entrava de manhã aos berros, decidia o que plantar, quando pintar a cerca, quem chamar no fim de semana.
Viktor só acenava com a cabeça: “Ela é mais velha, sabe melhor”.
Marina ficava à janela e via Zinaida cavar os canteiros onde cresciam as peónias da mãe.
Por dentro, tudo se apertava, mas as palavras entalavam na garganta.
Ela cortava tomates para o jantar e pensava: quando é que isso vai acabar?
Depois entendeu: quando ela própria parar.
— Tem um carro no quintal!
De outro! — Zinaida colou o rosto na fresta da cerca.
— Viktor, estás a ver?!
Viktor espreitou a contragosto.
Um carro escuro, importado, caro.
— Talvez ela tenha alguém…
— Alguém?!
Sem eu saber?! — Zinaida virou-se.
— Eu vou arrebentar o portão agora!
Esta é a minha casa!
Há dez anos que eu seguro tudo aqui!
— Os documentos estão no nome dela, Zina.
— Quero lá saber dos documentos!
Eu moro aqui!
Eu sou a dona aqui!
Ela gritava tão alto que uma mulher de roupão se debruçou na janela do lado.
Zinaida nem notava.
Batía no portãozinho, puxava a maçaneta, tentava olhar por cima da cerca.
Dez minutos depois, chegou outro carro.
Dele saiu um homem de uns cinquenta anos, de casaco, arrumado.
Aproximou-se do portãozinho e acenou para Zinaida e Viktor.
— Boa tarde.
Estão à procura de alguma coisa?
— Nós moramos aqui! — Zinaida estufou o peito.
— Esta é a nossa casa!
E tu és quem, afinal?
O homem tirou uma pasta do bolso e abriu.
— Eu sou o proprietário.
A casa foi comprada há um mês, está tudo em ordem nos documentos.
Querem ver?
Zinaida arrancou os papéis, amassou-os nas mãos, tentando ler.
Viktor olhou por cima do ombro dela.
O rosto dele ficou cinzento.
— Aqui tem a assinatura da Marina, — murmurou ele.
— E o carimbo.
— Que assinatura?! — Zinaida atirou as folhas contra o peito dele.
— Não pode ser!
Ela teria dito!
Nós estamos registados aqui!
— Vocês não estão registados, — disse o homem com calma.
— Eu verifiquei.
Quem estava registada era apenas Marina Fiódorovna.
Mais ninguém.
— Dez anos! — Zinaida avançou um passo, mas o homem não se mexeu.
— Há dez anos que eu seguro tudo!
A casa, a horta, o trabalho todo!
Sem mim ela não conseguia nada!
— Conseguia vender a casa, — respondeu ele, firme.
— E vendeu.
Por favor, desobstruam a passagem; daqui a meia hora chega a equipa.
— Que equipa?!
— A de obras.
Vamos remodelar.
Ele abriu a fechadura com a sua chave e entrou.
Zinaida tentou passar atrás dele, mas ele barrou-lhe o caminho com a mão.
— Propriedade privada.
Não me obriguem a chamar a polícia.
— Como te atreves?!
Eu é que vou chamar agora!
Eu vou-te mostrar!
— Chame, — o homem fechou o portãozinho.
— E aproveite para explicar por que está a tentar entrar numa casa alheia.
Viktor agarrou a irmã pelo cotovelo e puxou-a para o carro.
Zinaida resistia, mas as pernas já falhavam.
Ela olhou para as janelas onde, durante dez anos, mandara em todos.
As janelas estavam cobertas, estranhas.
Ela desabou bem em cima de um embrulho de edredões no meio da estrada.
A chave ainda estava apertada na mão — ferro inútil.
Marina estava sentada à janela do seu novo apartamento e olhava para o pátio.
Pequeno, silencioso, onde ninguém gritava, não se faziam churrascos, não se arrastavam sacos pela soleira.
Um T1, quarto andar, cozinha minúscula.
Mas era dela.
Só dela.
O telefone estava em cima da mesa, desligado.
Viktor certamente ligava.
Muitas vezes.
Ela não queria ouvir a voz dele — culpada, perdida, como sempre.
Ela levantou-se e foi até à janela.
Em baixo, uma mulher passeava um cão; dois rapazes jogavam à bola.
Vida normal, em que Marina era apenas uma vizinha, e não uma criada de graça.
Ela vendeu a casa em três semanas.
O corretor ficou surpreendido — essas não costumam sair tão rápido.
Mas o comprador apareceu logo.
Marina assinou os papéis, recebeu o dinheiro, comprou este apartamento e desapareceu.
Não se despediu.
Não explicou.
Apenas foi embora.
Zinaida só soube hoje.
Viktor encontrou-a dois dias depois.
Estava à porta do prédio, amassado, com olheiras.
Marina descia para comprar pão e parou nos degraus.
— Marinka, por que fizeste isso? — a voz dele falhou.
— Por que ficaste calada?
A gente teria conversado, decidido alguma coisa…
— Decidido? — Marina desceu mais um degrau.
— Viktor, eu esperei dez anos que tu decidisses pelo menos alguma coisa.
Tu só abrias as mãos e pronto.
— A Zinaida só… ela se acostumou, entendes?
Ela não tinha para onde ir.
— E eu tinha para onde? — Marina deu um passo mais perto, e ele recuou.
— Eu tinha para onde ir dentro da minha própria casa?
Quando ela gritava comigo na frente dos teus amigos?
Quando arrancou as flores da minha mãe e plantou o seu repolho?
Quando levava para lá gente que eu nunca tinha visto na vida?
— Mas era uma casa, — murmurou Viktor.
— Grande, normal.
E agora tu estás onde?
Num T1 na periferia?
Marina olhou para ele por um longo tempo.
Depois disse baixo, mas de um jeito que ele estremeceu:
— Num T1 onde não estás tu nem ela.
Isto é a melhor coisa que me aconteceu em dez anos.
Ela passou por ele e seguiu.
Viktor chamou, mas ela não se virou.
A voz dele se dissolveu na esquina, e Marina sentiu que algo dentro dela se soltava.
Pesado, antigo, entranhado.
Zinaida tentou declarar guerra.
Ligava para conhecidos, contava como Marina era ingrata.
Mas as pessoas ouviam pela metade.
A vizinha, tia Valya, até disse na cara:
— Zinaida, tu reinavas lá como se a casa fosse tua.
O que querias — que ela aguentasse a vida toda?
Zinaida mudou-se para a casa de uma parente distante na periferia, num prédio antigo.
Deixou os edredões em depósito, as mudas murcharam.
Viktor alugava um quarto, trabalhava até tarde.
Às vezes passava de carro pela antiga casa.
Havia obras, e pintaram a cerca de cinzento.
Os canteiros da Zinaida já não existiam.
Marina ficava à janela à noite, com uma caneca na mão, e olhava as luzes das casas vizinhas.
Em baixo alguém ria, tocava música.
A vida seguia, e Marina agora fazia parte dela — sem esconder o rosto, sem suportar, sem esperar que alguém decidisse por ela.
Ela deu um gole, e um calor se espalhou por dentro.
Não da bebida.
Mas do fato de que, pela primeira vez em dez anos, ela podia respirar livremente.
Amanhã ela iria à loja e compraria flores para o parapeito.
Aquelas mesmas, as peónias da mãe.
Só que agora ninguém as vai arrancar.
Ela pousou a caneca na mesa e expirou.
Do lado de fora a cidade zumbia, e por dentro havia silêncio — o dela, conquistado.







