“O melhor presente seria se você não existisse”, disse o marido no Ano-Novo.

De manhã, ele ficou sem dinheiro e sem o negócio.

— Sabe, Vera, qual seria o melhor presente para este Ano-Novo? — Maksim nem olhou na direção dela quando disse isso.

Serviu-se de espumante e recostou-se na cadeira.

— Se você não existisse.

De verdade.

Eu acordaria de manhã — e você não estaria aqui.

De jeito nenhum.

Sumida.

Vera estava ao fogão.

Virava as almôndegas na frigideira.

Uma.

Duas.

Três.

O óleo chiava.

Ela não se virou.

— Você está me ouvindo ou está de novo no seu mundo? — a voz ficou mais alta.

— Estou ouvindo, — disse ela, sem alterar o tom.

— Vai, bebe.

Faltam dez minutos para a meia-noite.

Ele resmungou e se levantou.

Vera ouviu o barulho dos copos na sala.

Ele ligou a televisão no volume máximo.

Ela desligou o fogão.

Enxugou as mãos no pano de prato.

Pegou da mesa a pasta com os documentos, que tinha preparado ainda de manhã.

Subiu para o quarto.

Deitou por cima do cobertor.

As mãos não tremiam.

Lá embaixo, Maksim gritava alguma coisa e ria sozinho.

Quando o relógio bateu doze, Vera fechou os olhos.

Amanhã ele acordaria em outra vida.

Naquela que ela vinha preparando para ele há sete anos.

Tudo começou na garagem.

Seis meses depois daquele acidente na estrada, Vera foi separar as coisas do pai.

Ela não conseguia se obrigar a fazer isso antes.

Maksim a apressava — era preciso liberar o espaço, alugar para alguém, por que deixar parado.

Ele dizia isso todas as noites, enquanto comia, enquanto assistia à televisão.

Dizia sem olhar para ela.

Vera encontrou um caderno perto da bancada.

Surrado, com a capa de couro rachada.

O pai anotava ali todos os documentos que assinava.

Datas, números, valores.

Ela folheava as páginas e os dedos iam ficando frios.

Havia um registro: transferência do negócio para Maksim.

A data — uma semana antes do casamento deles.

E ao lado, numa anotação da letra do pai: “Sem o meu conhecimento. Verificar.”

Vera sentou no chão de concreto.

A garagem estava fria e cheirava a borracha.

Ela ficou sentada por muito tempo.

Depois se levantou, escondeu o caderno sob o casaco e foi para casa.

Maksim a recebeu na porta.

— Você sumiu por três horas.

A janta, pelo visto, eu mesmo vou esquentar?

Ou você acha que eu sou seu empregado?

— Eu esquento agora, — Vera passou por ele e foi para a cozinha.

— E, no mais, chega de revirar essa garagem.

Não tem nada para procurar lá.

Seu pai, que Deus o tenha, era um bom homem, mas a bagunça dele era terrível.

Vera colocou a frigideira no fogão.

Ficou em silêncio.

Maksim ainda ficou um tempo na porta e depois saiu.

Ela ouviu o clique da televisão.

Pegou o caderno e colocou sobre a mesa.

Abriu na página certa.

Leu de novo.

Depois guardou na gaveta mais distante, debaixo dos pacotes de grãos.

O advogado a recebeu uma semana depois.

Mikhail Borisovich ouviu sem interromper.

Anotou.

Quando ela terminou, olhou para ela por cima dos óculos.

— Já se passaram vinte anos.

A senhora entende que isso é quase impossível?

Não bastam erros em papéis.

É preciso falsificação.

Intenção criminosa.

Provas.

— Eu vou encontrar, — Vera apertou as alças da bolsa.

— Isso pode levar anos.

Talvez mais.

Não posso dar garantias.

— Eu tenho tempo.

Ele assentiu.

Parece que entendeu alguma coisa.

Disse o valor do trabalho.

Vera tirou um envelope.

Ele se surpreendeu.

— A senhora não trabalha, certo?

Seu marido dá dinheiro para isso?

— Meu pai me deixou uma aplicação.

Pequena.

Maksim não sabe.

Eu fui sacando aos poucos.

Fui guardando.

Mikhail Borisovich pegou o envelope.

Guardou na gaveta da mesa.

— Muito bem.

Vamos começar pelos arquivos.

Precisamos de uma cópia do estatuto da empresa do seu pai.

O original.

Se Maksim realmente falsificou os documentos, vai haver divergências.

Vera começou a trabalhar como voluntária no arquivo municipal.

Dizia a todos que queria ajudar, ocupar-se com algo útil.

Maksim riu quando ela contou.

— Você?

No arquivo?

Vai lá, se diverte com suas papeladas.

Só que a janta tem que estar pronta às sete.

Eu não toco um negócio para minha mulher ficar passeando por beneficência e depois me alimentar com congelados.

Por dois anos, ela mexeu em caixas empoeiradas.

Encontrava, comparava, memorizava.

Os funcionários do arquivo se acostumaram com ela e pararam de prestar atenção.

Vera trabalhava devagar, com cuidado.

E encontrou.

A cópia do estatuto estava numa pasta de registros de empresas daquele ano.

A assinatura do pai não batia com a que aparecia nos documentos de transferência do negócio para Maksim.

Ela ligou para Mikhail Borisovich diretamente do arquivo.

As mãos tremiam quando ela discou.

— Achei.

As assinaturas são diferentes.

— Venha.

Hoje.

Agora mesmo.

O perito trabalhou uma semana.

Quando Vera foi buscar o laudo, ele apenas estendeu a pasta.

— Falsificação.

Nem muito bem feita.

Vinte anos atrás a perícia era mais simples.

Agora dá para ver de imediato — a pressão é diferente, a inclinação não é a mesma.

Não foi seu pai quem assinou.

Vera pegou a pasta.

Sentou na cadeira perto da janela, porque as pernas cederam.

Mikhail Borisovich serviu água para ela.

— Isso ainda não é tudo, — disse ele.

— Precisamos entender por que seu pai não contestou a transferência.

Por que ficou em silêncio.

Se não encontrarmos uma explicação, o tribunal pode concluir que ele concordou depois.

— Ele não teve tempo, — Vera terminou a água.

— Seis meses depois do casamento aconteceu o acidente.

Os freios falharam.

Mikhail Borisovich olhou para ela com atenção.

— A senhora acha que não foi um acidente?

— Acho que precisamos encontrar quem fez a manutenção do carro.

O mecânico se chamava Grigory Petrovich.

Vera se lembrava dele — ele trabalhou para o pai por uns quinze anos.

Depois do acidente, pediu demissão e desapareceu.

Os vizinhos diziam que ele tinha ido embora para algum lugar.

Vera o procurou por seis meses.

Encontrou numa casa de repouso na periferia.

Ele estava sentado na sala comum, olhando pela janela.

Quando Vera se sentou ao lado, ele nem se virou.

— Eu sou Vera.

Filha de Anatoly Ivanovich.

— Eu sei.

Reconheci na hora.

Eu esperava que você viesse.

— Me conte sobre os freios.

Ele ficou em silêncio por muito tempo.

Depois falou.

Baixo, sem olhar para ela.

Maksim foi até ele um dia antes do acidente.

Pediu para “ajustar” o carro do sogro.

Pagou.

Muito.

Na época a esposa de Grigory Petrovich estava doente.

Não havia dinheiro para o tratamento.

Ele aceitou.

Fez com que os freios falhassem em alta velocidade.

Depois, ficou calado.

Teve medo.

A esposa morreu mesmo assim um ano depois.

E ele continuou vivendo com aquilo.

— Vou escrever tudo.

Assino.

Só me ajude.

Preciso de uma cirurgia.

Sem isso, não chego à primavera.

— Escreva, — Vera tirou um caderno e uma caneta.

— Eu pago tudo.

Ele escreveu devagar.

A mão tremia.

Vera ficou ao lado, olhando pela janela.

Lá fora chovia.

Quando ele terminou, ela pegou as folhas.

Dobrou com cuidado.

— Daqui a dois dias vão ligar da clínica.

A cirurgia está paga.

Ele assentiu.

Sem levantar os olhos.

Vera voltou para casa tarde.

Maksim estava sentado à mesa, diante dele um prato de comida fria.

— Onde você se meteu?

Estou esperando há duas horas.

A comida está fria.

Você entende que eu trabalho o dia inteiro?

Eu preciso de um jantar normal, e não dessas suas caridades.

— Desculpa.

Eu esquento agora.

— Não precisa.

Já perdi a vontade.

Ele se levantou e passou por ela.

Parou na porta e virou.

— Olha, talvez já chega desse arquivo.

Para que isso serve?

Não pagam nada.

A casa está uma bagunça.

Olha para você — está parecendo uma mendiga.

Tenho vergonha de sair com você.

Vera ficou em silêncio.

Ele subiu.

A porta bateu.

Ela se sentou à mesa.

Tirou da bolsa a pasta com a confissão de Grigory Petrovich.

Releu.

Pôs sobre a mesa.

Ficou ali por muito tempo.

Depois se levantou e escondeu a pasta no esconderijo — atrás do armário da cozinha, onde Maksim nunca mexia.

Ela tinha tudo.

O laudo pericial.

A confissão do mecânico.

A cópia do estatuto do arquivo.

O caderno do pai.

Mikhail Borisovich disse que já dava para entrar com a ação.

Mas Vera pediu para esperar.

Até o Ano-Novo.

Ela queria que acontecesse exatamente então.

Queria que Maksim chegasse à festa no auge, satisfeito consigo mesmo.

E acordasse no inferno.

Faltava o último detalhe.

A procuração.

Maksim tinha assinado para Vera doze anos antes, quando ainda existia entre eles algo parecido com uma família.

Ele precisava viajar por um longo período a trabalho e deu a ela o direito de movimentar as contas.

Depois esqueceu.

Vera guardou o documento numa pasta separada.

Na última semana de dezembro, ela transferiu todo o dinheiro disponível para a conta de uma instituição de caridade.

Abriu em nome da filha — assim era mais seguro.

Maksim nunca verificava os aplicativos do banco.

Ele só sacava dinheiro quando precisava e não pensava de onde vinha.

No dia trinta e um de dezembro, Vera acordou cedo.

Arrumou a mesa.

Tudo como sempre — saladas, petiscos, prato quente.

Maksim chegou às nove da noite.

Ele cheirava a tabaco e a perfume de outra pessoa.

Nem fazia questão de esconder.

Sentou-se à mesa e serviu-se.

— Foi um ano bom, — disse para o vazio.

— O lucro aumentou.

Ampliamos os depósitos.

Seu pai, que Deus o tenha, certamente ficaria orgulhoso.

Eu transformei o escritóriozinho dele num império.

Vera cortava queijo.

Em fatias finas.

Certinhas.

— Sabe, Vera, qual seria o melhor presente para este Ano-Novo? — ele levantou o copo e olhou para ela.

Os olhos bêbados, maus.

— Se você não existisse.

De verdade.

Eu acordaria de manhã e você não estaria aqui.

Nem sua voz, nem seu rosto.

Silêncio.

Liberdade.

Ela largou a faca.

Ergueu os olhos.

— Tudo bem.

Que seja assim.

Ele não entendeu.

Sorriu com desdém e se virou para a televisão.

Ligou o show de Ano-Novo.

Vera se levantou da mesa.

Subiu para o quarto.

Deitou na cama.

Lá embaixo, Maksim gargalhava de alguma coisa.

Quando soou a meia-noite, ela não desceu para brindar.

Apenas ficou deitada esperando a manhã.

O telefone tocou às sete e meia.

Vera já estava na cozinha.

Ela ouvia Maksim xingando lá em cima.

Um estrondo.

Passos rápidos.

Ele entrou disparado, telefone na mão.

O rosto cinzento.

— O que você fez?! — ele agarrou o ombro dela e a virou.

— Não me deixam entrar nos depósitos!

Tem oficiais de justiça lá!

O que você aprontou?!

Vera se soltou.

Foi até a janela.

— Eu recuperei o que é meu.

Pela lei.

— Que seu?!

Eu administro esse negócio há vinte anos!

Eu levantei isso!

Seu pai me deu tudo!

— Não deu.

Você falsificou a assinatura dele.

Há uma perícia.

Maksim ficou imóvel.

Empalideceu.

— Você… está delirando.

Que perícia?

Isso foi há vinte anos!

Vera tirou do bolso do roupão uma folha dobrada.

Entregou a ele.

Ele pegou, abriu.

Leu.

As mãos tremiam.

— Isso… isso é uma armação.

Você fez de propósito…

— Armação foi quando você sabotou os freios do meu pai, — Vera falou baixo, com calma.

— Grigory Petrovich está vivo.

Ele contou tudo.

Escreveu.

Assinou.

A promotoria já abriu um processo.

Maksim desabou na cadeira.

A folha caiu das mãos dele.

— Você não entende o que fez.

É o fim.

Para você também.

Onde você vai morar?

Com que dinheiro?

— Com o dinheiro do meu pai.

O dinheiro que você passou vinte anos achando que era seu.

As contas estão bloqueadas.

Os depósitos estão sob arresto.

A casa também terá de ser dividida — foi comprada com o dinheiro do meu pai.

Até o almoço, todos os canais locais estarão falando de como você matou seu sogro pelo negócio.

Ele ergueu os olhos para ela.

Pela primeira vez em muitos anos, ela viu medo neles.

— Vera.

Espera.

A gente pode fazer um acordo.

Eu te devolvo metade.

Mais da metade.

Só para isso parar.

A promotoria, as investigações.

Eu pago.

Quanto você quiser.

— Com o quê você vai pagar? — Vera chegou mais perto.

— Você não tem mais nada.

Até a procuração que você assinou para mim doze anos atrás eu usei.

Todo o dinheiro foi transferido.

Você acordou no mundo com o qual sonhou ontem.

Aquele em que eu não existo.

Só que quem desapareceu não fui eu.

Quem desapareceu foi você.

Vera pegou as chaves do carro sobre a mesa.

Vestiu o casaco.

Maksim ficou imóvel.

Olhando para o chão.

Vera saiu pela porta.

Virou-se.

— Feliz Ano-Novo, Maksim.

Fechou a porta.

Ligou o carro.

Saiu pelas ruas vazias.

A cidade acordava devagar, sem vontade.

Os garis varriam confetes coloridos.

Em algum lugar tocava música — alguém ainda comemorava.

Vera parou na beira do rio.

Desceu.

Ficou de pé junto ao gradil.

O rio estava escuro, frio.

O vento mexia no cabelo dela.

Ela pegou o telefone.

Escreveu para a filha: “Feliz Ano-Novo. Hoje nos vemos. Vou te contar tudo.”

O telefone vibrou.

Mikhail Borisovich: “Tudo em andamento. Você foi ótima. Aguente firme.”

Vera guardou o telefone.

Ficou mais um pouco.

Depois voltou ao carro.

Sentou.

Olhou no retrovisor.

Viu o próprio rosto — cansado, envelhecido, mas, pela primeira vez em muitos anos, vivo.

Ligou o motor.

Foi embora.

Não sabia para onde.

E essa era a melhor sensação dos últimos vinte anos — não saber para onde está indo.

Apenas ir.